Ao segundo dia da edição de 2025, o MEO Kalorama foi um festival de afirmação e libertação criativa. Coincidindo pela primeira vez com o Mês do Orgulho LGBTQIA+ — este sábado há inclusive uma marcha na Avenida da Liberdade — o evento do Parque da Bela Vista apostou num dia com vários artistas ligados à comunidade e àqueles que exploram a sexualidade de uma forma libertadora com a sua música.
Ninguém melhor para cumprir esse papel do que FKA Twigs, a artista britânica que no início deste ano lançou o seu (muito) aclamado terceiro álbum de originais, Eusexua. Inspirada pelo imaginário do techno e do submundo europeu das raves, a cantora de 37 anos construiu uma pop avant-garde, embebida em eletrónica, que no palco se traduz numa performance coesa de qualidade superior.
Eram duas da manhã quando as luzes brilharam no palco principal do MEO Kalorama e uma ampla estrutura metálica se iluminou ao centro. FKA Twigs mostra logo ao que vem — este não é um mero concerto, é uma performance que é tanto do som como do corpo. Ela própria uma bailarina antes de seguir a sua carreira como cantora, liderou uma comitiva de talentosos dançarinos que iam, com os seus movimentos teatrais, tecendo um universo visual a servir de casa para estas canções.
▲ FKA Twigs
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
O cenário é industrial, futurista, com uma aura quase pós-apocalíptica. É como se a pop de FKA Twigs tivesse entrado no Berghain ou em qualquer outro templo maior do techno. Num jogo constante de luzes e sombras e com os ecrãs gigantes a preto e branco, os passos dos performers — quase nus desde os primeiros minutos — são eróticos e esta música tem uma carga sexual inerente, que vai sendo libertada a cada movimento, a cada canção, muitas vezes com a voz angelical de Tahliah Barnett a contrastar com a densidade e o peso eletrónico dos instrumentais.
Dividido em três atos, o alinhamento concentrou-se sobretudo em Eusexua, mas também passou por Magdalene (2019), LP1 (2014) e pelos EPs que compõem o já vasto currículo da inglesa. A determinado momento, um longo varão de pole dance foi colocado bem ao centro do palco — para uso exclusivo de FKA Twigs, artista completa de flexibilidade sobrehumana, fazendo delirar os fãs que não esperavam por uma performance tão elaborada e conceptual num horário tão tardio.
Twigs aparece como uma semi-deusa num espetáculo sublime ao ponto de merecer uma longa (e entusiasmada) ovação que até parece surpreender a própria artista britânica no final da atuação. Para o derradeiro momento, guardou uma canção especial, um dos seus primeiros grandes êxitos, Cellophane — entoado com todo o tempo do mundo, solitária em palco, num momento comovente e solene que deixou milhares de pessoas em sentido (e em silêncio) às três da manhã. É obra.
Um par de horas antes, no mesmo palco, acontecia um dos momentos mais esperados desta edição do MEO Kalorama. 13 anos depois de terem anunciado um hiato por tempo indeterminado, os Scissor Sisters voltaram à vida ao anunciarem uma tour de reunião para 2025. A ocasião especial? Os 20 anos do álbum homónimo, que lançou a sua carreira e os colocou no mapa musical.
Nem todo o grupo regressou ao ativo neste momento. A vocalista Ana Matronic, uma das figuras principais, preferiu permanecer longe dos palcos. O mesmo sucedeu com o baterista Paddy Boom. Mas isso não impediu Jake Shears, Babydaddy, Del Marquis e Randy Real de voltarem a fazer a festa em torno da obra construída — e de olearem (e que bem) um espetáculo que aterra agora na Europa. “Há 12 anos que não dávamos aqui um concerto”, disse Shears poucos minutos depois de subirem ao palco.
