É o único teatro do país com programação exclusivamente pensada para crianças e jovens e, em 2026, quer Voltar Aonde Somos Felizes. É esse o tema da nova programação do LU.CA — Teatro Luís de Camões, em Lisboa, e a ideia é muito clara: recuperar títulos marcantes que estiveram em cena nos quase oito anos de vida do espaço e contrariar a produção incessante de espetáculos que, muitas vezes, ocupam o palco apenas durante três ou quatro dias. Por isso, nos próximos meses, cada apresentação terá direito a uma carreira (o tempo em que está em cena) mais longa para dar oportunidade ao público de não falhar espetáculos relevantes. Além disso, explica Susana Menezes, diretora artística do LU.CA, esta é também a oportunidade de dar valor às companhias que se dedicam aos mais novos.
Crianças e jovens são, garante, um público mais exigente do que os adultos, mas também são capazes de questionar e abrir conversas vastas e enriquecedores para quem com eles trabalha — e, sobretudo, para eles trabalha. “Só programo a pensar nas crianças. O meu lugar é defendê-las, é fazer uma programação que lhes vai trazer algo de novo que elas não têm nas suas vidas”, explica ao Observador a diretora artística que sonha dar ao LU.CA uma irmã mais nova — ou, por outras palavras, um novo espaço que complementasse o já existente. Até porque a programação faz-se também de exposições, leituras e conversas, uma extensão que surgiu de uma vontade demonstrada pelos miúdos, que querem sempre ficar mais um pouco após o fim de cada espetáculo.
Com o cartaz da primeira metade de 2026 divulgado, falámos com Susana Menezes sobre os desafios de programar um espaço (gerido pela Lisboa Cultura/EGEAC) com características tão específicas, de uma área ainda demasiado pequena, e sobre os desejos para o futuro do LU.CA.
▲ "O Papel do Dinheiro" e "Uma partícula mais pequena do que um grão de pó" são os primeiros espetáculos de 2026
©ENRIC VIVES-RUBIO
Porque é que 2026 é o momento ideal para repor espetáculos que marcaram oito anos do LU.CA?
Desde 2018 coproduzimos um total de 45 obras, o que é muito. Ao fim destes oito anos, o que sentimos é que é importante voltar a iluminar algumas destas obras porque resistem ao tempo, não só do ponto de vista do texto, mas também dos formatos e das abordagens plásticas que são construídas. Ao mesmo tempo, é importante reafirmar a relevância que elas têm. Repor um projeto ao fim deste tempo todo é também um ato de resistência e um ato de sustentabilidade cultural. Não estamos a fazer um best of ou um balanço, mas sentimos que era o momento de contrariar a voracidade, contrariar a lógica de uma produção incessante, de espetáculos que são apresentados três ou quatro dias, muitas vezes não passam de uma semana.
Por isso decidiram que estariam em cena durante um período mais longo do que é habitual?
Os espetáculos vão ter entre 10 e 25 apresentações. Acho que esta ideia de podermos parar, voltar onde fomos e onde somos felizes e reprogramar é também, de alguma maneira, uma nota de respeito pelos artistas e pelo investimento que está aqui num trabalho para crianças e jovens.
Fazer um espetáculo para crianças e jovens é mais difícil do que para adultos?
Muitíssimo mais difícil. A responsabilidade inerente àquilo que estamos a apresentar às crianças é altamente vinculativa. Trabalhamos para que elas queiram repetir as experiências, queiram voltar ao teatro, queiram voltar a ter contactos positivos com as obras e com os espaços de teatro, neste caso, com os artistas e com a nossa equipa, claro. E, no fundo, é disso que as crianças gostam.
A programação faz-se também com os pais em mente?
Faço programação desde 2001 e uma das coisas que percebi é que muitas vezes os pais levam as crianças a assistir a espetáculos para crianças, mas eles próprios não vão. Não digo isto com nenhum juízo de valor. Não vão porque a vida é complicada, há cansaço, muita coisa para tratar, etc. Portanto, quando os pais vêm com as crianças ver um espetáculo, os adultos também têm a grande possibilidade de ser crianças e de partilharem esse momento com os filhos. Além disso, estes espetáculos que escolhemos também dizem respeito ao tempo em que vivemos, à vida que estamos a levar.
