Vencedor do Nobel da Literatura em 2010. Escritor amplo. Cidadão de igual medida. Na literatura, retratou países, criando gente e ilusões; na política, foi de progressista a conservador. Nos seus 89 anos de vida, criou uma biblioteca, com romances tão densos e amplos quanto A Guerra do Fim do Mundo, A Festa do Chibo, As Travessuras da Menina Má ou Conversas n’A Catedral. Dedicou-se às reflexões sobre cultura, em particular as literárias, tendo publicações recentes em Portugal como História de um Deicídio ou Conversas em Princeton.
Em Outubro de 2023, assinou a sua última obra de ficção: Dedico-lhe o meu silêncio. Dois meses depois, deixou a coluna no El País que usava como um braço de intervenção social e política – ali morava o Vargas Llosa ensaísta, agora neoliberal na economia, ele que começara como apoiante de Fidel Castro em Cuba. Passou depois democracia liberal e capitalista, tendo-se candidato à presidência do Peru em 1990, apoiado por uma aliança de centro-direita, que não conseguiu vencer Alberto Fujimori.
Vargas Llosa (que morreu este domingo, 13 de abril, aos 89 anos) venceu, contudo, o seu outro grande campeonato: não apenas recebeu o mencionado Nobel, como foi indiscutivelmente um gigante. A sua literatura conta o mundo. Regressando a alguns dos seus livros mais marcantes, este é um roteiro possível a fim de navegar pelos traços principais de uma prosa transformadora.
“Conversa n’A Catedral”
1969
É uma construção impressionante. Em plena ditadura de Odría (1948-1956), o jornalista Santiago Zavala conversa com o seu amigo Ambrosio na taberna A Catedral. O diálogo, como depois se viria a tornar expectável do que vinha das mãos de Vargas Llosa, abre as janelas para um país marcado pela violência e pela corrupção. A estrutura, aparentemente simples, cria um grande romance – no entender do autor, o mais importante que escreveu –, que vai daquela mesa a outros pontos, desenvolvendo de forma longa a relação entre seis personagens principais, com essas a trazerem mais gente à narrativa.
▲ Tradução de José Teixeira de Aguilar; 632 páginas; Edição: Dom Quixote
Cada um deles, metido na sua vida, acaba por desempenhar um papel relevante na representação de um país, sem nunca deixar de ser gente – uma coisa una e indivisível, provida de individualidade, coisa capaz de ganhar a empatia dos leitores. A tal pretensa simplicidade da ideia para o romance do livro resulta num enredo complexo, em que a linearidade fica à porta. Os três tempos misturam-se, o que faz com o que o leitor se veja obrigado a uma leitura ativa, a dar de si ao mesmo tempo que recebe, entrelaçando os pontos, concluindo.
“A Guerra do Fim do Mundo”
1981
Numa grande empreendimento, Vargas Llosa narrou aqui a história da Guerra de Canudos, misturando, ao bom jeito da ficção, realidade com o que só aconteceu na mente do escritor. Para o fazer, o autor passou vários meses no sertão de Canudos, onde escreveu os primeiros esboços. O detalhe do romance é tal que é fácil tomar-se a invenção por realidade, confundindo-se o romance com a história. Para mais, as personagens têm em si camadas de mundo: sendo pessoas individuais, veiculam eixos, trazem contexto e densidade social. Por exemplo, o Conselheiro é um beato que prega contra a república, trazendo ao texto tanto fanatismo religioso quanto conflito de interesses no que concerne aos regimes, isto na época da queda da monarquia brasileira.
▲ Tradução: Salvato Telles de Menezes; 528 páginas; Editora: Dom Quixote
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No meio do caos, o nordeste do Brasil é descrito pela confusão de gente, entre pessoas marginalizadas ou ex-escravizadas. Canudos passa a ser uma espécie de sociedade paralela, erigida às margens da lei comum, provocando pânico às autoridades republicanas. A prosa de Vargas Llosa, como sempre, é rápida e elegante, incisiva, escorreita, dando corpo a um romance portentoso, com fortes influências do realismo e do jornalismo literário, numa abordagem quase cinematográfica.
“A Festa do Chibo”
2000
É um grande e pungente relato. Vargas Llosa mete-se na República Dominicana e o que dali vem não é bem uma festa, é mais uma desgraça. O romance pega em Rafael Trujillo, que, tendo estado no poder durante 31 anos, fez o que quis do país. Permitindo-se as liberdades que a ficção concede, Vargas Llosa partiu desta figura para encarar o território da ditadura. Chibo foi o nome que o povo pôs ao ditador, esse que tentara banalizar generalíssimo ou chefe ou benfeitor. Usando histórias de crueldade que chegaram a ganhar a dimensão de mito, o autor não se esqueceu de mostrar de que forma o ditador era considerado um semi-deus por uns, muito menos de que forma é que isso ajudou o regime a aguentar-se.
▲ Tradução de Cristina Rodriguez; 512 páginas; Edição: Dom Quixote
É um dos maiores romances do autor peruano e faz-se através de duas linhas temporais: numa, temos as atrocidades do ditador, um relato frio, arrepiante, de um regime habituado a usar a força e a instigar o terror; noutra, temos Urania, que regressa à ilha 30 anos depois de lá ter estado pela última vez, para visitar o pai em Santo Domingo, agora velho, outrora apoiante de Trujillo. Através dela, o leitor viaja também para 1961, altura em que a capital do país se chamava Ciudad Trujillo.
