Num corredor da Biblioteca Nacional, em Lisboa, onde durante meses diz ter sido “o primeiro a entrar e o último a sair”, o autor João Pedro George confessa-se aliviado. Chegou a perguntar-se se alguma vez conseguiria chegar ao fim do que são agora 840 páginas, construídas ao longo de oito anos, em torno dos 84 anos da vida de Herberto Helder (1930-2015), considerado por muitos o mais importante poeta português da segunda metade do século XX.
Se Eu Quisesse Enlouquecia, título retirado da primeira frase do icónico Os Passos em Volta, não é – nem será – uma biografia consensual. Primeiro, porque o auto-intitulado “poeta obscuro” se tornou famoso pela reserva pública. Recusava visitas, entrevistas, prémios, incluindo o Pessoa, em 1994. À sua volta, pedia silêncio, como se vê no documentário de 2007 Meu Deus Faz com Que eu Seja Sempre Um Poeta Obscuro, em que a maior parte das fontes se recusa a falar. Ainda hoje, o filho, o colunista Daniel Oliveira, prefere respeitar os desejos do pai. A viúva, Olga Lima, e dezenas de outros, colaboraram, embora, e sobretudo em temas mais íntimos ou controversos, se cite um número significativo de fontes anónimas – outro tema sensível.
No seu melhor, o calhamaço de João Pedro George revela uma paciência obsessiva para se perder em arquivos, registos e correspondência. Faro apurado, o prazer das pequenas descobertas. Sai daí, por exemplo, a revelação da causa da morte da mãe de Herberto quando este tinha oito anos e que o marcou para sempre. As extraordinárias cartas da juventude. As notas escolares inflaccionadas nos relatos ao pai e aos amigos.
Peca pela dificuldade em assumir uma voz própria. Fá-lo, refuta George, pelo que escolheu incluir. O mar revolto de citações entretecidas torna-se difícil de navegar face à repetição de informações, à escassez de notas e de dados biográficos sobre certas fontes. Por exemplo, a dada altura “Mário de Carvalho” fala sobre as aventuras de Herberto em bordéis. É quase inevitável não pensar no escritor, quando se trata de um jornalista.
Em Se Eu Quisesse Enlouquecia, fala-se da infância, da família, da ambição enquanto poeta, do folclore dos cafés e das tricas do meio literário, sufoca-se nas derivas pela Europa e respira-se na aventura angolana. Não há literatura – “não sou crítico literário” – mas há dezenas de affairs. “Acho que o Herberto tinha uma tesão por mulheres um bocado doentia, devia ter uma líbido hiperativa”, comenta a viúva, com quem tinha uma relação aberta.
João Pedro George diz ter querido acabar com o mito e falar do “gajo normal” por trás de uma obra única, que ele nem conhecia assim tão bem. Na verdade, esta biografia podia nem sequer existir.
▲ A capa de "Se Eu Quisesse, Enlouquecia", biografia de Herberto Helder por João Pedro George, publicada pela Contraponto
Por que razão se lançou a fazer esta biografia?
Na altura, propus à Contraponto duas ideias para biografias. Uma do Herberto Helder, a outra do Miguel Esteves Cardoso. E a primeira decisão até foi “vamos tentar o Miguel Esteves Cardoso”, que respondeu “Nem pensar nisso! Ninguém faz a minha biografia!”
O mesmo que o Herberto Helder diria.
Depois acabou por passar para o Herberto.
Que ideia tinha do Herberto Helder? Já era um leitor?
Não sabia mais do que a maior parte das pessoas. O facto de ser o autor que não gosta de dar entrevistas, que não queria fotografias… que havia um mistério. E quando sabemos que as pessoas carregam um segredo, isso é magnético. Até então só tinha escrito um texto, um bocadinho por irritação, por ter visto os obituários da morte do Herberto.
O que o irritou neles?
Aquela mitificação, como se não fosse deste mundo. Parece que tudo aquilo em que tocava se transformava em ouro. Que o que ele escrevia vinha quase por iluminação divina. Pareceu-me tudo ridículo. E depois comecei a ver que as pessoas se repetiam umas às outras. Não saíam dos estereótipos. E isso é um péssimo serviço à literatura portuguesa, em particular ao Herberto. Porque é uma desumanização do próprio Herberto.
E quis mostrá-lo como…
Um gajo normal. Um ser humano. Com as mesmas necessidades, defeitos e atos de nobreza.
