Há uma frase que inunda, com cada vez mais frequência, o discurso de quem ama o desporto-rei. Normalmente, a expressão “nunca será só futebol” é usada para legendar momentos de emoção. No caso da seleção iraniana, “tensão” é a palavra que melhor pode definir a sua presença no Mundial-2026, mas a tão repetida expressão não ficaria nada atrás e parece retratar detalhadamente os contornos da presença da seleção iraniana nos EUA – por si só, uma história à parte. Décadas de tensão diplomática entre Teerão e Washington transformam cada jogo da seleção persa em algo que vai muito além dos 90 minutos. O futebol vai ser muitas coisas além de si próprio.
Não é a primeira vez que o desporto serve de espelho para o mundo mas raramente o contexto extradesportivo consegue pesar tanto sobre uma participação. Para a diáspora iraniana em solo norte-americano, para o público ocidental e para quem segue a geopolítica de perto, cada partida do Irão no torneio carrega uma leitura dupla: há um resultado em jogo e muito simbolismo envolvido. À primeira vista poderia parecer um contrasenso, mas os estádios norte-americanos podem transformar-se em palcos de afirmação iraniana.
Em campo, a história foi mais simples. O Irão chegou ao Mundial pelo que fez em campo, com qualificação direta na zona asiática, confirmando-se como uma das seleções mais sólidas do continente. Mehdi Taremi lidera o coletivo com a experiência de quem já conhece a pressão do escrutínio externo. A equipa habituou-se a competir assim, com o mundo a observar por razões que, na maioria das vezes, não têm a ver com futebol.
O agravamento das tensões no Médio Oriente nos últimos meses só veio adensar o ambiente. Debates sobre segurança, logística e presença iraniana no torneio voltaram à superfície, acompanhados de manifestações, apelos ao boicote e posições públicas de parte a parte. Foi neste clima que emergiu uma das ideias mais polémicas dos bastidores do futebol internacional: substituir o Irão pela Itália, campeã mundial por quatro vezes, que falhou a qualificação em campo. A proposta, associada a círculos próximos da administração norte-americana, foi rejeitada de imediato – incluindo pelos próprios italianos, que defenderam que um lugar num Campeonato do Mundo se ganha dentro das quatro linhas.
A FIFA fechou o debate com a clareza que a situação exigia: o futebol não cede a pressões externas, e a composição da fase final do torneio não está à disposição de agendas políticas. O Irão joga. Conquistou esse direito como qualquer outro – a jogar. E é nessa linguagem universal que vai defender o seu lugar no maior palco do futebol, independentemente de tudo o que acontece fora dele.
▲ Os adversários do Irão na fase de grupos são a Bélgica, a Nova Zelândia e o Egito
Getty Images
BI
Ranking FIFA atual: 21.º (abril de 2026)
Melhor ranking FIFA: 15.º (julho de 2005)
Patrocinador: Merooj (desde 2022)
Alcunha: Team Melli (A Seleção do Povo)
Presenças em fases finais: 6
Última participação: 2022 (fase de grupos, com Inglaterra, EUA e País de Gales)
Melhor resultado: 14.º lugar em 1978 (fase de grupos, com Peru, Países Baixos e Escócia)
Qualificação: 1.º lugar do grupo E da 2.ª fase da AFC (14 pontos em 6 jogos com Uzbequistão, Turquemenistão e Hong Kong) e 1.º lugar do grupo A da 3.ª fase da AFC (23 pontos em 10 jogos com Uzbequistão, EAU, Qatar, Quirguistão e Coreia do Norte)
O que seria um bom resultado? Passar a fase de grupos pela primeira vez na história
Jogos desde junho de 2025
- Jogo particular, 4/6: Mali (casa), 2-0 (V)
