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“Indecente.” “Isaltino de terceira.” “O tempo dele já foi.” O duelo dos manos rivais de Aveiro descambou

Está a aquecer a luta entre os irmãos Alberto e Luís Souto pela Câmara de Aveiro. Até os eleitores lhes perguntam como é possível isto. Bastidores da disputa familiar, com o dedo de Luís Montenegro.

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Quando os sete irmãos Souto eram miúdos, havia regras invioláveis impostas de forma rígida pelo pai, que era advogado: pontualidade à mesa, onde toda a gente comia de tudo, sem caprichos; silêncio durante o Telejornal, para ouvirem as notícias; e, se dois irmãos se chateavam, o mais novo obedecia ao mais velho, pedia desculpa e dava-lhe um beijinho.

Mais de meio século depois, no último ano, tem sido raro sentarem-se todos à mesma mesa; dois dos irmãos, Alberto e Luís Souto, aparecem nos noticiários por serem adversários na corrida à presidência da Câmara de Aveiro; e não só já não resolvem as desavenças com beijinhos, como as idades passaram a ser quase irrelevantes para estabelecer quem tem razão — sobretudo nesta tensão político-familiar.

“Como é que é possível dois irmãos concorrerem um contra o outro?” A pergunta, embaraçosa, é-lhes dirigida por eleitores que os candidatos abordam na rua a achar que vão apenas distribuir sacos de campanha, panfletos e apertos de mão. Há espanto, há curiosidade, há atrevimento, há constrangimento, há lamento — e há a dúvida sobre o carácter, que pode ser muito importante na hora de decidir o voto: quem foi o Souto bom e o Souto mau nesta história? Algum irmão traiu o outro? E como é que uma das famílias mais influentes da história de Aveiro lida com isto tudo?

“Soube pelos jornais que o meu irmão era candidato. Não comunicou a ninguém. Eu seria incapaz de fazer isto, sobretudo tendo um irmão que já era candidato. O mínimo era pegar no telefone e ligar-me. Eu, se ele já fosse candidato, não me teria candidatado."
Alberto Souto, candidato do PS, sobre o anúncio da candidatura do irmão Luís, pela Aliança PSD/CDS/PPM

O Observador falou com os dois irmãos candidatos (Alberto pelo PS, Luís pela Aliança PSD/CDS/PPM). Também ouviu outras fontes próximas da família para tentar reconstituir este processo que mistura desconfiança, influência e intriga política. Nem Alberto nem Luís escondem o desconforto com o tema. Ambos estiveram convencidos de que não iam ser candidatos, por razões diferentes. Ambos quiseram muito avançar. Depois, nenhum aceitou desistir, mesmo sabendo que além de perderem a corrida podem ainda ver a coesão familiar intensamente abalada.

▲ Luís Souto numa ação de campanha desviou-se de uma pergunta sobre a família e preferiu recordar o tempo de infância, em que vendia jornais velhos num saco de serapilheira

Maria João Gala

“Achávamos que ele não tinha características para isso e dizíamos-lhe: ‘Não te metas nisso’”

Vamos ao duelo de versões e contra-versões, tentando cruzar o que foi acontecendo, o que foram interpretando e as narrativas de cada um. Para Luís Souto, é tudo claro a partir do momento em que deu uma entrevista à Rádio Terra Nova, em maio de 2024, em que não excluiu a hipótese de ser o candidato da Aliança com Aveiro, que agrega PSD, CDS e PPM.

Este professor da Universidade de Aveiro foi presidente da Assembleia Municipal nos últimos 8 anos. Quando Ribau Esteves o convidou para esse cargo, em 2017, nem hesitou: “Brinquei com ele: não houve desafio tão rapidamente aceite. Aceitei imediatamente com muita honra e alegria. Respondi logo que sim.”

