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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Markus Villig, CEO do "unicórnio" Taxify: "O sucesso resume-se apenas a trabalho árduo" /premium

Tem 24 anos e é o CEO europeu mais jovem de uma empresa unicórnio (vale mais de mil milhões de dólares). Com o Observador, falou da "lei Uber", de Silicon Valley, da Europa e dos planos para o futuro.

Lançou uma app concorrente da Uber aos 19 anos, na Estónia, e cinco anos depois a Taxify está presente em mais de 25 países, emprega cerca de 700 pessoas e conta com mais de 15 milhões de utilizadores e mais de 500 mil motoristas registados. Aos 24 anos, o fundador e presidente de uma startup unicórnio (empresa avaliada em mais de mil milhões de dólares) mais jovem da Europa esteve no palco principal da Web Summit para falar do futuro da mobilidade, mas, antes, deu uma entrevista ao Observador.

Quase um ano depois de ter começado a operar no mercado português, Markus Villig diz que a app está na corrida para se tornar na maior plataforma de transportes de passageiros em Portugal e que a regulação aprovada para os TVDE (transporte em veículos descaracterizados) é um passo na direção certa, mas não é “perfeita” — inibe as pessoas que queiram usar os seus carros particulares para ganhar dinheiro extra de o fazer e que isso faz com que haja um potencial de serviço que se perde.

Sobre a liderança agressiva de Silicon Valley e os assuntos que marcaram o ano (privacidade e proteção de dados), Markus Villig explica que a inovação tecnológica está a fazer com que várias indústrias tradicionais, como a dos transportes, se transformem em negócio tecnológicos e quem está ao comando dessas indústrias são as empresas de Silicon Valley. “Seguindo esta tendência, percebemos que o controlo está a sair da Europa e não acho que isso seja uma coisa boa”, disse, acrescentando que fazem falta empresas com maior dimensão no Velho Continente. “Imagina que o Facebook era realmente uma empresa europeia, com sede na Europa. Será que teria os mesmos problemas que tem hoje? A minha crença é a de que teria uma cultura bastante diferente.”

“Se as pessoas puderem usar os seus carros e ganhar um dinheiro extra, isso é uma coisa boa”

Como tem estado a correr a operação em Portugal?
Maravilhosamente bem. Começámos a operar em Portugal há cerca de um ano e agora estamos na corrida para sermos a maior plataforma de transporte de passageiros em Portugal, para o ano. Tudo o que esperávamos fazer no primeiro ano fizemos.

Entretanto, a Assembleia de República aprovou a nova regulação para TVDE (transportes em veículos descaracterizados, nos quais se incluem estas plataformas), que não existia quando a Taxify chegou ao país. O que acha da nova regulação?
Acho que é um passo na direção certa, mas não é a regulação perfeita que poderia ser. O aspeto principal que achamos que está em falta é este: a regulação não permite às pessoas ganharem dinheiro com o seu carro. Há milhões de pessoas em Portugal que têm carro próprio e que gostariam de utilizá-lo para ganhar um dinheiro extra e se a regulação for muito alta, a maioria não se vai dar ao trabalho de o fazer. Nesse sentido, vemos que a regulação atual é essencialmente boa para motoristas a tempo inteiro, mas muito restrita para motoristas que queiram encarar isto como um trabalho a tempo parcial. Aqui, estes vão perder este potencial.

Está a falar dos cidadãos comuns que querem ganhar um dinheiro extra usando o seu próprio carro?
Sim, imagina que queres fazer isto apenas umas horas por semanas.

E porque é que isto é importante?
Porque quando olhamos para a indústria dos táxis ou destas plataformas de transporte, percebemos que a procura é flutuante e muda 20 vezes por semana. Pensa que numa terça-feira de madrugada, por exemplo, às 3h ou 4h da manhã, estes motoristas não têm quase serviços nenhuns, porque não há ninguém a ir para lado nenhum, mas numa sexta-feira à noite, podem haver 20 ou 30 vezes mais clientes que precisam de um carro. E se tiveres esta flexibilidade para os motoristas, que só conduzem a tempo parcial, então vais poder cobrir estes picos de serviços e as pessoas vão poder ter um serviço bom, no qual podem confiar. Se só tiveres motoristas a tempo inteiro, não vais ter este equilíbrio, não podes absorver estes picos. Por isso é que favorecemos mais a regulação que apoie este tipo de flexibilidade.

