O primeiro legado que recebemos ao vir ao mundo é o nome. Mas quando esses nomes são Mohamed e Israel, o berço não traz apenas uma identidade: arrasta uma inevitável carga geopolítica. Conscientes dos potenciais equívocos, o encenador francês Mohamed El Khatib e o bailarino espanhol Israel Galván construíram Israel e Mohamed. O espetáculo, que se estreou com impacto na última edição do prestigiado Festival d’Avignon, chega agora a Portugal para dissecar uma ferida universal: a complexa relação com os pais e o peso de responder às expectativas.
“Esperam encontrar-nos no terreno da geopolítica, mas preferimos focar-nos no campo da herança familiar”, diz Mohamed ao Observador, sobre o espetáculo que sobe ao Palco Grande da Escola Secundária D. António da Costa esta terça-feira, às 22h, integrado na programação do Festival de Almada (para quem não tem o passe geral do festival, os bilhetes para o espetáculo estão disponíveis para compra no local a partir das 21h).
Mais do que uma performance, a peça funciona como um documentário coreografado. Em palco, dois altares de compensado exibem os retratos dos respetivos patriarcas e os vestígios das infâncias dos artistas: bolas de futebol murchas, medalhas de ouro, um tapete de oração, babuches e um Alcorão.
Mohamed El Khatib — que assume o papel de narrador de toda a história em palco — explica como o espetáculo nasceu da urgência de lidar com as ambições frustradas daqueles que os criaram. “O pai do Israel queria que ele fosse um grande bailarino de flamenco tradicional; o meu queria que eu fosse médico ou engenheiro. Tivemos de gerir essa desilusão”, sublinha. “Como nunca é fácil falar com um pai, pensámos que juntos seríamos mais fortes para resolver as coisas. Seria o momento de ajustar contas com o passado.”
▲ O coreógrafo e performer espanhol Israel Galván (à esquerda) e o encenador franco-marroquino Mohamed El Khatib (à direita)
Yohanne Lamoulère
Ao expor este choque entre o destino traçado pelos pais e a rota escolhida pelos filhos, a peça toca numa corda sensível que transcende os relvados e os tablaos. O que começa por ser uma discussão sobre o rigor técnico do flamenco ou a virilidade exigida no futebol transforma-se, rapidamente, num espelho da nossa própria herança. Afinal, a pressão para cumprir expectativas é uma força invisível que molda a maior parte das infâncias. As famílias, aponta o encenador, “são microssociedades, laboratórios onde se vive o melhor — a segurança afetiva, o amor, a ternura, a confiança — e o pior: o ódio, a violência física e verbal, a humilhação”. Israel e Mohamed ganha uma dimensão universal precisamente por isso: por sugerir que, para desfazer “o mito da família ideal”, resta-nos a dolorosa escolha entre a submissão cega ou a rutura necessária para nos tornarmos nós próprios.
No caso destes dois artistas, o caminho para essa emancipação foi traçado, em certa medida, pela união entre o desporto e a arte. A colaboração entre El Khatib (45 anos) e Galván (51 anos) revelou-se natural, alicerçada em vivências partilhadas e, curiosamente, em traumas idênticos. “Acima de tudo, foram as feridas que nos aproximaram”, recorda o encenador. “Feridas talvez morais — as da aceitação paterna —, mas também físicas, como a dos ligamentos cruzados, já que ambos sofremos ruturas totais. Havia essa identificação mútua.”
Se os vemos a entrar em cena como futebolistas em pleno aquecimento, cruzando o palco em corrida de um lado ao outro, é porque, nas respetivas carreiras, o desporto-rei deixou marcas profundas. Israel ainda treinou no Betis de Sevilha, mas teve uma rutura de ligamentos. Já Mohamed, que chegou a jogar no Paris Saint-Germain, tinha passado por duas, primeiro num joelho e depois no outro.
Mas não é apenas isso que têm em comum. Junta-se o facto de ambos operarem nas margens das suas próprias disciplinas. El Khatib sempre desafiou as convenções do teatro institucional; Galván, por sua vez, é há vinte anos o monarca incontestado do flamenco contemporâneo, frequentemente apelidado de “iconoclasta” e criticado pelos puristas que defendem a ortodoxia do género.
Para Israel Galván, a resposta direta ao pai materializa-se num sapateado violento e carregado de memória. É com as chuteiras calçadas que o bailarino evoca a fúria de José, o pai que lhe furava as bolas sempre que ele gazeteava as aulas de flamenco para fugir para o futebol. Mais tarde, com o peito coberto por dezenas de medalhas, Galván usa o impacto dos seus passos para confrontar as projeções de vídeo onde ouve o próprio pai confessar a vergonha que sente pelos bailaores que “não mantêm a virilidade”.
▲ Transformando os seus corpos em arquivos vivos, El Khatib e Galván revisitam a educação que tiveram para criar um espetáculo sobre herança, mas também sobre identidade
Yohanne Lamoulere
Maradona, a lição de Johan Cruyff e o snobismo cultural
A memória desportiva desempenha um papel fulcral na narrativa conduzida por Mohamed. Para o encenador, a primeira recordação de infância remete para o histórico Argentina-Inglaterra no Mundial de 1986. “Foi um marco político mundial. Em plena Guerra das Malvinas, Maradona desafiava abertamente a Rainha de Inglaterra”, descreve, lembrando a célebre tirada da “mão de Deus”, cujo significado conceptual só viria a compreender anos mais tarde.
