Yuri Semin, treinador do campeão Lokomotiv Moscovo: “Manuel Fernandes sabe mais da história russa que eu” /premium

07 Julho 2018

Ainda faltam 10 dias para a final do Mundial 2018 e já falámos com o campeão. Ah pois é, jogada de antecipação: chama-se Yuri Semin, tem 71 anos e treina o Lokomotiv Moscovo.

Dos últimos 13 títulos do Lokomotiv, onze pertencem a Yuri Semin, um senhor com idade para ser meu pai (71 anos). De olhar pachorrento, apanhamo-lo no centro de estágio do Lokomotiv, recém-campeão russo à conta de um golo de Éder na penúltima jornada. Quando se apercebe da nossa presença, fala com o tradutor (Murat, de seu nome e dominador do português abrasileirado com categoria) e a cena organiza-se ali mesmo, num dos bancos de jardim à beira do relvado principal. Onde iria treinar amis tarde diariamente o Irão de Queiroz.

Foi campeão russo pela terceira vez, a primeira desde há 14 anos. O que é isso vale?
No início da época, toda a gente apontava o Lokomotiv como uma das equipas a lutar pelo acesso da Liga dos Campeões, mas ninguém se atreveu a dar-nos como candidatos ao título. Compreendo: a partir de 2004 [data do tal último título], baixámos bastante de nível e outros aproveitaram para aparecer. Até agora. [Yuri sorri sempre amavelmente no fim de um pensamento]

Quem apareceu?
Quem se abasteceu de dinheiro, como o Zenit e o Spartak Moscovo. Eram eles os principais candidatos ao títulos, curiosamente ambos treinados por italianos: Mancini no Zenit e Carreira no Spartak. Por isso mesmo, era um campeonato super difícil para nós. Como gostamos de contradizer os prognósticos, demos a volta aos acontecimentos. [Yuri pára de falar, sorri longamente e recomeça]. Um pouco à imagem do que aconteceu na final do último Europeu, em 2016, certo? A França era favorita, toda a gente só apostava na França, e Portugal é que levou a taça. Além da vitória inesperada, por conta da diferença de orçamento entre nós e os outros, devolvemos a alegria aos nossos adeptos, sempre bastante comprometidos com a equipa.

E o compromisso do Yuri?
O que posso dizer? Adoro o Lokomotiv. De coração. Ganhámos três títulos e fui sempre eu o treinador. Esse tipo de ligação é muito raro no futebol. Quando aqui cheguei pela primeira vez, em 1986, o Lokomotiv estava em baixo. Depois ajudei-o a subir. Depois desceu e subiu outra vez, subiu e desceu outra vez. Cá estamos, sempre presentes. Eu e as pessoas que também adoram o Lokomotiv de coração. Repara, o estádio passou o ano a encher-se nos dias de jogo e isso é que é realmente importante. O nosso futebol conseguiu devolver o povo ao estádio e passámos de 30 mil para 50 mil. Esse estímulo é muito importante para todos, desde jogadores até diretores. Quando os adeptos nos estimulam, é possível acreditar em tudo e o título de campeão russo é uma evidência.

"O Éder é das pessoas mais positivas que conheci. Imagine o que é chegar a um país totalmente diferente, com uma língua nada fácil, e impôr-se? É o Éder. Em poucos dias, ele já se esforçava por falar russo. E nunca o vi zangar-se com alguém ou protestar com o tempo. Garanto-te, é fácil qualquer um protestar com o tempo, sobretudo no inverno. O frio entra-nos pelos ossos dentro e é lixado."

Falou há pouco do Portugal-França em 2016, resolvido pelo Éder. Como é que é o Éder no dia a dia?
Meu amigo, o Éder é das pessoas mais positivas que conheci. Imagine o que é chegar a um país totalmente diferente, com uma língua nada fácil, e impôr-se? É o Éder. Em poucos dias, ele já se esforçava por falar russo. E nunca o vi zangar-se com alguém ou protestar com o tempo. Garanto-te, é fácil qualquer um protestar com o tempo, sobretudo no inverno. O frio entra-nos pelos ossos dentro e é lixado. Para o Éder, não. Ele entra aqui como se nada fosse, faça chuva, sol ou neve. Para ele, a vida é para ser bem vivida, com um sorriso nos lábios. É assim nos treinos, nos jogos e até na vida privada.

Como é que sabe?
Lembro-me de um episódio recente em que fomos os dois falar a uma universidade de Moscovo, a maior da Rússia. Havia estudantes a perder de vista e fiquei surpreendido com a fama do Éder. Os estudantes não o largavam, essencialmente pelo golo à França, e ele comunicava com eles através do russo. Esse tipo de empatia é pouco visto. Tanto o russo querer falar com um estrangeiro como o estrangeiro, neste caso o Éder, falar russo. Foi uma tarde espetacular, que jamais esquecerei pelo àvontade de todos.

