No dia seguinte às eleições autárquicas, o Observador recebeu um dos grandes vencedores da noite: o socialista João Azevedo, que teve Jorge Coelho como pai político, rompeu com o domínio histórico do PSD em Viseu e conquistou o município conhecido como “Cavaquistão”. Agora falta o resto: o executivo está dividido e o Chega pode ser o fiel da balança, mas Azevedo devolve a responsabilidade ao partido — terá de decidir se se exclui da aprovações de propostas na autarquia ou se acompanha o programa do PS, sendo que se não o fizer os viseenses não “perdoarão”. A garantia que Azevedo deixa é que “nunca” vai começar um processo de entendimento com o Chega — mas admite que aceita aproximações de qualquer vereador eleito.
Em entrevista, o novo autarca de Viseu olha para o copo meio cheio na análise dos resultados “honrosos” do PS, assegurando que estes resgatam o partido do patamar em que podia ter ficado colocado depois das eleições legislativas de maio, como terceira força política. E garante que Carneiro tem direito a ser líder até conseguir chegar a ser primeiro-ministro.
Quanto às presidenciais o dirigente fecha-se em copas, embora acabe por admitir que “naturalmente” é difícil que o PS não acabe por apoiar o ex-líder António José Seguro.
“Chega é que tem de saber se se exclui”
Viseu consegue uma primeira vez, em 50 anos de democracia, ter um presidente de Câmara do Partido Socialista. Vencer no Cavaquistão foi mais um mérito seu ou um mérito de um Fernando Ruas desgastado por anos e anos de presidência?
É uma mistura das duas. São duas causas que apontaram para a nossa vitória. Naturalmente o atual presidente da câmara teve uma importância elevada há uns anos, com a projeção de Viseu num patamar diferenciado, mas depois, a partir de determinada altura, começou a perder alguma vitalidade política, sempre a repetir as mesmas estratégias e, portanto, é natural que haja um desgaste natural. São muitos anos. E depois a alternativa apresentou-se de uma forma muito clara, com um programa político claro, com grandes equipas, que é uma honra liderar. Pessoas que vieram da sociedade civil, que se envolveram muito emocionalmente e politicamente. Foi uma mistura destes dois factos que levaram a uma vitória que não era normal, que nunca foi, que nunca aconteceu. Nunca aconteceu em Viseu, desde que há eleições do poder local. E, portanto, é uma honra enorme fazer história a partir deste ato político. A autoridade política também só se conquista com determinação, resiliência e confiança das pessoas. E depois com a consequência eleitoral, que é ganhar eleições.
Venceu com apenas 779 votos. Eu digo apenas, mas sei que é uma vitória importante. Tem os mesmos vereadores do que o PSD, que são quatro. Quem pode desempatar é o Chega e Bernardo Pessanha até é dos mais moderados do partido. Admite vir a negociar com ele ou prefere ainda assim o PSD como parceiro?
Primeiro vamos tomar posse e depois vamos ver o quadro político. Há uma coisa de que eu tenho a certeza. Quem não estiver alinhado para políticas de desenvolvimento, para criar condições políticas para ter a vivência, ter uma vida diferente, melhor, com investimento público e privado no concelho, será penalizado, terá nota negativa. Quem estiver por bem e quiser acompanhar essa nossa decisão e o nosso programa, certamente que terá nota positiva das pessoas. E, portanto, todos temos responsabilidades pelas nossas ações políticas, uns e outros.
Não estamos a falar aqui de coligações formais, mas de acordos pontuais e mesmo para o orçamento.
As pessoas vão ter a responsabilidade de fazer a sua atuação política de forma séria e na defesa dos interesses viseenses. Quem não o fizer, será penalizado. Estou muito tranquilo com essa matéria. Tenho também muitos anos de experiência na gestão autárquica, no quadro da avaliação e, portanto, estou convencido que as pessoas querem o bem de Viseu.
O Bernardo Pessanha parece-lhe alguém que tem a seriedade e serenidade para se conseguir sentar à mesa com ele?
O vereador Bernardo Pessanha tem de assumir a sua responsabilidade no quadro eleitoral. E, portanto, será avaliado pela sua prestação política. O que eu quero dizer é: que quem estiver por bem, está por bem. Quem estiver com taticismos político-partidários terá um combate feroz da minha parte.