▲ Scissor Sisters
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
Existe toda uma geração que ainda não tinha tido oportunidade de ver ao vivo os Scissor Sisters, que acrescentaram novos membros à formação para esta digressão de regresso. Acima de tudo, é notável a vitalidade e a vontade com que tocam e cantam cada canção — as saudades de dar vida a estes temas eram evidentes. Também esta foi uma performance com uma importante componente visual, embora aqui colorida com as cores do arco-íris, e com humor e muito movimento em cima do palco — ou não tivessem os Scissor Sisters nascido no circuito noturno e performático da comunidade gay de Nova Iorque.
Os anos parecem não ter passado por Jake Shears, que puxa do seu inconfundível falsete para entoar canções já emblemáticas como Fire With Fire, Let’s Have a Kiki, a sua versão de Comfortably Numb (cover dos Pink Floyd que, inesperadamente, serviu como gatilho para catapultar o grupo no seu início) e, claro, a extraordinária e intemporal I Don’t Feel Like Dancin’. Esta é uma pop que vai beber à música de dança, ao glam rock, integrando até alguns indícios mais country que não são descabidos tendo em conta a origem de vários dos membros nos estados mais rurais dos Estados Unidos da América.
Em cima do palco, um groove imenso une os músicos, com a simbiose a acentuar-se ainda mais entre os múltiplos coros, numa perfeita sintonia com a multidão que ali celebrava a “liberdade” de serem quem são — como os Scissor Sisters tão bem representaram ao também interpretarem a Freedom de George Michael, que lhes assentou na perfeição.
Quando o negrume se abateu na Bela Vista
Lembra-se da cena da orgia em Matrix Reloaded, em que os humanos, sabendo-se na iminência da invasão das máquinas, juntam-se numa rave hedonística de tons góticos? Se os Model/Actriz já existissem em 2002/2003, podiam ter fornecido a banda sonora desse momento, mas o destino é matreiro e só surgiram em 2016, data a partir da qual têm levantado ondas. Tal como os Scissor Sisters, o quarteto é oriundo de Nova Iorque e, assim como eles, é, sem quaisquer reservas, absolutamente queer.
Os Model/Actriz são Ruben Radlauer (baterista), Jack Wetmore (guitarrista), Aaron Shapiro (baixista) e Cole Haden (vocalista). É neste último em que recaem as atenções e não só por ocupar a posição tradicionalmente votada a tal fado. Haden é a alma da banda, o para-raios que conduz o nervosismo punk e a euforia rítmica que os colegas produzem, enquanto vai descarnando a alma com letras como “The way you turn your chest on me // I’m embarrassed to be clever when you’re honest”.
▲ Model/Actriz
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
Vemo-lo em palco de balaclava a fazer lembrar uma Audrey Hepburn de lenço na cabeça, luvas compridas, sapatos de salto alto e uma malinha de onde ia tirando o batom que retocava de tempos a tempos. Com esse figurino, faz a justaposição entre danças típicas de um ballroom e gestos considerados preconceituosamente femininos, carregados de intenção e teatralidade, com a fúria e a vontade de ir gritar e saltar para o meio do público, algo que fez em mais do que uma ocasião “Vocês cheiram todos mal, mas é isso que eu quero”, provoca, enquanto vai saltando a barreira. Assume-se, portanto, como a tão singela Diva que cantou, um dos mais portentosos temas de Pirouette, lançado este ano.
Ao longo de quase uma hora, que assistiu foi brindado com um misto de noise rock impiedosamente abrasivo — até blastbeats houve — com o tipo de batida raramente associado a este género musical, sendo disso exemplos Doves, Crossing Guard ou Vespers. Nem o som completamente desequilibrado — o baixo assoberbante, o guitarra estridente, voz a espaços inaudível — contribuiu para estragar o concerto, onde só não abanou o pé quem se visse fisicamente impossibilitado a tal. Com os Model/Actriz, não é só a representatividade que tem um futuro assegurado, é o rock. Que regressem em nome próprio num espaço fechado, onde tudo ressoe nas paredes, como o fizeram na Galeria Zé dos Bois em 2023.