“Não vou partilhar mensagens trocadas.  Eu não lhe pedi licença para ser candidato. Somos irmãos, mas com todo o respeito, não tinha de lhe estar a pedir licença”.
Luís Souto, sobre a gestão do anúncio da sua candidatura na relação com o irmão Alberto

A experiência acumulada nos dois mandatos a presidir às reuniões da assembleia juntou-se à vontade de assumir um cargo que já tinha sido do avô, Alberto Souto, entre 1957 e 1961, e do irmão (cinco anos mais velho), também chamado Alberto Souto, entre 1997 e 2005.

Mas o irmão candidato do PS desvaloriza a importância desta primeira entrevista dada por Luís há um ano e meio: “Entre manifestar disponibilidade e ter de facto o apoio do PSD vai uma distância de quilómetros”. Diz que tanto ele, como outros irmãos o tentaram demover — usa mesmo a primeira pessoa do plural, na conversa com o Observador: “Começámos a perceber que ele tinha essa ambição. Achávamos que ele não tinha características para isso e dizíamos-lhe: ‘Não te metas nisso’”.

Um “erro de análise” após uma “tensa reunião”. E o confronto entre Montenegro e Ribau

Alberto recorda um momento no final do ano passado, em que Luís contou aos irmãos que tinha havido “uma reunião tensa e feia no PSD de Aveiro”, em que a estrutura local do partido tinha decidido apoiar outro nome para avançar, o do vice-presidente de Ribau Esteves na autarquia, Rogério Carlos. Na cabeça do irmão socialista, as hipóteses de Luís ser candidato a presidente de câmara ficaram arrumadas nesse momento.

Ouvido pelo Observador 14 horas depois desta conversa com o irmão rival, Luís incomoda-se com esta descrição e resiste a defender-se: “Em regra não revelo conversas que se passam na intimidade da família. Nunca fiz isso, não vou fazer agora.”

Mas é muito difícil continuar a contornar o assunto, pela importância que assume no dia-a-dia da campanha. Luís admite então que terá tido uma conversa com os irmãos, em que lhes transmitiu uma análise de que a dinâmica no interior do partido não estava a ser favorável à sua nomeação. Mas não viu esse momento como definitivo: “Acho que houve um erro de análise do meu irmão sobre as variáveis em cima da mesa. Há um momento em que nem um nem outro seríamos candidatos. Ele interpreta que a hipótese de vir a ser eu não teria pernas para andar. Era evidente que havia forças a movimentar-se e o Alberto interpretou que eu não ia ser candidato”.

“Politicamente achei indecente. O meu irmão ficou deslumbrado por ter recebido um telefonema do primeiro-ministro.”
Alberto Souto sobre o irmão Luís

Para gerir o novo ciclo político depois de Ribau Esteves chegar ao fim do terceiro mandato, o PSD terá feito sondagens a testar quatro candidatos contra Alberto Souto. Perderam todos: Jorge Ratola, antigo vice-presidente da Câmara de Aveiro e adjunto de Luís Montenegro no gabinete do primeiro-ministro — que não terá desejado o lugar e é agora candidato a Espinho (Montenegro fecha a campanha nacional com ele esta sexta-feira); Rogério Carlos, o atual vice de Ribau Esteves e seu preferido para a sucessão; Silvério Regalado, antigo presidente da vizinha Câmara de Vagos (onde adjudicou cinco contratos à sociedade de advogados de Luís Montenegro) e atual Secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, que foi contestado pelo PSD local; e Luís Souto.

As estruturas locais do partido apostaram em Rogério Carlos, influenciadas por Ribau Esteves, que chegou a dizer em tempos que “Montenegro representa o pior que o partido tem”, ainda antes da sua eleição como primeiro-ministro.

Mas sendo Aveiro capital de distrito, a escolha do candidato coube à direção nacional, que acabou por optar por Luís Souto, num processo que levou mesmo à demissão do líder da concelhia local, Simão Santana, que se terá sentido à margem de todo o processo de escolha.

