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Barcroft Media via Getty Images

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"Mamã, o que é o aquecimento global?" Como falar com as crianças sobre o ambiente /premium

Falar com as crianças sobre as alterações climáticas e o futuro do planeta pode ser complexo. As notícias podem causar alarme e medos do "fim do mundo". Por isso, não há nada como os bons exemplos.

Se é fã da popular série da HBO “Big Little Lies”, lembra-se decerto do recente episódio em que a personagem Renata Kleim descompõe com palavras duras o professor da filha, Amabella, acusando-o de a ter deixado “em coma”.

A criança, de oito anos, tinha tido um ataque de ansiedade durante uma aula sobre sustentabilidade e alterações climáticas. Em pânico com a hipótese do “fim do mundo” — que, aliás, dá nome ao episódio — Amabella desmaiara dentro de um armário da sala de aula e fora levada para o hospital. Em conversa com a psiquiatra da criança, os pais, que a princípio acharam que a filha estava a ser vítima de bullying, ouviram a verdade: “Ninguém lhe está a fazer bullying. Está preocupada com o fim do planeta. A turma dela está a falar de alterações climáticas e ela entendeu que estamos condenados”.

Em frente ao professor e ao diretor da escola, Renata exige explicações: “O que leva dois idiotas como vocês a ensinarem a miúdos de oito anos que o planeta está condenado?”

“Já dei por mim a pensar neste tema”, revela ao Observador a psicóloga clínica e psicoterapeuta infantojuvenil Inês Afonso Marques, coordenadora da equipa infantojuvenil da Oficina de Psicologia. Afinal, como falar das alterações climáticas e do futuro do planeta a crianças que têm uma noção muito limitada sobre o futuro a médio ou longo prazo — ou até do próprio conceito de “planeta Terra”?

“As crianças, em termos de consciência temporal, têm uma noção de tempo muito limitada. Mesmo aos 6 ou 7 anos, o futuro é uma coisa muito abstrata. A noção de que determinado tipo de comportamentos pode ter impacto a médio prazo acaba por ser um bocadinho abstrata para as crianças”, explica Inês Afonso Marques.

Por isso, há dois riscos que os adultos podem correr ao falar deste tema com os mais novos. Por um lado, se a conversa for demasiado abstrata e virada para o futuro, pode resultar em desinteresse. Por outro lado, se o tom do discurso for exclusivamente focado no drama do presente, pode resultar em ataques de ansiedade — e desmaios no armário, como Amabella.

Ir pelo alarmismo, com os cabeçalhos dos jornais a dizerem-nos que daqui a vinte anos não temos planeta, pode ser muito angustiante para uma criança”, alerta a psicóloga, explicando que os pais e professores devem privilegiar uma abordagem construtiva.

"Aos 6 ou 7 anos, o futuro é uma coisa muito abstrata. A noção de que determinado tipo de comportamentos pode ter impacto a médio prazo acaba por ser um bocadinho abstrata para as crianças"
Inês Afonso Marques, psicóloga

Os adultos são os modelos comportamentais das crianças e as atitudes que tomam têm mais impacto nos mais novos do que qualquer palestra ou explicação teórica, sublinha Inês Afonso Marques. Particularmente no comportamento ambiental, área a que “as crianças são muito sensíveis”.

“Quando fazemos educação ambiental e explicamos os temas da reciclagem, as crianças aderem com muita facilidade a este comportamento e acabam por ser elas a levar o comportamento para casa. Depois, depende das famílias. Quando a reciclagem não está muito introduzida na dinâmica da família, isso acaba por ser bloqueado”, explica.

Rita Castanheira Alves, psicóloga especialista na área clínica e da saúde e intervenção precoce, que gere o projeto Psicóloga dos Miúdos, sublinha igualmente que é preciso “nunca esquecer que, principalmente durante a infância, os adultos são modelos para a criança e por isso é fundamental que os mesmos sejam os primeiros a praticar um estilo de vida e práticas sustentáveis”.