Pouco tempo depois, no mesmo palco, uma outra iteração do espírito raver surgiria, desta feita através da vocalista Jae Matthews e do produtor Augustus Muller, o duo que dá pelo nome de Boy Harsher. Também eles podiam acompanhar a cena acima recordada do filme das irmãs Wachowski, mas, ao contrário, dos Model/Actriz, os dois não só já fizeram parte da banda sonora de um filme, como foram eles próprios que o realizaram: a curta-metragem The Runner, de 2022.
Esta observação pode parecer supérflua, mas não é quando atendemos ao facto dos Boy Harsher serem criadores de uma sonoridade altamente cinemática, uma darkwave pulsante que tanto vai beber aos nomes clássicos da avantgarde eletrónica e dos grandes nomes da cena gótica dos anos 80, como ao imagético de realizadores como David Lynch. Aliás, só por falta de tempo é que não tocaram uma cover de Wicked Game, de Chris Isaak, imortalizada em Coração Selvagem.
▲ Boy Harsher
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
A onda dos Boy Harsher é subterrânea, mais propícia a clubes enfumaçados do que festivais de verão, estabelecendo assim um contraste interessante. Com recurso a pads, teclados e até um shaker para produzir distorção, Muller cria a tela de beats irresistíveis e melodias que lembram de Bauhaus a Eurythmics para Matthews pincelar com a sua voz. Esta, de tons graves e quentes, é relativamente monocórdica, mas isso joga a seu favor, parecendo encantatória, fantasmagórica a espaços. Em vez de uma sereia que arrasta marinheiros para o seu fim, atrai ouvidos incautos para a perdição dos becos escuros e dos bas-fonds de qualquer espaço urbano. A essa propriedade sedutora intercala com gritos como se de uma aparição se tratasse.
“We play dance music”, afirmou Matthews depois das apresentações. Não era preciso tê-lo dito, toda a gente presente o demonstrou, quer durante o revivalisno de LA e Fate, a sedução imolante de Come Closer ou Tower, com uma batida aterradora a recordar o som do aproximar de Jason Vorhees, mas em esteróides. De final, já com a cantora a admitir que estava a ficar sem voz e a pedir para que a auxiliassem, Pain demonstrou porque é que tem sido um hit de culto desde que foi lançada, em 2014: é o tipo de malha que o Buffalo Bill usaria para bambolear-se antes de matar alguém em O Silêncio dos Inocentes. Sim, isto é um elogio.
Dos regressos mais ou menos bem sucedidos
Assim que Azealia Banks irrompeu pelo palco adentro, a vasta multidão à sua frente estava conquistada — e manteve-se com a artista norte-americana até ao último segundo do concerto. Não foram precisos quaisquer artifícios, nem bailarinos nem efeitos de pirotecnia, para agarrar o público e fazer um espetáculo completo no Palco MEO. O formato tradicional hip hop, de rapper acompanhada por um DJ, acabou por provar que menos é mais.
A rapper nova-iorquina tem um estilo muito próprio, ao rimar por cima de batidas eletrónicas de diferentes velocidades, texturas e ambientes. São a cama necessária para acomodar a sua belíssima voz, que Azealia Banks tanto usa enquanto rapper mordaz, de língua afiada; como utiliza para a sua faceta de cantora de R&B, usando a melodia como outro dos seus valiosos trunfos.
Entre um rap acelerado e agressivo, uma voz sedutora e melosa e instrumentais variados que iam criando tensão e espoletando momentos de explosão junto da plateia, tudo isto poderia ter corrido muito mal se as condições de som não estivessem irrepreensíveis. Uma música de muitos graves tratada à altura, como muitas vezes não acontece nos grandes palcos e festivais, vital para tornar a experiência realmente prazerosa.
Pelo meio, à boa tradição do hip hop, ainda houve diversos momentos acappella em que a artista aproveitou para explorar (e demonstrar) os seus dotes líricos. Sempre envolta em grandes ondas de controvérsia, por causa de momentos protagonizados ou declarações inesperadas, muitas vezes também recebidas com incompreensão, muitas vezes as suas polémicas e comentários provocadores tornaram-se mais conhecidos do que a sua própria música.