A lista de dez candidatos para o PS e “o bichinho da política” a atacar

No início de fevereiro, a seguir a uma cerimónia nos bombeiros de Aveiro, terá sido o próprio Luís Souto a informar Ribau Esteves de que ia ser o candidato, depois de ter sido convidado por Luís Montenegro e Hugo Soares.

Nesta altura já Alberto Souto tinha anunciado a sua candidatura, num processo também ele nada linear. O socialista, que foi presidente da câmara entre 1997 e 2005, chegou a dizer publicamente que não iria avançar. Alberto conta ao Observador que até entregou à concelhia do PS dez nomes de possíveis candidatos: cinco mulheres e cinco homens; cinco militantes do PS e cinco independentes. A ideia era contrariar a narrativa de que não haveria nomes socialistas que dessem bons potenciais sucessores de Ribau Esteves.

Nas férias do ano passado, começou a escrever um texto com ideias futuristas para a cidade e em menos de três semanas deu-se conta de que tinha ali material para um livro. O irmão Luís esteve a assistir ao lançamento da obra e ficou convencido de que o irmão ia ficar de fora, em linha aliás com o que Alberto dizia na altura.

Alberto Souto jura que só na altura do lançamento, com o entusiasmo que viu à sua volta, é que voltou a sentir o “bichinho da política” e decidiu afinal avançar. Terá sido enviada uma mensagem aos irmãos mesmo em cima do anúncio, no início de janeiro.

▲ Alberto Souto, candidato do PS, volta a fazer campanha na terra onde foi presidente, 20 anos depois de ter sido derrotado por Élio Maia

Maria João Gala

O candidato socialista diz que foi depois apanhado de surpresa pela candidatura de Luís: “Soube pelos jornais que o meu irmão era candidato. Não comunicou a ninguém. Eu seria incapaz de fazer isto, sobretudo tendo um irmão que já era candidato. O mínimo era pegar no telefone e ligar-me. Eu, se ele já fosse candidato, não me teria candidatado”.

Alberto admite que ainda ficou dois ou três dias a pensar como lidar com o assunto. Mas sentiu que já não tinha condições para desistir. Nem vontade. “Politicamente achei indecente. O meu irmão ficou deslumbrado por ter recebido um telefonema do primeiro-ministro.”

Luís desvaloriza a questão da comunicação antecipada aos irmãos: “Eles são informados, são todos atentos às notícias, sabiam da minha disponibilidade. Mas o meu irmão ainda teve uma hipótese: retirava a sua candidatura, quando eu anunciei a minha.” A questão é sensível, também para Luís: “Não vou partilhar mensagens trocadas.  Eu não lhe pedi licença para ser candidato. Somos irmãos, ele é mais velho, respeito-o, mas não tinha de lhe estar a pedir licença”.

O almoço de Páscoa organizado pela irmã em que ninguém pôde falar de política. “Faltou sal”

A partir do momento em que os dois são formalmente adversários, iniciaram uma luta quase impossível de gerir bem, um contra o outro, mas também de cada um contra si próprio. Reduziram encontros pessoais “a mínimos”, na expressão de Alberto. Mas esforçaram-se, ambos, por preservar a família, que ficou colocada numa situação difícil. Durante a maior parte da pré-campanha, alinharam ambos numa narrativa, num método e num consenso:

  • A narrativa comum é de que estas divergências são saudáveis em democracia e já existiam nos jantares de família, quando discutiam política.
  • O método consistiu em não pessoalizar ataques, referindo-se ao adversário como “a outra candidatura” ou “a candidatura do partido x”. Cada um foi apelando à moderação de ataques pessoais dirigidos ao irmão por elementos das respetivas equipas. E sempre que o tema surgia em debates tentavam despachá-lo o mais rapidamente possível, sem expor as feridas que perpassam por este artigo — e que nenhum dos irmãos vai gostar de ler, a começar pelos próprios Alberto e Luís.
  • O consenso a que chegaram, que implicou conversas no meio da tensão da campanha, foi o de rejeitarem participar em dois frente-a-frente em estações de televisão, quando intuíram que seria muito explorada a circunstância de serem irmãos rivais.

