O Partido Trabalhista Português (PTP) tornou-se notícia recentemente depois de anunciar a coligação com o Agir de Joana Amaral Dias. Logo choveram críticas e acusações de que o PTP estaria a servir de “barriga de aluguer” do movimento fundado pela ex-deputada do Bloco de Esquerda, mas, na verdade, o partido que conta já com seis anos de existência tem um histórico de apoio a candidatos independentes. Alguns mais controversos do que outros: quem não se lembra, por exemplo, do incontornável “ninja” Manuel Almeida, candidato a sucessor de Luís Filipe Menezes na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia?

Esse foi, precisamente, o ponto de partida para a conversa com Amândio Madaleno. Ora, para o fundador do PTP a questão da “barriga de aluguer” nem se coloca. “Quando o Passos e Paulo Portas se juntam quem é a barriga de aluguer de quem? Ou quando o Rui Tavares se coligar com o Partido Socialista alguém vai falar nisso? O Livre jurou subserviência ao dr. António Costa, nós não“, começou por dizer Amândio Madaleno.

O líder do PTP acredita que termos como “barriga de aluguer” ou “casamento” “não fazem sentido” e que foram adotados para destabilizar a coligação, naquilo que descreveu como um ataque de “baixo nível”. Madaleno prefere falar em “conjugação de esforços” e “total comunhão” entre duas “partes iguais” que decidiram “juntar as coisas boas de uma e de outra”. “A junção de duas forças de intervenção resulta numa terceira muito mais forte”, defendeu Madaleno.

Caso para dizer que são altas as expectativas da coligação PTP/AG!R na corrida a São Bento, certo? O líder dos trabalhistas portugueses preferiu jogar à defesa e prometeu apenas muito trabalho. “Na política não podemos ter muitas expectativas, porque tudo pode mudar a qualquer momento. O que temos de fazer é arregaçar as mangas e ir para o terreno e ouvir as pessoas”.

Da defesa, Amândio Madaleno passou imediatamente para o ataque: “Os partidos instalados no poder dominam isto tudo. Quem quer ser diferente tem de passar o cabo dos trabalhos. Na vida não temos de ser todos monocórdicos. Não basta pôr uma gravatinha e depois não dizer nada de jeito“.

Para contrariar aquilo que acredita ser uma cultura política de “servidismo”, onde pululam “mentecaptos sem autonomia”, que “só estão na Assembleia para se levantarem e dizerem ‘sim'”, o PTP decidiu fazer do “humor político” e da “caricatura” as suas principais armas de intervenção no espaço público. E sempre através de candidatos que se apresentam “como verdadeiros porta-vozes das pessoas que votam neles”.

“O nosso objetivo é trazer pessoas que habitualmente estão em casa – e que até utilizam alguma jocosidade para comentar as notícias – para a política. É possível dizer a verdade em vários tons e a caricatura é uma maneira de intervir”. Esse foi o critério que levou à escolha do “ninja” Manuel Almeida para candidato a presidente da Câmara de Gaia. O gaiense saltou para a ribalta com o vídeo de apresentação da candidatura, onde se queixava que nem os membros da lista tinham aparecido. As redes sociais fizeram o resto e transformaram o homem que disse “não especulo com mentes malignas” numa verdadeira celebridade.

A alcunha, essa, recebeu-a por dar aulas de artes marciais, mas não era a única pela qual respondia o homem que prometeu formar ninjas “para ajudar a polícia municipal a tomar conta”, caso ganhasse as eleições autárquicas de 2013. Manuel Almeida era também conhecido por Noray, nome artístico que usava em espetáculos musicais onde interpretava temas da banda dos anos 80, os alemães Modern Talking.

Ao sucesso nas redes sociais, porém, não se seguiu o sucesso nas urnas: o “ninja cantor” conseguiu apenas 1.079 votos (0,86 %). Ainda assim, Amândio Madaleno não se arrepende da escolha e, mesmo admitindo que Manuel Almeida “tinha as suas características”, o líder do PTP elogiou a forma como o gaiense “marcou a diferença” e “galvanizou” os eleitores, sempre com um discurso com “grande clareza” e “objetividade”.