Mas é preciso ter em mente conteúdos que interessem aos pais porque, à partida, são eles que decidem o que os filhos vão ver?
Quem decide o que ver é, efetivamente, sempre um adulto, sejam os professores ou os pais. Acho que nós temos de ter uma comunicação muito, muito rigorosa e cuidadosa de modo a que os pais e os professores não se sintam enganados, mas não posso programar a pensar nos pais, só programo a pensar nas crianças. O meu lugar é defendê-las, é fazer uma programação que lhes vai trazer algo de novo que elas não têm nas suas vidas. E, eventualmente, que lhes estenda passadeiras para que elas possam entrar em assuntos, em abstrações, em surpresas. Espero que o programa do LU.CA lhes ofereça aquilo que não têm na televisão, no circo, em casa ou na escola.
Além dos espetáculos, as conversas que se seguem a alguns deles também são uma aposta, certo?
Em alguns espetáculos, pelos seus conteúdos, é importante ter conversas no fim. Por exemplo, na versão que temos de A Quinta dos Animais — que é uma versão adaptada pela Inês Fonseca Santos, encenada pelo Tonan Quito e belissimamente interpretada pela Cláudia Gaiola —, não alterámos o final [os porcos adotam os privilégios e os hábitos dos humanos, com a hipocrisia e a opressão a serem repetidas exatamente da mesma forma]. Não seria justo porque teríamos uma peça errada. Ajustámos o texto na peça de teatro, cortando algumas partes, mas mantendo o corpo central do espetáculo. A Quinta dos Animais não tem um final feliz e as crianças, muitas vezes, ficam com este problema. Os adultos provavelmente já terão recursos para resolver essas questões, mas as crianças não. E, portanto, temos sempre uma conversa no fim com a plateia e é maravilhoso. Primeiro, gostamos de conhecer melhor os jovens que temos à nossa frente. Depois permite-nos, em diálogo com eles, ajudá-los a encontrar as respostas para o que faz, naturalmente, o óbvio paralelismo com o nosso tempo. É muito enriquecedor e também é muito participado pelos pais.
Além das conversas, o que completa os espetáculos?
Interessa-me bastante que que haja outros objetos que andam na órbita do espetáculo e que ajudam a ter outras leituras ou outras portas de entrada para aquele mesmo assunto ou para aquele mesmo formato. Uma das coisas que fazemos sempre, em relação a todos os espetáculos, é termos os pontos de escuta, que são quatro tablets com auscultadores onde podemos ter entrevistas que fazemos aos artistas, poemas que os artistas dizem que têm a ver com o espetáculo e que são profundamente relevantes, etc. Os livros também andam na órbita do espetáculo. Temos livros que pertencem à biblioteca e outros que os artistas escolhem e trazem. O público pode perceber porque é que aquelas obras foram importantes para fazer aquele espetáculo. Às vezes temos artistas que merecem ter o seu trabalho exposto e, por isso, no próximo ano vamos convidar três artistas que são ilustradores a fazerem três grandes exposições. Teremos atividades relacionadas com essas exposições.
Essas ramificações surgiram de uma necessidade do público?
Criámos aqui uma outra linha de programação que, no fundo, foi pedida naturalmente pelo público. E isso é muito curioso.
Como é que perceberam isso?
Pelo facto de as crianças não saírem. Acaba o espetáculo e ficam no entrepiso, o que significa que criámos um lugar onde se quer estar. Quando a minha filha era pequena e íamos ver alguma coisa, aquilo acabava e não havia muitas alternativas: ou íamos lanchar ou ao jardim, mas depois estava frio, era desconfortável. Portanto, aqui as crianças podem ir assistir a um espetáculo e depois ficam a pintar, a desenhar, a conhecer outras crianças, outros pais. Há esta certeza de que, se não tivermos programa, não há problema porque o LU.CA tem sempre qualquer coisa. Temos este compromisso de ter programação todos os fins de semana e os preços são acessíveis.
▲ Susana Menezes faz parte do LU.CA desde o início, em 2018
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Às vezes diz-se que as crianças são um público mais exigente. Concorda?