"Esperamos que mais países europeus decidam não bloquear completamente a inovação e esta nova indústria, optando por abrir-se a ela e taxá-la"

Isso parece mais difícil de acontecer em Portugal ou mesmo na União Europeia.
Não acho que seja fácil de acontecer, mas acho que ainda vale a pena lutar para que isto aconteça, porque vemos que é bom para as pessoas. Por um lado, os carros estão a levar apenas uma só pessoa 95% das vezes, ocupando apenas espaço. Se as pessoas puderem usar os seus carros e ganhar um dinheiro extra, isso é uma coisa boa. Por outro lado, tens milhões de pessoas que precisam de uma viagem, sobretudo aos fins de semana, quando os transportes públicos podem não estar a funcionar. É claramente um grande problema que precisa de ser resolvido e se demorar alguns anos a chegar lá, tudo bem, nós trabalhamos com os reguladores para fazer isto.

E a taxa de 5% ao Estado que foi imposta na regulação? É uma coisa nova. Estava à espera?
No final das contas, qualquer imposto que o Governo adicione, obviamente que vai tornar o serviço fundamentalmente mais caro. Mas acho que se a alternativa ao imposto era não haver sequer serviço disponível para ninguém, então acho, sem dúvida, que é bom ter um serviço que é mais caro se a outra opção for não ter nada. E acho que a a maioria das pessoas concordaria com isto. Nesse sentido, vemos que é uma coisa bastante boa e esperamos que mais países europeus decidam não bloquear completamente a inovação e esta nova indústria, optando por abrir-se a ela e taxá-la, que é uma abordagem melhor.

E a ideia de permitir que os taxistas possam também ser motoristas? O que pensa sobre isso?
Bom, afinal eles estão a oferecer um serviço muito semelhante, porque é que não haveriam de estar nas plataformas também? Quando olhamos para a regulação noutros países, por exemplo, na Estónia, não há distinção entre taxistas e motoristas. As leis são iguais para toda a gente, quer sejas um motorista destas plataformas quer sejas taxista. Tens as mesmas exigências, mas é muito fácil tornares-te motorista. Podes pagar cerca de 50 euros e tornas-te motorista num dia. Se quiseres ser motorista amanhã, podes fazê-lo e isso é flexível para toda a gente, é muito fácil para os novos motoristas irem para o mercado com as mesmas regras para os dois lados.

"Os motoristas fazem mais dinheiro connosco, nós tratamo-los melhor e damos-lhes mais privilégios e focamo-nos muito nisso. O que significa que estamos a atrair mais motoristas, melhores motoristas, motoristas mais felizes e isso traduz-se numa melhor experiência para o utilizador"

O que foi mais difícil quando entrou para o mercado português?
Como sempre, teve a ver com o facto de encontrar algo pelo qual os utilizadores realmente se interessassem. E o que vimos em toda a Europa foi uma grande preocupação, na qual tipicamente os clientes estão a negligenciar os motoristas em função de todo o ecossistema. Quando olhamos para Portugal, também vimos que muitos motoristas reclamavam de quanto ganhavam e de como as plataformas estavam a tratá-los. E isto é uma coisa que a Taxify quis responder logo de início. Os motoristas fazem mais dinheiro connosco, nós tratamo-los melhor e damos-lhes mais privilégios e focamo-nos muito nisso. O que significa que estamos a atrair mais motoristas, melhores motoristas, motoristas mais felizes e isso traduz-se numa melhor experiência para o utilizador. Por isso, não podes esperar ter um bom serviço se todos os teus motoristas estão infelizes. E foi isso que nós fizemos de forma diferente.

“Nunca passámos por uma altura fácil, na qual não estávamos a competir com ninguém”

Como é operar num mercado que é dominado pela Uber?
Já estamos a operar em mais de 20 países e basicamente em todos os países em que entrámos, a Uber já operava lá uns anos antes. Por isso, todos nós tivemos de descobrir sempre alguma coisa nova e perceber como convencer milhões de pessoas a mudar de um serviço para o qual já pagavam para nós. E volta outra vez tudo à mesma coisa: quisemo-nos apenas certificar de que os motoristas estavam felizes e a fazerem um serviço melhor com a Taxify. Primeiro, preocupamo-nos com os motoristas e depois, se conseguirmos ter na plataforma motoristas relaxados e felizes, os utilizadores vão seguir-se.