“Ajudando a criança com exemplos concretos a compreender esse conceito e outros ligados ao mesmo; partilhando as mesmas rotinas e formas de estar conscientes, sustentáveis e responsáveis, sendo os adultos modelos fundamentais para que a criança adquira a consciência e responsabilização do que está ao seu alcance, no seu dia-a-dia, na sua casa, no seu bairro, na sua escola, de uma forma mais efetiva e concreta, explicando-lhe causas e efeitos. É um problema sério, e sabemos que, à semelhança de outras aprendizagens, o trabalho desde a infância será mais eficaz e efetivo”, defende Rita Castanheira Alves.

"Os adultos são modelos para a criança e por isso é fundamental que os mesmos sejam os primeiros a praticar um estilo de vida e práticas sustentáveis"
Rita Castanheira Alves, psicóloga

Questões como a reciclagem ou a necessidade de tratar bem a natureza podem e devem ser um ponto de partida para falar do planeta. Mas é precisamente quando chegamos ao problema do aquecimento global — e ao papel do ser humano nele — que a conversa com os mais novos se pode complicar.

Como responder às perguntas das crianças?

Professores e colegas na escola, ecrãs de televisão, redes sociais: são múltiplas as fontes através das quais as crianças estão expostas a informações sobre as alterações climáticas e o aquecimento global. Porém, sem capacidade — nem idade — para entender conceitos tão simples como o do próprio planeta ou a ideia de temperatura, é mais do que normal que, a qualquer momento, uma criança pergunte aos pais ou aos professores o que é o aquecimento global.

Nesse momento, de acordo com Inês Afonso Marques, é imperioso não tentar dar uma resposta antes de perceber de que é que a criança está efetivamente à procura.

“O ponto de partida é perguntar: ‘O que é que tu já sabes sobre isso? De que é que já ouviste falar?’ Isto permite-nos filtrar o tipo de informação de que a criança precisa, precisamente para evitar a questão da ansiedade”, sublinha a psicóloga.

Para Rita Castanheira Alves, o conceito de alterações climáticas “pode ser dado a conhecer desde muito cedo e, como qualquer outro, adaptando a explicação do mesmo à idade e capacidade de compreensão da criança”.

A abordagem mais adequada, defende Inês Afonso Marques, passa por colocar a tónica na dimensão positiva do problema — aproveitando a sensibilidade infantil para as questões da natureza. “Temos de passar a mensagem de que há muitas coisas que podemos fazer hoje para proteger o planeta”, destaca.

As crianças têm estado no centro das manifestações contra as alterações climáticas em todo o mundo (Richard Baker / In Pictures via Getty Images)

In Pictures via Getty Images

Acima de tudo, é importante evitar situações de ansiedade com o assunto. “A ansiedade está relacionada com a questão do controlo. Sou mais ansiosa quanto menor controlo percecionar na minha vida. Quanto menor controlo a criança percecionar, mais angustiada vai ficar.”

Evidentemente, os adultos têm de estar minimamente informados sobre o tema para poderem, depois, explicar alguns conceitos e fenómenos às crianças — com uma linguagem simples e clara. “Quanto mais pequena for a criança, mais simples tem de ser a linguagem e menos informação ela vai querer”, explica Inês Afonso Marques. Ao mesmo tempo, é preciso estar atento à quantidade de informação que a criança precisa de receber naquele momento, evitando aprofundar a confusão.

Mas haverá sempre situações em que a criança vai querer saber mais. Muitas vezes, vai querer saber coisas que são difíceis de explicar em palavras simples ou que nem o adulto saberá bem.

Em momentos desses, “não há nenhum problema em dizer ‘não sei, mas vamos pesquisar juntos’”, explica a psicóloga. É positivo envolver a criança no processo de pesquisa — e há ferramentas que podem ajudar.

A NASA, por exemplo, desenvolveu a página Climate Kids, uma espécie de motor de busca sobre questões ambientais construído especialmente para as crianças. Outra ferramenta útil é o National Geographic Kids, também focado em explicar assuntos ambientais aos mais novos.

Ferramentas como estas podem ser muito úteis, até porque este tipo de sites costuma ter imagens muito simples”, destaca Inês Afonso Marques. Pode ser útil começar, acrescenta a psicóloga, por usar vídeos e fotografias que ilustrem o que é o planeta — ou até um globo terrestre para mostrar como é a Terra e onde fica Portugal.