- Jogo particular, 29/5: Gâmbia (casa), 3-1 (V)
- Jogo particular, 31/3: Costa Rica (casa), 5-0 (V)
- Jogo particular, 27/3: Nigéria (neutro), 1-2 (D)
- Jogo particular, 18/11: Usbequistão (fora), 0-0 (E)
- Jogo particular, 13/11: Cabo Verde (neutro), 0-0 (E)
- Jogo particular, 13/11: Cabo Verde (fora), 0-0 (E)
- Jogo particular, 14/10: Tanzânia (neutro), 2-0 (V)
- Jogo particular, 10/10: Rússia (fora), 1-2 (D)
- Taça Asiática, 8/9: Usbequistão (casa), 0-1 a.p. (D)
- Taça Asiática, 4/9: Tajiquistão (fora), 2-2 (E)
- Taça Asiática, 1/9: Índia (fora), 3-0 (V)
- Taça Asiática, 29/8: Afeganistão (casa), 3-1 (V)
- Qualificação AFC, 10/6: Coreia do Norte (casa), 3-0 (V)
- Qualificação AFC, 5/6: Qatar (fora), 0-1 (D)
O onze
- 4x3x3: Alireza Beiranvand, Milad Mohammadi, Hossein Kanaanizadegan, Shojae Khalilzadeh, Ramin Rezaeian, Saeid Ezatolahi, Saman Ghoddos, Sardar Azmoun, Mehdi Ghaedi, Alireza Jahanbakhsh e Mehdi Taremi
O treinador
- Amir Ghalenoei (iraniano, 62 anos, desde março de 2023)
- Outras equipas: Keshavarz, Bargh Tehran, Esteghlal (interino), Esteghlal Ahvaz, Esteghlal, Irão, Mes Kerman, Sepahan, Tractor, Zob Ahan e Gol Gohar
- Títulos (6): 5 Ligas Iranianas e 1 Taça Asiática
▲ Amir Ghalenoei assumiu o comando do Irão depois da saída de Carlos Queiroz no final da participação do Mundial do Qatar
ONER SAN
O craque
- Mehdi Taremi (33 anos, avançado do Olympiacos)
- Outros clubes: Shahin Bushehr, Iranjavan, Persepolis, Al-Gharafa, Rio Ave, FC Porto e Inter
A revelação
- Mehdi Ghaedi (27 anos, extremo do Al Nasr)
- Outros clubes: Al Ahli, Esteghal Teerão e Al Ittihad Kalba
O mais internacional e o maior goleador
- Javad Nekounam e Ali Daei (149 internacionalizações) e Ali Daei (109 golos)
▲ Mehdi Taremi, que joga agora nos gregos do Olympiacos, continua a ser a principal referência do Irão
DAN MULLAN
Os 26 convocados
- Guarda-redes (3): Alireza Beiranvand (Tractor, Irão), Payam Niazmand (Persepolis, Irão) e Hossein Hosseini (Sepahan, Irão)
- Defesas (9): Saleh Hardani (Esteghlal, Irão), Ehsan Hajsafi (Sepahan, Irão), Shojae Khalilzadeh (Tractor, Irão), Milad Mohammadi (Persepolis, Irão), Hossein Kanaani (Persepolis, Irão), Aria Yousefi (Sepahan, Irão), Ali Nemati (Foolad, Irão), Ramin Rezaeian (Foolad, Irão) e Danial Eiri (Malavan, Irão)
- Médios (8): Saeid Ezatolahi (Al Ahli, EAU), Alireza Jahanbakhsh (FCV Dender, Bélgica), Mohammad Mohebi (Rostov, Rússia), Saman Ghoddos (Al Ittihad Kalba, EAU), Rouzbeh Cheshmi (Esteghal, Irão), Mehdi Torabi (Tractor, Irão), Mohammad Ghorbani (Al Wahda, EAU) e Amirmohammad Razzaghinia (Esteghal, Irão)
- Avançados (6): Mehdi Taremi (Olympiacos, Grécia), Mehdi Ghaedi (Al-Nasr, EAU), Ali Alipour (Persepolis, Irão), Amirhossein Hosseinzadeh (Tractor, Irão), Shahriar Moghanlou (Al Ittihad Kalba, EAU) e Dennis Eckert (Standard Liège, Bélgica)
O local do estágio
- Centro Xoloitzcuintle – Tijuana, Baja California, no México (treinos: Club Tijuana Training Center)
A antevisão
A ligação a Portugal
- Portugal e Irão já partilharam um grupo num Mundial. Foi na Rússia, em 2018, na jornada do grupo B, que terminaram empatados a um golo – suficiente para Portugal seguir em frente, insuficiente para o Irão fazer o mesmo. Taremi estava em campo nesse dia. O avançado iraniano esteve na Primeira Liga durante cinco temporadas – uma no Rio Ave (2019/2020) e as quatro seguintes no FC Porto. Foi na sua penúltima temporada que conseguiu tornar-se melhor marcador do Campeonato, que venceu por uma ocasião. Em Portugal, Taremi conquistou ainda três Taças, uma Taça da Liga e duas Supertaças.