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Hong Kong e China. Como ser David numa batalha perdida contra Golias? /premium

Em Hong Kong, as ruas enchem-se de manifestantes há dois meses. Bastou uma faísca para que milhões se juntassem contra o domínio da China. Mas Pequim já avisou: "Quem brinca com fogo queima-se".

Se as ruas de Hong Kong se encheram, nos últimos meses, de pessoas que pedem mais e melhor democracia — resistindo às granadas lacrimogéneas lançadas pela polícia e também aos bastões da máfia chinesa, captando a atenção do mundo e a preocupação de Pequim —, é, em parte, por causa de um crime passional e violento.

Em fevereiro deste 2018, Chang Tong-kai, 21 anos, viajou com a namorada, Poon Hiu-wing, de 20 anos, para o Taiwan. Ambos cidadãos de Hong Kong, viajaram até àquela ilha para uma viagem romântica a dois. Havia um motivo para festejarem: Poon Hiu-wing estava grávida. Porém, após uma discussão enquanto faziam as malas, pouco antes de regressarem a Hong Kong, a 17 de fevereiro, Poon Hiu-wing contou a Chang Tong-kai que aquele filho, afinal, não era dele. O pai da criança era o ex-namorado.

Depois da confisão, Chang Tong-kai atirou a namorada contra a parede — fazendo com que batesse com a cabeça — e estrangulou-a com as duas mãos. Dez minutos depois, Poon Hiu-wing estava morta. Chang Tong-kai contou que, depois disto, pôs o corpo da namorada numa das malas de viagem e deitou-se. Na manhã seguinte, pegou na mala, foi de transportes públicos para os arredores de Taipé e deixou a mala com o cadáver da mulher grávida num arbusto — não sem antes lhe tirar o telemóvel e a carteira, com todos os seus cartões de crédito.

Depois de um macabro homicídio em contexto de violência doméstica, o governo de Hong Kong quis criar uma lei que permitisse extraditar os seus cidadãos para países em todo o mundo, analisando caso a caso. Para muitos, esta medida só apontava numa direção: extraditar para a China os ativistas e dissidentes que procuram refúgio em Hong Kong.

Nas horas seguintes, Chang Tong-kai usou o cartão de crédito da namorada para levantar uma quantia correspondente a quase 600 euros e foi às compras. Mais tarde, já quase à meia-noite, apanhou um voo para Hong Kong. Ali chegado, voltou a levantar dinheiro — mais de 2220 euros — com o cartão da namorada, desta vez para saldar um crédito bancário.

Perante o desaparecimento da sua filha, o pai de Poon Hiu-wing deu conta do desaparecimento à polícia de Hong Kong e, a a partir daí, as peças foram-se juntando: o vídeo do casal a fazer o check-in junto, mas apenas Chang Tong-kai a fazer o check-out; e as imagens de vigilância que mostram o longo percurso do homem de 21 anos até aos arredores de Taipé para se livrar da mala que escondia a mulher assassinada. Em Hong Kong, Chang Tong-kai foi interrogado e pouco demorou a confessar o homicídio.

Porém, a partir daí, seguiu-se um emaranhado jurídico. Em tribunal, Chang Tong-kai foi condenado a uma pena de 29 meses por lavagem de dinheiro em Hong Kong — por ter roubado dinheiro da conta de Poon Hiu-wing — , mas o julgamento pelo homicídio ocorrido em Taiwan seria mais complicado. Primeiro, porque Hong Kong faz parte da China e, nesse sentido, não reconhece o governo do Taiwan, que, ainda assim, enviou três pedidos de extradição do confesso homicida. Depois, porque Hong Kong não tem um acordo de extradição com o Taiwan — nem com a China.

A lei da extradição foi o motivo inicial das atuais manifestações, mas os protestos continuaram mesmo depois de esta ter sido suspensa (Anthony Kwan/Getty Images)

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Foi nesta altura que o governo de Hong Kong, liderado por Carrie Lam, se pôs a trabalhar e desenhou uma proposta de lei que permitiria a extradição, desde que analisada caso a caso, para países e territórios com os quais Hong Kong não tem acordos desse tipo — fosse Taiwan ou, importante para o caso, a China continental.

