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A internet tem cada vez mais arestas por limar, mas ainda é uma “força pelo bem”, defende Sally Wentworth, CEO da Internet Society, a organização sem fins lucrativos que quer proteger a internet. Porém não usa eufemismos: há riscos crescentes que põem em xeque o funcionamento da rede global. Por exemplo, as dificuldades geradas pelo aumento da presença da inteligência artificial (IA) e a tendência crescente de esforços de alguns países na área da “soberania digital” estão entre as questões que geram apreensão à associação norte-americana. Até porque a internet como a conhecemos só funciona se não existirem “fronteiras” online, frisa Wentworth.
A Internet Society, uma organização sem fins lucrativos fundada em 1992 por pioneiros da internet, esforça-se para que a rede mundial continue a ser um “recurso para desenvolvimento social e económico”, explica a CEO, em entrevista ao Observador, durante a passagem pela Web Summit, em Lisboa.
A associação conta com mais de 155.500 membros em todo o mundo e atua em dois grandes eixos: em iniciativas para dar acesso à internet a quem ainda não o tem e na área do desenvolvimento de competências digitais e formação. Pelas contas da organização, há ainda “2,6 mil milhões de pessoas” sem acesso à internet em todo o mundo, que a Internet Society quer ligar até 2030.
Este prazo pode ser a cinco anos, mas a CEO da Internet Society não se atreve a fazer previsões sobre o futuro da internet com um prazo tão extenso. Até pela velocidade acelerada a que o panorama digital está a mudar, prefere limitar-se a prazos mais curtos, de apenas um ano. “No próximo ano acho que vamos enfrentar alguns ventos contrários difíceis, para ser sincera”, explica. “Os esforços que tanto os governos como às vezes as empresas fazem para tentar criar limites à internet estão a criar desafios a organizações como a nossa e aos nossos parceiros.”
É que, como faz questão de frisar, “a internet, com os critérios abertos e os protocolos que foram desenvolvidos” depende de “uma interoperabilidade global”, que não se conjuga com a criação de regras adicionais. Mas reconhece que há uma tendência por parte de alguns Estados para tentar criar “soberania digital” e ditar as suas próprias regras online. “É uma tendência que está a emergir no espaço da internet e que nos deixa particularmente preocupados”, explica Sally Wentworth. “Vemos cada vez mais governos em todo o mundo com esta ideia, considerando ser soberania digital, de ‘como é que protegemos o nosso Estado-nação online?’ E o desafio que encontram é que a internet em si e a forma como a rede é interoperada no mundo não está baseada em fronteiras nacionais”.
Esta tendência surge, considera, porque “os governos estão cada vez mais envolvidos em política digital”, algo que “tem estado a ser desenvolvido nos últimos 20 anos, talvez mais”. “Estamos num período em que a ação governamental está a aumentar. Os governos têm preocupações de interesse público em todos os setores da sua economia, incluindo a economia digital — e é um tema complexo”, considera.
Até porque os governos “estão a tentar tomar decisões num ambiente muito acelerado e complexo”, alerta. “Aquilo que tentamos recordar-lhes são os princípios nucleares da internet e o que está em risco quando tomam estas decisões. Tentamos dar-lhes informação e contexto sobre a forma como as decisões podem ter impacto na interoperabilidade ou escala global da internet”, exemplifica.
Do ponto de vista da CEO da Internet Society, alguns governantes estão a tentar tomar decisões “assumindo que vão ter acesso aos mercados globais, aos consumidores e às ideias” disponíveis com o uso da internet. Mas nem sempre é esse o resultado. “De todas as vezes que os governos tentam fechar as coisas ou criar ‘fronteiras’, isso cria fricção na infraestrutura e nas redes — o que aumenta os custos para as empresas que estão a tentar operar online.” Vai mais longe nos cenários, dizendo que decisões deste género “também criam pontos de estrangulamento ou oportunidades para a vigilância e censura”.
Mas, por agora, considera que “não há um líder” da tendência ou alguma geografia que esteja mais ativa neste campo. “Vimos durante muito tempo a China com um modelo particular, a chamada ‘Grande Firewall’”, referindo-se à forma como o fluxo de informação é limitado na China. “E isso é uma abordagem à soberania digital, mas estamos a ver outros países com ideias de que é preciso proteger os seus campeões nacionais ou a ter diferentes tipos de regras à volta de conteúdo, privacidade e segurança.”
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Não concretiza se a Europa também está a embarcar nesta tendência, repetindo que “é difícil dizer se há um líder agora” neste tipo de iniciativas. “O que acho é que isto é uma tendência que estamos a ver em todo o mundo e que se manifesta de forma diferente em diferentes jurisdições.”
Sally Wentworth está na Internet Society desde 2009, mas só em 2024 é que assumiu o cargo de CEO e, em conjunto, de presidente da Fundação Internet Society. Antes de chegar à organização, passou pela Casa Branca, onde trabalhou no gabinete de Políticas de Ciência e Tecnologia. Num trabalho que envolve diálogo com muitos governos e agências governamentais, considera “absolutamente” que essa experiência lhe tem sido útil. “Era uma altura muito diferente”, diz, explicando que chegou à Casa Branca “no fim da administração Bush e na transição para a administração Obama”.
