– “Todos os que chegam causam uma perceção de insegurança a quem já cá está. E é para quem é de cá, para quem é verdadeiramente europeu, é para esses que eu trabalho, são eles quem sirvo, é a vontade deles que devo respeitar.”
Um deputado, uma intérprete e um estafeta estrangeiro discutem. A ação passa-se algures na Europa. Trocam frases-feitas sobre imigração enquanto o estafeta, um jovem que não fala a mesma língua, só quer desesperadamente entregar a encomenda ao deputado. Num debate em que os factos são abafados pelas perceções, resta a dúvida se a vitória é possível para alguém.
– “Diga-me, olhos nos olhos, sente-se segura a andar sozinha, à noite, por bairros onde só moram migrantes? Sente-se segura quando passa pelo meio de dezenas de homens, sozinhos, que a olham de cima a baixo?”
Se o discurso soa familiar é porque é. Estamos no Porto, após um ensaio de Suplicantes, a nova peça da atriz e dramaturga Sara Barros Leitão. Com o texto que assina e encena há muito finalizado, a criadora não esconde o inusitado. “Ontem estive a ver no Porto Canal o debate das autárquicas aqui no Porto. Enviei para o grupo do Whatsapp que temos [com o elenco] vários vídeos com frases que são tiradas do nosso espetáculo!”, comenta, acrescentando o óbvio: “Nenhum deles viu o nosso espetáculo”. A peça estreia-se este sábado no Teatro Aveirense, antes de arrancar em digressão pelo país.
As frases a que Barros Leitão se refere têm dominado o espaço mediático e associam imigração a “perceções de insegurança”. Naquele debate em particular, foram ditas por Nuno Cardoso (Porto Primeiro – coligação NC/PPM), Pedro Duarte (coligação PSD/CDS-PP/IL) e Manuel Pizarro (PS), nota a encenadora. “Portanto, da esquerda à direita até uma pessoa independente, todos disseram frases que este deputado [na peça] diz. Quando perguntaram a Manuel Pizarro: ‘Mas há um problema de insegurança na cidade do Porto ou são só perceções?’ Ele responde: ‘Se as pessoas sentem que há insegurança, então há um problema de insegurança’. É exatamente aquilo que se diz no espetáculo: ‘Se eu sinto, então existe'”. No ensaio, ouvimos minutos antes: “Que saudades dos tempos em que a política se fazia com base em factos e não em perceções!”
▲ O espetáculo começa com um estafeta (Sandro Feliciano), que tenta a todo custo fazer uma entrega de uma encomenda a um deputado (Ricardo Vaz Trindade), que se recusa a recebê-la
Teresa Pacheco Miranda
Com o tema da imigração a fervilhar no debate público e a arte com tanta urgência em espelhar o mundo e suas problemáticas, a peça Suplicantes parece feita à medida para se estrear a poucas semanas das eleições autárquicas de 12 de outubro, em vésperas de campanha eleitoral. E, no entanto, “é talvez o espetáculo mais antigo que tenho na minha cabeça, talvez o primeiro e o mais antigo de todos”, confessa ao Observador a autora.
Foi quando ainda estava na escola que a tragédia grega As Suplicantes, de Ésquilo, lhe foi mostrada por um professor. Fascinou-a a história de cinquenta mulheres que atravessam o mar Mediterrâneo para desaguar na Grécia em busca de asilo político para serem donas do seu destino porque não querem casar com os cinquenta primos com quem as querem obrigar. “Mexeu muito comigo quando era adolescente. Pensei, um dia, quando for muito velha, muito sábia e tiver muito dinheiro, vou fazer este espetáculo com cinquenta mulheres, num palco, ou então numa praia”, sonhou.
Entretanto, imagens com barcos de imigrantes a chegar à Europa começaram a inundar as televisões. Como se lê na nota do espetáculo, “uma travessia de barco repleto de pessoas que fogem de um destino fatídico que determinado país lhes dá, a sua viagem pelo mar mediterrâneo e o pedido de asilo num país do sul da Europa, poderia ser o oráculo de uma notícia de um qualquer telejornal dos nossos dias.” Sara Barros Leitão, 35 anos, sublinha que ainda não é velha, nem sábia, tampouco tem os recursos certos para pôr de pé um espetáculo monumental de cinquenta atores. Não obstante, achou que era tempo de se lançar a este texto.
“No resto da Europa já se percebia que a grande disputa da extrema-direita era a imigração, e era uma questão de tempo até chegar cá. Os ciganos estavam esgotados já naquilo que é o bode expiatório da extrema-direita em Portugal, portanto iria ser a imigração brevemente”, antecipou. Lançou-se numa reescrita da narrativa, “não no ponto de vista de género, mas de classe e das migrações em si”, servindo-se do texto original num exercício de corte e costura que já aperfeiçoara em Guião Para Um País Possível (2023), no qual trabalhou apenas com intervenções parlamentares. “Há coisas que são de uma atualidade impressionante”, aponta sobre a tragédia de Ésquilo. Como: “É sobre o estrangeiro que recaem sempre as culpas”. “A frase com que acabo o espetáculo também é uma frase do texto original, que para mim é a frase dos nossos tempos.” Ei-la: “Intolerável, o terror triunfa na terra e no mar.” “Penso como, aos dias de hoje, intolerável o terror continua a triunfar na terra e no mar, em Gaza, no mar Mediterrâneo, em tantos os outros sítios”, lamenta.
