“Eu sou cidadão, mereço respeito como qualquer um.” A frase é lançada por Anderson Chau ao presidente do Chega, quando André Ventura aparece frente à Assembleia da República uns minutos depois de já ter terminado a manifestação de imigrantes. As palavras de Chau mal se ouvem, abafadas pelos gritos de uma multidão que acusa Ventura de ser “racista” e “mentiroso”. “Não me deixam falar”, queixa-se o líder do Chega, enquanto é encaminhado pela equipa que o rodeia de volta ao interior do Parlamento. A sua presença seria mais tarde descrita por partidos da direita à esquerda como uma “vergonha” e uma “provocação”.
O momento de tensão aconteceu quando os mais de 5 mil imigrantes presentes — segundo uma estimativa da organização do protesto — já tinham começado a dispersar. Ao longo de duas horas, num protesto pacífico e sem momentos de sobressalto, defenderam a atribuição de documentos que garantam a possibilidade de os imigrantes exercerem uma profissão em Portugal, o direito ao reagrupamento familiar e a libertação de imigrantes detidos “injustamente” e colocados em centros de instalação temporária. “Só estamos a pedir os nossos direitos. Nem mais nem menos do que os outros”, repetiram vários dos manifestantes ao Observador.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Da falta de documentos ao reagrupamento familiar. Imigrantes exigem ao Governo respeito pelos direitos
“Documentos para todos, residência para todos.” O relógio ainda não marcava 14h — o horário inicialmente previsto para o início da manifestação — e já centenas de migrantes estavam sentados em frente aos degraus da Assembleia da República com cânticos de ordem. Alguns traziam bandeiras de Portugal, a maior parte uma série de cartazes em defesa dos seus direitos: “Estamos a trabalhar duro para fazer a economia do país crescer, por favor parem com o racismo”; “somos contribuintes, não criminosos”; “trabalhar em Portugal é um direito para obter residência, nós cumprimos, mas o governo falhou”.
As suas vozes abafavam quase completamente a contra-manifestação num telhado de um prédio junto ao Parlamento. Eram apenas quatro pessoas, duas seguravam uma faixa onde se lia “Portugal não é um albergue. É a casa dos portuguezes”. Ao microfone uma voz apelava à “remigração”, afirmando que “os portugueses estão fartos de ser cidadãos de segunda.” Em pouco, o protesto foi desmobilizado após a intervenção de agentes da PSP, que subiram ao telhado para os retirar do local. Ao Observador, a Direção Nacional da PSP confirmou que os indivíduos pertenciam ao “movimento Reconquista” e foram identificados.
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Depois disso, a praça ficou entregue aos mais de cinco mil migrantes que a associação Solidariedade Imigrante diz terem comparecido esta quarta-feira, o primeiro dia de sessões plenárias na Assembleia da República. Vieram de todo o país, diz ao Observador Timóteo Macedo, um dos organizadores. “As pessoas estavam muito revoltadas, estão a ser perseguidas, existe um clima de caça ao imigrante. Existe um clima de terror, existe um clima de medo”, sublinha, responsabilizando as tentativas para alterar as políticas de imigração e os avanços da extrema-direita em Portugal. “Este Governo tolera e inclusivamente anda de braço dado com a extrema-direita para alterar as políticas de imigração, a lei da imigração e da nacionalidade tudo para pior e prejudicar quem trabalha e ajuda este país, que são os imigrantes”, critica.
Mahbobor Rahman veio de Faro, onde vive e trabalha numa empresa, para exigir do Governo direitos para os imigrantes. “Muitos dos que estão aqui hoje estão em Portugal há muito tempo. Estamos a trabalhar, temos uma boa casa, uma boa vida. Estamos a seguir todas as regras, leis“, começa por dizer, em inglês. “Mas há vários problemas”, acrescenta, afirmando que os imigrantes estão a pagar impostos e a contribuir para a Segurança Social, mas muitos continuam à espera de obter o cartão de residência. É o seu caso e o de muitos outros com quem o Observador falou.
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O homem, de 30 anos, nasceu no Bangladesh e, depois de uma passagem pela Roménia, estabeleceu-se em Portugal em setembro de 2022. Garante que já entregou todos os documentos necessários para obter a residência, mas que até agora ainda não recebeu resposta da Agência para a Integração, Migrações e Asilo. O último contacto com a agência foi há cerca de dois, três meses e até agora não recebeu qualquer resposta.
“O problema são os cartões de residência, o problema é o reagrupamento familiar”, lamentou Mahbobor. À semelhança de muitos ali presentes, não voltou a estar com a família desde que partiu do país de origem: “Não posso ir lá, mas também não os posso trazer para aqui”. “Só estamos a pedir os nossos direitos. Nem mais nem menos do que os outros”, sublinhou.