Se de alguma forma Manuel Almeida foi ridicularizado, a culpa, disse o presidente do partido trabalhista, foi dos “jornalistas”. “Quando o candidato disse que faltavam ninjas, não deveria ter sido interpretado no sentido literal. Ele queria dizer que eram precisos ninjas para defender o Estado de direito que estava ser atacado”, justificou.

Também a norte, houve outro candidato apoiado pelo PTP a tornar-se imagem de marca dessas autárquicas: o “empresário falido” de 62 anos, Orlando Cruz. Começou por ser candidato à Câmara do Porto, mas desistiu alegando “razões de natureza particular” para se candidatar à vizinha autarquia de Matosinhos – isto mesmo depois de ter dito que iria “ganhar facilmente as eleições se a comunicação social resolver que eu expresso filosoficamente os problemas desta cidade”.

Mais experimentado do que o seu homólogo de Gaia – contava já com duas candidaturas a Belém, algumas a deputado, uma à Câmara de Gondomar e outra à presidência de uma junta de freguesia –  Orlando Cruz pode não ser tão lembrado como Manuel Almeida, mas a forma como formalizou a candidatura à liderança de Matosinhos foi, no mínimo, original: é que Orlando Cruz chegou montado num burro chamado “troika”.

“Tive que vir de burro porque é o único que não paga portagens”, explicou na altura, para depois acrescentar que o animal teve de ser rebatizado por conselho do advogado. O motivo? Originalmente o burro chamava-se “Passos Coelho”. Orlando Cruz, que antes de ser “empresário falido” fora “taxista, camionista, ator de novelas, dono de restaurantes e de supermercados”, prometia, então, “transformar a cidade na mais ecológica e bonita”, para que houvesse mais “alegria, divertimento e diversão para os turistas”. Ou, por outras palavras, “transformar Matosinhos [numa cidade] tipo Paris ou Lyon, onde se veem flores e jardins em todo o lado”.

O “Che Guevara”, como se descreveu, que queria fazer da luta “contra todos os políticos, da esquerda à direita” a sua bandeira, estava confiante que iria ganhar as autárquicas, mas o resultado acabou por ser dececionante: teve apenas 505 votos (0,7%). Mas não desistiu da vida política, bem pelo contrário: tornou-se secretário-geral do Partido da Esperança Popular (PEP), um partido ainda não formalizado, mas que se compromete “a dar voz aos reformados, lutar pela igualdade de direitos, e acabar com os roubos nas reformas”. O animal que o acompanhou em Matosinhos, esse, não o abandonou.

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Fotografia da página oficial de Orlando Cruz

A lista de candidatos apoiados pelo PTP nas eleições autárquicas no norte do país não ficaria completa sem dois nomes: Floriano Silva, candidato à Câmara de Paços Ferreira, e José Manuel Costa Pereira, que prometia transformar o Porto “numa cidade independente” e na “capital do país”.

O pacense era, ainda assim, menos ambicioso na altura de eleger prioridades. “Apresentamos uma lista sem figuras, sem figurinhas, nem figurões e, apenas composta por gente de trabalho que nunca participou em política, mas com provas dadas na participação cívica. É uma candidatura contra o desânimo, contra a descrença e contra a abstenção, porque a participação de todos é essencial para defender a democracia e a liberdade”, pode ler-se, ainda, na página oficial da candidatura.

Ainda assim, Floriano Silva surpreendeu na hora de escolher os colaboradores. Enquanto candidato independente apoiado pelo PTP, rodeou-se de pessoas de confiança como Abílio Barbosa, o popular campeão do Norte do Jogo da Malha, mais conhecido por Bill Clinton. Um autêntico ‘papa-torneios'”, o que lhe deu “uma projeção muito para além das fronteiras” do concelho de Paços de Ferreira e “que desenvolveu trabalho meritório na Comissão de Festas de Carvalhosa”. Apesar da popularidade de Abílio Barbosa, o PTP e Floriano Silva acabaram por conseguir apenas 173 votos, cerca de 0,56%.

