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Todas as facetas do escritor são-nos reveladas na Buchholz precisamente por causa dos livros expostos, e não à margem deles. O título da exposição — 1.ª Edição – Uma Autobibliografia — não foi apenas pensado a apontar para a pulsão fetichista de ver obras raras, como folhetins de baixa tiragem e pior qualidade de papel
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▲Todas as facetas do escritor são-nos reveladas na Buchholz precisamente por causa dos livros expostos, e não à margem deles. O título da exposição — 1.ª Edição – Uma Autobibliografia — não foi apenas pensado a apontar para a pulsão fetichista de ver obras raras, como folhetins de baixa tiragem e pior qualidade de papel

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

▲Todas as facetas do escritor são-nos reveladas na Buchholz precisamente por causa dos livros expostos, e não à margem deles. O título da exposição — 1.ª Edição – Uma Autobibliografia — não foi apenas pensado a apontar para a pulsão fetichista de ver obras raras, como folhetins de baixa tiragem e pior qualidade de papel

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Herberto Helder, 10 anos depois da morte: o “poema vivo” revela-se numa exposição em forma de "autobibliografia"

Perto de 60 exemplares de primeiras edições celebram a obra e o legado do poeta na livraria Buchholz, em Lisboa — partindo de um colecionador anónimo e para que seja lido e relido. Até 21 de maio.

Herberto Helder morreu a 23 de março de 2015. Volvida uma década, uma exposição organizada na Livraria Buchholz, em Lisboa, não só celebra o legado literário de um dos grandes poetas da língua portuguesa, como fá-lo com uma apresentação inédita de todas as primeiras edições da sua obra — os livros publicados em vida e os inéditos lançados após a morte.

Nesta mostra — espalhada em dois andares diferentes da histórica livraria lisboeta até 21 de maio —, temos presente desde o Herberto Helder que se estreou fulgurantemente na cena poética em 1958 com O Amor em Visita, ao decano que chegou ao fim de vida deixando Poetas Canhotos como despedida. Pelo meio, surge o poeta a deambular pelas fases surrealista e experimental, o criador desafiante alvo da censura do Estado Novo, o companheiro de aventuras literárias com outras luminárias da edição portuguesa, o viajante que acumulou trabalhos precários para alimentar a sua arte e que trouxe poesia dos locais por onde passou — física e mentalmente — ou o autor consagrado que, não obstante a fama, recusou encómios, eventos públicos e entrevistas.

No entanto, todas estas facetas do escritor são-nos reveladas na Buchholz precisamente por causa dos livros expostos, e não à margem deles. O título da exposição — 1.ª Edição – Uma Autobibliografia — não foi apenas pensado a apontar para a pulsão fetichista de ver obras raras, como folhetins de baixa tiragem e pior qualidade de papel. É, na verdade, para destacar a sua “vida literária, que era aquela que ele queria partilhar. Ele achava que o resto não interessava”, conta Joana Stichini Vilela — jornalista, escritora e curadora desta iniciativa — numa visita guiada ao Observador (onde também é colaboradora habitual). “Ele falava pouco sobre a obra, queria que esta falasse por si. Portanto, o que temos aqui é aquilo que o Herberto Helder queria que fosse visto”, defende.

▲ A exposição mostra a relação simbiótica de Herberto Helder com as edições dos seus livros e como estas refletiam um determinado período da sua vida — a dita “autobibliografia”

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Não obstante a forma hermética como Herberto Helder encarava o seu próprio legado poético, esta não é uma exposição destinada apenas a entendidos ou entusiastas: todas as obras expostas estão intercaladas com notas explicativas e excertos que ajudam a situar até o visitante mais incauto. “Fica-se com uma ideia de quem foi, da importância que teve como uma voz absolutamente única da poesia portuguesa, através da sua obra, porque era o que ele queria, e com alguns pontos biográficos, algumas histórias curiosas sobre a edição independente portuguesa e sobre a cena literária — as histórias com Luiz Pacheco e Vítor Silva Tavares, as viagens, o facto de ele ter sido uma pessoa extremamente ligada aos ecos da geração Beat, dos surrealistas, dos hippies e por aí fora”, afirma Joana Stichini Vilela.

Para tal, contribuem também outros artigos cedidos para esta iniciativa, como a correspondência que Herberto Helder trocou com Sophia de Mello Breyner Andersen e Eduardo Lourenço, assim como as suas participações em revistas literárias — entre as quais a Poesia Experimental 2, de 1966, onde surgem únicos poemas visuais que fez, como Ascensão dos Hipopótamos.