Sara Barros Leitão diz que tentou “escrever uma tragédia dos nossos tempos”, colocando-a às portas da cidade, tal como nas tragédias — neste caso, às portas da União Europeia. Respeitando os ingredientes típicos do género, há uma cidade que está em perigo (neste caso não é a cidade, mas a UE), um debate de ideias, e um mensageiro. “Coloco este estafeta como um mensageiro a descrever toda a tragédia que é hoje o mar Mediterrâneo”, tornando Suplicantes, mais do que um relato, uma profunda reflexão sobre o projeto Europeu, sobre fronteiras, sobre pactos de hospitalidade, acolhimento e integração.
▲ Da esquerda para a direita: os atores Lígia Roque, Sandro Feliciano e Ricardo Vaz Trindade, que compõem o elenco
Teresa Pacheco Miranda
É o jovem ator Sandro Feliciano (que já brilhara em Casa Portuguesa, de Pedro Penim, em 2022) que veste a pele do estafeta, uma personagem tipicamente condenada à ausência que aqui nasceu de um conjunto de leituras e encontros, como o livro Lampedusa. Ir e não chegar, de Ana França (2025, Tinta da China), rico em histórias de travessia, ou o testemunho pessoal de Bhoye Diallo, refugiado nascido na Guiné Conacri, que cruzou o deserto do Sara e atravessou o mar Mediterrâneo para chegar a Portugal há oito anos.
“Há qualquer coisa de unidade nos espetáculos, do Monólogo [de uma mulher chamada Maria com a sua patroa (2021)], do Guião [Para um País Possível], que tem muito a ver com as questões laborais, que estão mais ou menos presentes. Tenho este fascínio pelas questões laborais, e das pessoas precárias”, reconhece Barros Leitão, justificando o protagonismo dado a este trabalhador que vemos todos os dias, mas que não conhecemos, que desliza pela cidade, de cara ocultada pelo capacete, com quem falamos mediados pelo telemóvel.
“As empregadas domésticas — tema sobre o qual se debruçou em Monólogo — e os estafetas não estão assim tão distantes: na precariedade, no isolamento, na forma como trabalham”, compara. E elabora: “No facto de, por exemplo, estas mulheres virem do interior do país, nos anos 40, pobres, vulneráveis, e ficarem em casa dos patrões. Também estas pessoas agora vêm sem papéis e são altamente exploradas, há toda uma cadeia de exploração entre quem é que tem a carta, quem é que tem a aplicação. Para mim, os estafetas são o retrato visível da exploração e da precariedade a que os imigrantes estão sujeitos. Muitos deles estão a trabalhar nas estufas, mas nós não os vemos no dia-a-dia. Já os estafetas ocupam o espaço público, ocupam a rua, dormem nas motas porque não têm onde estar. Achei que era uma profissão que podia ser a representação também dessa vulnerabilidade a que as pessoas migrantes estão sujeitas.”
“Existe o risco de a nossa Europa morrer”, disse Emmanuel Macron, Presidente francês, num discurso na Universidade de Sorbonne, em Paris, em abril de 2024. “O Mediterrâneo tornou-se o maior cemitério da Europa”, afirmou o Papa Francisco em junho de 2021, chamando a atenção para os naufrágios e as mortes nesse mar. Estas duas vozes e mensagens serviram de guia para a reflexão que acompanha Sara Barros Leitão nesta peça de pouco em que se questiona o futuro do grande projeto europeu — um altíssimo mastro, imponente no cenário, e um pedaço de tecido azul deixa antever uma grande bandeira da União Europeia.
“Para mim o projeto para a União Europeia está morto, está a morrer. É um projeto europeu que falhou na sua essência, porque é um projeto de cooperação, de promoção da paz, de acolhimento de abolição em fronteiras, e no entanto está a tornar-se um projeto completamente autoritário de extremistas”, acusa.
▲ A cenografia de "Suplicantes" é de F. Ribeiro, o desenho de luz de Nuno Meira. O figurino é de Jordann Santos.
Teresa Pacheco Miranda
O deputado, na pele do ator Ricardo Vaz Trindade, pode apresentar-se como o esteoreótipo europeu — alto, olhos claros, de ar austero —, mas será injusto tipificá-lo como um vilão, um deputado com laivos fascistas pronto a ser diabolizado. “É antes uma coleção de várias pessoas que existem, na realidade portuguesa, da esquerda à direita”, esclarece a criadora. “Nunca achei que era uma pessoa de extrema-direita. Pelo contrário, para mim o deputado representa completamente aquilo que é o drama da direita democrática neste momento”. Recusando nomear uma inspiração direta, não esconde ter encontrado valiosas referências na forma como o Governo de Luís Montenegro apresentou o pacote de medidas anti-imigração em julho último que, diz, “mistura precisamente segurança, a imigração, uma série de perceções”. “Foi importante porque acho que esta figura [ministro] pertence à direita democrática, só que é uma direita democrática que está perdida e precisa de virar completamente à direita, à extrema-direita, por causa de eleitorado e eleições”, denuncia.