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Descrição de Abílio Barbosa, colaborador de Floriano Silva na candidatura à Câmara de Paços de Ferreira

Já o candidato à liderança do Porto, José Manuel Costa Pereira, foi mais mais longe: “Quero que um dia o Porto seja a capital de Portugal. Capital da cultura, da arte, do bem-estar, até chegarmos à capital na verdadeira aceção da palavra. Acho que não devemos depender das ordens que vêm não se sabe bem de quem”, defendeu na altura.

À semelhança do que prometeram vários candidatos do PTP, José Costa Pereira queria afastar-se das outras máquinas partidárias mais tradicionais e fazia disso a sua principal mensagem. “Os outros candidatos estão presos aos partidos, a única coisa que me prende são as pessoas. Estamos fartos de centralismos. Estou farto de ver pessoas a padecerem na nossa cidade. Não há uma política para as pessoas, só para o elitismo. Estou aqui para quebrar as linhas que foram impostas durante décadas a esta cidade”. Os portuenses, no entanto, não terão ficado muito convencidos com os argumentos do candidato – o PTP conseguiu apenas 279 votos, cerca de 0,24%.

Se a norte os números não foram muito famosos, em Cascais, distrito de Lisboa, houve um candidato que chegou, tal como o “ninja de Gaia”, muito perto dos mil votos. E também ele era, literalmente, um “Homem da luta”. Nuno Duarte, mais conhecido como Jel, decidiu avançar para a liderança de Cascais sob o lema “Vamos meter Cascais em Linha” e com o objetivo de “ouvir as pessoas” e trazer mais transparência à política, como admitiu então em entrevista ao jornal i.

“A diferença entre mim e os outros candidatos é que as pessoas sabem o que fiz antes disto, a minha atividade é pública. Quando falavas do dinheiro, eu vou meter dinheiro que andei a ganhar, pouco, mas vou meter para dar a conhecer a minha campanha. Mas foi ganho com trabalho honesto. Agora o futuro não sei, vamos jogo a jogo, como diz o Jorge Jesus”, explicou na altura.

Ao contrário da personagem que celebrizou, Nuno Duarte preferiu jogar à defesa e não prometer coisas que não podia cumprir. “Queremos chamar a atenção das pessoas para as coisas que podem fazer sem a ajuda de ninguém, sem estar à espera do paizinho. Portanto as propostas que vou ter se calhar só no dia a seguir às eleições é que as vou apresentar. Não vamos dar autocolantes, beijinhos no bebé e na velhota e pirar-nos a seguir“, garantiu. O eleitorado cascalense preferiu eleger Carlos Carreiras, o candidato social-democrata, mas o PTP conseguiu ser a sexta força mais votada com 901 dos votos, cerca de 1,37%.

Vídeo de candidatura de Nuno Duarte (Jel) à Câmara de Cascais

Apesar dos tímidos resultados alcançados nas urnas pelos candidatos apoiados pelo PTP, há um nome que figura de forma incontornável na galeria de honra do partido: o madeirense José Manuel Coelho. Apesar de ter começado a vida política como militante do partido comunista, em 2008 acabou por substituir o deputado eleito pelo Partido da Nova Democracia (PND), Baltazar Aguiar, na Assembleia regional madeirense. Começou aí uma carreira repleta de polémicas, mas também de sucessos.

O homem que acusou Alberto João Jardim de ser um “tiranete” saltou para a ribalta depois de ter participado nos trabalhos da Assembleia regional com um relógio de cozinha ao pescoço para protestar contra os dois minutos de intervenção a que a oposição tinha direito, naquilo que acusava ser a “a lei da rolha”.

A partir daí, José Manuel Coelho somou polémicas atrás de polémicas, sempre com um sentido de humor ora apurado, dirão alguns, ora inconveniente, defenderão outros. Nesse mesmo ano, Coelho provocou a suspensão do plenário do Parlamento madeirense depois de ter exibido uma bandeira nazi e chamado fascistas aos deputados do PSD/Madeira.

As críticas ao “regime ditatorial” na região e, claro, a Alberto João Jardim, eram uma constante e chegaram-lhe a valer a suspensão – foi, precisamente, na sequência do episódio da bandeira nazi, que foi impedido de entrar na Assembleia regional pela equipa de segurança.

