A Terra tornou-se progressivamente inabitável e parte da humanidade encontrou em Marte uma possibilidade de sobrevivência. É esse o futuro que o encenador e dramaturgo português Tiago Rodrigues imagina em La Distance, a sua mais recente criação. Só que no centro desta viagem interplanetária não estão naves, tecnologias ou conquistas espaciais, mas um pai e uma filha. Ele ficou na Terra. Ela partiu em busca de um mundo novo. Entre os dois há milhões de quilómetros e é através de chamadas de voz que procuram colmatar a distância e preservar as memórias que começam a desaparecer.
Depois de uma muito aclamada estreia no Festival de Avignon, em França, em 2025, a peça apresenta-se finalmente em Portugal, na Culturgest, em Lisboa, a partir desta quinta-feira (10) e até 20 de setembro, com todas as récitas já esgotadas. O espetáculo segue depois para o Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, nos dias 25 e 26, antes de descolar para uma digressão internacional.
▲ A peça põe em diálogo um pai (Adama Diop, à direita) na Terra e uma filha (Alison Dechamps, à esquerda) em Marte numa série de chamadas de muito longa distância
Christophe Raynaud de Lage
A premissa é futurista, mas as perguntas que nos provoca são antigas: o que acontece quando alguém que amamos parte? Como sobrevive um amor à distância? “Este universo íntimo, que fala do amor entre um pai e uma filha e de como é posto à prova pela distância podia ser também uma forma de falar do futuro”, diz Tiago Rodrigues ao Observador, por telefone. Se a crise climática, os conflitos e as mudanças no planeta obrigarem a humanidade a procurar outros lugares para viver, o que acontece às relações mais elementares?, indaga. “Quando falamos de crise climática ou de conflitos, raramente nos perguntamos: o que vai acontecer à forma como um pai e uma filha se relacionam? Será que isso também se transforma?”
La Distance nasce também dessa pergunta. Em cena estão Adama Diop (com quem Rodrigues já trabalhara em O Cerejal, de Chekhov) e Alison Dechamps, dois atores franceses que interpretam pai e filha, respetivamente. O espaço está dividido em dois, Terra e Marte, e um palco circular gira continuamente, fazendo alternar os dois mundos diante do público. A cenografia de Fernando Ribeiro remete-nos para a vastidão do cosmos, o figurino de José António Tenente sugere-nos dois tempos distintos.
Na verdade, a solução cénica nasceu de um problema prático: como representar uma distância gigantesca quando os dois atores partilham o mesmo palco? O encenador encontrou a resposta no movimento. Este palco singular permite que Terra e Marte existam simultaneamente, mas impede que pai e filha se vejam durante grande parte do espetáculo. O público vê cada um deles, mas eles, entre si, quase nunca cruzam o olhar. “Compreendemos desde o início que um palco giratório nos permitia ter esses dois mundos em rotação circular”, explica. “Mas também permitia que estivessem no mesmo palco quase sem se verem.” A distância ganha, assim, uma dimensão física. Deixa de ser apenas a contagem de quilómetros entre planetas para se tornar na ausência do rosto, do olhar do outro. “Podemos estar na mesma carruagem de metro, mas se estivermos lado a lado e nunca nos olharmos, há uma distância real entre nós”, compara Rodrigues. “Queríamos que a impossibilidade de se verem ou olharem fosse a tradução física da distância no palco.”
Durante o espetáculo, o público testemunha essa impossibilidade. Pai e filha estão próximos, mas nunca juntos. O palco roda, aproxima-os e separa-os. A velocidade muda, o tempo acelera ou parece suspender-se — e o próprio texto adapta-se a esse movimento. A máquina deixa de ser mero cenário e passa a ditar a ação: determina o que pode ser dito, quando pode ser dito e quando duas pessoas podem, sequer, existir uma diante da outra.
▲ A cenografia de Fernando Ribeiro remete-nos para a vastidão do cosmos, o figurino de José António Tenente sugere-nos dois mundos e tempos
Christophe Raynaud de Lage
O futuro pode ser menos conectado
Num futuro em que parte da humanidade habita noutro planeta, seria fácil imaginar uma comunicação mais rápida e sofisticada. Mas não foi isso que o criador concluiu durante a pesquisa para o espetáculo, trabalhando com uma astrofísica da Agência Espacial Europeia. Uma das conclusões que surpreendeu o encenador foi o facto de, num cenário de ocupação de outros planetas, a comunicação poder não ser tão imediata como a atual. “Percebemos que, muito provavelmente, a forma de comunicação mais rápida e viável será o áudio. Transmitir e manter sinal de vídeo poderá ser extremamente complicado.”
A ideia desconstrói a visão habitual do amanhã, em que progresso equivale a maior proximidade. Como não ter essa visão quando temos um Facetime à distância de um toque no ecrã? “Impressiona-nos essa ideia de que o futuro não é necessariamente mais conectado ou fácil”, afirma. “Também trará novas barreiras.” O vídeo ser um luxo inacessível e a voz o único recurso pode ser também um comentário sobre o presente. Num futuro projetado como um lugar onde a imagem desapareceu, resta a voz — e aquilo que a memória consegue reter dela.
