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E pronto, cá estamos nós outra vez, para mais uma edição do Festival da Canção.

Nesta noite, oito canções descabelaram-se para lutar pelo lugar de ida para a Holanda, mais precisamente, a sinistra cidade Roterdão — que não tem gracinha nenhuma, não é por eu ser de Amesterdão — onde será o Festival da Eurovisão deste ano.

Ou, como também costuma ser chamado, o Festival da Canção a sério. O vencedor desta noite irá calçar os sapatos… bom, os ténis rotos de Salvador Sobral, ou as plataformas de Conan Osíris, por exemplo.

Há canções melhores e canções piores, há intérpretes melhores e interpretes piores, mas fica pelo menos a certeza de que não corremos o menor risco de voltar a ter de organizar cá em Portugal o Festival da Eurovisão. Ainda bem, que fica sempre uma conta calada.

Respirando de alívio com esta certeza, vamos então ao Festival:

A noite começou com um quebra-gelo mais institucional, aquelas partes mais chatas, mas, felizmente não foram compridas. Elegantíssima num smoking, Inês Lopes Gonçalves fala por breves momentos com Gonçalo Reis, o Presidente da Administração da RTP, e com Nuno Mocinha, o Presidente da Câmara Municipal de Elvas, a cidade que recebe esta final. Olha, cada um é presidente daquilo que merece.

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Seguiu-se uma breve conversa com Conan Osíris, o vencedor do Festival do ano passado. Conan apresentou-se de preto, sóbrio, de cabelo liso puxado para trás, lembrando, usando analogias festivaleiras, uma Adelaide Ferreira de barba. Como se sabe, Osíris cantará o seu famoso “Telemóveis” algures durante a noite. “Mas ouvi dizer que vai ser uma versão diferente”, arrisca Inês. “Ai não sei de nada!”, disfarça Conan. Mas, cá para mim, estava a mentir. Lopes Gonçalves falou ainda com a simpática e talentosa Surma. Foi uma conversa rápida de que não retive o conteúdo. Quem quiser muito saber, é questão de puxar a box para trás.

O ecrã enche-se então de paisagens do Alentejo, as planícies, as planícies, as planícies e as planícies. Bom, e uma praça, com os habituais velhos de bengala. Passou também uma criança, talvez de fora, e uma equipa de futebol. Percebemos então que estamos quase a entrar no Coliseu Comendador Rondão de Almeida (fui ver, é um antigo presidente da Câmara de Elvas, faz sentido).

O coliseu é uma antiga praça de touros, e ainda leva uma data de gente. Não sei precisar quanta, que nestas coisas as câmaras passam sempre muito depressa pelo público. Graças a Deus.

E eis que surgem os tradicionais cantores e tocadores de ronca típicos da cidade Elvas, tocando com o tal instrumento o Hino da Eurovisão. Para quem gosta de música regional, foi um momento bem bonito. Para quem não gosta, também não durou assim tanto tempo. Foi o tempo bastante para que entrassem no palco os outros dois apresentadores da noite: Filomena Cautela e Vasco Palmeirim, ambos também de smoking. Vasco permaneceria de smoking durante o resto da gala, já Cautela iria tirá-lo. Mas não à frente das câmaras, naturalmente.

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Acompanhados pelo coro das roncas, cantam um rap que incluiu, nesta época de Coronavírus, o conselho de lavar as mãos. A televisão, como se vê, não é só entretenimento.

Junta-se-lhes então Inês Lopes Gonçalves para, juntos, darem os parabéns à RTP por mais um aniversário. Num medley que rivalizou com as próprias músicas concorrentes, passaram em revista, como se costuma dizer — nem sei bem porque é que se costuma dizer, mas costuma — os grandes êxitos da televisão pública. “Verão Azul”, “Dallas”, “McGyver”, mas também a novela brasileira “Sassaricando”, e os portuguesíssimos “Duarte & Companhia” e a música de abertura de “Parabéns”, o programa de seis horas de Herman José que ocupava os serões de sábado. Mas também programas mais recentes, como “Diz Que É Uma Espécie de Magazine”, do tempo em que Ricardo Araújo Pereira estava na RTP, antes de se mudar para a TVI e depois para a SIC.