Foi quase profético quando disse na Rádio Observador que “não tinha razões nenhumas para colocar de parte quem quer que seja”. Estava a antecipar que podia necessitar de negociar?
Isto é um quadro natural. Há linhas vermelhas de que nós não abdicamos, eu já fiz essa definição política e, portanto, a minha relação no quadro autárquico é uma. Tenho a certeza absoluta de que iremos colocar à disposição de todas e de todos um quadro que é satisfatório para os oito eleitos mais o Presidente da Câmara. E portanto, quem não quiser fazer isso terá consequência. Isto eu não tenho dúvidas nenhuma. E os viseenses não irão perdoar, porque os viseenses quiseram uma mudança, quiseram uma alternativa e se houver alguém a tentar condicionar essa alternativa, serão ainda mais penalizados nas próximas eleições. Eu não tenho dúvidas nenhumas sobre isso.
E quanto a José Luís Carneiro ter colocado no compromisso autárquico que não devia haver esse tipo de acordos. Com isto, não está a incumprir nesse compromisso?
Não. Eu assinei esse compromisso. Eu estive no início desse compromisso, na génese. Portanto, não estou a incumprir. Aquilo que eu disse na altura ao Observador foi que era com todas as pessoas que fossem eleitas. Fossem de que partidos fossem.
Mas agora já sabemos quem são os eleitos, já sabemos que o Chega é que pode desempatar.
Pode não desempatar. Pode ser um vereador do PSD a desempatar, ou dois, ou três. Ninguém sabe disso e, portanto, eu tenho excelentes relações com as pessoas, faço isto sempre num quadro de entendimento com todas e com todos e o PSD tem excelentes autarcas eleitos que podem certamente ter essa capacidade.
Mas só para ficar claro, João Azevedo, não exclui o Chega dessas conversações?
O Chega é que vai ter que saber se se exclui ou não. Essa opção não é minha. Eu nunca iniciarei um processo de entendimento com o Chega. As nossas políticas são claras no nosso programa.
Se acontecer a culpa não é a sua, é isso que está a dizer a José Luís Carneiro.
Eu já disse e reafirmo: o nosso programa político é claro. Quem quiser acompanhá-lo, acompanha. Quem não quiser, não acompanha. E aí terá as suas consequências políticas. Até porque o nosso programa político foi ratificado com uma maioria relativa ontem. Portanto, o povo quis a diferença, quis esse programa político. Quem não o fizer … Aliás, eu nem vi bem qual é o programa alternativo do Chega, portanto, nem sei bem qual é.
Disse que ficaria envergonhado, a expressão é sua, se fosse presidente da Câmara há 35 anos e tivesse barracas à porta da cidade. Vai seguir em visão o exemplo de Ricardo Leão e acabar com as barracas à porta da cidade?
Há duas questões fundamentais. Quando referi isto tinha a ver com as novas construções, os novos núcleos urbanos ilegais. E isso não vai acontecer connosco. Barraca que esteja edificada num dia, os serviços municipais têm que atuar imediatamente. Agora a questão aqui é esta: vamos ter que ter aqui um plano de ação que vai durar algum tempo, que tem a ver com o 1º Direito, sempre a respeitar as pessoas, com grande humanismo, e mais do que isso: respeitar as crianças. As crianças não podem viver naquele quadro social e habitacional. E, portanto, temos de olhar bem para este fenómeno que tentaram apagar, que tentaram normalizar, mas que existe em Viseu. Nós iremos ser muito claros sobre esta matéria e temos na equipa gente muito qualificada para tratar deste assunto e dos outros assuntos.
“Estarei sempre a defender Jorge Coelho”
Em Lisboa, Carlos Moedas ganhou. Desilude-o de alguma maneira que o autarca que se defendeu no caso do Elevador da Glória dando como exemplo Jorge Coelho tenha sido escolhido para se manter na liderança da maior autarquia do país?
Naturalmente que sim. Fiquei muito insatisfeito com essa justificação que o atual presidente da Câmara de Lisboa usou; é uma justificação que não é verdadeira, que não lhe fica bem, e lamento profundamente que o tenha feito, não só pelo facto de não ser verdade, como também em memória de uma pessoa que já não está entre nós, que não se pode defender. Eu estarei sempre a defendê-lo, ao Jorge Coelho.