Um homem em busca do “poema universal”

Mais do que informar diretamente o visitante do que trata esta exposição, o seu título carrega um sentido mais profundo, a relação simbiótica de Herberto Helder com as edições dos seus livros e como estas refletiam um determinado período da sua vida — a dita “autobibliografia” que nos é então apresentada.

“Há livros aqui que têm primeiras, segundas, terceiras e até quartas edições, mas o que acontece é que elas são sempre diferentes, porque ele acreditava num ‘poema vivo’, um poema que a dada altura ele chama de flutuante”, sublinha a curadora. Tal fica desde logo patente no texto que deu Herberto Helder a conhecer ao mundo, O Amor em Visita, convencido que foi por Luiz Pacheco a editar 500 exemplares em folhetim de papel costaneiro através da sua editora Contraponto.

"Na alquimia, há aquela ideia de transformar um metal bruto em ouro. Aqui é transformar palavras avulsas e dar-lhes uma forma que seja um poema perfeito, é isso que ele procura. Ele está constantemente a fazer isso”, observa a curadora.

Manuseando com a necessária delicadeza, Joana Stichini Vilela mostra como um desses 500 exemplares aqui exposto tem, além de dedicatória, anotações específicas não só quanto à edição, mas à natureza dos próprios versos e das palavras que os compõem. A palavra “místico”, por exemplo, vem sublinhada e acompanhada de uma chaveta que indica que os vocábulos alternativos “espiritual, sagrado, firme, lento” seriam aqui igualmente válidos. “Ele faz isto porque a grande busca da vida dele é pelo poema perfeito. Para ele, a poesia era a forma de expressão ‘superlativa’”, adianta.

Percorrendo as diferentes edições da mesma obra, é possível verificar que surgem com tamanhos diferentes, porque cada reedição era uma oportunidade para Herberto Helder reescrever, realinhar ou reforçar os seus poemas e textos. “Com Os Passos em Volta, que é capaz de ser o livro mais conhecido dele, a primeira edição é muito diferente da última. Ele vai acrescentando textos e faz este jogo”, sugere. Outro famoso lançamento — Cobra, editado pela &etc já depois do 25 de abril, em 1977, e pondo fim ao hiato a que se tinha votado — foi “desmembrado” ao longo dos anos, com alguns dos seus poemas — ou partes deles — a surgir noutros livros subsequentes. Joana Stichini Vilela aponta, para, por exemplo, o facto de os versos “a Primavera era cruel / como um colar de pérolas” aparecerem numa antologia mais tarde como “redonda a Primavera”, ou a substituição do termo “África” por “memória”, dado o facto de ter vivido em Luanda décadas antes.

Com Cobra, Herberto Helder daria também seguimento a uma prática que lhe dava particular prazer. O poeta encomendou ao editor Vítor Silva Tavares 1200 exemplares, mas 200 foram reservados para si, para oferecer individualmente com “dedicatórias, rasuras e emendas”. “As flutuações são permanentes e cada uma dá origem a uma nova obra. Ou melhor, a possíveis existências de uma mesma obra”, denota a curadora. O próprio faria tal reconhecimento numa carta endereçada ao crítico Eduardo Prado Coelho e publicada na revista Abril: “Não é excitante que um livro não se cristalize, não seja ‘definitivo’”?.

▲ Quem optar por fruir da exposição sem o arqui-propósito da criação de uma poesia universal, pode deter-se na forma como cada livro apresenta uma vinheta muito particular de um momento da vida do poeta

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

“É uma busca contínua, ele procura o poema universal. Aliás, estas ideias todas, do misticismo até do esoterismo — o Cobra é extremamente alquímico, a ideia da continuidade, o Ouroboros, a serpente que come a cauda e vai continuando. Na alquimia, há aquela ideia de transformar um metal bruto em ouro. Aqui é transformar palavras avulsas e dar-lhes uma forma que seja um poema perfeito, é isso que ele procura. Ele está constantemente a fazer isso”, observa a curadora.

Essa procura, contudo, não se cingiu apenas à própria criação, ao seu espaço geográfico ou sequer ao seu tempo vivido. Outra das marcas da produção de Herberto Helder está bem presente nesta mostra com a exposição de livros como O Bebedor Nocturno (1968), As Magias (1987) ou Ouolof (1994). São livros onde passa para português poemas “de todos os cantos do mundo e de todos os tempos” — da Bíblia aos maias, de versos Zen ao Antigo Egito —, mas fazendo-o numa tradução livre, filtrada pelo seu próprio entendimento. “Ele transforma aquilo em coisas dele. E, de novo, procura um poema universal. São fórmulas de palavras que, de certa forma, possam ser sentidas universalmente”, sugere a curadora.