▲ Num cenário "distópico, embora não improvável", nas palavras do autor, a peça explora tanto as consequências das nossas escolhas como a possibilidade de comunicação entre gerações
RAYNAUD DE LAGE Christophe
Mais do que uma alegoria futurista, a separação interplanetária entre pai e filha funciona também como metáfora sobre a emancipação. A viagem de Amina para Marte não é apenas uma mudança de morada: é o gesto definitivo de quem procura construir o seu próprio lugar no mundo, ainda que através de um caminho que o pai é incapaz de compreender.
“A peça aborda um hiato geracional tão profundo que coloca à prova a própria natureza do afeto”, reflete o encenador. Daí decorre uma interrogação: “Até que ponto o amor não é aceitar que uma filha veja o mundo de forma oposta à nossa? E, ainda assim, apoiá-la em decisões que consideramos erradas, mas que a sua emancipação e liberdade exigem?”
É nesse ponto que a narrativa de La Distance nos atravessa. Afinal, não é preciso embarcar numa nave rumo a Marte para experimentar o abismo da distância ou mesmo da ausência. Elas podem acontecer dentro da mesma casa, no fosso entre duas gerações ou na dificuldade em conciliar duas formas de compreender o mundo.
Cada espectador pode, de resto, ocupar uma posição diferente nessa escala. “É um espetáculo quando visto por pais, outro quando visto por filhos, e um terceiro quando visto por pais que ainda se sentem muito filhos”, diz o próprio encenador, que assume ver a peça sobretudo através do filtro da paternidade. Há um paralelo evidente entre a sua idade e a da personagem do pai (interpretada por Adama Diop), bem como entre a idade da sua filha e a da personagem de Dechamps, ainda que La Distance não seja autobiográfica, garante.
Uma canção para não esquecer
No centro desta história contada em francês (com legendas em português) surge uma canção em língua portuguesa: Sonhos, interpretada por Caetano Veloso. “Sabíamos desde o início que [as duas personagens] deviam partilhar uma canção”, conta. Durante o processo de escrita e ensaios, a equipa construiu uma playlist para o espetáculo, alimentada também por Pedro Costa, responsável pelo som e pela música. O tema de Caetano Veloso acabou por se impor. Traduzia aquilo que a peça procurava construir: o amor como aceitação da partida, mesmo quando essa partida equivale ao abandono. E falava, sobretudo, de esperança. “Mesmo que não haja razão para ter esperança, consigo produzi-la”, diz Rodrigues. “A esperança é a resposta contra a desilusão quando aqueles que amamos nos deixam.”
A música integra-se na narrativa e o português passa a fazer parte do passado das personagens. Ambos conhecem a língua e a melodia. Contudo, à medida que a memória da filha começa a falhar, o tema ganha uma nova camada, tornando-se uma reflexão sobre o que se apaga e o que permanece. “As canções funcionam como marcas no tempo”, observa Rodrigues. Uma melodia tem o poder de transportar o ouvinte para uma idade, uma casa ou uma pessoa. A emoção reside tanto na música como no tempo de vida que ela evoca.
Em La Distance, essa memória funciona como o último refúgio comum e, para o público lusófono, o momento ganha um impacto adicional. Para os restantes espectadores, resta a tradução e a oportunidade de ocupar o lugar da filha: não dominar a língua, mas compreender o peso emocional daquela canção.
▲ O cenário está em rotação permanente, mas fixa os atores nas suas próprias órbitas, quais corpos celestes que surgem e voltam a desaparecer
RAYNAUD DE LAGE Christophe
Fascinado desde a infância por exploração espacial e astrofísica, Tiago Rodrigues mostra-se entusiasmado por ter mergulhado em literatura científica, ficção, filmes e séries para preparar a peça. Mas a pesquisa tinha um limite claro: a intenção não era prever o amanhã. “Tratava-se de equilibrar as previsões realistas do futuro com aquilo que queríamos projetar para intervir sobre o presente”, elucida.
O ano de 2077 não é, por isso, um exercício de adivinhação. “Queria que o retrato do futuro responsabilizasse quem está no presente a assistir ao espetáculo”, atira. A Terra imaginada por Rodrigues é cada vez menos habitável devido à crise climática e Marte converte-se numa alternativa para quem tem meios para partir (de forma pouco surpreendente, a desigualdade não desaparece no espaço). “Se a imaginação do futuro for pessimista, que o seja de forma a mostrar-nos que há algo que ainda podemos fazer no nosso quotidiano”, avisa. O futuro, diz, serve para olhar para um presente onde ainda há margem para escolher.
No palco, entretanto, pai e filha continuam separados por milhões de quilómetros. A Terra roda. Marte roda. A comunicação falha, a memória cede. Mas basta a canção regressar para que os dois mundos se alinhem por instantes e os olhares finalmente se cruzem.
No fim, talvez La Distance não seja, concluímos, exactamente uma peça sobre Marte, nem sobre a possibilidade de a humanidade encontrar noutro planeta uma saída para o fracasso da Terra. Talvez seja mesmo sobre a distância que já existe antes da partida, aquela que nasce quando uma filha cresce e começa a escolher um mundo que o pai já não reconhece, quando amar deixa de significar proteger e passa a significar aceitar que o outro pode ir-se embora. Mas que possa voltar. Ou, pelo menos, que dê notícias. Porque, por muito longe que se vá, há sempre alguém na Terra a perguntar: “Já chegaste?”.