Partindo disto, o autor mostrou o fim de uma ditadura, ao mesmo tempo que uma transição para a democracia que esteve longe de ser branda. As personagens, construídas de forma cirúrgica, ficam na cabeça do leitor durante muito tempo, assim como fica o peso de um retrato amplo e bem desenhado.
“Travessuras da Menina Má”
2006
É tão ridículo, tão intenso, tão dramático – tão romântico –, que dá pena. Pobre Ricardo Somocurcio: alguém o salve das mãos de Lily, ou das de Vargas Llosa, que são as mesmas. Ambas ao seu jeito lhe criaram o destino. O autor era amplo e, por isso, uma história de amor e revezes é mais do que isso. Ricardo – Ricardito, de tão pacato – cresce e vai morar para Paris, realizando um sonho de infância. Na Europa, reencontra Lily, um antigo amor de adolescência que a memória cristalizara como coisa branda. Eles tão diferentes: ele calmo, ela inconformista, em busca da aventura. Ele maluco por ela, ela doida por ir e vir, entrar e sair da vida dele, maculando-o de recordações que se impregnam na pele e o estragam por dentro, cada vez mais apaixonado.
▲ Tradução: J. Teixeira de Aguilar; 376 páginas; Editora: Dom Quixote
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Enquanto delineia o romance, fazendo com que as personagens se encontrem em décadas diferentes, em países diferentes – Paris nos 60, Londres e Tóquio nos anos 70, Madrid no anos 80 –, o autor vai fazendo do contexto também personagem principal: temos a revolução, o amor livre, a máfia, as transições políticos. Em Vargas Llosa, as cidades nunca são só paisagem, são vida a acontecer – e essa vida faz parte de quem passa por lá. No meio disto, o Peru também está lá: pouco tempo lá passam Ricardo e Lily, mas nem por isso o autor descura o seu olhar, e aparecem, e de forma corpórea, a ditadura militar e os movimentos revolucionários.
Há muita cultura neste romance, um retrato abrangente de tanto do mundo, mas sobretudo há esta coisa tão humana: o amor que nasce não sei de onde, vem não sei como e dói não sei porquê.
“Elogio da Madrasta”
2012
É perturbador. E simples, elegante, intenso. Lá dentro, um erotismo que deixa desconfortável quem lê o que está nas páginas. A ação, contada na terceira pessoa, segue o ponto de vista de um miúdo de 11 anos, que, órfã da parte da mãe, vê o pai casar-se com Lucrecia. O casamento é fresco, e tanto pai como madrasta estão preocupadas com a reação da criança: querem, claro, que o miúdo goste dela. O problema começa a ser a dimensão deste gosto e desse olhar. Passa a haver uma espécie de tensão sexual, e diz-se “espécie de” porque a construção parece mais sensorial. Seja como for, está lá, e cada momento descrito passa a ter uma componente corporal.
▲ Tradução: J. Teixeira de Aguilar; 168 páginas; Editora: Dom Quixote
Tudo é subtil e elegante: metódico, Vargas Llosa não deixa que lhe fuja a mão, e é impressionante ver com que segurança molda e doma o texto. A páginas tantas, já os bilhetes carinhosos de Fonchito atingem outras dimensões, e o mesmo se passará com os beijinhos inocentes de criança. O romance acaba por ter uma segunda parte em “Os cadernos de Dom Rigoberto”, onde se conta a história posterior: já expulsa de casa pelo desenvolvimento da relação com Fonchito, Lucrecia vive a sós, e a criança virou adolescente. Dom Rigoberto, por sua vez, anda deprimido com a perda da segunda esposa.
“Duas solidões”
2021
Veio-nos como um resquício da voz de García Márquez, publicado já depois da sua morte. Mas, agora em 2025, também funciona como uma voz além-túmulo de Vargas Llosa. No livro, dois grandes escritores são dois pares de ombros em cima dos quais se erigem impérios literários, e relata-se o encontro entre ambos, em 1967, numa fórmula que é mais uma entrevista do peruano ao colombiano. A produção literária latino-americana começava a conquistar leitores, afastando-se da ideia de ser uma literatura periférica, e os escritores debatiam o realismo numa altura em que ainda era cedo para que o realismo mágico tivesse nome.
▲ Tradução: J. Teixeira de Aguilar; 176 páginas; Edição: Dom Quixote
Nisto, parecia que García Márquez até a rejeitava: considerava-se escritor realista e que a fantasia que Vargas Llosa via no que escrevia era parte da realidade da América Latina. Enquanto se lê, vai tendo graça a forma como encaram o ofício da escrita de forma tão distinta, deitando por terra qualquer ideia sobre método que possa ser universal. Para o peruano, a escrita é pura e simplesmente do domínio do racional e do plano. Para o colombiano, parece acontecer quase sem querer – e se impressiona é porque a vida é impressionante. Contrapõe-se uma ideia de cálculo e de inconsciência a outra de espontaneidade e inconsciência.
São só alguns exemplos, há muito mais, mas estes cinco livros parecem tocar nos pontos principais da obra de Vargas Llosa, que é intensa, imensa, e tantas vezes inesperada. Quando se abre um livro, não se sabe bem onde é que a narrativa vai parar, mas sabe-se que haverá uma relação empática com as personagens e mundo ao mesmo tempo, sem que uma se sobreponha à outra, num casamento ideal e tão difícil de atingir na literatura. É com mestria que o autor entrelaça esses dois eixos, não deixando que o contexto engula as personagens, nem que as segundas ignorem o primeiro.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.