E desportivamente?
Em dois anos, deu-vos o título europeu e, a mim, o título de campeão russo. Craque da cabeça aos pés. Chegou aqui à 6.ª/7.ª jornada, depois de uma fase menos boa no Lille, onde estagnou, e reencontrou-se. Até tive pena que o campeonato russo tivesse acabado com ele numa forma arrebatadora. Para que a sua adaptação fosse boa, muito contribuiu o Manuel Fernandes.

[Manuel Fernandes] "É um fenómeno. Dentro de campo, é impossível imaginar um Lokomotiv sem Manuel Fernandes. Fora de campo, é um jogador intelectual, muito inteligente. Lê muito, fala várias línguas e estou certo que sabe mais que eu sobre a história da Rússia. Sabe, de certeza."

Pois é, o Manuel Fernandes. Que tal?
É um fenómeno. Dentro de campo, é impossível imaginar um Lokomotiv sem Manuel Fernandes. Fora de campo, é um jogador intelectual, muito inteligente. Lê muito, fala várias línguas e estou certo que sabe mais que eu sobre a história da Rússia. Sabe, de certeza.

Qual é a sua maior alegria, enquanto treinador?
Ahhhhhh, sei lá.

A vitória sobre o Bayern?
Ehhhhh, foi uma boa vitória, sem dúvida. Já faz muito tempo, é de 1995, acho. Outro bom resultado foi o 2-1 ao Mónaco nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Para chegar aí, passámos um grupo com Inter: 3-0 aqui, 1-1 em Milão. Por falar em empates, também me lembro de um 2-2 com o Real Madrid, no Santiago Bernabéu. Nessa altura, eu apenas aproveitei o bom trabalho de um treinador vosso.

Quem?
O José Couceiro.

Ah sim?
Siiiiim. A sua contribuição foi importantíssima, só que os directores apressaram a afastá-lo quando ele estava a fazer um bom trabalho de recrutamento, com muitos jogadores novos e russos. Se o tivessem deixado trabalhar até ao fim, o Lokomotiv certamente não iria estar 14 anos sem ganhar o título de campeão russo.

"Aproveitei o bom trabalho de um treinador vosso. O José Couceiro. A sua contribuição foi importantíssima, só que os directores apressaram a afastá-lo quando ele estava a fazer um bom trabalho de recrutamento, com muitos jogadores novos e russos. Se o tivessem deixado trabalhar até ao fim, o Lokomotiv certamente não iria estar 14 anos sem ganhar o título de campeão russo."

Quando começou a carreira de treinador, quem era o seu ídolo?
Só um não, tenho dois: Beskov e Lobanovsky. Bem diferentes, por sinal. Se os pudessemos comparar, seriam agora como Guardiola e Simeone.

Conheceu-os pessoalmente?
Aos dois.

E que tal?
Beskov era sensacional, inesquecível.

E Lobanovsky?
Um génio da táctica, tinha o dom de antecipar jogadas e o de conversar com jogadores. No trabalho de campo, também era génio. Preparava os jogos como ninguém e o seu trabalho está aí à vista.

Qual?
O Dínamo Kiev.

Qual deles?
Tanto faz. Quer dizer, o dos anos 80 ganhou Taça das Taças e Supertaça europeia, o dos 90 ainda conseguiu deixar uma marca na Liga dos Campeões, ao chegar às meias-finais. E porquê esse sucesso? Muito trabalho fora de campo. O seu futebol era científico e, verdade seja dita, os jogadores também eram verdadeiros atletas. Por isso é que o Dínamo Kiev dá 3-0 ao Atlético Madrid na final da Taça das Taças. O pressing era constante, o Atlético raramente saiu do seu meio-campo com a bola controlada.

Onde é que o Yuri estava no 5-0 da URSS vs Portugal?
Ahhh, lembro-me bem desse jogo. Foi em que ano?

1983.
Lá está, Lobanovsky no seu melhor. E os jogadores também.

Porquê esses jogadores?
Sempre fomos mais físicos que os nossos adversários. Sempre fomos aqueles que corríamos mais. Isso ajudou-nos a ganhar o Euro-60 e a criar condições para criar dificuldades a quem quer que seja em todo o mundo. Agora já não é bem assim. Quero precisamente focalizar essa questão. Fisicamente, a Rússia perdeu fôlego.