Parte para este trabalho com que perguntas? O que o intriga?
Queria saber o que levava este homem a não querer dar entrevistas, a não deixar sequer que o fotografassem. Que abismos tinha para tomar esta decisão tão radical e tão contra a corrente social. O Herberto tinha horror à celebridade. Hoje, a celebridade é a grande ambição da maior parte das pessoas. O simples facto de ele não querer ter biografia passa a fazer parte da biografia dele.
Por que razão tinha ele esse “horror à celebridade”?
Porque – e eu sinto isso à minha escala muito reduzida – o excesso de exposição, de solicitações exteriores, até de vida social, é prejudicial à escrita e à produção artística. São coisas que nos dispersam, destabilizam, desconcentram. E a produção cultural é uma coisa que exige uma certa solidão, que uma pessoa olhe muito para dentro de si e também para os outros.
E o trabalho era de facto a coisa mais importante na vida dele?
Sem dúvida. Eu até diria que, de certo modo, os poemas do Herberto também eram filhos dele.
Ele próprio disse isso [“filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas/ que escreveste contra tudo, pais e filhos,/ lugar e tempo”, in “A Morte sem Mestre”].
Agora não me lembro em que livro, mas sim.
Sabendo que existia à partida muito pouca informação biográfica disponível sobre Herberto Helder, como foi o processo para chegar a estas cerca de 840 páginas? Nota-se que passou muito tempo em arquivos. Que mais?
Diria que 80 por cento do tempo foi investigação e os outros 20 por centro foram escrita. Tive de entrevistar mais de 70 pessoas, fazer viagens…
Houve muita gente a recusar-se a falar?
Algumas, mas a maior parte das pessoas falou.
Muitas sob anonimato.
Algumas, sim.
O que o levou a usar essas fontes, não se sabendo quem são?
Porque me pareceram importantes
Muitas aparecem sem contraditório, até.
Se eu, que sou suspeito, posso fazer algum autoelogio, é que, ao contrário da maior parte das biografias em Portugal, aqui há imenso contraditório. Nem sempre é possível porque há coisas que só aquela pessoa é que as viveu. Por exemplo, o que a Olga me conta sobre o que se passava dentro de casa: não há contraditório possível.
E quem é Aníbal Fernandes, uma das fontes principais, que identifica apenas como “tradutor”?
O Aníbal Fernandes foi das pessoas que melhor conheceu o Herberto. Era engenheiro e a partir dos anos 60 passa a ser também tradutor. Quando o Herberto vai para Angola, é o diretor da Companhia das Águas de Angola. Participavam nas mesmas tertúlias. É aí que se tornam mais amigos. Tinham-se cruzado de forma breve em Lisboa, porque o Herberto tinha lido o Viagem ao Fim da Noite do Céline, traduzido pelo Aníbal Fernandes e quis conhecê-lo. Claro que nessa altura houve várias pessoas que disseram ao Aníbal, “não queiras conhecer esse tipo. Trabalha na Emissora Nacional, deve ser uma pessoa politicamente suspeita”.
Isto por ser a rádio oficial do Estado Novo.
Eram aquelas coisas absurdas que se dizia. Se assim fosse, o mesmo se aplicaria a todas as pessoas que trabalhavam na função pública.
Embora sejam mais de 70 as entrevistas, o Aníbal Fernandes e a Olga são as duas grandes fontes deste livro. Nunca pensou, “estou a fazer isto tudo só com duas fontes”?
Depois tem a “Linda” [pseudónimo], a Alice Sousa, a Estela Guedes [todas ex-relacionamentos, a última também autora do livro Herberto Helder: Poeta Obscuro], o Manuel Rosa também tem imenso espaço
Sim, mas aparece menos.
Repare, a Olga é a pessoa que viveu 40 anos com o Herberto. Obviamente teve de haver um desequilíbrio.
A viúva do Herberto Helder aceitou logo falar consigo?
Não, não, não. Precisei de um ano para a convencer a falar.
E como é que a convenceu?
Dizendo o óbvio, que ninguém conhece o ponto de vista dela e, de certo modo, as pessoas do meio cultural sempre a menorizaram e desprezaram um pouco.
Ela própria diz isso no livro.