Ingrato, mas também revelador da inconsistência que tem marcado a sua carreira. A caminho das duas décadas a editar música, só lançou um único álbum de originais, Broke with Expensive Taste (2014), embora também conte com dois EPs, três mixtapes e muitos singles soltos no currículo. Tem sido difícil superar as expetativas geradas por diferentes momentos do seu trajeto, mas talvez seja em palco que essa promessa mais se materializa, o local de culto à música — e ícone — de Azealia Banks. Com a sua atitude empoderadora, arrojada, de quem usa o ego como statement e matéria-prima criativa. Uma performer nata que também encontrou na comunidade LGBTQIA+ um público devoto, que pela sua orientação sexual a acarinhou como uma referência sua, não obstante também aí ter protagonizado controvérsias relativamente a comentários passados.
Ao palco San Miguel, subiu uma outra artista que partilha das algumas características de Banks. Diva de presença habitual em Portugal, Róisín Murphy é também ela um ícone no universo queer e também ela envolveu-se em polémicas, desta feita devido a opiniões expressadas sobre a comunidade trans. No entanto, a verdadeira controvérsia da noite foi a forma como encarou o seu concerto a encerrar o palco San Miguel.
“É maravilhoso estar de volta à vossa bela cidade”, afirmou, seguindo-lhe um “outra vez, e outra vez, e outra vez”. Talvez seja esse o problema; habituámo-nos a vê-la a dar performances de mandar a casa abaixo de tal forma — basta recordar o Super Bock Super Rock de 2023 — que foi inesperada a forma como se apresentou esta noite, num registo excessivamente lânguido, por vezes a roçar a complacência.
A coisa até começou bem, chegando ao palco com a excentricidade que lhe é costumeira, vestida como se o Rato Mickey fosse a uma festa pride, e arrancando com Pure Pleasure Seeker, uma das várias canções que trouxe dos Moloko, a sua lendária ex-banda. Aqui, o funk pulsava, os sintetizadores ecoavam com prazer e a cantora irlandesa mostrava como o tempo não passa pela sua voz. Simulation, já de cartola posta e casaca a adorná-la, manteve a toada entre gemidos orgásticos e disco em banho maria, e em Overpowered até a vimos a abanar a cabeça como se estivesse num concerto bem mais pesado.
▲ Róisin Murphy
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
Tudo fazia prever que este fosse mais um concerto de Murphy — sendo que aqui essa previsibilidade é uma virtude. No entanto, descambou a partir de You Knew, canção concebida no seu interessantíssimo último disco, mas que neste contexto interrompeu todo o balanço que houvera até aí, o chamado “corta mocas”. Aquilo que poderia ser apenas um ligeiro percalço, todavia, era antes um prenúncio, pois seguiu-se outro dos grandes êxitos do passado, The Time is Now, aqui interpretado com perfume tropical, carregado de percussão mas sem a urgência que o caracteriza.
Seria esta bitola até ao fim do concerto. Conceda-se que quando se tem uma carreira da sua longevidade e se já anda a tocar alguns dos seus maiores êxitos há 25 anos, há vontade de refrescar as coisas — e Murphy, reunida de grandes músicos, tinha todas as ferramentas para reimaginar o seu repertório. Parece-nos, todavia, que foi uma oportunidade perdida optar por um estilo inerte, quase jam session, mais digno de um sunset ou a bordo de um cruzeiro entre pinacoladas em vez de um festival à uma da manhã.
O público, de resto, parece ter concordado: era ver as pessoas a abandonar, até mesmo quando se ouviu a combinação de Sing it Back e Murphy’s Law. No final, somou-se outra decisão inexplicável, a de terminar com Can’t Replicate virada de costas para o público, atuando para uma câmara instalada no palco, tendo o festivaleiro pagante a honra de vê-la a fazer caretas ou a enfiar a boca junto à lente. É tentar imaginar o que teria sido Model/Actriz ou Boy Harsher a tocarem depois de tudo ficar em ponto de rebuçado após Scissor Sisters. Apenas nos resta isso, imaginar.