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Madrid. Sete regras que não se cumprem na luta contra o vírus /premium

O Observador viu cafés e esplanadas cheios, jardins vedados mas que continuam a servir para convívios entre moradores e falta de controlo policial de quem entra e sai nos bairros agora confinados.

Reportagem em Madrid

O controlo da pandemia em Madrid é como se fosse, neste momento, uma corda que a presidente regional da capital espanhola puxa para um lado e o governo central do país puxa para outro. Enquanto Isabel Díaz Ayuso insiste que nas medidas que tomou há uma semana e reforçou dias depois — abrangendo de momento 45 zonas madrilenas — são suficientes, o ministro Salvador Illa acha pouco e defende que toda a cidade devia ser confinada. Os bairros isolados e sujeitos a medidas especiais, onde vivem mais de 1 milhão de habitantes, registam uma taxa de incidência de mil casos de Covid por cada 100 mil habitantes nos últimos quinze dias, mas para o ministro da Saúde o valor para definir o confinamento deveria ser de metade, 500 casos diários.

As divergências entre governo central e local marcaram a primeira semana semana e meia de confinamento, do total de 14 dias de restrições. O Observador passou, no entanto, por vários dos locais sujeitos a restrições apertadas, que deviam estar sob vigilância da polícia e de militares desde segunda-feira, e percebeu que muitas das regras são ignoradas.

Na teoria nestas 45 zonas (37 ficaram confinadas na segunda-feira, 21, e oito na sexta seguinte), os moradores só podem sair para ir trabalhar ou para tratar de alguns documentos. No bairro só pode entrar quem, com declaração laboral, ali vá prestar algum serviço. No entanto, muitos não sabem onde começa e acaba a sua zona de confinamento e falta polícia para controlar o entra e sai. Só à entrada do metro é frequente ver algum agente da autoridade, mas mesmo assim não fiscalizam todos os passageiros. O movimento torna-o, também, humanamente impossível.

Apesar do aumento de número de casos positivos e de mortos, os madrilenos e os turistas não se coíbem de andar na rua a passear e a fazer compras

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Por outro lado, há jardins vedados pela polícia cujas fitas foram violadas e que são frequentados como se não existissem restrições. Mais, o uso de máscara é obrigatório na rua, mas é possível tirá-la para fumar ou beber e comer nos cafés e bares — cuja lotação de 50% definida por estas novas regras também é muitas vezes desrespeitada.

A presidente da região de Madrid, Isabel Dias Ayuso, insiste no entanto que estas medidas são suficientes — mais ainda com a ajuda de 7.500 militares pedidos ao governo central para tarefas sanitárias e para apoiar a polícia nacional no controlo dos cidadãos. A este reforço, apela a todos que respeitem as regras, porque um novo confinamento total “arruinaria” a economia já abalada pela pandemia. A estratégia, segundo explicou nos últimos dias, passa pelas “pessoas contagiadas ficarem em quarentena e avisarem a sua família”. O problema, no entanto, é que muitos destes focos de contágio estão localizados nos bairros mais pobres, em casas pequenas onde vive um agregado familiar muito grande e sem condições para se confinar ou manter uma quarentena sem contactos.

Para o ministro da Saúde, no entanto, e perante tudo isto, se não forem tomadas medidas em toda a comunidade de Madrid, outras zonas poderão ser seriamente afetadas. Por isso, defende, o consumo nos bares devia ser proibido em toda a comunidade madrilena, a capacidade das esplanadas deveria ser reduzida a metade e as deslocações limitadas apenas ao necessário. Só assim seria possível ver as ruas de Madrid mais aliviadas e com menor concentração de pessoas. “Há que atuar já, senão será pior”, justifica.

Lotação dos espaços comerciais

Nas 45 zonas onde as regras são mais apertadas há uma semana (e pelo período de quinze dias), a lotação de cada espaço comercial tem que estar a 50% da sua capacidade e as portas deverão fechar às 22h00, exceto as farmácias, centros médicos, veterinários e postos de abastecimentos de combustível.

Significa que as lojas de conveniência podem permanecer abertas até mais tarde e que as pessoas podem sair para ali ir comprar de tudo, desde álcool, a tabaco ou mesmo comida. Para os proprietários de cafés e restaurantes, que estiveram dois meses em quarentena, muitos em lay off, esta medida não faz sentido, porque permite que as pessoas possam abastecer-se noutros locais, deixando os cafés e os bares à mercê de um horário mais rígido.

Por outro lado, antes da hora de encerramento, é comum ver alguns estabelecimentos, como cabeleireiros, e até mesmo cafés, cheios de clientes, violando a regra da lotação.