Alberto diz que está a fazer cerimónia: “Gosto de ser mais acutilante e mordaz. Mas mais importante que a política é a família”. Pediu até desculpa ao irmão nas redes sociais por uma acusação que lhe lançou num debate, sobre não ter medidas para a habitação no programa, e que depois confirmou que tinha sido um lapso, por ter sido induzido em erro por um colaborador.

Antes disso, também nas redes sociais, o candidato socialista publicou 30 perguntas e respostas sobre a situação financeira em que deixou a câmara, sem conseguir pagar a fornecedores, explicando que essas dificuldades se deveram essencialmente ao investimento no estádio para o Euro 2004. A candidatura da Aliança com Aveiro fez um comunicado a rebater tudo ponto por ponto e a acusá-lo de faltar à verdade. Mas o documento é assinado pela direção de campanha. E o candidato Luís Souto não o partilhou nas suas redes sociais. O que também terá levado Alberto a hesitar, em reunião com os seus colaboradores, sobre se devia responder para rebater questões factuais sobre o problema antigo da dívida.

“Alguns irmãos, muito inspirados pelo nosso [irmão] Alberto, navegaram nas águas da esquerda. Eu era do centro esquerda para a direita. Tivemos sempre posições de um lado e do outro, mantendo debates políticos naturais. Mas acabámos sempre amigos, nunca tivemos um problema de relacionamento entre os irmãos"
Luís Souto, candidado da Aliança PSD/CDS/PPM à Câmara de Aveiro

Dos sete irmãos Souto, um morreu de doença, há poucos anos: Paulo, empresário de restauração, que ajudou a revitalizar a zona da Praça do Peixe, onde se realizaram jantares de campanha do irmão Alberto Souto antes das eleições autárquicas de 1997, 2001 e 2005 (ganhou as duas primeiras, perdeu a terceira). O grupo de whatsapp que junta os seis irmãos chama-se “Manos do Paulo”, uma homenagem tocante, que os lembra sempre da importância do irmão para todos.

Nos outros seis irmãos, além dos candidatos Alberto e Luís, há um jornalista, que pediu escusa para não escrever nada sobre a campanha que envolve os familiares; há um juiz, que também não se pode meter neste duelo; e duas professoras doutoradas em Estatística: uma apoia Alberto Souto, marcando presença em algumas das suas ações de campanha; a outra é a irmã mais velha, que se tem assumido quase como matriarca, sempre a fazer um esforço para assumir um papel apaziguador das tensões, dizendo por exemplo que ambos estiveram muito bem nos debates (apesar de serem adversários). Foi esta irmã mais velha que conseguiu juntar todos os irmãos em sua casa num almoço de Páscoa, impondo como condição que não se falasse de política.

Todos respeitaram, mas foi estranho, claro, para uma família que não está habituada a falar de outra coisa. “Faltou o sal”, lamenta Alberto. O filho do ex-presidente da Câmara, Afonso Miranda, ex-presidente do Beira-Mar (e empresário nas áreas do turismo, imobiliário e distribuição), diz que o pai e o tio tentaram falar de futebol, de que não percebem grande coisa, nem são tão apaixonados como por política — mas apesar de ambos torcerem pelo clube da terra, nem aí Alberto e Luís estão de acordo: o mais velho é do Benfica, o mais novo torce pelo FC Porto.

