Ruy Castro: “Garrincha era um génio sem noção dessa genialidade” /premium

09 Setembro 2018

Sempre em forma, qual Garrincha com o 7 nas costas, Ruy Castro fala dos mirabolantes dribles do brasileiro dentro e fora do campo, por ocasião da reedição da sensacional biografia "Estrela Solitária".

Não. Qualquer “não” está carregado de negatividade. “Não isto”, “não aquilo”. Não corras dentro de casa, não comas chocolates uns atrás dos outros, não bebas demais, não isto e não aquilo. É um fartote de nões, armadilhas infinitas de proibições e barreiras psicológicas para tudo e mais alguma coisa. Pois bem, o “não” ganha um novo élan em 1995, ano em que a editora Companhia das Letras lança Estrela Solitária, a biografia de Garrincha escrita pelo prodigioso Ruy Castro, já então autor dos estimulantes Chega de Saudade: A história e as histórias da Bossa Nova (1990) e O Anjo Pornográfico: A vida de Nélson Rodrigues (1992).

“Estrela Solitária: um brasileiro chamado Garrincha”, de Ruy Castro (Tinta da China)

Para o Estrela Solitária, Ruy Castro faz mais de 500 entrevistas com 170 pessoas. Números avassaladores, de competência maiúscula e leitura obrigatória. Ao longo das 522 páginas, o dia a dia de Garrincha é revisitado como se o estivéssemos a viver no aqui-agora. É incrível a maneira como Ruy Castro nos entrega de corpo e alma à realidade pobre de Pau Grande, terra-natal de Garrincha, e depois à loucura citadina do Rio de Janeiro, onde joga o Botafogo, clube de quase toda uma vida do craque mais sensacional do futebol brasileiro.

Sim, claro, há Pelé e Djalma Santos, mais tarde Rivellino e Tostão, depois Sócrates e Zico, ainda Cafu e Ronaldo. Só que Garrincha tem um peso acrescido pela vida a mil à hora, sem pés nem cabeça. Se quantificarmos o mediatismo, Garrincha rebenta a escala de Richter. Na boa. Aliás, quem não conheça Garrincha de todo, lê o Estrela Solitária e das duas uma: ou o livro é de ficção ou é um romance. Seja qual for, o autor tem o dom da criatividade elevado ao cubo. Só que não. Lá está, a palavra não.

Não. O Estrela Solitária começa com um não. E bem. Afinal, Garrincha é tudo aquilo, é ficção romanceada de fio a pavio. É um herói tragicamente humano. A Tinta da China reedita a obra e facilita-nos a conversa por email com o autor. “Xará, estou às ordens”. É o ponto de partida para 11 perguntas. Onze, o número de futebol por excelência.

Que outro futebolista dos nossos dias dava um herói e um livro como Garrincha?
Há vários grandes jogadores brasileiros que, um dia, renderão biografias fascinantes, melhores do que as que já se escreveram sobre eles. Alguns: Zico, Sócrates, Ronaldo Fenómeno. E, naturalmente, Pelé.

Gostava de escrever sobre que outros jogadores?
Sinceramente, nenhum. Procuro não repetir géneros. Já biografei um dramaturgo (Nelson Rodrigues), um jogador de futebol (Garrincha) e uma cantora (Carmen Miranda). Cada qual foi um mergulho num universo diferente. Não será o caso, mas, se houver um próximo biografado, ele terá de ser algo como um ventríloquo, um escafandrista ou um político brasileiro.

Pior do que a miopia propriamente dita, é a miopia mental, certo? Acha que Freud foi um bom “oftalmologista da alma”?
Não faço ideia. Nunca fui psicanalisado — estava muito ocupado vivendo.

O autor, Ruy Castro

Futebol = patrocínios = direitos televisivos = contratos milionários = publicidade direta e encapotada: o mundo em que vivemos tornou mais difícil escrever sobre o futebol, ou, pelo contrário, reforçou a veia crítica do cronista?
Acho que reforçou. Tirou o lado, digamos assim, “humano” do futebol [os jogadores do passado eram de uma pobreza fabulosamente romântica], mas, por outro, jogou o esporte numa teia de conspirações envolvendo economia, política, sexo e até esporte. Ruim para o futebol, mas bom para o cronista.

Como é que vê futebol: vai ao estádio? Veste a camisola? Vê na televisão? Continua a ter o rádio de pilhas por perto? 
Há alguns anos, tornei-me membro da gigantesca torcida Fla-Sofá — a que assiste aos jogos do Flamengo pela televisão. Somos, por baixo, uns 35 ou 36 milhões. Assisto até ao básquete do Flamengo, por sinal ótimo. A camisola, evito vestir — não se deve conspurcar a camisola do nosso clube com uma barriga indecente.