E porquê?
E porquê? A meu ver, por causa das condições metereológicas. Nós agora, no inverno, vamos fazer estágios de semanas a fio em Espanha, Portugal, Itália ou França, porque aqui tudo piorou e já não há mais condições para as crianças brincarem na rua. Por isso, o nosso futebol perdeu fôlego. Se o nosso forte era o físico e o perdemos, os rivais apanharam-nos. Até porque os outros conseguem ser superiores a nível técnico.

Qual é a sua selecção soviético-russa preferida: 1960, 1988, 2008?
Nenhum dessas [Yuri ri-se]. A minha favorita é a do Mundial-94. Era adjunto do Pavel Sadyrin e havia uma quantidade enorme de talento. Sete ou oito jogavam em Espanha, três ou quatro na Alemanha, um ou dois em França, mais um ou dois em Portugal, como Yuran e Kulkov. Só que rebentou um escândalo entre os jogadores e a federação, o que enfraqueceu a selecção. Muitos dos jogadores negaram-se a jogar, alguns deles já nos EUA, e isso fez-nos acumular duas derrotas a abrir. O 6-1 aos Camarões é um triste adeus à geração mais talentosa, dotada e habilidosa. Eram craques e, acima de tudo, jovens com 23/24 anos. Se não tivesse havido aquela confusão, essa geração poderia ter dado que falar.

Como jogador, o Yuri jogava onde?
Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Carregador de piano.

Alguma vez chegou à selecção?
Não, e tenho pena. Joguei em clubes de topo com Spartak Moscovo, Dínamo Moscovo e Lokomotiv Moscovo. Depois Kuban Krasnodar. Acabei aqui a carreira.

E qual a sua melhor memória?
Os dois golos ao OFK Belgrado, na estreia europeia do Spartak Moscovo.

E quando é que teve a ideia de ser treinador?
Vou contar: lesionei-me gravemente e já tinha 33 anos. Decidi retirar-me e iniciar os estudos para treinador. Fiz todos os cursos e tive a sorte de aprender numa escola magnífica. Comecei na 2.ª divisão e aqui estou.

Ouvi dizer que gosta de Portugal.
Ahahahahah, é verdade. Quem é que lhe disse, Paulo Barbosa?

"Conheço bem Portugal desde os anos 90. Lembro-me muito bem da visita a Lisboa, fiquei encantado com Eusébio que nos fez uma visita guiada. Em Moscovo bebemos um copo de vodca. A viúva do Yashin também estava lá. O que mais me encanta é a frescura dos produtos do mar, seja num restaurante caro ou num mais vulgar. A frescura e o preço baixo, já agora. Quando trincas o peixe, parece que sentes o mar."

Como é que adivinhou?
Só podia, só podia. Conheço bem o país desde os anos 90, não me lembro agora do ano, quando fomos jogar à Luz para a Taça das Taças, pelo Lokomotiv. Lembro-me muito bem da visita a Lisboa, fiquei encantado com Eusébio que nos fez uma visita guiada. Na 2.ª mão, em Moscovo, convidei o Eusébio para a terceira parte, numa sala em que pudéssemos falar à vontade, sem pressa. Ele aceitou, bebemos um copo de vodca e fiquei com a melhor impressão possível dele. Muito educado, super aberto e muito charmoso. Incrível mesmo. A viúva do Yashin também estava lá e foi um momento muito agradável.

E Portugal sem ser o futebol?
Ahhhhhh. Já visitei muitos países e posso fazer comparações com as cozinhas: o que mais me encanta é a frescura dos produtos do mar, seja num restaurante caro ou num mais vulgar. A frescura e o preço baixo, já agora. Tudo é fresco, delicioso. Quando trincas o peixe, parece que sentes o mar.


Já agora, diga ao Paulo Barbosa que temos de acabar aquele jogo dois para dois. O do ano passado em Colares acabou empatado, agora eu e a minha neta estamos à espera do Paulo e da filha dele. Diga-lhe que estamos impacientes por recebê-los. Vai ser um jogo bem bom, espero que vocês venha assistir. Até pode ser o árbitro para evitar a confusão da última vez com um golo que não foi, ahahahah.

Agora têm o VAR.
Verdade, convido-o na mesma a ver o jogo.

Ahahahah. Aceito. Última pergunta: o Yuri nunca está quieto no banco, quantos quilos perde por jogo?
Ahahahahahah. Devo perder alguns, porque continuo a baixar de peso. Por muito que coma, abato durante os 90 minutos. A verdade é que faz parte de mim não saber estar quieto. E a concentração é tanta que, às vezes, nem sei se estava sentado ou de pé na altura crucial do jogo, como um golo ou uma expulsão.

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