Mas Alberto João Jardim não foi o único alvo de Coelho: quando decidiu concorrer às eleições presidenciais de 2011, então ainda como candidato apoiado pelo PND, Coelho fez questão de visitar a casa de Aníbal Cavaco Silva, na aldeia da Coelha. O motivo? Fazer o paralelismo entre Cavaco Silva, Oliveira e Costa, antigo presidente do BPN e o Dias Loureiro, ex-ministro de Cavaco Silva.

“[A casa de Cavaco] tem o seu quê de curioso”, porque “existem mais duas casas semelhantes a esta que são de dois amigos do senhor dr. Cavaco Silva: a do senhor Oliveira e Costa e a do senhor Dias Loureiro”, começou por dizer José Manuel Coelho. Mas Coelho não se ficou por aqui: “O professor Cavaco Silva é muito amigo destes senhores, que são os maiores burlões que apareceram em Portugal a seguir ao Alves dos Reis”.

A mensagem aos portugueses era clara: “Este é um motivo para os portugueses refletirem: Ou continuam a ser masoquistas e a votar nestes políticos falsos, que enganam o povo português, que protegem os ladrões que roubam o erário público, ou mudam de política e escolhem outro candidato e votam no José Manuel Coelho“.

E não se pode dizer que os portugueses tenham ignorado por completo o apelo do madeirense. Nesse corrida a Belém, José Manuel Coelho conseguiu mais de 189 mil votos. Ainda assim, as eleições legislativas regionais da Madeira, em 2011, já como candidato do PTP, vieram a confirmar que o agora vice-presidente do partido é, de facto, um caso sério de popularidade no arquipélago madeirense: conseguiu 10.112 votos (6,86 %) e elegeu 3 deputados, transformando os trabalhistas na quarta força política mais importante do arquipélago.

Antes de Jardim ter abandonado o Governo Regional da Madeira, ainda houve tempo para nova controvérsia de Coelho. E outra vez com o Parlamento regional como palco: o agora vice-presidente do PTP, considerado o “Tiririca da política portuguesa”, epíteto que, de resto, sempre recusou, mascarou-se de irmão metralha e apresentou-se assim mesmo vestido na Assembleia madeirense. Isto depois de ter sido condenado a 18 meses de prisão, com pena suspensa, por ter difamado Alberto João Jardim.

Este ano, José Manuel Coelho e o PTP-Madeira apresentaram-se novamente nas eleições regionais, desta vez coligados com o Partido Socialistas e dois outros partidos, mas os resultados ficaram muito aquém: a coligação liderada pelo socialista Vítor Freitas conseguiu apenas 14.593 votos. José Manuel Coelho, esse, manteve a irreverência: ainda antes de ir a votos já tinha ameaçado romper a coligação com o PS se os socialistas não se portassem bem.

“A partir do momento em que nos deixarmos de rever [nas políticas] formamos o nosso grupo parlamentar…se eles não se comportarem bem passamos logo a ser oposição”, garantiu Coelho.

Os momentos mais controversos de José Manuel Coelho na Assembleia madeirense. Autoria: Projecto tretas.org

Voltando a Amândio Madaleno, o Observador perguntou, em tom de desafio, se o fundador e presidente do PTP não tinha receio que o partido não fosse levado a sério pela escolha de candidatos que fazem da caricatura da vida política a principal fonte de angariação de votos. Para Madaleno essa questão não tem “fundamento”. “O partido é bastante levado a sério pelos portugueses. A maioria das pessoas acaba por nos dar razão e há muitos partidos que até copiam as nossas propostas”.

Já não existe humor político em Portugal. O que nós fazemos, fazemos dentro do bom senso, mas é muito fácil aproveitar as falhas destes senhores“. E para estas eleições, agora coligado com o Agir de Joana Amaral Dias, o PTP vai voltar a fazer da caricatura a sua principal força? Amândio Madaleno não hesita: “No que estiver ao meu alcance, a caricatura política vai aumentar ainda mais”, prometeu.