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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Marques Mendes foi à faculdade em campanha e deu as boas-vindas a Gouveia e Melo após "declaração de candidatura"

Mendes voltou a chamar a si a virtude dos consensos e alertou que país com constantes dissoluções do Parlamento "não é levado a sério”. Sobre Arruda, disse que "já não devia estar" na Assembleia.

Antes de arrancar para a palestra “Pensar Portugal”, Marques Mendes aproveitou para piscar o olho ao eleitorado mais jovem, dirigiu-se a um dos bares da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e cumprimentou quem por ali estava, mostrando interesse nos cursos de cada um e lembrando que também estudou Direito em Coimbra. Nos curtos cumprimentos ao sol, antes e depois de um rápido café, não passou muito da conversa de circunstância, mas os corredores da universidade serviram para reagir ao artigo de opinião de Gouveia e Melo com um recado: seja bem-vindo à corrida.

“Vi esse artigo de opinião como uma declaração de candidatura à Presidência da República. E, por isso, saúdo Gouveia Melo por essa declaração de candidatura. É bem-vindo e, portanto, neste momento deixo-lhe aqui uma palavra de saudação na perspetiva de que vamos ter aqui uma maratona presidencial que vai ser muito rica no futuro em termos de debate de ideias. Aqui fica a saudação”, disse, recusando-se, perante várias perguntas, a responder sobre algumas questões levantadas pelo almirante, nomeadamente à crítica feita à ligação dos candidatos a partidos políticos. Na palestra tinha deixado claro que um dos compromissos de um Presidente da República deve ser fazer “um mandato com isenção, imparcialidade e independência”.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Num discurso para uma plateia bem composta recordou alguns dos objetivos para quando (e se) chegar a Belém, mas distanciou-se de Marcelo Rebelo de Sousa, que optou por várias dissoluções do Parlamento, quando alertou que “se o país passa o tempo em crises, eleições e dissoluções do Parlamento é um país sem estabilidade e não é levado a sério”. Insistiu naquela que considera uma das suas maiores virtudes para o cargo de Presidente da República, a capacidade de “criar consensos” e “evitar crises”, ao mesmo tempo que sublinhou a necessidade de haver na vida política bons políticos porque “não há boas decisões políticas com maus decisores políticos”. A acrescentar a isso deixou ainda mais uma promessa para se for eleito Presidente da República quando referiu que as “negociações não se fazem na praça pública, fazem-se em privado”.

E, à boleia de uma das perguntas do auditório, explicou que “um Presidente da República não pode governar, não faz leis” e “não faz reformas”, mas repetiu um slogan já utilizado para dizer que “também não é uma rainha ou rei de Inglaterra” como uma “entidade meramente simbólica”. “Deve ter causas e compromissos”, assumiu, recuperando a experiência enquanto líder da oposição, em que fez questão de assegurar que a procura por consensos políticos não é a prova de que se trata de um líder “fraco” ou “frouxo”. É antes, defende, de “alguém que tem uma visão estratégica para Portugal.”

Não só lembrou os contributos para acordos de regime, como falou do afastamento de autarcas que fez enquanto líder do PSD, apontando um pensamento que pode servir para o futuro: “É preferível perder uma eleição a perder a honra e credibilidade.”

É preciso, disse o candidato a Belém, que haja na vida política protagonistas com “maior qualidade” do que existe hoje em dia, e que se puxe para esta as pessoas “pela qualidade, pelo mérito, pela credibilidade” — promovendo também que os cidadãos com qualidade contribuam para a política através da sociedade civil, mesmo que não deixem as suas áreas profissionais para se tornarem políticos. Pelo caminho, Marques Mendes procurou apelar aos mais novos e aproveitou o mote para deixar uma farpa ao clima tenso que se tem vivido na Assembleia da República, depois de uma semana que ficou marcada por insultos em pleno plenário. “Participando ou não, sejam sempre exigentes. Batam o pé, levantem a voz — em nível razoável, não como se faz ultimamente na Assembleia da República”, atirou, sublinhando que se exija “política com ética e honestidade”.

O candidato à Presidência da República, em mais um momento de opinião sobre a atualidade, referiu-se ainda ao caso do deputado não-inscrito, eleito pelo Chega, Miguel Arruda, frisando que “já não devia estar na Assembleia da República”. Não só disse que se o deputado tivesse “o mínimo de dignidade” já teria saído “pelo seu pé”, como salientou que a Assembleia da República já devia “ter criado condições” para que o parlamentar fosse afastado do cargo.

Sob o mote “Pensar Portugal”, Marques Mendes enalteceu a importância de Portugal trabalhar para uma “sociedade mais justa, mais rica e mais culta”, em que haja “ideias, objetivos e ambição” traçados. Com um foco que já tinha deixado claro nas últimas aparições públicas, Marques Mendes destacou que o país tem de procurar uma economia “a crescer mais por todos, fundamentalmente pelos jovens” e que esse objetivo tem de ser assente em “melhores salários”, desde logo para travar aquilo a que chamou o “drama dos jovens que saem de Portugal” para trabalhar no estrangeiro, muito devido aos baixos salários. Perante o tema, até deixou um repto: “Não era má ideia que Governo, sindicatos e empresários pensassem num acordo de concertação social virado para o objetivo de fazer crescer os salários.”

[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

No sentido de uma sociedade mais justa, Mendes assumiu que existem “enormes desigualdades sociais e assimetrias”, sendo necessário “distribuir melhor a riqueza” do país. Tocou ainda no tema da cultura, que descreveu como o “parente pobre do discurso, em privado em público, dos governos em geral, da atividade política em particular”, e que considera fundamental para uma “sociedade moderna e cosmopolita” em que haja acesso à cultura de “forma mais abrangente e mais democrática”. “Portugal é um país pequeno, mas não é um país irrelevante. Somos uma espécie de diplomatas do mundo”, sublinhou, realçando que o país tem “pouca ambição” e que é fundamental essa palavra “entrar no vocabulário”. “Pequenez não é sinal de insucesso”, rematou.

Marques Mendes, que marcou presença no evento da SEDES no dia em que faz três anos de que a Rússia invadiu a Ucrânia, não fugiu ao comentário sobre política internacional, designadamente quando avisou para “algumas tentativas vindas de várias partes do mundo de tentar reescrever a história”, numa referência a Donald Trump, somando a isso o facto de realçar a importância de um cessar-fogo “justo e sério” que seja feito “com todas as partes interessadas” — já que a Ucrânia ficou fora de uma das conversas de que os EUA fizeram parte — e que não sirva “só para beneficiar o infrator”.

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