Se os mais crédulos — e, certamente, a família de Poon Hiu-wing — viam aí uma possibilidade de extraditar Chang Tong-kai para o Taiwan, os mais céticos viam muito mais do que isso — a possibilidade, até agora inexistente, de extraditar de Hong Kong para a China continental todas as pessoas que Pequim pedisse: criminosos, sim, mas também ativistas e dissidentes políticos, defensores dos Direitos Humanos, líderes e praticantes religiosos e um sem-fim de pessoas na lista dos perseguidos pelo regime de Xi Jinping.

Foi aí que as ruas se começaram a encher. Em abril, quando a lei começou a ganhar forma, 130 mil pessoas saíram à rua. Mas foi em junho, quando a votação da lei no parlamento de Hong Kong estava por perto, que tudo começou a crescer exponencialmente. A 12 de junho, uma multidão estimada num milhão de pessoas saiu à rua, com a manifestação a descambar em confrontos com a polícia, que respondeu com gás lacrimogéneo, balas de borracha e outros projéteis não letais. Além de mais de 80 feridos, houve várias detenções. Alguns dos detidos foram algemados nos hospitais onde procuraram tratamentos aos ferimentos causados pela polícia.

Os manifestantes pedem a demissão de Carrie Lam, primeira-ministra de Hong Kong, que só suspendeu — e não retirou — a aprovação da lei da extradição (Getty Images)

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Perante a pressão, Carrie Lam sucumbiu — mas apenas em parte. Depois de ter dito que ceder às exigências dos manifestantes seria o mesmo que “fazer a vontade a crianças mimadas”, a líder do governo de Hong Kong decidiu suspender a discussão e aprovação da lei de extradição, a 15 de junho. Seria de esperar que as ruas se esvaziassem, mas, rapidamente, os manifestantes e ativistas de Hong Kong, habituados a ler as letras pequenas e também as omissões dos seus líderes, fizeram notar que nunca Carrie Lam disse que o projeto-lei tinha sido retirado. E, com isso, voltaram às ruas e a dobrar, juntando 2 milhões de pessoas nas ruas de Hong Kong, que tem uma população de pouco mais de 7 milhões.

Desde então, as manifestações cresceram em dimensão, com pessoas a saírem às ruas a cada dia, com os maiores picos de afluência nos fins-de-semana. “Todos os dias, há duas fases nas manifestações”, explica ao Observador Antony Dapiran, consultor financeiro e também escritor, que assinou o livro “City of Protest: A Recent History of Dissent in Hong Kong” (sem edição portuguesa, traduzível para “Cidade de Protesto: Uma História Recente da Dissidência em Hong Kong”).

“Há a fase do dia e há a fase da noite. Durante o dia, a demografia dos manifestantes é muito variada: há várias idades, incluindo idosos e famílias com crianças, o que indica um apoio bastante amplo da classe média. Depois, à medida que a noite começa, muitas dessas famílias vão para casa e quem fica lá são os jovens, que entram em confrontos com a polícia”, assinala Antony Dapiran.

Por maiores que sejam as diferenças nos turnos que compõem essas manifestações, há, porém, uma realidade que é inerente às duas: a lei da extradição já deixou de ser tema, já ninguém se dá ao trabalho de fazer cartazes a pedir o seu fim, nem as palavras de ordem contemplam aquela lei que nunca chegou a sê-lo. Desde então, passaram a ouvir-se outras palavras de ordem. Há quem cante algumas das estrofes do musical “Os Miseráveis”, inspirado na obra de Victor Hugo: “Conseguem ouvir o povo a cantar?”. E, menos líricos, mas, ainda assim, pouco concretos, há muitos que pedem vezes sem conta: “Liberdade para Hong Kong”. E é aí que tudo fica verdadeiramente complicado.

Prazo de validade: 2047

A singularidade de Hong Kong começou a traçar-se de forma indelével em 1842. À altura, aquela cidade pertencia à China, então sob a liderança da Dinastia Qing. Porém, como resultado da Primeira Guerra do Ópio, que os britânicos derrotaram os chineses, Hong Kong foi cedida àquela potência europeia como moeda de troca pelo fim da guerra. No final do século XIX, em 1898, o Reino Unido conseguiu alargar o domínio naquela região, conseguindo um aumento do seu território mediante uma transferência de soberania de 99 anos.

Desde então, sob o domínio britânico, Hong Kong tornou-se num importante centro de comércio, uma espécie de entroposto entre o Ocidente e o continente asiático. Esse estatuto valeu-lhe particular importância na segunda metade do século XX, à medida que a industrialização daquela parte do mundo avançava — e, em particular, a chinesa, na era de Deng Xiaoping, iniciada a 1979. Com o prazo da transferência de soberania a terminar, a China e o Reino Unido sentaram-se à mesa para discutir o futuro de Hong Kong.