Se o espetáculo não é um bom espetáculo, as crianças não têm paciência para ficar à espera. Muitos adultos têm a ideia de que as crianças querem é espetáculos em que as pessoas estão todas aos saltos, sempre. Não é assim, por uma razão natural: ninguém aguenta 30 minutos aos saltos, é simples. Há espetáculos bons e há espetáculos que não são tão bons. Os espetáculos que são bons consideram as crianças e quando consideram as crianças isso quer dizer que, normalmente, também as pessoas que estão implicadas assistiram a muitos espetáculos a que as crianças assistiram. Olharam e viram as crianças a ver o espetáculo, portanto sabem o que elas procuram. Quando programamos para crianças, temos de ter uma corrente de ar permanente na cabeça. Tem de entrar ar por um lado e sair por outro. E pelos olhos, pelas narinas, etc. É esse o exercício.
O LU.CA tem quase oito anos e continua a ser o único teatro do País com programação exclusiva para crianças e jovens. Devemos retirar daqui alguma conclusão?
Foi uma grande luta de muitos anos para tentarmos reivindicar um lugar com uma programação contemporânea, atual, para as crianças deste tempo. O que acontece no país é que há serviços educativos ou há áreas que têm programação para crianças, mas são muito curtas. Era importante que houvesse mais, seria ótimo poder fazer mais parcerias com outros teatros para que os espetáculos pudessem chegar a mais crianças.
É difícil também encontrar companhias que façam espetáculos para crianças?
Há poucas companhias profissionais que se dediquem só à programação para crianças e jovens e isso é um ciclo vicioso. Ou seja, se há poucos espaços para apresentar, as pessoas também não têm tantas hipóteses de praticar a criação para crianças. Estes artistas têm de ser reconhecidos pelo investimento que fazem, há pouco espaço em Portugal para poderem ser programados.
Continua a ter o Ideólogo, um bloco de notas onde aponta todas as ideias?
É adorável referir isso. Tenho, sim. Essas ideias são ótimas porque, de vez em quando, vou buscá-las. A ideia da reposição [que deu origem à programação de 2026] começou assim. Até íamos chamar-lhe A Grande Reposição, como se fosse um filme, mas depois, por causa de A Grande Substituição [filme de 1964], não queríamos nada que pudesse ter algum tipo de colagem a essa ideia. Então, esta ideia de voltar onde somos felizes é também uma ideia de contemporaneidade e de atualidade. Somos felizes agora.
O LU.CA é também um filho da Susana, que está envolvida no projeto desde o início. O que sonha para ele à medida que o vê crescer?
Este teatro tem 120 lugares, portanto facilmente chegará à maioridade. Primeiro, gostaria de manter esta continuidade de falar de assuntos importantes. No próximo ano voltamos atrás, mas não é um ato inocente. Esta ideia de pararmos e programarmos com carreiras longas é um ato pensado. Segundo, acho que o LU.CA precisava de uma irmã. O que estou a sentir é que temos áreas que estão a crescer e podiam autonomizar-se, nomeadamente a ilustração. Uma das coisas que gostaria era que no futuro pudéssemos, por exemplo, ter um outro espaço que tivesse uma área expositiva relevante, onde pudéssemos fazer um trabalho também ao nível das oficinas, eventualmente performance, mas que pudesse existir paralelamente com este teatro.
Após quase oito anos a trabalhar com e para crianças, o que é que a emociona mais?
No final de alguns espetáculos temos conversas com eles — até para podermos ser produtivos para eles, é importante irmos além da observação, tem de haver esta interação. Numa dessas sessões eu estava a perguntar se eles achavam que o espetáculo tinha um final feliz ou não feliz. Eles responderam não feliz e eu perguntei: “Então porque é que acham que um teatro para crianças e jovens apresenta um espetáculo que não tem um final feliz”? Eles estavam a dar a opinião e um rapaz levantou o braço para falar: “Eu só queria dizer que odiei este espetáculo”. E isto é uma pérola.
Porquê?