Assumir esta paixão em palcos de prestígio internacional nem sempre foi fácil para o criador francês. “Era uma paixão escondida porque era socialmente desprezada, havia uma elite cultural que olhava para o futebol com snobismo”, confessa. “Hoje, sinto acima de tudo alegria. Tenho uma ternura enorme pelo futebol e alcancei a maturidade e a liberdade total de assumir que gosto de futebol e daquilo que verdadeiramente me move.”
A obsessão pelo futebol acabou por ditar o seu método de trabalho no teatro. Durante a sua investigação para a peça Stadium (2017) — um projeto focado nos adeptos do clube operário RC Lens —, El Khatib cruzou-se com uma máxima do futebolista holandês Johan Cruyff que transformou a sua abordagem artística: “Jogar futebol é simples, mas jogar de forma simples é a coisa mais difícil do mundo”.
“Esta citação marcou-me profundamente, porque se aplica na perfeição à criação artística”, detalha. “Fazer coisas simples, seja no teatro ou na dança, é o maior desafio de todos. Jogar simples, nunca exagerar, mantermo-nos o mais próximo possível do essencial. Desse ponto de vista, para mim, o futebol é uma lição de vida.”
É essa crua simplicidade que se vê em palco. Enquanto Mohamed desfia as memórias, Galván dança desestruturando a técnica clássica, fazendo estalar os saltos não apenas na madeira tradicional, mas no cobre, no cascalho e até calçando as mesmas chuteiras com que desafiava a autoridade paterna.
Uma das grandes provocações que Israel e Mohamed lança ao público tradicional de teatro é a superioridade do futebol enquanto fenómeno de massas. “Nem o chá, nem o teatro, nem a dança estão ao nível do futebol — seja em intensidade, suspense ou força coletiva. Nada igualará o espetáculo do futebol”, atira o encenador. “Tentamos dar os primeiros passos, cada um na sua arte, mas sejamos lúcidos: ser espetador de uma obra de arte será sempre uma experiência aquém de assistir a uma final do Mundial.”
Para o encenador francês, o teatro contemporâneo raramente consegue replicar a verdade sociológica de um estádio de futebol. “O estádio é dos raros espaços onde existe uma verdadeira mistura de estratos e onde as classes populares estão mesmo presentes”, aponta El Khatib, lamentando que essa diversidade seja praticamente inexistente nas salas de teatro tradicionais. Além disso, há uma diferença comportamental crucial: no futebol, o público tem “a capacidade de olhar para o espetáculo em si, em vez de estar focado na sua própria imagem enquanto assiste”.
Essa urgência coletiva do desporto foi o que o salvou da sua própria comunidade. Oriundo de uma família operária de imigrantes marroquinos na região de Orléans, e sob a alçada de um pai extremamente rígido que recorria à violência física para impor o sucesso escolar, El Khatib encontrou no futebol a sua hipótese de fuga. Ganhando a vida através do desporto, fez amizades determinantes que lhe permitiram quebrar o ciclo de reprodução social. Tornou-se aquilo a que a sociologia chama um “transfuga de classe”, embora recuse o rótulo de uma rutura total: “Continuo a oscilar regularmente entre a elite cultural e o meu meio de origem”.
▲ Mohamed conta-nos a vida de Israel (na imagem) e este mostra-nos o que viveu e o que sabe fazer: dançar
Yohanne Lamoulere
Desconstruir a virilidade
Ao trazerem para a cena os seus corpos vulneráveis e os vídeos onde os próprios pais criticam as suas opções de vida (o pai de Mohamed considera o teatro “um desperdício”), os dois artistas operam uma desconstrução deliberada da masculinidade e da virilidade associada tanto ao desporto como ao flamenco de raiz patriarcal. “O Israel fá-lo através de uma abordagem artística contida e deliberadamente efeminada, ou, pelo menos, ao quebrar os códigos da virilidade tradicional”, analisa o encenador. “Eu, por outro lado, faço-o ao assumir uma forte carga emocional na relação com o meu pai e ao dar nome às violências sofridas — agressões que muitas vezes decorrem de atavismos culturais.”
Para Mohamed, o grande trunfo emocional do futebol revela-se precisamente quando é transposto para um meio mais intelectualizado. “O relvado é o lugar onde todas as emoções da sociedade e as suas feridas são expurgadas. Quando o transpomos para uma sala de teatro perante um meio burguês, o espetáculo funciona quase como uma pintura: obriga o público tradicional a guardar distanciamento, confrontando-o com a vulnerabilidade dos outros.”
A intenção é precisamente desviar o olhar do padrão viril em direção a uma maior fragilidade. “Quero que a burguesia se sinta abalada e deslocada pelas propostas em palco, para que todos se encontrem num terreno neutro — um espaço de fragilidade que é, afinal, comum a todos nós”, confessa.
Ainda que o espetáculo inclua uma carta ao pai de pendor radical, lida por Mohamed e inspirada na célebre obra de Franz Kafka, o tom final não é de vingança, mas de perdão e de humor. Há uma declaração de amor e um desejo de entendimento que transcende o conflito geracional — e as fronteiras. “Creio que o público português está muito próximo da realidade espanhola ou marroquina, partilhando uma forte cultura familiar”, antecipa. “O que gostaria era que cada pessoa, ao sair do teatro [em Almada], sentisse uma vontade genuína de escrever uma carta ao seu pai.”