O medley terminou com a abertura épica de “Grande Noite”, dos tempos em que passava teatro de revista na televisão. Foi um longo caminho, de facto.

Homenagens postas de lado, voltam os apresentadores Filomena Cautela e Vasco Palmeirim. E oh lá lá, Filomena aparece com um vestido, que eu, olha, gostei bastante. Era cor-de-laranja (full disclaimer: é a cor nacional da Holanda, o que ganha logo o meu coração), e também em pele de laranja. E ele próprio em gomos. Todo um conceito. Palmeirim brinca que, há mais de 40 anos, em casa diriam “Olha que bonito o vestido cinzento da Filomena Cautela”. Isto porque foi precisamente há 40 anos — e precisamente com uma edição do Festival da Canção — que a RTP estreou as transmissões a cores. Coitadas das apresentadoras anteriores a isso. Tanto trabalho a escolher vestidos para nada…

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Inês Lopes Gonçalves, na Green Room (que agora já toda a gente sabe que é como se chama ao lugar onde ficam os concorrentes à espera ou depois de cantar), não estava menos elegante, com um vestido preto, sem ombros, com calças e umas abas. Gosto. Não só gosto como seria capaz de usar. Sou até menino para lho pedir emprestado. E ela é menina para mo emprestar.

Mas vamos ao que nos trouxe aqui. E com isto quero dizer as canções.

Filipe Sambado

“Gerbera Amarela do Sul”, 3º lugar

Coube a Sambado abrir as hostilidades. Quase literalmente, pelo menos, para os espíritos mais conservadores, que ainda morrem de saudades da sobriedade de uma Madalena Iglésias na Eurovisão. Para isso, não contem com Sambado. Ele é, como diria a minha Avó, o excêntrico desta edição. O fato, que lembra às vezes uma sevilhana dançarina de flamenco de luto, transforma-se depois em uns não menos sexy calções de vinil. Noto que foi a única mudança de roupa em cena. Só isso já merece mais um ponto, que o Festival não é só música. Bom, e a música? Direi que me pareceu por vezes um piscar de olhos à música de intervenção dos tempos do PREC, quando parecia mal dizer-se que se ia de férias para a Riviera francesa. Outros tempos. Intervenção ou não, os ritmos são portugueses, com certeza. A música fica no ouvido e chegou a pensar-se que Sambado iria a Roterdão. Bom, pode ir na mesma. Passar um fim-de-semana ou assim, mas terá de pagar do seu bolso.

Jimmy P

“Abensonhado”, 5.º lugar

Seguiu-se Jimmy P, com as suas belas rastas, as únicas deste festival. É a primeira vez que o rap está representado no festival, finalmente. Se não contarmos com aquela parte mais rápida da “Tourada” (Fernando Tordo, 1973). É um rap giro, que começa com Jimmy de cócoras, e depois vai subindo. De mais maneiras que uma, como dizem os ingleses. No palco, vemos também um coro de capuz, quiçá uma homenagem aos Delfins. Por falar nos Delfins, certa vez assisti ao seguinte diálogo entre um cliente e um funcionário de uma famosa cadeia francesa de lojas de livros e discos: “Desculpe, este é o último CD dos Delfins?”, perguntou o cliente, de CD na mão. “Espero bem que sim”, respondeu prontamente o funcionário.

Mas, afinal é um coro de gospel. Atenção à letra, com uma importante mensagem contra o racismo. Nunca é demais. Fala também do assédio sexual e da fama e da sua efemeridade. Efémera será também, desconfio, a vida desta música. O rap é bom, mas o título sinistro. Só por isso, merece.