O romancista e o cronista convivem desportivamente dentro de si?
Não sei, não sou romancista. Escrevo biografias e livros de reconstituição histórica, em que a matéria-prima é a informação. Cometi dois romances, por sinal muito bem recebidos e já editados em Portugal, Bilac vê estrelas e Era no tempo do Rei, mas eram trabalhos de um biógrafo em férias. Além disso, sendo casado com uma superficcionista, Heloisa Seixas, prefiro limitar-me à minha sola de sapateiro.

Há uma guerra interior de sentimentos da sua parte no momento em que descobre a falácia dos laterais joões ou da pressão em cima de Feola para o Brasil-URSS no Mundial-58?
Guerra, nenhuma. Na verdade, adoro quando isso acontece. O biógrafo ou historiador não deve ser um revisionista fanático, mas é esse tipo de revelação que justifica produzir uma biografia.

"Tomei conhecimento de Garrincha pelo rádio e pelos jornais assim que ele começou no Botafogo, em 1953. Eu tinha cinco anos, mas já estava atento... Depois, assim como todo o Brasil, acompanhei-o empolgado na Copa do Mundo de 1958. Mas só o vi jogar no estádio alguns meses depois, em novembro daquele ano, num jogo Flamengo x Botafogo. Pessoalmente, vi-o uma única vez, talvez em 1967, quando eu era repórter de um jornal e ele estava presente num evento que, aliás, não tinha nada a ver com ele. Mas não fui procurá-lo para perguntar o que estava fazendo ali --- Garrincha, nesta época, não tinha mais importância nenhuma"

Ainda se lembra da vez em que conheceu Garrincha futebolista e Garrincha pessoa?
Tomei conhecimento de Garrincha pelo rádio e pelos jornais assim que ele começou no Botafogo, em 1953. Eu tinha cinco anos, mas já estava atento… Depois, assim como todo o Brasil, acompanhei-o empolgado na Copa do Mundo de 1958. Mas só o vi jogar no estádio alguns meses depois, em novembro daquele ano, num jogo Flamengo x Botafogo. Depois vi-o várias vezes, sempre em jogos contra o Flamengo. Era eletrizante, mesmo quando destroçava o nosso time. Pessoalmente, vi-o uma única vez, talvez em 1967, quando eu era repórter de um jornal e ele estava presente num evento que, aliás, não tinha nada a ver com ele. Mas não fui procurá-lo para perguntar o que estava fazendo ali — Garrincha, nesta época, não tinha mais importância nenhuma.

Quais são as suas memórias mais fortes de infância relacionadas com futebol? (flamengo e não só)
Inúmeros jogos do Flamengo e alguns da seleção brasileira, principalmente a das Copas de 1958 e 1970.

Fala sério, com tanta pesquisa para os seus livros, você mora na Biblioteca Nacional do Rio, não mora?
Entre 1991 e 1992, para preparar o livro sobre Nelson Rodrigues, realmente quase me mudei para lá. Para o livro sobre Garrincha, também. É um ambiente maravilhoso. Mas, desde então, de certa forma a abandonei. Na verdade, mudei-me para a minha própria biblioteca nacional, que é o acervo que mantenho em meu apartamento. Além disso, o acervo da Biblioteca Nacional está hoje quase todo digitalizado e pode ser acessado sem que se saia de casa…

Quantos elos de ligação há entre as figuras Garrincha e Carmen Miranda?
Para mim, muitos. Os dois estavam quase esquecidos no Brasil quando resolvi biografá-los — imaginava que havia muito mais na vida deles do que o que às vezes se publicava. E tinha razão. Os dois foram génios, cada qual em sua especialidade, mas não tinham noção dessa genialidade.

(pergunta suplente) Quando é que vem a Portugal? Já conhece muitas cidades daqui?
Se conheço? Fui pela primeira vez a Portugal em 1967 — ganhei um prémio literário aqui no Brasil, e o prémio era um curso de Língua e Literatura Portuguesa na universidade de Coimbra. Tinha 19 anos. Depois, trabalhei em Lisboa de 1973 a 1975 — era editor-executivo da Selecções do Reader’s Digest –, donde estava aí no 25 de Abril. Morava em Campo de Ourique com minha mulher e uma filha, e outra filha, Bianca, nasceu poucos meses depois. Voltamos para o Rio em fins de 1975, mas, depois disso, fui a Lisboa pelo menos umas dez ou quinze vezes. De alguns anos para cá, tenho ido todos os anos, inclusive por causa de Bianca, que se mudou para aí em 2001, e por meus dois queridos netos lisboetas, João Ruy e Teresa. Este ano, por acaso, não vou — mas meus livros estão aí para me representar.

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