“Creio que há muita gente a passar por isso hoje: pessoas com convicções profundas, humanistas, mas que, pela força do eleitorado, das circunstâncias, da pressão de outros partidos ou da perceção do que o público pensa, acabam por ceder a uma viragem à direita. A própria direita, nesse processo, vive uma crise das suas convicções e vai-se esvaziando”, afirma. “Queria que esse deputado representasse um pouco isso: alguém que, quando entrou no Parlamento Europeu, podia defender ideias muito humanistas — como a direita democrática sempre defendeu —, mas que já não encontra espaço para o fazer.”
Sobre as falas do personagem, reconhecíveis pelo público que fará óbvias pontes com o discurso político recente, acrescenta: “Não há uma frase que ele diga com a qual eu não concorde. O problema é ouvi-las todas em conjunto, naquela ordem, com aquele tom, em resposta àquelas situações. Quis que ele dissesse coisas difíceis de combater, porque são argumentos que, isolados, fazem sentido: é verdade que a terra não estica, que existe um problema de habitação, que não podemos receber pessoas sem garantir condições dignas. Mas o problema não está aí.»
É desse combate de ideias, sustentado num diálogo de cerca de uma hora e quinze minutos, que a peça se alimenta, mediado — com diplomacia variável — por uma intérprete (a atriz Lígia Roque). Suplicantes explora a distância entre deputado e imigrante, que não partilham a mesma língua, e a tensão que brota dessa impossibilidade de comunicação. “Interessa-me a ideia de que um tradutor é, de certa forma, um traidor. Para traduzir, precisamos de recrutar o tradutor ao ‘inimigo’, porque é a voz do outro lado que conhece a nossa língua. Temos de confiar no inimigo — e esse ato de fé pareceu-me um jogo teatral muito interessante”, explica Sara Barros Leitão. A criadora acrescenta: “Quis também explorar a noção de que, quando recorremos ao teatro, não precisamos de tradução. Como se o teatro fosse, por si, um lugar de paz.”
Mas porque o teatro não é um “lugar de prémio Nobel”, uma solução pronta a consumir, a peça não tarda a tirar-nos o tapete. Afinal, descobrimos, “a resposta não está nos clássicos, os clássicos estão também sujos, de escravatura, de colonialismo”. “Há uma leitura pós-colonial que tem de haver, temos de olhar com respeito e admiração, mas também nos dias de hoje”, demanda a autora.“Todos temos as mãos sujas, é ancestral”, escutamos do palco.
“Uma das coisas que aprendi é que os clássicos são clássicos porque não dão respostas, mas fazem boas perguntas. As perguntas ecoam, mesmo mudando a geopolítica. Tentei escrever uma peça que nos ligasse aos dias de hoje, mas em que as perguntas que provocasse fossem perguntas mais universais: dá mesmo para acolher toda a gente? Há mesmo forma de fazer? O que é que fazemos com esta vontade legítima das pessoas de se moverem? Quero que haja lugar, mas temos essa capacidade? Se o nosso estado social não tem capacidade, nós podemos permitir que continuem a entrar? Por outro lado nós precisamos destas pessoas, mas será que a resposta é só económica? Não há o simples direito de as pessoas procurarem uma vida melhor?”.
É um diálogo e questionamento que, para a criadora, tem faltado no espaço público. “Por isso é que o que queria que o espetáculo provocasse não é respostas concretas nem mudanças de sentido de voto. Gostava que provocasse o público com perguntas, que as pessoas depois do espetáculo continuassem a pensar sobre aquilo. Porque o tema é difícil”.
No dia da conversa com o Observador, uma manifestação pacífica acontece à mesma hora à porta da Assembleia da República, juntando cinco mil imigrantes — até André Ventura aparecer. Durante duas horas, largas centenas de imigrantes do Bangladesh, Índia e Brasil pediram “respeito pelos seus direitos” em frente ao Parlamento. A presença do líder do Chega seria mais tarde descrita por partidos da direita à esquerda como uma “vergonha” e uma “provocação”.
“Não é possível ser se contra ou a favor da imigração, é como ser a favor do vento”, grita-se no palco. Sara corrobora: “Não é possível ser contra ou a favor da imigração, como as políticas de anti-imigração são hipócritas porque na verdade são trabalhadores desejados, só que quanto mais precários, quanto mais vulneráveis forem, mais fácil é poderem estar cá a serem explorados.”“A imigração não é um problema, é uma solução!”, dispara a intérprete. Estaremos dispostos a construir políticas à altura?
27 e 28 de setembro, Teatro Aveirense, Aveiro. 4 de outubro, Teatro Municipal de Ourém. 11 de outubro, Teatro Sá da Bandeira, Santarém. 13 e 14 de fevereiro, O Teatrão, Coimbra. 14 de março, Teatro Municipal de Bragança. 27 de março, Teatro-Cine de Pombal, Pombal.