Por ser uma pessoa que não é do meio intelectual nem tem esses interesses. Uma mulher que veio de Angola, mestiça. E eu disse-lhe, “Parece-me extremamente injusto que a Olga tenha vivido cerca de 40 anos com o Herberto e que a história contada sobre o Herberto seja a versão de outras pessoas”. Nunca ninguém valorizou aquele, como hoje se diz, lugar de fala.
Em relação aos filhos, a história foi outra. Diz nos agradecimentos que a Gisela Oliveira aceitou clarificar algumas informações, mas que o Daniel Oliveira “não quis colaborar, impossibilitando-me assim de completar ou corrigir muitas opiniões constantes da biografia, nomeadamente o testemunho de terceiros”. Como foi esse processo?
Tentei falar com os dois no início. Ambos recusaram. E depois, quando estava quase a acabar, enviei-lhes um e-email, a perguntar se não queriam reconsiderar. O Daniel respondeu-me a dizer que não. E a Gisela telefonou-me e tivemos uma conversa em que fiz aquilo que gostaria de ter feito com o Daniel, que foi, “tenho aqui o testemunho desta pessoa que diz isto sobre si, o que tem a dizer?”
▲ "O trabalho era a coisa mais importante da vida de Herberto Helder. Sem dúvida. Eu até diria que, de certo modo, os poemas do Herberto também eram filhos dele."
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
No caso do Daniel são citações anónimas, aliás.
Por exemplo.
Por que razão não quis o Daniel Oliveira falar?
Disse que o pai nunca quereria que fizessem uma biografia dele. E eu disse ao Daniel, “mas o teu pai já não está vivo, está morto. Achas que, com a importância que o teu pai tem na literatura portuguesa, ninguém vai fazer uma biografia?”
Em termos de estrutura, o livro baseia-se em citações, sejam de entrevistas, de cartas, de documentos, com pontes feitas por si entre elas. Estas citações chegam a ter uma página ou mais. Por que razão optou por isso, em vez de…
Porque as histórias são das pessoas e elas têm o direito a contá-las com as palavras delas. Mais do que fazer uma paráfrase.
Ou usar citações mais curtas.
Achei que eram suficientemente interessantes para terem essa dimensão. E também por esta razão: eu sei que, em tudo o que faço, há várias pessoas que leem os meus livros à lupa…
Também faz isso com livros de outras pessoas.
Faço, mas não nesse sentido.
Quais são os sentidos?
Eu meto-me em coisas em que percebo que há um padrão. Comigo, as pessoas têm tendência a embirrar com deslizes e pormenores.
Quis proteger-se, portanto.
Se eu fizesse paráfrases por palavras minhas, por exemplo, do que o Aníbal Fernandes disse, as pessoas poderiam dizer “mas quem é que nos diz que ele não está aqui a inventar?”.
Herberto Helder nunca quis dar a conhecer a vida privada. Na opinião de muitos, só a obra importa. Por que razão considera a biografia de um autor tão fundamental?
Em primeiro lugar, um ponto prévio. Não sou crítico literário e faço sempre questão de dizer que sou formado em sociologia. Grande parte do que tenho feito é sociologia da cultura. Um livro quando aparece não tem valor ainda. Uma grande obra é aquela que consegue gerar muitos atos de leitura e de interpretação. De certo modo, é assim que se vai criando um cânone da literatura. Nós os dois aqui já estamos aqui a falar de imensas coisas que não têm nada a ver com o texto em si. São exteriores ao texto.
Porque o seu livro é sobre coisas exteriores ao texto.
Exatamente. E como eu sou de sociologia, a mim interessam sobretudo estes processos que são exteriores ao texto. As dinâmicas sociais, as dinâmicas institucionais que explicam porque é que um texto tem valor.
Voltando à pergunta: qual a importância da biografia?
A biografia visa mostrar que há uma série de condições materiais objetivas exteriores que explicam uma obra. No sentido em que as experiências de vida de um indivíduo são sempre transportadas para a escrita. De uma forma mais ou menos direta, mais ou menos explícita. E se se conhecer bem a biografia dessa pessoa, consegue-se estabelecer relações que ajudam a explicar por que é que um escritor se dedica a estes temas e não a outros. Por que é que escreve de uma determinada maneira e não de outra.
Acha que isso acrescenta à obra?
Acho que enriquece a obra. Não digo que uma perspetiva estritamente literária e esteticista não tenha a sua utilidade. Mas muitas vezes diz mais sobre o crítico do que sobre o próprio autor.