Em 1984, Deng Xiaoping assinou com a então primeira-ministra Margaret Thatcher um acordo que faria de Hong Kong uma Região Administrativa Especial, segundo o qual faria parte da China, mas com um grau de autonomia que lhe permitiria manter todas as suas estruturas financeiras, sistema capitalista, código jurídico, tal como liberdade de expressão, imprensa, religiosa e reunião.

O Reino Unido e a China acordaram a cedência de Hong Kong para aquele país chinês em 1984, mediante o cumprimento da Lei Básica (Post Staff Photographer/South China Morning Post via Getty Images)

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A aplicação do acordo estava prevista para 1997, precisamente no fim da transferência de soberania de 99 anos. E estaria em vigor durante 50 anos — isto é, até 2047. O acordo, conhecido como a Lei Básica de Hong Kong, que funciona como uma espécie de Constituição para aquele território, foi resumido de forma célebre e hábil por Deng Xiaoping, com a expressão “um país, dois sistemas”.

Foi esse sistema que permitiu a Hong Kong viver até hoje como um território ímpar na China — quase livre, quase independente, quase democrático. Porém, para muitos que são de outras partes da China, as inconveniências de cada um destes “quase” são pouco relevantes, mais que não seja por comparação com o tão pouco ou mesmo nada que sobra de liberdade, independência e democracia no resto do país.

O artista e cartunista Badiucao é uma dessas pessoas. “Hong Kong é uma cidade muito especial para mim, a minha arte e a minha vida estão intrinsecamente ligadas ao destino daquela cidade”, diz aquele dissidente, nascido em Xangai e exilado na Austrália, numa conversa por telefone com o Observador. “Quando se vê que, numa cidade de 7 milhões de pessoas, há 2 milhões que estão nas ruas, isso é extraordinário. Não só à escala da China, é extraordinário à escala mundial, é extraordinário na História da Humanidade. Com essa motivação, as pessoas em Hong Kong acreditam que conseguem o impossível”, diz. Por impossível, entenda-se: “Derrotar um governo como Pequim e manter a democracia e liberdade de Hong Kong, fazendo daquela cidade um farol para toda a China”.

"Quando se vê que, numa cidade de 7 milhões de pessoas, há 2 milhões que estão nas ruas, isso é extraordinário. Não só à escala da China, é extraordinário à escala mundial, é extraordinário na História da Humanidade. Com essa motivação, as pessoas em Hong Kong acreditam que conseguem o impossível.”
Badiucao, cartunista e dissidente chinês

Para Badiucao, que vive na Austrália há 10 anos, tendo para isso obtido nacionalidade australiana e abdicado da chinesa, seria impossível expor o seu trabalho em qualquer cidade chinesa que não Hong Kong. E foi precisamente isso que o artista procurou fazer em dezembro de 2018, numa exposição organizada por ele e também pela ONG Amnistia Internacional e Repórteres Sem Fronteiras, além do jornal independente Hong Kong Free Press. No entanto, três dias antes da exposição, um familiar de Badiucao foi abordado por um desconhecido na rua, que lhe disse: “Se a exposição não for cancelada, vamos deixar de ser simpáticos convosco”.

A ameaça foi levada a sério — e Badiucao ficou em silêncio. Todos os desenhos que fazia guardava para si, nada do que escrevia era publicado. Nesse período de silêncio, Badiucao recebeu várias mensagens de fãs em Hong Kong. “Queriam saber se estava em segurança, queriam saber o que é que tinha acontecido. Eu nunca respondi, mas sentia todo o amor que enviavam. Isso torna a minha ligação a Hong Kong ainda mais forte”, recorda. Porém, não respondeu a nenhum deles. “Fi-lo pela minha segurança e da minha família”, conta. Se Badiucao sempre soube que Xangai não era segura, acabara de aprender que talvez Hong Kong também não o fosse.

[Trailer do documentário “China’s Artful Dissent”, de Badiucao]

Duas décadas após a passagem de Hong Kong do domínio britânico para a China, são vários os cidadãos de Hong Kong que se confrontam com a mesma realidade em que Badiucao esbarrou no final de 2018 — mesmo que, no papel, o discurso pareça remeter a China e Hong Kong para 1997 e para a garantia de “um país, dois sistemas.” Essa é ainda uma expressão repetida pelas mais altas esferas da política chinesa. Em 2017, depois de dar posse a Carrie Lam como primeira-ministra de Hong Kong, o Presidente da China, Xi Jinping, voltou a defender o princípio de “um país, dois sistemas” e deixou um aviso claro aos que atentarem contra ele.