Mas a Uber é conhecida por ser muito agressiva nos mercados em que opera, por fazer muito lobbying. Sentiu isso na pele?
É a concorrência a funcionar como habitualmente funciona. Temos vindo a competir com a Uber e com muitas outras plataformas. Nunca passámos por uma altura fácil, na qual não estávamos a competir com ninguém. Por isso, nesse sentido, estamos habituados a isto. O que vimos que mais importa é que aquele que fizer o melhor produto para os seus clientes e motoristas é o que ganha. Vemos claramente como crescemos em Lisboa, já estamos na corrida para sermos a maior plataforma em 2019, tendo em conta apenas dois anos de trabalho. Por isso, claramente, as pessoas estão a gostar do que fazemos.

"Em relação aos carros autónomos, vamos ser realistas: é uma coisa que ainda vai demorar muitos anos a acontecer. Não podemos agora esperar que vai aparecer este carro autónomo mágico para resolver todos os nossos problemas" 

A Uber tem esta aposta nos carros autónomos para o futuro. Também tem este tipo de ambição para a Taxify?
Claro. O que temos feito nos últimos cinco anos tem sido muito à volta de preparar a nossa plataforma para começar a lançar outros produtos. Mas, e particularmente em relação aos carros autónomos, vamos ser realistas: é uma coisa que ainda vai demorar muitos anos a acontecer. Não podemos agora esperar que vai aparecer este carro autónomo mágico para resolver todos os nossos problemas. O que começámos a fazer por exemplo, em África, há seis meses, foi focar-nos em táxis em motociclos, que são muito mais eficientes e ocupam muito menos espaço nas cidades. Na Europa, começámos a focar-nos na partilha de trotinetes e fomos a primeira plataforma de transportes a fazê-lo no mundo. E vamos lançar mais produtos do género.

Qual é que vai ser o maior desafio para a Taxify, se quiser escalar ainda mais?
O maior? Acho que se trata sempre de encontrar as melhores pessoas, acho que é o mais importante. Porque estamos sempre a recrutar pessoas em todas as cidades em que entramos. Crescemos de cerca de 100 pessoas em 2017 para cerca de 700 pessoas agora. Foi um crescimento mesmo muito rápido e ainda estamos à procura de recrutar mais pessoas.

Acha que, em 10 anos, as pessoas já não vão comprar carro próprio? 
Vamos ter, sem dúvida, menos pessoas a comprar carros do que antigamente. Mas, mais uma vez, temos de ser realistas: daqui a 10 anos ainda vamos comprar carros. Não vai descer para zero, mas o que vai ser diferente é que as pessoas vão ter muito mais escolha. Mas cada vez mais e mais pessoas [usam serviços como o nosso], é uma tendência que está a crescer de ano para ano.

Está familiarizado com o ecossistema de startups português?
Infelizmente, não muito.

Mas tendo em conta a sua experiência, o que faz falta a Portugal para se tornar num país tão digital como a Estónia?
O maior problema que existe em Portugal é o mesmo que há em toda a Europa. Há uma quantidade decente de capital para investir em empresas que estão numa fase mesmo muito inicial. Mas o problema é que quando comparamos as maiores empresas tecnológicas da Europa com um Facebook ou uma Google [EUA], percebemos que ainda têm uma escala muito pequena. Por isso, acho que o problema não está tanto na fase inicial, está mais nas empresas europeias que estão numa fase mais intermédia ou mais desenvolvida e que precisam de ser mais ambiciosas, ter mais talento, capital e por aí.

"Seguindo esta tendência, percebemos que o controlo está a sair da Europa e não acho que isso seja uma coisa boa. Basta olharmos para o que tem acontecido com o Facebook"

Muito se falou este ano sobre o estilo de liderança mais agressivo de Silicon Valley. Qual é a sua opinião sobre isto?
Isso, na verdade é um tema sobre o qual tenho pensado muito. Acho que a pergunta a que temos de responder é: queremos viver em que tipo de mundo? Queremos que todas as indústrias sejam controladas por Silicon Valley? Ou, na verdade, queremos que sejam empresas locais? Quando pensamos nisto, então percebemos que todas as indústrias, uma por uma, se estão a tornar em indústrias tecnológicas. Há 10 anos, os transportes eram um negócio muito tradicional. Agora, cada vez mais, os transportes estão a tornar-se num negócio tecnológico, por exemplo. E isto está a acontecer numa série de indústrias também.

Quando olhas para quem está, na verdade, ao comando de todas estas transformações, percebes que são empresas de Silicon Valley. Seguindo esta tendência, percebemos que o controlo está a sair da Europa e não acho que isso seja uma coisa boa. Basta olharmos para o que tem acontecido com o Facebook, por exemplo, relativamente aos problemas com as eleições. Nesse aspeto, acho que a Europa devia realmente aparecer com grandes empresas tecnológicas nos próximos cinco anos. Acho que vão surgir muitos mais problemas, como os que temos visto.