O primeiro capítulo, em que descreve a morte de Herberto Helder, é diferente dos outros. É um bocadinho romanceado.
Não é bem romanceado. Não sei se foi à nota [final], aquilo é construído com base no testemunho da própria Olga.
Certo, mas aquela parte em que ele está sentado e olha para a estante e vê a fotografia do pai [“Quando olhou para a fotografia, talvez tenha expressado interiormente algum arrependimento por ter deixado de falar com o pai.”]
Eu uso sempre o condicional.
Há muitos “talvez” ao longo deste livro. Enquanto biógrafo, qual é a sua relação a especulação ou salto de imaginação?
Não acho que seja necessário. Sei a importância do começo do livro: tenho de agarrar o leitor e começar a puxá-lo. Era esse o objetivo. Só que, quando estava a escrever, quase comecei a ver-me dentro da casa dele, no lugar dele. Passei lá muitas horas à conversa com a Olga e portanto conheço muito bem aquela uma casa.
Permitiu-se, portanto, essa pequena… nem sei como chamar.
É uma efabulação. Pronto. Porque era uma forma de levar o leitor a continuar a ler o livro.
Prossegue com a fotografia da mãe, a grande figura da vida dele [“Sentiu-se vagamente reconfortado quando os seus olhos chegaram a esta última fotografia. Já estaria doente, a mãe, quando aquela imagem foi captada? Sim. Com a saúde já alquebrada, desde o nascimento do filho Herberto, a sua expressão fechada e inescrutável parecia a de uma mulher já pouco ligada à vida, que sabia já a que sabe a morte, antes de morrer”]. O que acha que representa a mãe na vida de Herberto Helder? Descreve-o, primeiro, como um menino da mamã…
… foi o que me contaram…
Ela adorava-o, ele adorava-a, ela conta-lhe histórias, diz-lhe poesia…
Sim, lia-lhe Camões em voz alta, tinha aquela coisa extraordinária de escrever cartas a si própria e de as ler às vezes ao próprio Herberto, quando as recebia, como se tivesse recebido cartas de outra pessoa. É uma coisa que revela já uma mente muito diferente. Esse foi, na verdade, o grande legado da mãe do Herberto e foi isso que levou o Herberto a escrever e se calhar até o levou para a poesia em particular.
E depois a morte da mãe.
Com esse lado terrível de ele ter sido acusado de ser, de forma mais ou menos direta, responsável pela morte da mãe.
De “uma anemia aguda causada por miomas uterinos”. Um informação inédita.
Tirei isso da certidão de óbito. Que é uma informação que eu nunca tinha visto.
Um tema que esperava que fosse mais explorado no livro são os recorrentes estados depressivos que acompanham o Herberto Helder ao longo da vida.
Não acho que explore pouco isso. Até questiono se aquilo seria mesmo uma depressão, aquilo a que chamamos de uma depressão major, porque há momentos em que ele diz que está muito deprimido mas de repente o Vergílio Ferreira diz que o encontrou no cinema. E depois não se esqueça que ele fez psicanálise durante muitos anos com o Fernando Medina depois com o Eduardo Cortesão.
É por isso que escreve, “Então, com 27 anos, Herberto estaria muitíssimo deprimido, mas não ao ponto de o impedir de escrever. Mais do que uma psicopatologia, tratar-se-ia de abulia ou inibição psíquica, motivada pela angústia moral e metafísica, uma consciência crítica que, no seu caso, seria fermento de interrogações, de dúvidas, de inquietações.” Quando li, não entendi, achei que não fazia sentido [seria até incorreto do ponto de vista científico].
Não quero pôr em causa, mas nós também muitas vezes temos tendência a exagerar um bocadinho aquilo que sentimos, não é?
Isto surge no contexto de uma carta dele à artista plástica madeirense Alice Sousa [com quem terá uma relação amorosa], “quase tenho medo de dizer-te que me sinto melhor, receio tanto que sejam memórias ilusórias, esta doença tem sido tão cheia de acidentes que já não sei quando vou melhorar ou piorar parece-me”.
Diria para começar, porque eu já tive namoradas realmente com depressões a sério e jamais uma pessoa que está realmente deprimida seria capaz de querer escrever uma carta. Não é possível. Não quero dizer que ele não estivesse deprimido. Só que nós, quando falamos em depressão, temos graus muito diferentes. Aqui estamos no domínio da especulação, estamos no domínio do talvez. Está a levar-me para o domínio do “talvez”.