Os dois irmãos agora adversários estão ligados por mais laços: o filho de Alberto, Afonso Miranda, é padrinho do filho de Luís; a mulher de Alberto é madrinha da filha de Luís; e a filha de Luís é madrinha da neta de Alberto Souto. Afonso Miranda já disse ao tio que não o apoia: “O meu pai tem mais capacidade para liderar a Câmara de Aveiro. Conheço bem os dois. O meu pai não se devia ter metido nisto, não havia necessidade. Mas está-lhe no sangue, gosta muito desta cidade e de pensar a cidade.” Afonso levou os filhos a um comício. Teve de lhes explicar que o Alberto por quem os simpatizantes chamavam era o avô. Por graça, entra em casa a gritar “Souto, Souto”, que assenta ao pai e ao tio, para desanuviar o ambiente.

Simpatias pela monarquia, a culpa do avô presidente de câmara e o fascínio por Sá Carneiro

A coligação Aliança com Aveiro junta o PSD, o CDS e o PPM, Partido Popular Monárquico, que foi liderado muitos anos no distrito pelo pai dos Souto, o advogado Paulo Catarino de Miranda. (O pai de Paulo, Afonso, foi preso em 1919 por apoiar Paiva Couceiro numa tentativa de restaurar a monarquia — na família conta-se que, através de um guarda amigo, conseguia sair da prisão durante a noite para namorar e voltar de manhã. Era lavrador e conviveu pacificamente com o pai da nora, Alberto Souto, apesar de este ser republicano.)

O próprio Luís Souto tem simpatias pelo regime monárquico. Alberto Souto (neto) é republicano, mas recebeu D. Duarte duas vezes quando era presidente da Câmara. E quando era criança, o pai levou-o ao Palácio de São Marcos às cerimónias do 1º de Dezembro, que assinala a restauração da independência em 1640.

Não há sucessão dinástica na Câmara de Aveiro, mas os miúdos herdaram o património da memória do avô, também chamado Alberto Souto, um dos mais ilustres aveirenses de sempre, que viveu uma vida fascinante, preenchida e multifacetada entre 1888 e 1961: foi deputado na I República, advogado, historiador, jornalista, arqueólogo, diretor do museu de Aveiro e, claro, presidente da Câmara da cidade, onde dá nome a três ruas, em três freguesias do concelho.

Dulce, filha de Alberto Souto, uma professora muito ligada a causas sociais e que trabalhou como conservadora no arquivo (que antes foi dirigido pelo pai), sempre cultivou nos sete filhos o interesse pela gestão da cidade e pela memória do avô, quase como se os preparasse inconscientemente para um dia serem presidentes de câmara. Não haverá muitas mulheres que tenham sido filha e mãe de dois presidentes de câmara: um que já foi, e outro que pode vir a ser.

▲ Os cartazes dos dois irmãos candidatos, lado a lado, nas ruas de Aveiro

Maria João Gala

Luís, o candidato mais novo, é o maior estudioso sobre o avô: fascinava-se desde adolescente a ler a sua correspondência com personalidades como Egas Moniz ou Afonso Costa, fez uma investigação minuciosa sobre a vida dele e publicou em livro um primeiro volume da biografia, que vai até 1926. Quando olha para a estátua imponente de Alberto Souto no jardim junto ao museu, pensa: “O culpado de tudo isto foi ele. Fomos criados num culto do que tinha sido o percurso dele”.

Quando o avô era presidente de câmara, escolhido pelo governador civil da época, recebeu um pedido da PIDE para dar informações sobre um habitante do concelho e recusou, invocando que nada na lei previa que desempenhasse essa função. O neto Luís recuperou precisamente a ideia da PIDE para se defender de um ataque surgido esta semana, relacionado com um escândalo da presidente da junta de freguesia de Aradas, recandidata nas suas listas, que se terá inscrito ilegalmente na ADSE para beneficiar de apoio financeiro numa cirurgia. O candidato da Aliança manteve a confiança na candidata, disse que ela tinha devolvido as verbas e acusou os seus opositores na freguesia: “São pessoas que se calhar estavam bem no antigo regime, seriam agentes da PIDE ou coisa do género, porque só sabem fazer denúncias, denúncias, denúncias…”.