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“O Estado português está passando todos os limites”
A manifestação prolongou-se por cerca de duas horas. Num palco improvisado foram passando diversos membros da organização do protesto e muitos imigrantes que queriam partilhar a sua história. “Calma, não vai ser possível falarem todos”, foi alertando Timóteo Macedo ao microfone. No final de muitas das intervenções ouvia-se da multidão um grito: “Bole so Nihal, sati sri akal”. Trata-se de uma exultação religiosa ou grito de vitória ligado à religião sikh, e significa algo como “Aquele que gritar será abençoado”. “Como se fosse uma espécie de Aleluia dos cristãos”, compara um imigrante em declarações ao Observador. Também estiveramjunto dos manifestantes figuras políticas, como José Soeiro, do Bloco de Esquerda (que também pertence à Solidariedade Imigrante); Paula Santos, do PCP, e Isabel Mendes Lopes, do Livre.
A maior parte dos manifestantes provém de países como o Bangladesh e a Índia, mas também participam alguns imigrantes brasileiros como Anderson Chau. “O que me trouxe aqui hoje foi perceber que o Estado português está passando todos os limites a nível de humanidade“, diz, cerca de uma hora antes de trocar palavras com André Ventura.
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“Um país europeu não sobrevive sem a imigração (…) Mas não há respeito pela imigração, nem qualificada nem não qualificada“, acredita. O brasileiro, que vive em Portugal há cerca de 12 anos, considera que há um problema de desinformação. “As informações, como aconteceu no Brasil, são deturpadas. A mentira passou a ser uma verdade. A verdade começou a ser uma radicalização e isso é uma vergonha para um país. Portugal está mais burro”, apontou.
A isso, acrescenta, soma-se o problema dos extremismos. “Como aconteceu no meu país, a extrema direita e os mais radicais colocaram a questão como sendo uma questão plural. Então diz que os imigrantes roubam. Um imigrante roubou e aconteceu e eles têm leis para isso. E colocam tudo como se fosse uma verdade absoluta, fazem generalizações”, afirmou.
“Contar mentiras é crime. Contar mentiras para prejudicar uma sociedade ou uma minoria é crime”, disse ainda Anderson Chau, que considera que o Governo português não estava preparado para lidar com este tipo de discursos e distorções. “O sr. Ventura e todos esses aí estão atrás do voto. Não tem limites para ir atrás do poder. E isso causa o problema que vemos hoje. O sistema está corrompido pela desinformação”.
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Momento de tensão quando Ventura sai da AR e diz que “tem direito a falar”. Manifestantes respondem que já “tem toda a televisão do mundo”
A manifestação só desmobilizou pelas 16h. Os milhares de imigrantes levantaram-se e, carregando os seus cartazes, começaram a dispersar, subindo a Rua de S. Bento. Poucos minutos depois, enquanto decorria um debate parlamentar, o líder do Chega saiu da Assembleia da República, acompanhado por uma equipa que incluía os deputados Rita Matias e Rui Paulo Sousa, começando a descer a rua no sentido inverso até ao local onde tinha decorrido o protesto.
Num primeiro momento, André Ventura acenou aos imigrantes com que se cruzou, alguns, parecendo não o ter reconhecido, acenaram-lhe de volta e responderam com um polegar para cima. Mas rapidamente o presidente do Chega se viu rodeado de uma multidão que gritava “racista”, “fascista” e “mentiroso”, com a comitiva a tentar formar uma barreira à sua volta.
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Um elemento da organização do protesto fez por se aproximar do grupo do Chega para tentar acalmar os ânimos dos manifestantes, sem sucesso. Em resposta aos que gritavam, Ventura afirmou que insultos, “à frente da casa da democracia, não é democracia”. “Isto é o que fazem nos países deles, silenciar os políticos. Não nos deixaremos silenciar”, disse aos jornalistas, referindo estar a tentar dialogar, mas que “não querem”. “Isto é que é a cultura do fascismo”, sublinhou o candidato presidencial, acrescentando que os imigrantes “têm direito a manifestar-se”, mas que também “tem direito a falar”. “Isto não é um país de burcas (…). Queremos que cumpram regras. Isto não é um bar aberto”, repetiu.
Enquanto Ventura ia tentando trocar palavras com alguns dos manifestantes, incluindo Anderson Chau, e prestando declarações à imprensa, elementos da PSP formaram um cordão à sua volta, afastando os que se encontravam mais próximos, que começaram a sentar-se novamente em protesto. Durante as duas horas do protesto, foram sendo distribuídas garrafas de água e fruta pelos manifestantes. Um dos sacos com o lixo que daí resultou seria, mais tarde, lançado na direção do grupo, acabando também por atingir alguns jornalistas. Ao fim de poucos minutos, a comitiva regressou à Assembleia da República pela porta lateral.
Anderson Chau, que refere ter dito ao líder do Chega “que o povo brasileiro e o povo imigrante todos amam essa terra”, considera que se tratou de um momento para ganhar votos e não uma tentativa de dialogar com os manifestantes. “Ele tem toda a televisão do mundo para falar, na hora que o povo tem a possibilidade de falar ele quer falar por cima das pessoas. Porquê? Ele já tem a pauta dele defendida”, sublinhou. A postura foi também criticada por vários partidos, como PSD, PS, Livre, PCP e PAN, que repudiaram o que consideraram ser um ato “provocador” e acusaram Ventura de “incendiar uma manifestação pacífica”.
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