Nunca ninguém nos diz isto. Ele explicou que não gostou daquilo, daquilo e daquilo e tivemos uma conversa maravilhosa. Os outros miúdos juntaram-se, ajudaram-no a compreender e, no fim, ele disse: “Ok, eu percebo”. Foi em paz, mas foi importante ajudarmos a desatar esse nó. Quando alguém diz que não gostou nada, é um posicionamento e uma ótima oportunidade para termos uma segunda conversa. E é isso que nós queremos. Queremos que os espetáculos também suscitem conversas sobre várias coisas e ajudem as crianças a pensar outra vez. E, eventualmente, depois de pensarem outra vez, terem outras perguntas. E é destas perguntas e possibilidades de respostas que vamos descobrindo com eles que também se vai construindo um saber e um conhecimento.
▲ Aos espetáculos "Peço a Palavra", "Uma Outra Bela Adormecida" e "A Quinta dos Animais" junta-se o concerto "Mais Alto!"
O que está reservado para o próximo ano
Janeiro começa com O Papel do Dinheiro, da companhia mala voadora, para ver entre os dias 9 e 25. É teatro documental indicado para miúdos a partir dos oito anos e vai explicando a evolução do dinheiro com muito sentido de humor.
Uma partícula mais pequena do que um grão de pó, de Sofia Dias e Vítor Roriz, estará em cena entre 4 e 12 de fevereiro. Através da dança, conta-se a história de máquinas, engrenagens e sistemas grandes e complexos que parecem impossíveis de parar. Porém, tal como o nome indica, basta por vez “uma partícula mais pequena do que um grão de pó” para fazer parar tudo isso. Será que já aconteceu? E, se sim, como seria o silêncio após essa paragem? Seria mesmo silêncio? Para fazer pensar a partir dos seis anos.
A partir de dia 21 desse mês, e até 1 de março, a atriz e encenadora Teresa Coutinho regressa com Peço a Palavra, uma peça dirigida a jovens a partir dos 13 anos. Estamos num parlamento onde se debate a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Em 2030, os adolescentes do mundo inteiro saem às ruas para reivindicar uma verdadeira aplicação do documento, o único comum a todas as nações, e há uma pergunta que se levanta: se todos fomos adolescentes, o que acontece a essa vontade de mudança quando ocupamos lugares de poder?
Março terá Uma Outra Bela Adormecida entre os dias 5 e 22. A partir de um texto de Agustina Bessa-Luís, conta com Beatriz Brás, Francisco Lourenço e Martim Sousa Tavares e é para crianças a partir dos oito anos. Através de música e imagens, esta é uma reflexão sobre um mundo onde podemos experimentar ser quem quisermos.
Abril (de 11 a 24) traz o clássico de George Orwell, A Quinta dos Animais, numa adaptação do ator e encenador Tonan Quito. O texto político e satírico é explicado de forma a que crianças a partir de 10 anos entendam a mensagem desta quinta onde o poder é tão irresistível que corrompe até os animais.
▲ O Baile de Carnaval já é um clássico
As marionetas tomam conta de Lisboa, e também do LU.CA, em maio através do FIMFA Lx — Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas. Pelo palco do teatro vão passar três espetáculos internacionais. A informação sobre cada um será divulgada no final de março.
Maio, que é também o mês de aniversário do teatro, terá igualmente direito a música com o concerto Mais Alto!. Francisca Cortesão, Afonso Cabral, Inês Sousa, Sérgio Nascimento e Isabel Minhós Martins atuam para crianças a partir dos três anos entre o dia 30 desse mês e 1 de junho.
Todos estes espetáculos têm sessões para escolas e famílias, há datas específicas para sessões com língua gestual e sessões descontraídas (especialmente atentas a quem tem défice de atenção, deficiência intelectual, condições do espectro autista ou deficiências sensoriais ou de comunicação, por exemplo). Até ao final de 2026 a programação está fechada, mas os detalhes sobre a segunda metade do ano só serão divulgados em julho. Até lá, haverá ainda leituras (com as contadoras de histórias Bru Junça e Cristina Taquelim), cinema (com curadoria do Festival PLAY), exposições (dos artistas plásticos Mariana Mizarela e André Ruivo) e o Baile de Carnaval (com os DJ Benjamim e Ana Markl).