Pergunto porque é uma coisa que é muito falada, até mesmo em relação aos longos períodos de silêncio do Herberto Helder e ele próprio fala nisso nos poemas dele.
Claro, e fez análise por alguma razão. Ainda no domínio do “talvez”, ele estava a escrever a uma namorada. E é um escritor.
E um grande sedutor.
Era um grande sedutor, era um efabulador. A Linda conta, e não foi a única, que o Herberto vai duas semanas a Nova Iorque [na primeira metade década de 70], e quando chega ao Toni dos Bifes [ao Saldanha, muito frequentado pelo poeta], quem não soubesse que ele tinha estado só duas semanas, diria que ele lá tinha estado um ano, porque ele falava de Nova Iorque como se tivesse estado lá imenso tempo. Se calhar, ele estava a escrever isso [a carta a Alice Sousa], e também estava a carregar nas tintas, não é?
Uma coisa que me impressionou na promoção deste seu livro foi o press release, em que se perguntava, entre outras coisas “Tinha sentimentos verdadeiros? Era capaz de amar?” Das duas, uma: ou é insultuoso ou…
Mas nós sabemos que há muitas pessoas…
Acha que ele era capaz de amar?
Terá amado muito a mãe, e até podemos questionar-nos se o grande amor da vida dele não foi a mãe. O único não terá sido, porque várias pessoas dizem que ele esteve muito apaixonado por uma Fátima. Acho que, à sua maneira, também amou a Olga. Agora, saber se amou ou não, nunca sabemos, não é?
▲ "Acho, francamente, que esta biografia o torna uma pessoa mais complexa e enriquece a compreensão da sua poesia", diz João Pedro George
Por isso mesmo, porquê incluir essas perguntas na promoção de um livro?
Porque há momentos em que ficamos na dúvida. Porque há momentos em que parece que há uma espécie de entusiasmos momentâneos e que parece que ele às vezes procurava esses entusiasmos também para se motivar para a escrita. Seria um tipo carismático. Devia ser muito sedutor.
Que gostava, diz alguém, mais das mulheres dos amigos do que dos amigos. É má língua?
Isso é uma interpretação. Foi o que me disseram.
Mas está aqui.
Limito-me a reproduzir testemunhos. Evito, na maior parte das vezes, dar uma opinião, fazer o meu juízo sobre esses testemunhos.
Mas não será esse o papel do biógrafo? Face tudo o que recolhe — anos em arquivos, entrevistas, livros – ter um ponto de vista?
Sabe qual é que é o ponto de vista? É a forma como eu organizo a informação. Não quero condicionar as conclusões do leitor.
Vai emitindo algumas opiniões. A dada altura até diz que ele é “mentiroso”.
Mas isso vê-se. Está a falar ao amigo das notas que tirou nos exames para a faculdade.
“Mentiroso” é uma coisa um bocado forte.
Mas toda a gente é mentirosa. Acha que era possível viver em sociedade sem as pessoas serem mentirosas? Acha que uma relação amorosa sobrevive durante muitos anos se não houver mentiras? A mentira é fundamental para a vida em sociedade. Tal como a hipocrasia, o cinismo. Ele mente ao pai [ao dizer que entrou em Direito em Coimbra, quando entrou em Ciências Pedagógicas], terá mentido a algumas mulheres.
Vem daí outra expressão forte que aparece, agora na contracapa do livro, “um homem, enfim, em que o vácuo moral corria, parelhas com a grandeza dos momentos de altíssima inspiração”. O que é este “vácuo moral”?
Porque o Herberto em certos momentos não terá agido da forma mais correta, como aliás todos nós temos momentos em que não agimos da forma mais correta.
Por exemplo?
Por exemplo, acho estranho que ele tenha ido fazer aquela viagem para a Europa com a mulher grávida e que tivesse continuado na sua viagem já com a filha a nascer. [Quando vai para Angola, também deixa em Lisboa o filho bebé Daniel Oliveira]. O facto de ele tentar influenciar alguns críticos e académicas sobre a obra. Sugerir até interpretações. Isso também é bizarro, de um ponto de vista ético.
Não é comum os poetas ou escritores tentarem fazer isso?