Olhando para o País, o bom resultado, apesar de o PS ter ficado atrás do PSD, é mais mérito do atual secretário-geral, José Luís Carneiro, ou do anterior, Pedro Nuno Santos?
Isto é um processo dinâmico. O anterior secretário-geral fez a liderança política durante algum tempo e as coisas foram crescendo, como digo, num processo dinâmico, e o atual secretário-geral assume as suas responsabilidades no quadro atual. É uma coisa que sai de um e vai em direção do outro. São os dois responsáveis pelo quadro político que está aqui. Há uma coisa que quero dizer: o número de câmaras que o Partido Socialista ganhou é um número que honra o partido. Se forem ver o quadro eleitoral desde a década de 1990 até agora está equilibrado nesse número, mais cinco para frente ou menos cinco para trás. O resultado em 2021 foi um resultado excecional, mas há uma coisa que é preciso referir: nós tivemos 1 milhão e 800 mil votos no valor acumulado, como tivemos em 2021. Portanto, esse valor acumulado representa que consolidámos ou conseguimos manter o eleitorado no quadro autárquico.
Tendo em contas as últimas legislativas foi um alívio?
Naturalmente, que este resultado reforça o PS no país. Depois do resultado eleitoral que tivemos nas últimas legislativas, houve a preocupação de reconquistarmos a confiança das portugueses e portuguesas. Temos essa obrigação e todos os autarcas que se candidataram pelo PS tiveram a sua quota de responsabilidade também neste recrescimento para que o PS se afirme mais uma vez como um grande partido português. É um partido que nos honra a todos, a quem pertence e que é dirigente e que é militante e portanto estaremos para continuar a combater em nome dos ideais e dos princípios do Partido Socialista.
Mas José Luís Carneiro ainda chegou a definir duas fasquias para estas autárquicas que eram manter a Associação Nacional de Municípios, e chegou também a dizer que Lisboa e Porto eram conquistas fundamentais. Assim sendo, pode cantar a vitória agora?
Quando o secretário-geral do Partido Socialista o afirmou, naturalmente que eram declarações num quadro também de esperança e de convicção. Não ganhámos Porto e Lisboa, mas ganhámos Bragança, Viseu, Coimbra, Évora e Faro quer dizer, ganhámos cinco capitais de distrito de grande importância e temos nove capitais de distrito.
Por acaso foram tudo escolhas diretas de Pedro Nuno Santos.
Por acaso não.
A sua não foi.
A minha não foi. Já era antes.
Mas Coimbra, Bragança e Évora, sim.
Não quero agora também puxar dos galões, mas o resultado com mais evidência política no país foi o de Viseu, por razões óbvias. O Partido Socialista nunca tinha ganhado. Bragança, Évora e Faro, o PS já tinha liderado.
“PS recolocou-se num patamar que podia ter perdido em maio”
O PS terá um congresso algures na primavera. Há espaço para que surja uma oposição interna a José Luís Carneiro e que essa oposição se movimente até lá?
Isto é um partido plural, portanto tem a liberdade para poder ter quem entender. Desde que seja militante e que tenha as condições necessárias para ter candidatos naturalmente pode acontecer. Há uma coisa que eu tenho que declarar já à cabeça: tenho a certeza de que o José Luís Carneiro é a melhor opção neste momento para o PS e faremos tudo para que ele seja líder até chegar a primeiro-ministro.
Mesmo que não tenha sido uma derrota, o PS está já a querer olhar aqui para um copo meio cheio, e a verdade é que também não se destacou nestas eleições. Há sempre um risco de haver alguma impaciência dentro do Partido Socialista. O que estamos a tentar perceber é se acha que há espaço para existir isso agora e depois destas eleições autárquicas.