“Qualquer tentativa de colocar em perigo a soberania e a segurança da China, qualquer desafio ao poder do governo central e à autoridade da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Hong Kong ou qualquer uso de Hong Kong como veículo de atividades de infiltração e sabotagem contra [a China continental] é um ato que ultrapassa uma linha vermelha e é absolutamente impossível de permitir”, sublinhou o ditador chinês. E, logo a seguir, procurou deixar claro que é tão importante a parte que fala de “um país” como a que garante os “dois sistemas.

“Na base de ‘um país’, os ‘dois sistemas’ devem — e têm todas as razões para — ficar em harmonia e reforçarem-se um ao outro. Temos tanto de aderir ao princípio de ‘um país” como temos de respeitar as diferenças dos ‘dois sistemas’”, garantiu.

“Qualquer tentativa de colocar em perigo a soberania e a segurança da China, qualquer desafio ao poder do governo central e à autoridade da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Hong Kong ou qualquer uso de Hong Kong como veículo de atividades de infiltração e sabotagem contra [a China continental] é um ato que ultrapassa uma linha vermelha e é absolutamente impossível de permitir."
Xi Jinping, Presidente da China

Porém, além da exposição de Badiucao, há vários exemplos que sugerem que, nos últimos anos, Pequim tem procurado garantir a parte de “um país” ao mesmo tempo que vai descartando lentamente os “dois sistemas”.

Desde as manifestações de 2014 — convocadas pelo que foi conhecido como o Movimento dos Guarda-Chuvas, que exigia um sufrágio universal para eleger o primeiro-ministro de Hong Kong, algo que a Lei Básica estipula como sendo o “derradeiro objetivo”, mas que nunca foi cumprido em toda a linha — que a democracia e os Direitos Humanos em Hong Kong iniciaram uma curva descendente.

A partir daí, os casos multiplicaram-se. Em 2016, seis recém-eleitos deputados para o Conselho Legislativo de Hong Kong modificaram o texto do juramento na sua tomada de posse, o que levou Pequim a um processo jurídico para reinterpretar a Lei Básica de Hong Kong e, no final de contas, banir aqueles parlamentares. Com essa nova interpretação ditada pelos tribunais, passou a ser proibido aos partidos políticos defender a independência de Hong Kong ou insultar o hino nacional. Também a liberdade de imprensa foi beliscada quando o jornalista do Financial Times em Hong Kong, Victor Mallet, viu ser-lhe negada a renovação do visto de correspondente, após ter moderado um painel no Foreign Correspondents’ Club com Andy Chan, político pró-independência de Hong Kong. A par de tudo isto, mesmo na ausência de uma lei de extradição com Pequim, são conhecidos vários casos de pessoas que foram raptadas de Hong Kong para serem levadas para a China continental. Entre estes está um grupo de cinco livreiros que vendia obras satíricas contra o regime chinês.

Em 2017, Xi Jinping alertou para as "linhas vermelhas" que não podem ser cruzadas quanto à continuidade de Hong Kong na China (Lintao Zhang/Getty Images)

Lintao Zhang/Getty Images

“A lei da extradição esteve no início destas manifestações, mas sabemos agora que não foi mais do que uma faísca”, diz ao Observador Ho-Fung Hung, professor na Johns Hopkins University, em Washington D.C., e especialista no estudo das relações entre a China e Hong Kong, onde nasceu e cresceu. A situação descrita por este académico é a de um barril de pólvora à mercê de uma pequena centelha que, por menor que seja, possa provocar uma enorme explosão.

Embora não seja claro o que vai e pode acontecer em 2047 — em teoria, todos os cenários estão abertos, de uma maior autonomia à equiparação às restantes regiões chinesas, passando por uma simples manutenção do statu quo —, o crescimento da China de Xi Jinping sobre aquela cidade de 7 milhões criou aquilo que Antony Dapiran descreve como uma “ansiedade em relação a 2047”.

“Existe toda uma ansiedade em torno de 2047, que surge quando se pensa nos tempos que se seguem”, diz Antony Dapiran.