Depois da revolução de 1974, o jovem Luís acompanhou o pai nas primeiras campanhas do PPM no distrito. O facto de serem praticamente obrigados pelo pai a ver o Telejornal em silêncio levou-o a ficar rendido às intervenções de Sá Carneiro, fundador do PPD (e também aos discursos de Spínola, primeiro Presidente depois do 25 de abril). Foi assim que começaram a cavar-se as diferenças políticas face aos irmãos, que viriam a marcar todo o seu relacionamento ao longo do tempo.

“Alguns irmãos, muito inspirados pelo nosso Alberto, navegaram nas águas da esquerda. Eu era do centro esquerda para a direita”, frisa Luís Souto. “Tivemos sempre posições de um lado e do outro, mantendo debates políticos naturais. Mas acabámos sempre amigos, nunca tivemos um problema de relacionamento entre os irmãos. Temos os valores transmitidos pelos pais a todos, de respeito pela família e pela liberdade”.

Nas primeiras eleições em que o irmão Alberto se candidatou à Câmara como independente apoiado pelo PS, em 1997, Luís apoiou-o, sem reservas. Na eleição seguinte, Alberto aderiu ao PS e o irmão não achou bem: “Critiquei-o por se ter tornado militante. Achei um passo errado.” E recusa dizer se manteve o apoio nas duas eleições seguintes: “O voto é secreto. Não consideramos que seja dever de família apoiar um de nós politicamente”.

Nunca esta última frase se tornou tão evidente como nestes últimos dias desta campanha autárquica de 2025. Alberto reconhece o embaraço para toda a família, mas não consegue elogiar uma medida ou momento da campanha do irmão. “Vou dar uma resposta à político. Tem uma boa proposta no programa, mas é minha: transformar o quartel da GNR para habitação. Podia ter dito: ‘É uma ideia do meu irmão e é boa.’ Mas não se portou bem.”

Diz que na substância o programa do irmão “é preocupante para o futuro de Aveiro: quer dar continuidade a erros gravíssimos, porque gosta deles”. Refere-se entre outras coisas ao que considera o erro urbanístico do Cais do Paraíso, onde está prevista a construção de um hotel com 12 pisos (chama-lhe “o nosso prédio Coutinho”, numa alusão ao polémico edifício de Viana do Castelo). Mas também ao pavilhão que está previsto, e que acha que devia ter mais lugares para acolher finais desportivas e concertos. E ainda ao excesso de construção e poucas árvores previstas para a zona da antiga lota.

Na forma, Alberto elogia a empresa de comunicação contratada pelo irmão, no que acaba por ser um ataque político duríssimo: “Tem salvado o candidato, nesta última fase, de tentar ser um Isaltino de terceira, sem a mesma eficácia e jeito para o fazer. Ele esteve muito tempo sem apresentar o programa. E as propostas são um bocadinho… Há um memorial da macaca e a criação de um dia da transparência por ano. Há pessoas preocupadas com o nível de consistência. Não tenho gostado. Foi um desapontamento. Estava à espera que fosse mais consistente e tivesse outro nível. Isso não está a acontecer.”

Luís não é tão duro, apesar de tudo, mas não se fica atrás na assertividade a criticar o irmão socialista cinco anos mais velho: “O tempo dele já foi, a candidatura não traz nada de novo, é um remake de há 20 anos. Está a insistir na receita que levou ao desastre da câmara.”

Chega: “Uma família a tentar controlar a vida de Aveiro. É surreal.”

Esta conflitualidade entre dois irmãos a representar PS e PSD serve na perfeição a estratégia do Chega em Aveiro. O candidato, Diogo Machado, é um antigo dirigente local do CDS, e ex-diretor-geral da Aveiro Expo. Filiou-se no Chega em 2020, depois de ver uma entrevista de André Ventura na televisão, na altura em que ainda era deputado único. “Dizia o que eu já pensava há muito tempo. Isto era o CDS que eu gostava de ver vivo.”