“O ponto de partida é perguntar: ‘O que é que tu já sabes sobre isso? De que é que já ouviste falar?’ Isto permite-nos filtrar o tipo de informação de que a criança precisa, precisamente para evitar a questão da ansiedade”
Inês Afonso Marques, psicóloga

“Paralelamente à prática e adoção de práticas diárias sustentáveis e de uma atitude consciente e responsável, há livros, jogos, filmes que, ajustados à idade, fase de desenvolvimento e características da criança, poderão ser recursos muito úteis de sensibilização”, concorda Rita Castanheira Alves.

A psicóloga defende que é necessário “ajudar a criança ou adolescente a perceber que o mundo não é nem está todo igual e que aquilo que é a realidade dessa criança e da sua família não é a realidade de todos os miúdos do mundo, e que podemos e devemos ter também uma atitude responsável e consciente perante isso e praticar o que está ao nosso alcance”.

Sobretudo, acrescenta Inês Afonso Marques, é essencial “não desvalorizar nem ridicularizar qualquer medo que a criança demonstre”, já que isso pode resultar em bloqueios na juventude ou na idade adulta. “É preciso validar, dizer que se percebeu que a criança está com medo e dizer ‘vamos conversar sobre isto e perceber isto juntos’”, explica.

E não é incomum que as crianças sintam medos relacionados com problemas ambientais. Segundo Inês Afonso Marques, “existem medos normativos em determinadas idades”. É comum que “na fase dos 6, 7 ou 8 anos, na idade da primária, as crianças tenham medo de tudo o que são fenómenos naturais”.

Inês Afonso Marques, que já recebeu no seu consultório crianças com crises de medo de tsunamis, destaca que é preciso dar espaço aos menores para colocarem as dúvidas que tiverem. “Pondo o foco na ansiedade, estamos a tentar resolver problemas que ainda não estão aqui. O mundo não está a acabar, mas temos de saber o que é que aqui e agora podemos fazer. Se o adulto mostrar que está confiante e seguro, isso diminui a ansiedade das crianças.”

É necessário “ajudar a criança ou adolescente a perceber que o mundo não é nem está todo igual e que aquilo que é a realidade dessa criança e da sua família não é a realidade de todos os miúdos do mundo"
Rita Castanheira Alves, psicóloga

Dependendo “da idade, da fase de desenvolvimento, das características e da história de vida da criança”, pode haver diferentes medos associados a diferentes estímulos. Neste caso, sublinha Rita Castanheira Alves, “tratando-se de um ‘medo real’ e sendo urgente que sejamos todos mais responsáveis desde muito cedo, é fundamental ajudar a criança a desenvolver recursos, dar-lhe informação, explicar-lhe que há um conjunto de ações, práticas, e até estilo de vida (do que está ao seu alcance, claro), para que se sinta mais confiante, responsável e contribua efetivamente para a minimização dos danos e para que assim desenvolva uma noção de maior controlo e sustentabilidade”.

É preciso não “alhear” a criança “do tema, do mundo”, já que isso “terá certamente consequências certamente mais catastróficas, para ela e globalmente”.

Da escola à greve climática: a consciência ambiental das crianças

O “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória”, documento do Ministério da Educação que estabelece precisamente os conhecimentos e competências que os alunos portugueses devem ter adquirido quando terminam o ensino obrigatório, determina que os estudantes devem ser capazes de “compreender os equilíbrios e as fragilidades do mundo natural na adoção de comportamentos que respondam aos grandes desafios globais do ambiente”.

No mesmo documento lê-se ainda que os alunos devem “manifestar consciência e responsabilidade ambiental e social, trabalhando colaborativamente para o bem comum, com vista à construção de um futuro sustentável”.

Mas como é que isso se faz na prática? Rita Castanheira Alves defende que os temas ambientais — e, em específico, a questão das alterações climáticas — devem ser abordados “ao longo de todo o percurso escolar, das mais diferentes formas”. O tema deve ser “integrado nos conteúdos programáticos, em conversas com os alunos, em ações de sensibilização, envolvendo os alunos em iniciativas (frequentes e não só uma vez no ano), sendo a própria escola um local sustentável, a todos os níveis”.