Das censuras às “pachecadas”

Quem optar por fruir da exposição sem ter este arqui-propósito da criação de uma poesia universal, também pode fazê-lo ao deter-se na forma como cada livro apresenta uma vinheta muito particular de um momento da vida de Herberto Helder.

Os Passos em Volta, por exemplo, carrega consigo o espírito dos surrealistas do Café Gelo que abraçou a uma primeira instância, para pouco tempo depois rejeitá-lo e entrar nas derivas mais experimentalistas de Electrònicolírica (1964) e Húmus (1967). Aqui, acredita que qualquer coisa pode servir para fazer poesia, “um corpo orgânico em que a experiência, devidamente articulada, se baste”, afirmou numa das raras entrevistas que deu, ao seu amigo e cúmplice Fernando Ribeiro de Mello.

Segundo a curadora, a esta mostra proporcionou-se de forma algo casual, quando mencionou em conversa com alguém que estava a organizar eventos culturais na Livraria Buchholz, recebendo como resposta: “Gosto muito do Herberto Helder, tenho colecionado toda a sua obra, vocês têm alguma coisa dele?”

Um dos momentos cimeiros da sua vida surge com A Apresentação do Rosto, de 1968, o seu primeiro e único livro a ser censurado pelo Estado Novo. Junto ao exemplar surge o relatório da censura, onde o censor admite que esta era uma “autobiografia […] de índole esquerdista, escrita em linguagem surreal e hermética”, que não mereceria “qualquer reparo” não fossem as “passagens de grande obscenidade”, como esta:

“Uma semana de bebedeira ininterrupta
— e aparecem as amiguinhas,
vamos todos de um lado para outro,
bando apocalíptico,
animado por um furor malsão, uma alegria brutal.
Arranjamos um quarto,
despimo-nos,
e depois estamos noutro quarto,
e estamos a despir-nos,
e de novo a fazer amor,
quatro, seis, oito em cima do tapete —
o terrível milagre de uma alucinação de pernas,
braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.
E uma madrugada, só,
vagueando pelos cais desertos,
no meio da luz suja e trémula,
ressurge o horror da inteligência.”

“Além de ser absolutamente extraordinário por si só, é ainda mais por ser publicado durante o Estado Novo… É dissoluto e dissonante, porque ele era muito influenciado pela geração Beat, pelo Henry Miller, ele gostava dos Doors por exemplo, mais tarde da Patti Smith. É alguém muito ligado à contracultura americana e à cultura rock”, afirma Joana Stichini Vilela. O caso deixa-o desgostoso e não só leva-o a renegar o livro e pedir aos amigos que destruíssem os exemplares que encontrassem — A Apresentação do Rosto só seria reeditado em 2020, depois de morrer —, como fê-lo parar de publicar durante quase 10 anos. No entanto, verdadeiro aos princípios que o norteavam, não deixou de seguir o mesmo caminho já descrito, retrabalham excertos deste livro “maldito” em obras futuras.

▲ "Lendo a obra de Herberto hoje, há muito a ganhar, há muito a sentir, há muito a refletir. Há sempre coisas surpreendentes, no tom, no conjunto, nas referências, nos motivos”

Se alguns exemplares nesta exposição representam fases capitais da vida de Herberto Helder, outras contribuem para pintar a sua vida do pitoresco que ela representou. É disso exemplo um folheto de 1971, em que o poeta quebrou o seu silêncio para escrever três poemas apresentados no âmbito de uma exposição na Sociedade de Belas Artes da artista Maria Paulo. Naquilo que descreve como uma “pachecada”, a curadora diz que Luiz Pacheco começou a vendê-los à revelia do seu autor quando chegar a essa exposição: agarrou os folhetos e escreveu ‘três inéditos’ em cada um, e depois, em baixo, ‘Contraponto’”, o nome da sua editora.

