Havia um cheiro a sopa de heroína e lixo queimado na América de 1975. Gente morrera em Altamont, o país ainda não começara a olhar para a ferida aberta pelo Vietname e já o caso Watergate explodira. O Verão do Amor acabara e o rock de estádio não agradava às gentes das ruas, os junkies, os alienados, os desalinhados – nos lugares mais esconsos, onde as pessoas decentes nunca entrariam, uma faísca começou a chisparem Nova Iorque: no CBGB, no Max’s Kansas City, a cena alternativa juntava poetas e figurantes de cinema underground, ex-artistas de rua e alguns santos fugidos do seminário.
Os Velvet Underground tinham estabelecido a matriz: cantar as ruas e a vida das putas, das drag-queens, dos desesperados, daqueles que não encontravam lugar no país das oportunidades, daqueles que do sonho americano só conheciam o pesadelo, adormecido pela droga. Depois veio a nova vaga: os Ramones com os seus três acordes a inventar o punk, os Television unindo punk e jazz, transformando arame farpado em poesia, os New York Dolls vestidos de mulher, para chocar os pais, não apenas os seus próprios pais, mas todos os pais, todos os homens respeitáveis, toda a ideia de respeitabilidade.
E do nada há um foco que ilumina uma rapariga magra, que entra pela porta dos fundos, incógnita, e que em 1975, com o lançamento do seu disco de estreia, Horses, que faz agora 50 anos, se tornaria na rainha do rock, cargo que ainda ocupa: palmas então para Patti Smith, miúda de New Jersey com bibliotecas inteiras na cabeça e uma língua afiada como uma baioneta.
▲ A capa de "Horses", primeiro álbum de Patti Smith, editado a 10 de novembro de 1975. A foto, histórica, é de Robert Mapplethorpe
Arista Records
Fiquem com esta lei da física: as estrelas não nascem estrelas, quando nascem, as estrelas nem sequer gostam do que veem – e é por isso que tentam ser outra coisa e nesse movimento arrastam tradições musicais, reescrevem-nas à medida das suas necessidade e quando por um acaso do cosmos o mundo descobre esse ser em transição para ser outra coisa e se identifica com o novo ser, então aí sim, nasce uma estrela.
Se retirarmos a mitologia da biografia de Patti Lee Smith, nascida em Chicago, a 30 de dezembro de 1946, encontramos uma rapariga pequena e magrinha, que cresceu entre as fábricas e sempre se sentiu à margem: da sociedade, do comportamento que era esperado de uma mulher. Tinha como melhor amigo um caderno em que rabiscava a sua poesia influenciada por Rimbaud e um dia, em 1967, tomou uma decisão: apanhar o comboio para Nova Iorque, apesar de só ter meia dúzia de dólares no bolso, e dedicar-se à sua obsessão: a poesia.
Patti sobreviveu como pôde, enquanto vivia em quartos alugados com mofo nas paredes, ou dormia em sofás emprestados, ou no Chelsea Hotel quando calhava. Passeava pelas livrarias (Scribner’s, depois The Strand), tinha os seus pequenos biscates e vagueava pelas ruas até encontrar o seu primeiro grande cúmplice, Robert Mapplethorpe, futuro grande fotógrafo subversivo.
Com Mapplethorpe, ela partilha os seus ideais estéticos, mas também a fome, o desespero e uma intensa vontade de viver e experimentar. Quando descobre a cena do East Village, é uma dizedora de poesia de intensidade desconcertante — a música ainda não era o primeiro plano, mas Lenny Kaye (que fazia música e escrevia sobre a mesma arte) resolveu acrescentar guitarra à poesia, e passo a passo Patti entende que o seu caminho é outro: não o de ser poeta, mas o de compor canções.
A transformação de Patti, de rapariga tímida que escrevia poesia às escondidas, em cantora sem freios, capaz de levar qualquer público ao êxtase, não foi um caminho sem espinhos — foi preciso passar muita noite nos CBGBs deste mundo, a suar em pinha, até dominar a arte do caos.
Patti Smith, Soundwalk Collective e um palco para o som alucinante da poesia
Não que não tenha tido ajuda: John Cale, esse dos Velvet (ou que havia sido corrido dos Velvet), deu estrutura às canções de Patti, disciplinou o caos da banda – e foi assim que nasceu Horses. (Detalhe biográfico: uns anos depois, em digressões que a levam a Detroit, Patti conheceu Fred “Sonic” Smith, dos MC5, e as afinidades eletivas entre dois crentes do rock levaram-nos ao casamento, do qual resultaram dois filhos, o que a levou, por uns tempos, a trocar os palcos por uma vida doméstica — prova final de que o mito também lava pratos antes de voltar a incendiar a sala.)