A privacidade e a proteção de dados são temas que foram muito discutidos também. Qual é a solução?
Acho que tudo se resume a uma coisa: se tivermos grandes empresas tecnológicas na Europa, é bastante claro que os fundadores e empresas europeias têm uma mentalidade diferente da de Silicon Valley. Por isso, acho que essa é uma das coisas que vai ajudar. Imagina, por exemplo, que o Facebook era realmente uma empresa europeia, com sede na Europa. Será que teria os mesmos problemas que tem hoje? A minha crença é a de que teria uma cultura bastante diferente.

Sucesso? “Acho que se resume apenas a trabalho árduo”

É um empreendedor muito jovem e com bastante sucesso. Qual é o segredo?
Boa pergunta. Acho que se resume apenas ao trabalho árduo. Quando olho para os empreendedores jovens que conheci ao longo dos anos, muitos deles estão bastante felizes. Quando alcançam determinados níveis de sucesso, muitas vezes, vendem a empresa ou contratam outro gestor e tiram algum tempo para si e relaxar. Alguns deles simplesmente não estão motivados para investir 10 anos da sua vida a construir uma empresa realmente massiva.

Qual foi o momento mais difícil que viveu na Taxify até agora?
O mais difícil… Foram muitos, não sei qual escolher. Acho que a coisa mais difícil tem sido encontrar boas pessoas para a equipa ao longo dos anos. Fizemos muitos erros também. Quando olho para a primeira leva de pessoas que contratámos, reparo que tivemos de deixar ir metade delas, porque realmente não eram boas para a equipa. E demorei muito tempo a perceber quem é que se integrava mesmo na cultura da empresa e na equipa e quem realmente se interessava por aquilo que nós fazemos.

E acha que há uma bolha de unicórnios? As startups estão a ter cada vez mais avaliações maiores, mas estas avaliações realmente interessam? É importante? 
Se pensares que nos próximos 10 anos cada vez mais indústrias se estão a transformar em indústrias tecnológicas, então percebes que as startups de hoje são as empresas que vão governar estas indústrias no futuro. Acho que muitos dos investidores estão a perceber que estão a apostar no futuro e eles sabem que não há 100% de probabilidades de a Taxify vir a ser a plataforma de transportes líder na Europa, mas mesmo que haja 20% de hipóteses de isso acontecer, o valor da empresa vai ser de centenas de milhares de milhões de dólares. Eles estão apenas a investir no futuro e a assumir alguns riscos.

Então, não acha que as empresas tecnológicas estão sobreavaliadas?
Acho que há sempre algumas empresas que estão sobreavaliadas ou subavaliadas, mas, no geral, acho que se olhares para o quão rápido estas empresas estão a crescer, [o valor] é muito justo.

"Temos cerca de 500 mil motoristas na plataforma, que estão a ganhar o seu dinheiro connosco. Se o trabalho deles desaparecer, vai ser um grande problema, muitos destes motoristas terão de encontrar formas alternativas de ganharem dinheiro. Por isso, levamos essa responsabilidade muito mais a sério do que a avaliação exata da empresa"

Mas com avaliações mais elevadas, também há mais responsabilidades. Agora que a Taxify é um unicórnio, como lida com estas responsabilidades?
Acho que a responsabilidade vem mais do valor que os serviços estão a criar para os utilizadores e tem menos a ver com as avaliações. Temos cerca de 500 mil motoristas na plataforma, que estão a ganhar o seu dinheiro connosco. Se o trabalho deles desaparecer vai ser um grande problema, muitos destes motoristas terão de encontrar formas alternativas de ganharem dinheiro. Por isso, levamos essa responsabilidade muito mais a sério do que a avaliação exata da empresa e do que os acionistas pensam sobre isso. No final das contas, o que mais nos interessa é o que os clientes pensam.

Qual seria a saída perfeita para a Taxify? Um IPO?
Como vimos, a maioria das empresas tecnológicas europeias são vendidas e ainda não há ninguém que esteja a competir em grande escala com as empresas americanas, por isso, esperamos ser um dos primeiros a fazê-lo.

Sim, mas com um IPO?
Bem, muito provavelmente sim. Ainda existe muito capital privado nos mercados, por isso, não há grande pressa, mas no longo prazo é o mais provável que aconteça.

Será no mercado europeu?
Ainda faltam tantos anos que não vou especular.

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