Sendo o representante de um partido que critica consistentemente PSD e PS, claro que aproveita este brinde adicional de em Aveiro serem da mesma família: “A candidatura dos dois irmãos representa o que de pior a democracia podia gerar. Uma família a tentar controlar a vida de Aveiro. É surreal.”

“É o caldo de cultura ideal para que os mesmos de sempre continuem a governar Aveiro sem terem de prestar contas. Quem garante que não se coligam? E que não estão a controlar a coisa por fora? Como será um almoço de natal dos dois?”, pergunta.

“Um dos irmãos foi 8 anos presidente, candidatou-se a um terceiro mandato, e o povo de Aveiro despediu-o, por ter deixado o concelho na bancarrota. Pouco interessa se era uma dívida de 160 ou 250 milhões. Muitas pessoas em Aveiro perderam os empregos”, acusa, referindo-se a Alberto. “E Luís Souto foi 8 anos presidente da Assembleia Municipal. Devia fiscalizar a atividade da Câmara, mas nunca se lhe ouviu uma palavra contra a gestão do município”.

Diogo Machado compara mesmo os objetivos dos dois irmãos: “Sente-se que a motivação de Alberto Souto é a redenção, para mostrar que não é assim tão mau. Luís tem o complexo do irmão mais novo, de inferioridade em relação ao mais velho”.

As bandeiras do Chega passam pela colocação de um sistema de videovigilância nas freguesias, pela instalação de três novas esquadras da PSP em ambiente urbano, pela criação de um novo hospital em articulação com a universidade, e por negociações com o IHRU (Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana) para libertar fogos para habitação. Muitas destas propostas dependem de negociações difíceis com o Governo. Não basta a vontade, como aliás o candidato sabe a nível partidário: pediu para em Aveiro o cartaz não ser só ele com André Ventura, mas juntar também outros elementos da equipa, e não conseguiu levar a sua ideia avante, por o partido querer manter uma coerência nacional na campanha.

O candidato do PSD é o alvo preferido do Chega: “O Luís é o pior de todos em termos de preparação para a gestão autárquica. É incapaz para as funções. Aborda os dossiês mais técnicos e sensíveis de forma permanentemente politizada e pouco objetiva. E é cúmplice com situações pouco claras”. De certa forma, dá razão às queixas de Luís Souto, que tem apontado para uma espécie de coligação negativa entre o PS e o Chega para o enfraquecerem.

O Chega de Aveiro tem também insistido em denúncias sobre processos da gestão de Ribau Esteves. Uma das mais recentes é sobre o projeto do Cais do Paraíso, que é de um grupo de Abu Dhabi, detido em 4% por capitais sedeados nas Ilhas Virgens, sem que se saiba a quem pertence a propriedade real.

▲ Luís Montenegro entre Luís Souto e Ribau Esteves. Juntaram-se numa ação de campanha em Aveiro

LUSA

A isto Ribau Esteves responde, em declarações ao Observador, dizendo que só sabe que tem negociado com o representante do grupo Vip hotels. “A Câmara não se mete nisso, se o sócio é a ou b, ou onde está a sede. Não nos incumbe a nós. E isso aplica-se a muitas empresas com quem a Câmara lida”.

Outra denúncia do Chega está relacionada com o facto de o Plano de Pormenor do Parque Desportivo ter sido feito por uma empresa do grupo Visabeira, que é também a proprietária dos terrenos abrangidos, o que poderia configurar uma situação de conflito de interesses.

O atual presidente da Câmara diz que a Visabeira ganhou um concurso ainda no tempo de Alberto Souto. E que no tempo do ex-presidente Élio Maia, como a Câmara não tinha dinheiro, aceitou ceder à Visabeira a maioria do capital da empresa que gere o projeto. E que por isso a autarquia fez um Contrato de Planeamento com uma empresa do grupo Visabeira, para definir o Plano.