De acordo com o que o Ministério da Educação explicou ao Observador, a temática das alterações climáticas está presente em todo o percurso do ensino, desde o pré-escolar até à secundária.

Os alunos devem “manifestar consciência e responsabilidade ambiental e social, trabalhando colaborativamente para o bem comum, com vista à construção de um futuro sustentável”
Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória

O assunto faz parte das “orientações curriculares da educação pré-escolar, na área do Conhecimento do Mundo”. Depois disso, é abordado em disciplinas do Ensino Básico (Estudo do Meio, Ciências Naturais, Geografia e Físico-Química) e do Ensino Secundário (Geografia, Físico-Química e Química).

Mas é na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento que está a maior aposta do Ministério da Educação para esta área. Após ser testada em forma de projeto-piloto, esta disciplina tornou-se obrigatória no ano letivo 2018/19 para os 1.º, 5.º, 7.º e 10.º anos. A disciplina passará a ser obrigatória a partir do ano letivo 2019/20 para os 2.º, 6.º, 8.º e 11.º anos; no ano 2020/21 para os 3.º, 9.º e 12.º anos; e, finalmente, no ano letivo 2021/22 será obrigatória para o 4.º ano, “respeitando a continuidade dos ciclos”, segundo explicou fonte oficial do Ministério da Educação.

Um dos domínios obrigatórios da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento é a Educação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável — no âmbito da Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania.

O aparecimento da nova disciplina, porém, não foi livre de polémicas, com a Associação de Professores de História a denunciar o corte de horas de aulas de História para permitir o encaixe da Cidadania e Desenvolvimento.

Além disto, o Governo sublinha que “a Direção-Geral da Educação, em articulação com a Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares, a Associação de Professores de Geografia, a Associação Bandeira Azul da Europa (ABAE), a Associação Portuguesa de Educação Ambiental, o Centro de Informação, Divulgação e Ação para o Ambiente e Desenvolvimento e a Agência Portuguesa do Ambiente publicou o Referencial de Educação Ambiental para a Sustentabilidade para apoiar as escolas no trabalho em torno das alterações climáticas”.

Outras iniciativas, como o manual Oceano — Educar para uma Geração Azul (um documento feito pela Fundação Oceano Azul e aprovado pela Direção-Geral da Educação que está na base de um projeto de formação de professores para a área ambiental) ou o projeto Eco-Escolas (rede de escolas que implementam ações de promoção ambiental e que recebem a “bandeira verde” se cumprirem determinados requisitos), vão colocando, de uma ou de outra forma, o tema do ambiente no ambiente escolar.

Resultado ou não de novas políticas de educação ambiental, uma coisa é certa: a luta do ambientalismo está, mais do que nunca, a ganhar espaço nas escolas e entre as crianças mais novas. Inspirados pela figura carismática de Greta Thunberg, uma sueca de 16 anos que se tornou conhecida por passar os seus dias em frente ao parlamento sueco com um cartaz a pedir uma “greve às aulas pelo clima”, milhões de crianças e jovens aderiram ao movimento da greve climática juvenil.

Uma criança de 10 anos faz um discurso improvisado durante um protesto contra as alterações climáticas. Diz que não quer morrer em 10 anos (Stewart Kirby/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)

SOPA Images/LightRocket via Gett

Porém, para a psicóloga Inês Afonso Marques, não é certo que haja uma maior consciência ambiental entre as crianças de hoje. “Acho que eles não têm muito essa consciência. Lembro-me de quando era miúda, de quando andava na primária, já havia muito trabalho de sensibilização. Falava-se muito da camada do ozono, tenho isso presente há muito tempo. É importante que, em termos educativos, as crianças tenham acesso a essa informação. Mas o envolvimento nas manifestações… Temos de perguntar porque é que eles estão ali.

“Vemos muitos miúdos a serem entrevistados na televisão e não sabem dizer porque é que estão ali”, exemplifica a psicóloga, destacando que a “noção de grupo” tem, nestes casos, um peso maior do que a consciência ambiental. “Há uma líder, alguém que os inspira, que é a miúda sueca, há aqui uma noção de grupo e de proteção. Mas temos de perguntar aos nossos filhos se têm real consciência do que está a ser tratado. Muitas vezes, é mais para marcar uma posição.”

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