Não sei. Consigo imaginar que muitos o façam, mas não tenho provas para o dizer. Neste caso tenho. E, sobretudo, tendo em conta que é um tipo que se dizia que detestava as mundanidades, detestava o meio cultural.
Refere muitas vezes essa duplicidade: dizer bem pela frente e mal pelas costas. Aliás, o meio literário português, ou lisboeta, aparece como um ambiente de tricas e de intrigas, muito tacanho.
Se calhar não é muito diferente do que é hoje. São pessoas simultaneamente capazes de coisas extraordinárias do ponto de vista da criação literária e depois do ponto de vista do seu quotidiano, das relações, são muito mesquinhas, quase até infantis, porque querem promover muito aquilo que fazem. É quase uma espécie de imaturidade emocional. Querem que toda a gente goste daquilo. Não aceitam que uma pessoa diga, “eh pá, não gostei assim muito”.
O Herberto Helder também aparece assim.
Transmitia a ideia de que se estava nas tintas para o que os críticos diziam dele, mas controlava tudo o que saía sobre ele. Aliás, guardava em casa recortes de tudo.
Tem uma má relação com o pai e vem para Lisboa, depois Coimbra e depois Lisboa. Em Coimbra detesta o meio académico. Em Lisboa tem uma vida às vezes quase de indigente. E anda muito no submundo, bordéis, bares, e a dada altura vive mesmo com as prostitutas. Porque é que…
É o que ele diz.
É um motivo recorrente. Depois na Bélgica é a mesma coisa. Duvida disso?
Não sei. [Nesse tema] não é possível ter muito contraditório. Embora o [amigo desde os tempos de Coimbra] Paulo Sucena fale disso, mas acho que é porque o Herberto contava. Nós sabemos era uma época muito marcada por esta ideia do escritor maldito e marginal. Era o Rimbaud, era o Baudelaire. Era muito prestigiante para um poeta.
Acha que ele cultivava essa imagem?
Não digo que o fizesse conscientemente, mas havia esse imaginário. Provavelmente terá influenciado esses interesses por esse submundo das prostitutas, dos bêbedos, dos loucos.
Ao mesmo tempo, ao escrever esta biografia, toma muitos dos textos de Os Passos em Volta e Apresentação do Rosto como autobiográficos, quando ele não os assume assim. Ali não há efabulação?
Claro que aquilo será uma mistura de efabulação, como é óbvio. O que é a escrita senão isso?
Mas toma a liberdade de achar que é autobiográfico.
Aquilo tem muitos momentos autobiográficos, sobretudo quando fala das viagens à Europa, quando fala dos quartos onde viveu, mesmo em Lisboa. Há uma daquelas mulheres de quem ele fala na Bélgica que se reconhece nas cartas que escreveu ao Pedro da Silveira.
Juntou os pontos.
Também não podemos partir do princípio que uma pessoa está sempre a mentir. Claro que é sempre no condicional, mas uma biografia é sobretudo uma construção do biógrafo. É a forma como o biógrafo organizou a vida do Herberto. Se calhar o Herberto dir-me-ia “mas por que estás a excluir isso? Isso é muito mais importante do que aquilo que tu incluíste”.
O que o surpreendeu mais em relação à pessoa que encontrou e à que achava que ias encontrar?
Essa parte de ele estar nos bastidores a fornecer informação biográfica. O facto de ele ajudar as académicas e os críticos literários a interpretarem a obra dele. Como ele se queria afastar de todo este meio, das suas instituições, das suas convenções, pensei que ele seria um daqueles poetas que se estavam nas tintas, que nem tinha contacto com os críticos.
A Linda diz que acha que ele se afastou da vida pública por uma questão de controle da própria imagem. Qual é a sua opinião?
Talvez tenha sido o ter estado perto da guerra em Angola. E depois, provavelmente, o facto de, de repente, a Maria Estela Guedes ter começado a contar tudo nos jornais.
Aquilo é um lavar de roupa suja que não acaba nunca [depois uma relação amorosa com a académica, durante a qual Guedes publica Herberto Helder: Poeta Obscuro, os dois desentendem-se e o caso vai parar à praça pública].