Era a altura da transição para a televisão digital. “Era um portefólio muito amplo [de temas] e era esperado que nos atualizássemos muito depressa. É expectável que se saiba trabalhar com todo o governo e as diferentes agências para obter a informação que é precisa e depois ser capaz de apresentá-la a um nível muito alto de decisores na Casa Branca. Acho que me ajudou a saber gerir muita informação de uma vez só.” Hoje em dia, alargou esse espectro a conversas e negociações com governos globais para discutir as potencialidades da internet e considera que tira partido da experiência adquirida a trabalhar na área governamental.
▲ A CEO da Internet Society esteve numa sessão na Web Summit 2025
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São poucas as experiências online que não estão a ser afetadas pela expansão da IA, em particular da IA generativa. Ou seja, a IA que é capaz de criar algo, desde texto até imagens ou vídeos. Para a CEO da Internet Society, a IA também funciona como mais um motor de desafios.
“A IA parece turbinar todos os desafios que já vimos na era da internet ‘normal’, digamos assim”, afirma Sally Wentworth, destacando, por exemplo, a velocidade a que esta tecnologia está a evoluir. Por exemplo, na área dos vídeos, o avanço de modelos capazes de gerar pequenos filmes com som está a esbater cada vez mais as linhas entre o que é real e o que é manipulação.
Wentworth considera que o foco de como lidar com os desafios da IA não está, por agora, no sítio certo. “Vemos pessoas a trabalhar em soluções técnicas, há pessoas a trabalhar em questões de regulação”, exemplifica. “Mas há também uma grande componente humana nesta questão”, sublinha.
Nesse sentido, defende que é preciso “investir em inteligência humana para identificar a desinformação, identificar os esquemas”. “Temos de ter a capacidade de discernir o que estamos a ver online. É nesse ponto que a Internet Society decidiu colocar o seu ênfase”, explica. “Estamos a lançar uma campanha de segurança online muito agressiva, para os próximos anos, com financiamento de alguns parceiros externos e outras entidades para tentar criar um hub de recursos”, explica. “Temos uma tremenda quantidade de especialização dentro da nossa organização, porque há muitas ferramentas de segurança online.”
“Mas é preciso perceber o que é que realmente vai manter as pessoas seguras ou o que é que na verdade só abre a porta à vigilância”, acrescenta. O tema da formação e sensibilização é, para Wentworth, particularmente sensível para as comunidades que ainda vão dar os primeiros passos na internet. “Queremos garantir que chegam à internet e ao mundo online em segurança, que têm as ferramentas e a capacidade para a utilizar de forma segura.”
A responsável da Internet Society salienta que estas 2,6 mil milhões de pessoas estão em vários pontos do globo, mas em particular em “comunidades muito remotas”. Clarifica que a organização só intervém nos trabalhos para garantir o acesso “quando o primeiro passo” é dado pela própria comunidade. “É preciso que desejem ter acesso à conectividade. A ideia não é chegarmos lá e dizermos ‘têm de estar ligados’.”
Um dos parceiros da Internet Society nos esforços de ligação é a Meta, a dona do Facebook, WhatsApp e Instagram. Em março, foi anunciada a expansão da parceria: tanto a Meta como a própria Internet Society comprometem-se a investir 30 milhões de dólares até 2030 para levar a internet a comunidades remotas. “Temos uma parceria longa com a Meta, em particular na área da infraestrutura, com foco em implementar uma estrutura resiliente e confiável em todo o mundo, em particular em África”, começa por dizer a CEO.
No passado, a Meta já foi acusada por várias organizações, como a Amnistia Internacional, de deixar desprotegidas algumas comunidades, não apertando a moderação de conteúdos online. O caso mais conhecido está ligado ao Myanmar e à violência contra o grupo minoritário muçulmano Rohingya. Em 2018, a empresa admitiu num relatório que não fez “o suficiente” para travar as publicações e a desinformação online que se traduziram em violência na vida real.
Questionada sobre se a atuação da Meta na proteção de comunidades online foi tido em conta nesta parceria, Sally Wentworth esclarece que a organização “tem o controlo das estratégias de organização”, acrescentando que “trabalham com entidades em atividades específicas em que as prioridades estão alinhadas”. “Mas somos completamente independentes e, se há algo em que discordamos de um parceiro, temos a liberdade e os meios para nos manifestar-nos. E já fizemos isso no passado”, sem especificar com que entidades.
“Mas onde temos pontos em comum com uma organização, neste caso a Meta, para [desenvolver] infraestrutura resiliente em países em desenvolvimento, continuaremos a trabalhar com eles nestas questões.” “Temos uma estratégia muito clara de para onde queremos ir” enquanto organização, assegura.
Internet ainda é força pelo bem? Sim, mas também reflete “desafios que há na sociedade”
O debate sobre o atual estado da internet não é novo, seja sobre as questões de privacidade, estado das redes sociais ou os riscos de segurança que podem surgir com um uso mais descuidado.
Mas, em jeito de resumo, Sally Wentworth continua a defender que a internet ainda é uma “força pelo bem”. “Achamos que sim. Obviamente, como qualquer tecnologia com a qual os humanos interajam, começam a refletir-se os desafios que há na sociedade”, destaca.
“Mas acho que a questão não é a tecnologia em si, mas sim a forma como os humanos interagem com ela. E, portanto, vemos algumas das preocupações que existem na sociedade também refletidas no espaço online“, continua.
“Ainda acredito na capacidade da internet nos ligar, de ligar ideias, ligar informação e ligar-nos a outras pessoas como uma força pelo bem. Acredito nisso.” Porém, também reconhece que “quando os humanos se juntam em algum tipo de espaço, seja ele digital ou físico, trazem com eles vários desafios”.