Não, os militantes do PS e os dirigentes percebem bem qual foi o resultado das últimas legislativas. Foi um resultado que nos deixou a todos muito preocupados, naturalmente, não podemos esconder-nos atrás de uma ideia que não seja essa. E estamos a tentar reconstruir a confiança que o PS tem que ter junto das portuguesas e portugueses. Estas autárquicas vieram recolocar o PS num patamar que estava em perigo a partir das legislativas. Bem, podem-me dizer: nós perdemos ou não conquistámos a maioria das câmaras para liderar a Associação Nacional de Municípios Portugueses. Certo, é verdade, mas já tivemos outras lideranças da ANMP em governos socialistas. Como sabem, houve um período em que o governo é liderado por dirigentes do PS, em que o Partido Socialista ganhou eleições, e a Associação Nacional de Municípios Portugueses é a liderada por autarcas do PSD. Isto é o jogo da democracia, não é mal nenhum. O PS recolocou-se num patamar que eventualmente podíamos ter perdido na perceção política do país nas legislativas de maio. Felizmente, agora já reconquistamos esse espaço e vamos fazer todos o possível para que isso se mantenha e que melhore.
Com este resultado, que é um resultado de resistência, de regresso a um patamar de um dos dois maiores partidos. Por isto, José Luís Carneiro deve ter a possibilidade de ser o líder do Partido Socialista quando ocorrerem as próximas legislativas, mesmo que sejam só no fim do atual mandato em 2029?
Naturalmente que sim. O calendário político é claro. Nós vamos ter umas eleições presidenciais no início do próximo ano, onde o Partido Socialista ainda não decidiu qual é a sua opção de apoio ou não. Como sabemos, os candidatos não saem das decisões partidárias. E depois, até às próximas legislativas penso que o calendário vai ser direto às mesmas. E, portanto, vamos ter decisões muito importantes no quadro parlamentar, vamos ter decisões no dia-a-dia. O PS é o partido alternativo para governar. E o nosso secretário-geral, o José Luís Carneiro, é uma pessoa muito experiente, com muita preocupação em fazer bem e tem camadas de conhecimento que lhe vão permitir ter resistência para fazer este caminho longo, mas do qual irá sair vitoriosa.
António Costa escreveu agora o prefácio de um livro de Vital Moreira, em que diz que as oposições deviam aprovar quase de forma automática os orçamentos do Estado, desdramatizando, e deixar as grandes questões e as grandes reformas fora do orçamento do Estado. O Partido Socialista deve seguir este conselho do António Costa e até 2029 ir viabilizando os orçamentos?
Faço um paralelismo com aquilo que me começaram por perguntar, entre a aprovação de um orçamento municipal ou de um orçamento nacional. É responsabilidade de todos, como o António Costa referiu e bem. Temos de estar sempre disponíveis para contribuir para que os portugueses tenham as melhores soluções, onde a governação certamente vai ter uma responsabilidade grande na melhoria da vida das pessoas. Ou seja, eu concordo com isso, subscrevo.
“Naturalmente é mais difícil não apoiar Seguro”
Dia 19 de outubro o PS deve unir-se de forma inequívoca em torno da candidatura de António José Seguro para Belém?
Vou estar à espera da reunião, vamos ter amanhã a Comissão Política…
Mas terá a sua opinião.
Vamos esperar. Eu sou dirigente nacional do Partido Socialista. Tenho o dever e a responsabilidade, no quadro da direção do PS, de termos aqui uma conversa muito séria sobre isso. E depois cada um de nós vai dizer aquilo que pensa.
Mas o PS deve fechar o apoio a um candidato?
Deve, naturalmente, declarar o apoio a um candidato.
E tendo um ex-líder do PS na corrida, torna-se mais difícil não o fazer em torno de Seguro, não é?
Naturalmente que sim, isso são tudo factos. Tenho a convicção de que o caminho está a ser feito e vamos esperar por essa reunião.
Segue-se o bloco Carne ou Peixe, em que o convidado tem de escolher uma de duas opções. Com quem aqui ia patinar na pista do Palácio do Gelo em Viseu? Fernando Ruas Fernando Ruas, do PSD, ou Bernardo Pessanha, do Chega?
Fernando Ruas.
Na segunda volta das presidenciais, António José Seguro fica pelo caminho. Sobram Gouveia e Melo e Marques Mendes. Qual dos dois escolheria?
Não tenho ainda de tomar essa decisão.
Para ir a Alvalade ver o próximo jogo da Champions contra o Marselha, quem é que levava consigo? Luís Montenegro ou Mariana Mortágua?
Luís Montenegro.
Vamos imaginar que o restaurante Cortiço decide fazer um dia de degustação com os melhores pratos que já confeccionou. Levaria Pedro Nuno Santos ou José Luís Carneiro?
José Luís Carneiro.