[“Gloria”, a canção que abre “Horses”, original de Van Morrison, interpretada ao vivo na Bélgica, em 1976:]
Patti chegou como quem invade um púlpito profano — não era suposto uma mulher cantar assim, comportar-se assim. Não era suposto uma mulher enfiar Rimbaud e Ginsberg nas suas canções, recusar-se a imitar Dylan ou os Stones ou Van Morrison e reescrever o rock à sua imagem, exsudar a mesma energia crua dos Stooges.
O seu passado nas leituras da spoken-word dera-lhe a consciência do peso de cada palavra, as performances com Lenny Kaye fizeram-na aprender o poder da eletricidade e de como entregar uma ideia. A fotografia de capa de Horses pode até parecer-nos, hoje, convencional, mas naquela era não era suposto que um desconhecido como Robert Mapplethorpe cristalizasse como ícone um corpo andrógino, de gravata a pender e olhar de quem não hesitaria em puxar de uma navalha. Não, Patti não uma pin-up, não era uma diva; era a personificação da autoridade.
Horses (um clássico instantâneo) foi menos um álbum do que um manifesto de possibilidades. O disco abre com Gloria (de Van Morrison) e o mote blasfemo “Jesus died for somebody’s sins but not mine” — logo aí vai à vida todo o catecismo do rock masculino: o corpo e a culpa já não pertencem ao clube dos rapazes. Redondo Beach veste-se de luto numa brisa reggae, Birdland ergue um delírio místico que cresce em ondas, Free Money transforma o desespero de carteira vazia numa corrida em direção ao céu. O épico Land é o momento de iluminação: do delírio adolescente às visões do abismo, Patti improvisa como quem exorciza. E Elegie, a fechar, recorda os mortos recentes (Hendrix à cabeça) como se a História coubesse num suspiro.
▲ Patti Smith ao vivo no Palladium, em Londres, a 12 de outubro deste ano, concerto integrado na digressão que celebra os 50 anos de "Horses"
Getty Images
Patti usou tudo o que estava à mão de semear, colando poesia beat, gospel profano, rock garage dos anos 60, feedback, rock clássico, experimentação. O resultado não é bem música, antes um sopro vital, arrasador, imparável, que respira e avança e recusa a pose petrificada do virtuosismo. Aqui o erro é graça; a fenda não é um problema da parede, é por onde entra a luz.
Naquele ecossistema nova-iorquino, Horses funcionou como bíblia portátil. Mostrou que a canção podia abrigar literatura sem se tornar tese, que o riff podia suportar um sermão elétrico sem ser reverente. Foi o mapa que guiou o punk do bairro pútrido para a grandiloquência, sem nunca esquecer o lixo das ruas. O punk podia ser inteligência, o gesto radical não precisava de amputar a imaginação. Com Horses, a vulnerabilidade e a fúria podiam coabitar e fazer parte do léxico do rock – e a poesia podia ser a porta para a transcendência.
Patti não pediu licença, não fez de mascote, não aceitou ser diva. Subiu ao microfone como senhora de si mesma e, com esse simples gesto, implodiu décadas de curadoria masculina – o rock era masculino? Temos pena, já não é. A androginia da capa e a autoridade do verbo reconfiguraram o lugar da mulher: não como objeto de desejo, mas como galáxia; não como exceção, mas como centro de gravidade. Sem Patti, talvez não houvesse Siouxsie Sioux ou Kim Gordon, talvez nunca tivéssemos ouvido PJ Harvey, Courtney Love ou Cat Power. Não as mesmas. Nunca da mesma maneira.
O impacto de Horses e de Patti foi muito para lá do punk. O indie dos 80s aprendeu com Horses a importância de ter uma voz; o alternativo dos 90s herdou a permissão para misturar confissão e ruído; o spoken-word eletrificado encontrou aqui um protótipo funcional. É um álbum que envelhece como certos livros: cada leitura revela um corredor novo.
Das ruínas de um sonho coletivo à invenção de uma intimidade pública, Horses ensinou-nos que a salvação podia ser um palco pequeno com cheiro a cerveja morta, que a graça podia chegar através de um grito sujo mas verdadeiro. No catálogo das estreias, poucas soam tão inevitáveis e, ao mesmo tempo, tão improváveis.
Patti Smith: “Não sou uma rockstar, sou o que escrevi neste livro”
Horses é o momento em que o rock, saturado de si, se lembra da razão de ter nascido: para dar linguagem ao indizível e pernas ao invisível. Patti não representa nem encanta – encarna e torna-se veículo de uma força superior.
E naquele 1975 de ferrugem e esperança, Horses não foi apenas mais um lançamento; foi um antídoto ao sistema, um rito de passagem, um convite à desobediência. Ainda hoje, quando a agulha pousa e a primeira frase morde, percebemos que houve alguém que nos abriu a porta e apontou o corredor mais escuro como se fosse a única saída possível. E sabes que mais, Patti? Talvez fosse. Talvez continue a ser.
A edição especial de “Horses”, comemorativa dos 50 anos, está disponível em streaming através do YouTube e do Spotify.