Além de ansiedade, é também desconfiança e insatisfação que as sondagens refletem. Segundo os números mais recentes, 71,7% dos cidadãos de Hong Kong estão insatisfeitos com o próprio governo; 81% avalia como “negativa” a atual situação política. Em relação a Pequim e ao regime, há uma maioria de 51,1% que faz uma avaliação “negativa” ou “muito negativa” e outros 55,3% que dizem não ter confiança no lema de “um país, dois sistemas”.

Embora as sondagens não o demonstrem, a observação empírica torna claro que é entre os jovens que o descontentamento é maior em relação não só ao governo de Hong Kong como, sobretudo, à aproximação de Pequim.

“As gerações mais jovens de Hong Kong não veem nenhum futuro, seja económico ou político. 2047 está a chegar e eles vão ser afetados pelo que viver a seguir, seja lá o que for. Por isso é que querem sufrágio universal, mas não veem futuro nenhum em que isso venha a acontecer."
Ho-Fung Hung, professor na Johns Hopkins University e especialista nas relações entre Hong Kong e China

“As gerações mais jovens de Hong Kong não veem nenhum futuro, seja económico ou político. 2047 está a chegar e eles vão ser afetados pelo que viver a seguir, seja lá o que for. Por isso é que querem sufrágio universal, mas não veem futuro nenhum em que isso venha a acontecer”, diz Ho-Fung Hung. “Os jovens de hoje olham para os pais deles, que viveram durante o domínio britânico, e pensam que eles tiveram mais oportunidades e esperança. Os jovens sentem-se muito frustrados.”

Uma das maiores dores de cabeça para os jovens de Hong Kong está na habitação. Apesar de os salários médios em Hong Kong serem altos quando comparados com o resto do mundo — 2196 para os homens e 1690 para as mulheres —, a média das rendas no centro de Hong Kong está pelos 1903 euros mensais. Se alugar casa é difícil, comprar uma é impensável para a maioria das pessoas, já que, em média, elas custam 1,12 milhões de euros. Como consequência, aos jovens que pretendam sair de casa restam pequenos quartos ou apartamentos, aos quais se convencionou chamar de “jaulas” ou “caixões”.

Adrian Law, analista financeiro de 25 anos, arruma a cama na seu pequeno apartamento em Hong Kong, pelo qual pagou perto de 700 mil euros (ANTHONY WALLACE/AFP/Getty Images)

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Também nesta questão são muitos os que apontam o dedo a Pequim e à China continental — e à sua relação com o governo de Hong Kong. “O governo sabe que a habitação é um problema enorme, mas não faz nada. Isto tem a ver com os multimilionários chineses que investem em Hong Kong e compram terrenos e propriedades a preços especulativos. Enquanto assiste a isto, o governo de Hong Kong não tem capacidades para construir mais habitação social e descer o custo da habitação, porque o governo está sequestrado pelos gigantes do imobiliário”, diz Ho-Fung Hung.

Para Antony Dapiran, questões como a habitação fazem parte do descontentamento entre os mais jovens, mas, ainda assim, aponta que não são as únicas. “O maior motivo é certamente aquele que já era o do Movimento dos Guarda-Chuvas, que é a exigência por um sufrágio universal para eleger o governo de Hong Kong”, diz. Além disso, outras das exigências dos manifestantes tem sido a demissão de Carrie Lam, tal como a nomeação de uma comissão independente de inquérito para investigar a resposta das autoridades às manifestações, inclusive aos relatos de estes terem agido em conivência com um grupo das tríades, as máfias chinesas, contra um grupo de manifestantes no metro de Yuen Long.

“O problema é que talvez nada os deixe satisfeitos”, acrescenta o escritor e analista financeiro.

Até onde está a China disposta a apertar Hong Kong?

Em 2017, Xi Jinping alertava para as consequência de ultrapassassem uma “linha vermelha” na manutenção do statu quo entre Hong Kong e a China. Em 2019, à medida que as ruas se vão enchendo não só de jovens e estudantes como também da classe média, além dos funcionários públicos — que, ao fazerem-no, estão a desafiar ordens centrais para não fazerem greve e participarem em manifestações —, não é ainda claro o que Pequim está disposto a fazer.

Para já, o que sobra de Pequim é uma retórica inflamada e algumas movimentações — ou relatos.