Ribau Esteves e o recuo: “Se tem discussão com a sua mulher, divorcia-se?” E a dúvida do Natal

Ribau Esteves tem resistido a comentar as polémicas da campanha, prometendo falar à vontade sobre a sua gestão depois das eleições, a partir da próxima segunda-feira. “Lamento que Alberto Souto e Diogo Machado não tenham querido disputar eleições comigo, sabiam que perdiam, não vieram. Têm uma fixação em mim, com uso de mentiras excessivo. Procuram levar-me para o debate, são nove candidatos, mas eu sou presidente da câmara, procuro não interferir”.

Numa primeira fase, Ribau Esteves, histórico autarca do PSD e ex-secretário-geral do partido, verbalizou publicamente o seu ceticismo face à escolha de Luís Souto como candidato, dizendo que o seu presidente da Assembleia Municipal não tinha experiência de gestão, nem perfil para liderar a autarquia, temendo por isso que o PSD perdesse estas eleições. Na altura anunciou que se ia demitir da mesa da Assembleia Geral da concelhia do PSD — embora o seu nome continue no site, mesmo apesar da atualização de outros membros.

Acabaria por aparecer depois ao lado de Luís Souto, dizendo que é o melhor dos nove candidatos: “Eu defendi outro candidato com clareza. Mas mantenho-me como militante do PSD. Não me zanguei, tive uma posição divergente. Desde o dia 18 de agosto, na entrega das listas, o nosso candidato é Luís Souto”.

▲ Luís e Alberto Souto estiveram ambos no mercado de Oliveirinha com pouco tempo de diferença, mas não se cruzaram

Maria João Gala

Tendo em conta o atual contexto político em Aveiro, Ribau Esteves escolhe curiosamente uma metáfora familiar para explicar ao Observador o que se passou: “Se tem uma discussão com a sua mulher e acabam por seguir a decisão ela, divorcia-se por isso? Ou segue em frente? Eu sou do PSD, defendi uma tese diferente. Quantas teses defendeu Luís Montenegro diferentes das de Rui Rio?” Ainda sem que se saiba qual será o seu futuro político, há duas semanas, Ribau Esteves juntou-se a Luís Montenegro e Luís Souto numa arruada em Aveiro. O candidato frisou que nunca esquecerá que o presidente do partido o apoiou “desde a hora menos um” — tendo sido decisivo para impor a sua candidatura contra o irmão às estruturas locais do partido.

Para já, segundo a única sondagem divulgada, encomendada pelo PS, o candidato socialista Alberto Souto está em vantagem. Se vencer, terá de ser o irmão derrotado, como presidente da Assembleia Municipal cessante, a presidir à tomada de posse depois das eleições. “Pode ser um bocadinho embaraçoso, mas o meu irmão é um democrata”, salvaguarda Alberto Souto. O irmão Luís garante que esse cenário, em que não acredita, não será “nada embaraçoso”: “Se eu já disse que daria posse a qualquer um, ia ter problemas de dar a posse ao meu irmão?”

Já ambos disseram que não ficarão como vereadores em caso de derrota. Mas independentemente do desfecho político, como ficará a relação familiar? No Natal, celebrarão o encontro tradicional que junta cerca de seis dezenas de familiares e descendentes de todos os irmãos e farão a habitual troca de presentes de amigo secreto? “Espero que o tempo cure memórias menos boas e nos encontremos no jantar de Natal”, afirma o candidato socialista. Luís também se mostra disponível para essa preservação do espírito familiar, mas deixa uma provocação: “Eu não preciso disto para nada, não estou aqui para vingar derrotas passadas. Os aveirenses que decidam. No que depender de mim, haverá encontro de Natal, totalmente. Vamos ver se o meu irmão tem a capacidade de aceitar os resultados desportivamente.”

(Texto corrigido às 17h08 de 10.10 para clarificar que a sondagem referida no fim foi encomendada pelo PS)

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