Outro caso particularmente divertido ocorreu a propósito de um outro folheto de Herberto Helder, desta feita já em 1978, findado o silêncio. Tratava-se de O Corpo O Luxo A Obra, concebido com Silva Tavares para a &etc com a minúscula tiragem de 250 exemplares, numa fase em que o poeta já era um nome famoso. “O Pacheco acha que aquilo é muito pouco, que é um golpe de vaidade. e resolve, desafiado por um tipo do Porto, fazer uma edição pirata. Então copia o livro, exatamente, e faz mil exemplares para distribuir, sem dizer nada a ninguém. É uma loucura, eles zangam-se a sério. O Silva Tavares vai falar com o Herberto Helder, que diz que vai fazer queixa na PJ — acho que chega mesmo a fazer queixa, mas depois retira-a”, conta a curadora.

Os dois — Helder e Pacheco — chegariam mesmo a vias de facto num dos mais famosos cafés de Lisboa nesse tempo, o Monte Carlo. Reza assim a história, contada pelo editor da Contraponto: “Eu encontrei o Herberto com a sua corte habitual do Café Monte Carlo, trocámos poucas palavras e eu chateado, e estava com os copos, talvez, agarrei num copo de cerveja que tinha na mesa e mandei-lhe-o às barbas. E ficou com as barbas a pingar. Ficou bonito. Mandou-me com uma garrafa à cabeça, mas não me matou. A guerra acabou ali”.

“Retira a 'Apresentação do Rosto' da bibliografia oficial, renega ao período experimental, deixa de se identificar como surrealista. É um poeta sem escola. O que tira destas experiências é uma grande liberdade — e a liberdade parece-me que é uma palavra-chave na obra de Herberto, no percurso e na forma como foi lidando com a poesia, que era uma dedicação extrema, mas com uma grande liberdade pessoal”.

Apesar do inusitado da situação, este episódio ajuda também a desmistificar a ideia de Herberto Helder como um misantropo ermita, confundindo-se entre um autor que não quer ter uma vida pública de um autor sem vida social. “As pessoas que o conheciam diziam que ele era uma pessoa extremamente simpática, com muito sentido de humor. Ele ia com grande frequência a Lisboa, ao café, onde encontrava as mesmas pessoas. No entanto, achou e decidiu isso para si que não ia dar entrevistas, que não ia receber prémios e não queria reeditar livros que já não eram ‘aqueles’”, aponta a curadora.

A esse respeito, Joana Stichini Vilela diz que Herberto Helder pautava-se por ser uma pessoa sem medo de renegar ou remover aspetos da sua vida artística. “Retira a Apresentação do Rosto da bibliografia oficial, renega ao período experimental, deixa de se identificar como surrealista. É um poeta sem escola. O que tira destas experiências é uma grande liberdade — e a liberdade parece-me que é uma palavra-chave na obra de Herberto, no percurso e na forma como foi lidando com a poesia, que era uma dedicação extrema, mas com uma grande liberdade pessoal”.

▲ Se alguns exemplares nesta exposição representam fases capitais da vida de Herberto Helder, outras contribuem para pintar a sua vida do pitoresco que ela representou

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Dada a proximidade da sua inauguração com o assinalar dos 10 anos da morte do poeta, a exposição também assume indelevelmente esse papel de promover a sua obra — quiçá, expondo-a a novos leitores. Tal desígnio é também curioso dado que, segundo a curadora, a esta mostra proporcionou-se de forma algo casual, quando mencionou em conversa com alguém que estava a organizar eventos culturais na Livraria Buchholz, recebendo como resposta: “Gosto muito do Herberto Helder, tenho colecionado toda a sua obra, vocês têm alguma coisa dele?”. Esse “alguém” acabaria por ser um colecionador de grande parte das primeiras edições do poeta. “A dada altura, comecei a juntar as coisas, e não descansei enquanto não reuni tudo”, disse à curadora, que agora relata: “Atirei o barro à parede e perguntei-lhe se não queria expôr tudo isso”. Assim foi, e seis meses depois desse contacto inicial, a mostra foi inaugurada.

Questionada se, dada a sua postura perante a literatura e o que é ser um autor independente, a morte de Herberto Helder deixou um vazio na cultura portuguesa, Joana Stichini Vilela prefere encarar a coisa de outro modo, dizendo que o seu trabalho nos deixou a todos mais cheios. “O que é preciso é ler, ir à procura, mesmo havendo coisas que já é impossível encontrar, a não ser nas bibliotecas. Lendo a obra dele hoje, há muito a ganhar, há muito a sentir, há muito a refletir. Há sempre coisas surpreendentes, no tom, no conjunto, nas referências, nos motivos”, aponta.

Livraria Buchholz: Rua Duque de Palmela, 4, Lisboa. De segunda a sexta, das 10h às 19h, sábado das 10h às 14h.

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