Exatamente. Acho que aí ninguém fica bem. Nem ele, nem ela. Ela própria reconhece que se excedeu. Ele, numa carta à [académica brasileira] Maria Lúcia Dal Farra chama-lhe uma burguesa histérica [“É uma chatice ir para a cama com uma pequeno-burguesa provinciana e megalómana. Acaba tudo em anúncio de jornal, em folhetim pornográfico”] e, segundo ela, ele foi lá a casa destruir todas as cartas que lhe escreveu. Aliás, ele tinha em casa uma daquelas máquinas de triturar papel, oferecida por uma amiga da Olga, e, a partir de certa altura, destruía todas as cartas que lhe escreviam. Acho que se divertia mesmo a pôr aquilo na máquina.
Esse lado dos inúmeros casos e engates. Ele e a Olga tinham uma relação aberta. Além das histórias mais desenvolvidas, dá espaço a breves descrições anónimas de preferências sexuais. Por outro lado, escreve que “o erotismo, ou a contemplação erótica” eram “um dos grandes detonadores da sua poesia”.
Essa relação com o corpo feminino, incluindo a mãe, a prostituta, todas essas diversidades – ou seja, não é a mulher, mas as mulheres – acho que é um dos motores da escrita dele. Não será o único, mas é um dos mais importantes. E depois, há aqui um aspecto que nunca podemos esquecer, que é, escrever uma biografia é como fazer um zoom sobre a vida de uma pessoa. Quando se faz esse zoom, começa-se a encontrar imensas imperfeições. Portanto, qualquer vida, não só do Herberto.
Surpreendeu-me perceber que a relação intensa que ele tinha com a natureza vinha de muito pequeno. Uma vez, conta a um amigo como tinha sido tão boa a sensação de estar enterrado na lama e sentir o calor da terra.
Isso é o [amigo das tertúlias do Largo da Misericórdia] Augusto Trigueiros que conta.
▲ "Ele considera que a racionalização do mundo ocidental nos afastou desse lado misterioso da existência que encontramos na natureza. E que a última forma de estabelecer essa ligação é a poesia."
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Essa imagem não me saiu da cabeça, porque evoca a fortíssima ligação às forças da terra e da natureza que aparece na obra dele, seja de um ponto de vista místico, alquímico, biológico. Há como que uma sensação de deslumbramento permanente: aqui estou eu no cosmos, sob as estrelas, sobre a terra, entre as serpentes, as crianças, as mulheres.
A natureza, tal como se as mulheres e os seres humanos em geral, têm coisas de uma enorme beleza e também, ao mesmo tempo, de um grande horror, de um grande terror. E eu acho que isso fascinava o Herberto, essa coexistência entre coisas belíssimas e tenebrosas. A luz só faz sentido se soubermos que existe a escuridão.
Ele fala muito num caos que existe dentro dele e que ele tenta ordenar através da poesia.
Sim.
Tinha também um grande interesse pelo oculto, pelo mistério, a magia, os povos primitivos, as linguagens e rituais sagrados. Traz para o português poesia “dos peles-vermelhas”, esquimós, dos índios da Amazónia.
Ele considera que a racionalização do mundo ocidental nos afastou desse lado misterioso da existência que encontramos na natureza. E que a última forma de estabelecer essa ligação é a poesia. O único lugar onde ainda é possível construir mitos e estabelecer uma ligação instintiva a momentos mais ancestrais. Ou seja, de certo modo a poesia era uma espécie de último reduto onde o ser humano tentava competir com os deuses, que era a construir cosmogonias [narrativas sobre a origem do mundo].
Tem a esse propósito um comentáriozinho um bocado mauzinho…
Eu sou mauzinho em geral.
… que ele próprio competiria com Deus.
Deve ter sido qualquer coisa assim.
Ao mesmo tempo, é contraditório com o facto de ele ser avesso a ser pai.
Não sei se ele era avesso, porque algumas pessoas me disseram que ele até gostaria de ser um bom pai. Mas acho que de facto sentia uma enorme impotência e uma incapacidade. Sentia que não conseguia. E isso também o fazia sofrer um pouco.
A Linda fala da culpabilidade que ele sentiria, mas é um tema pouco explorado na biografia.
Do que percebi, o Herberto percebeu que aquilo estava para além das forças dele e, provavelmente, que era incompatível com esta dedicação obsessiva à poesia e à escrita. O Herberto, para todos os efeitos, foi um homem que se realizou do ponto de vista da escrita e da poesia.
Outra idiossincrassia era a de não ter dinheiro.