Parque e jardins encerrados

Assim que o governo regional anunciou que os parques e jardins destas zonas — geograficamente definidas de acordo com as áreas dos centros de saúde — deviam estar encerradas para evitar a propagação do novo coranavírus, a polícia vedou as entradas e selou os bancos e as áreas de convívio (ou brincadeira) para que ali não se concentrassem pessoas. Mas, em muitos deles, as fitas foram cortadas e as pessoas frequentam a zona com a mesma normalidade de antes, ou melhor, tentando a normalidade de antes, mas de máscara — cujo uso em Madrid é obrigatório em todas as vias públicas.

Há quem se junte mesmo em grupos para conversar ou, até, para beber álcool (mesmo que a proibição de beber na via pública seja uma regra até já antiga e que se mantém desde quase o início da pandemia).

Na rua do Puerto de Morcuera, em Vallejas, este parque estava vedado pela polícia mas o perímetro era frequentemente violado pelos habitantes daquele bairro

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Na rua do Puerto de Morcuera, em Vallejas, o Observador encontrou mesmo um casal a conversar sentado a uma mesa no centro do parque, indiferente à barreira montada pela polícia. Muitas outras pessoas passam e, para atalhar caminho, levantam a fita da polícia, voltam a baixar, e seguem em direção ao destino atravessando o parque supostamente fechado.

Proibido consumo ao balcão e limite de consumo a 50%

Nestas 45 zonas, 37 desde segunda-feira e oito desde sexta-feira, foi completamente barrado o consumo ao balcão, seja de um café ou de um restaurante — um hábito muito enraizado em Espanha. Os comerciantes nem sequer têm a hipótese de colocar separações em acrílico. Por outro lado, também o limite de pessoas é de 50% da lotação possível do espaço — mais do que numa igreja, onde a máscara nunca é retirada.

As mesas devem estar a 1,5 metros umas das outras, mas se é comum ver muitos destes estabelecimentos vazios, é também frequente, noutros casos, vê-los cheios e com muita proximidade entre as mesas e pessoas. Há restaurantes onde se vêem filas à porta para entrar.

Apesar de se ver restaurantes vazios é também frequente, noutros casos, vê-los cheios e com muita proximidade entre as mesas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Seis à mesa

Se até aqui era possível atender, no setor hoteleiro, grupos de dez pessoas, agora para estas 45 zonas e durante 13 dias o número reduziu a seis — que só podem permanecer no espaço até às 22h00. Os patrões podem no entanto promover as entregas ao domicilio. Se é verdade que a hora de fecho parece estar a ser cumprida, com os patrões a temerem multas por parte da polícia, o Observador também viu muitos locais onde os grupos de pessoas sentadas à mesa excediam a meia dúzia.

Colaboração ou manifestação?

Assim que anunciou estas novas medidas, e ainda antes de se afastar da posição do governo central, Ayuso também pediu — além de militares para ajudar a controlar entradas e saídas dos bairros e ajudar em tarefas sanitárias — a colaboração de associações de vizinhos e sindicatos.

Mas na semana que se seguiu, com Ayuso a puxar a corda para um lado e o ministro da Saúde, Salvador Illa, para outro, o que estas associações mais fizeram foram manifestações. Protestaram junto a 50 centros de saúde por melhores condições e por um atendimento digno — algumas que acabariam em confrontos entre polícia e manifestantes em frente à Assembleia Nacional.

Na fotografia da esquerda uma manifestante sem máscara. À direita, noutra manifestação, os presentes são identificados pela polícia

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Já no fim de semana, estas associações apoiaram uma outra manifestação que alertava para o que tinha acontecidos nos lares durante a pandemia, onde doentes morreram sem ter direito a uma cama no hospital e em que, nalguns casos, ficaram mesmo ao lado de idosos ainda vivos. Nessa manifestação pedia-se uma revisão da lei dos lares e da sua administração.

Tirar a máscara para fumar em locais públicos, mas só quando é garantida a distância de 1,5 metros

O uso de máscaras em locais públicos, seja em transportes, seja na rua, ou em edifícios públicos, é obrigatório em Madrid, mas há dois momentos em que pode ser tirada: se entrar num café ou bar para consumir alguma coisa, ou se quiser fumar um cigarro. No caso desta segunda hipótese, no entanto, tem que garantir uma distância de 1,5 metros de qualquer outra pessoa, mesmo ao ar livre. No entanto é comum ver grandes concentrações de pessoas a fumar um cigarro junto a outras enquanto circulam, violando assim as regras impostas.

E nos transportes também é difícil manter a distância de 1,5 metros recomendada pelas autoridades de saúde. No metro, por exemplo, sobretudo em hora de ponta, está tudo cheio.

Uma artista de rua toca numa das principais praças de Madrid e junta dezenas de pessoas à sua volta. No centro uma cidadã sem máscara

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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