Numa conferência de imprensa a propósito das negociações entre a China e os EUA na guerra comercial travada entre os dois países, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Hua Chunying, acusou os EUA de estarem, de alguma forma, envolvidos nas manifestações. “Vimos algumas caras americanas nas manifestações violentas em Hong Kong, até vimos a bandeira dos EUA nalgumas ocasiões”, disse aquela porta-voz, sublinhando mais à frente que “o governo chinês nunca vai permitir que forças estrangeiras ponham as mãos nos assuntos de Hong Kong” e deixando um derradeiro recado: “Quem brinca com fogo queima-se”.

"O governo chinês nunca vai permitir que forças estrangeiras ponham as mãos nos assuntos de Hong Kong”
Hua Chunying, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China

Da parte de Donald Trump, Hong Kong e as manifestações que ali ocorrem não parecem ser de todo uma prioridade, muito menos uma ficha a meter na mesa de negociações. Classificando as manifestações em Hong Kong como “motins”, o Presidente dos EUA disse apenas que “Hong Kong é parte da China, [por isso] eles terão tratar do assunto entre eles”.

“É incrível ver a atitude do mundo em relação à China”, diz Badiucao. “Trump não quer saber de democracia e liberdade na China e em Hong Kong para nada, só quer é saber dos seus interesses comerciais e económicos. O Reino Unido ainda disse algumas coisas, mas foram palavras vazias, só vejo os lábios a mexer, não há ações.”

A consciência política de Badiucao despertou quando, enquanto estudante na Austrália, viu um documentário sobre o massacre de Tiananmen, em 1989. Hoje, teme que, em Hong Kong, venha a repetir-se um cenário daqueles. “Tiananmen pode acontecer em Hong Kong, até porque o governo chinês de hoje não é assim tão diferente do governo chinês de então. Por isso, é preciso ter os olhos em cima do exército e ver o que é que eles fazem”, diz.

Nos últimos dias, à medida que os protestos em Hong Kong se prolongam, têm surgido relatos de movimentações da polícia da China, tal como rumores de que o Exército Popular de Libertação, o nome oficial das forças armadas chinesas, está a preparar a possibilidade de ter de agir em Hong Kong.

Os manifestantes chegaram a invadir a sede do Conselho Legislativo de Hong Kong, que deixaram vandalizado. "Hong Kong não é China", escreveram a spray (AFP/Getty Images)

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“A ideia de manter a soberania e a unidade territorial da China é a segunda prioridade do Partido Comunista da China. Acima disso, só resta a prioridade número um, que é manter o Partido Comunista da China no poder”, sublinha Antony Dapiran.

De acordo com o South China Morning Post, jornal sediado em Hong Kong, Pequim está a preparar o destacamento de 190 mil polícias para 1 de outubro deste ano, data em que se assinala o 70.º aniversário da fundação da China comunista. Além disso, aponta o mesmo jornal, o exército tem feito treino específico para situações de contra-terrorismo. Ambas as movimentações aconteceram na província de Guangdong, que é precisamente a única que faz fronteira com Hong Kong.

Para já, poucos apontam para a possibilidade de uma entrada do exército em Hong Kong, apontando para as consequências catastróficas que isso poderia trazer. Ali, as perdas seriam não só em vidas, mas também no aspeto financeiro. Embora a tendência seja para a economia de Hong Kong representar cada vez menos no total do PIB da China (em 1997, essa fatia era de 18%; em 2017, era de apenas 3%), a verdade é que é por ali que ainda entra grande parte do investimento estrangeiro na China — 54%, de acordo com números de 2018. Se o primeiro indicador pode sugerir que os manifestantes de Hong Kong travam uma batalha perdida, o segundo já pode indicar que, afinal, este pode vir a ser um caso de David contra Golias.

Segundo Ho-Fung Hung, o regime chinês parece estar mais envolvido numa estratégia de longo prazo do que numa solução brusca e imediata para a instabilidade de Hong Kong. “Em Pequim, eles são muito bons a jogar a longo prazo”, sublinha. Mas logo contrapõe que, do outro lado, os manifestantes em Hong Kong também já aprenderam a pensar dessa maneira. “Quando foi o Movimento dos Guarda-Chuvas, que acabou por desaparecer quando houve gente a ir presa, fiquei com a ideia de que tinha tudo chegado a um fim”, recorda o académico de Hong Kong. “Nessa altura, eu disse: ‘Acabou a sociedade civil em Hong Kong’. Mas estava enganado. Eles voltaram e, agora, já estão a olhar para isto como aquilo que é: um jogo de longa duração.”

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