Sim, embora seja uma pobreza sui generis quando se tem vários amigos que têm dinheiro. Podia ter arranjado um trabalho. Aliás, antes, sempre conseguiu arranjar trabalho. Ele escolheu ser pobre. E portanto isso é significativo.
Que papel desempenha a Olga na vida dele? O de uma mulher-mãe?
Isso é a interpretação de muita gente. Eu não diria. A minha interpretação é que a Olga é uma mulher especial. Não conheci muitas mulheres como a Olga. Não tem pelos na língua. Quando uma pessoa não tem pelos na língua, às vezes também é injusta. E a Olga, às vezes, é injusta. Tem o coração na garganta. Não é muito fácil lidar com uma pessoa assim mas, quando se começa a conhecer a pessoa, isso passa a fazer parte da personalidade e eu, de certo modo, até gosto de pessoas assim.
E em relação a Herberto?
A Olga deu condições ao Herberto para se preocupar exclusivamente com a sua obra.
Está a falar da chamada “cama, comida e roupa lavada”?
Sim, deu-lhe estabilidade. Foi uma escolha da Olga. Ninguém tem direito a criticar.
E ela diz isso muitas vezes.
O mesmo em relação a muitos outros escritores. O Vergílio Ferreira no [diário] Conta-corrente está a falar sobre a metafísica, a angústia existencial e a sátira, e de repente diz, “tenho que parar de escrever que a Regina chamou-me para jantar”. Como é que o Jorge de Sena, que tinha oito ou nove filhos, conseguiu escrever aquela obra interminável? E ninguém fala da Mécia [de Sena]. O Herberto era uma pessoa daquela época, mas de modo algum acho que ele ficou com a Olga por ela lhe passar as camisas. Há nela uma força, uma personalidade, que ele não veria numa académica ou numa intelectual ou numa escritora.
Embora tivesse casos com muitas.
Embora tivesse casos, mas com a Olga se calhar estava muito mais próximo daquilo que eram os seus interesses artísticos e poéticos, porque ela, ao mesmo tempo, é uma pessoa muito instintiva. Devia dar muita luta.
Ele saía de casa de manhã e chegava à noite. E há uma coisa muito condenada que é ele não só não a apresentar a ninguém mas não dizer sequer que existia.
Mas isso, pelo que percebi, tem a ver com o facto de o Herberto ser uma pessoa com certos fetiches. Não sei até que ponto é que isso não seria também uma espécie de jogo erótico, só entendível entre os dois.
A Linda fala dele muitas vezes como um narcisista, e a dada altura também usa esse termo. Ele era um narcisista?
Quase todos os artistas e escritores são muito narcisistas. Conseguir produzir alguma coisa implica que uma pessoa passe muito tempo consigo própria, a olhar muito para o seu umbigo. E depois o próprio facto de querer fazer uma coisa que todos os outros apreciam e gostem. Acho que ele era narcisista como se calhar eu sou narcisista.
A sua opinião sobre o Herberto Helder foi evoluindo à medida que fazia a biografia?
Foi evoluindo. E foi flutuando. Acho, francamente, que esta biografia o torna uma pessoa mais complexa e enriquece a compreensão da sua poesia. Todos temos defeitos e questões éticas. Estávamos à espera do quê? Que fosse um santo? Exigir a alguém que seja perfeito é uma coisa de um fascismo terrível. Eu, por exemplo, não gosto de mulheres muito bonitas. Gosto de uma beleza com imperfeições. Para dizer a verdade, fiquei a simpatizar com o Herberto mais do que simpatizava antes, e acho que este livro é uma homenagem ao Herberto, ao contrário do que se calhar algumas pessoas dirão. Dediquei oito anos da minha vida a estudá-lo, a querer conhecê-lo, a querer compreendê-lo.
Gostava de o conhecer?
Adorava. Queria só ouvi-lo. Só de o ouvir já teria uma série de respostas para coisas que estão aí.
Por exemplo?
Isso de ser um efabulador, de ser um sedutor, embora eu ache que ele investia mais na conversa quando estava perante uma mulher do que perante um homem.
Portanto, partia em desvantagem.
Partia em desvantagem.
Joana Stichini Vilela, jornalista e escritora, é curadora da exposição “1.ª Edição. Uma Autobibliografia” sobre Herberto Helder, na livraria Buchholz, em Lisboa, patente até ao dia 31 de maio.