Tomás Luzia

“Mais Real que o Amor”, 6.º lugar

Tomás Luzia é o mais novo cantor desta competição. Tem apenas 17 anos, e estreia-se a cantar. Ainda assim, tem mais um ano do que os 16 de Anabela que, com o seu “A Cidade Até Ser Dia”, foi a mais nova concorrente de sempre. Um sinal de que poderemos ver Tomás na próxima produção de La Féria?

A própria da música começa com uma espécie de ciganada seguida de um fado. Que, no fundo, é mais ou menos a mesma coisa. Há guitarras, e uns acordes tímidos do Adágio de Albinoni, na verdade, Adagio para Cordas e Órgão em Sol Menor, que é como a peça se chama. O que lá estava a fazer, não sei dizer. Se calhar, nem estava. Também não confio assim tanto nos meus ouvidos. Nem nos meus olhos. A verdade é que não confio nada em mim. Mas chega de falar sobre mim. Vamos antes falar sobre o que EU achei desta música.  Se os acordes de Albinoni não resultavam tão bem, já a sonoridade dos D’Arrasar faziam maravilhas. Enfim, um pot-pourri. Mas a entrega de Tomás foi inversamente proporcional à qualidade da letra, o que aqui é uma mais-valia. Ou lá se é.

Elisa Rodrigues

“Não Voltes Mais”, 8.º lugar

Num mundo em que já ninguém se arranja para sair à noite, quanto mais para ir cantar ao Festival, é um gosto ver Elisa Rodrigues aparecer, à antiga, de vestido de lantejoulas. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Para virem de fato de treino, como a maior parte dos outros concorrentes, mais vale ficarem a cantar em casa, deve ter pensado Elisa. O vestido ficava-lhe bem. A música era gira, coitada. Lembra uma canção daquelas estrelas latinas, uma Shakira, ou assim, mas muito mais devagar, para as pessoas perceberem bem a letra. Tinha um coro que às tantas pareceu um pouco perdido, mas faz parte. Quem é que nunca se perdeu a meio de uma música que atire a primeira pedra.

Sabendo que acabaria por ficar em último lugar, seria fácil fazer uma piada deselegante com o título da canção. Se eu fosse um desses humoristas burgessos, era a piada que faria. Como não sou, não faço.

Damos breve salto à Green Room, para ficarmos a saber, pelo microfone de Inês Lopes Gonçalves, que Filipe Sambado, desde que ganhou a primeira semifinal, já recebeu convites para ir cantar à Suécia, que Tomás Luzia não tem faltado à escola para ensaiar, e que Elisa Rodrigues é uma senhora e por isso não saiu ofegante do palco depois de cantar.

Throes + The Shine

“Movimento”, 7.º lugar

Os quintos concorrentes são a boy band do Festival. E há-os para todos os gostos. Para quem gosta do género. Do género masculino, naturalmente.

A música é assim a abrir, como diria a minha avó, se usasse expressões ordinárias dos anos 90. Quando se vai ao teatro assistir a uma peça de um amigo ator, é um clássico, no final, e não tendo nada de bom a dizer nem da sua interpretação nem da peça, comentar-se o cenário, ou as luzes. Não é bem o caso, mas devo dizer que o jogo de luzes estava ótimo, a lembrar uma boîte da zona de Leiria dos anos 90.

Eles tocam (dois deles) muito bem, cantam muito bem, dão mortais (um deles) muito bem, só não adorei a música. Mas isto é a minha opinião. E não estamos aqui, mais uma vez, para falar sobre mim. Estamos aqui para falar sobre o que é que EU acho.

Kady

“Diz Só”, 4º lugar

Não queria nada ser imparcial, mas é impossível ser imparcial quando se fala de Dino D’Santiago. Dino D’Santiago é awesome. E fez aqui uma música awesome. Que Kady e o seu coro cantam de forma awesome. A letra faz uma importante e justa homenagem a várias mulheres negras, como Angela Davis, Cesária Évora, Michelle Obama ou Marielle Franco. A música não impressionou grandemente o público que votou, mas acredito que não foi a última vez que a ouvimos. E eu, nestas coisas, nunca me engano. Estou a brincar, engano-me imenso, mas isso agora não interessa.

Elisa

“Medo de Sentir”, 1.º lugar

[Juro que escrevi estas linhas antes de se saber o resultado, que me caia já aqui um piano em cima da cabeça]

“Medo de Sentir” é a power balad da noite. E a minha sopeira romântica interior ficou logo apaixonada. Na verdade, ando com esta música na cabeça há duas semanas. Não estou a brincar. Incapaz de largar este guilty pleasure, desejei com muita força que Elisa (desta vez acompanhada ao piano pela compositora Marta Carvalho) ganhasse.

E agora, fiquei a achar que a culpa é toda minha. Desculpem. Bom, agora já está.

Bárbara Tinoco

“Passe-Partout”, 2.º lugar

É o musical de inspiração Broadwayiana. Até cantam num banquinho de jardim. Ela canta enquanto Tiago Nacarato toca viola. Quer dizer, toca 30 segundos, antes de sair e entrar um corpo de baile. Não se perdeu com a troca. A voz da simpática Bárbara, o ritmo da música e o name dropping da letra apaixonaram Portugal, pareceu-me, pelo fui ouvindo pelas ruas. A mim, confesso, não aqueceu nem arrefeceu. Não achei especialmente original. Até porque eu viajo imenso.

Abrem então as votações. Enquanto se vota e não vota, o palco recebe uma Homenagem ao Rock Português. E tudo gente do melhor que há: Samuel Úria, Alex d’Alva Teixeira, e Joana Espadinha (com uma belíssima versão de “Amor”, dos Heróis do Mar).

A homenagem continua, depois com Surma e NBC, que cantam uma versão de “Olhó Robot” de Lena d’Água. Olha, e nem de propósito, surge de surpresa em palco a própria Lena, cantando “Estou Além”, enquanto Úria toca um instrumento estranhíssimo, pelo menos para quem não percebe nada de música. Mas Lena d’Água estava maravilhosa. Estavam todos, não desfazendo. E acabaram a música de Variações em coro. De certeza que passou pela cabeça do país inteiro: “Porque é que não mandamos mas é estes todos juntos à Eurovisão?”. Olha, tarde piaram.

Novo momento musical, o anunciado Conan, já de joias, canta o seu “Telemóveis”.

A versão era, de facto diferente, bem dizia Inês Lopes Gonçalves. Vinha acompanhado de um sexteto (cinco cordas e uma flauta), o que compõe sempre muito um palco. E ganhou muito, de facto, a música. Que já era ótima. Mas disso, já se falou demais.

Mais uma passagem pela Green Room, desta feita para cada concorrente, à vez, ser enxovalhado, lendo mensagens mandadas pelo público. Se eu soubesse, também tinha mandado. Enxovalhos gratuitos, claro. Que eles são todos ótimos, cada um à sua maneira.

E começa então a parte mais excitante, que é saber quem ganha. Nestas coisas dos concursos o que interessa é ganhar. Quem disser que o que interessa é participar, mente. Começamos com as pontuações dos júris regionais. Varrendo o país de Norte e Sul, votos somados, calhou a vitória a Filipe Sambado.

Sambado diz a Inês Lopes Gonçalves que quem devia ganhar era Kady. Inês achou bonito. E eu também. No fim, como já sabemos, não ganhou nenhum dos dois, que a vida é mesmo assim. Isto porque faltava o voto do público. E o público, já se sabe, é que manda.

E quem vai a Roterdão é [tambores]: Elisa, com “Medo de Sentir”. Como eu tinha secretamente desejado. Agora só quero que a Eurovisão passe depressa, para ver se o raio da música me sai da cabeça. Que já bem me bastam as vozes.

A noite terminou com a atuação vencedora de Elisa, recebida por uma chuva de confetti, cujo efeito em palco lembra e sensibiliza para o flagelo das recentes pragas de gafanhotos que afligem a África Oriental.

Que isto, mais uma vez, a televisão não é só entretenimento.