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(artigo em atualização ao longo do dia)

“Aqui há contas certas, Ponte de Lima é CDS”. Os bombos da Juventude Popular vão tocando e os jovens vestidos de branco e azul claro vão cantando, enquanto Nuno Melo e o presidente da câmara de Ponte de Lima, Victor Mendes, fazem uma incursão matinal pela feira que, de 15 em 15 dias, se realiza no centro da vila. O orgulho daquela que é a mais fiel e antiga câmara centrista nota-se em cada cântico entoado: “Tem sido a melhor autarquia do país, a mais bem gerida”, comenta o candidato, que é menos famoso entre feirantes do que o autarca.

Na feira, entre a memória de Portas e a garantia de que não se vai esquecer de Pedro Marques

O mote das “contas certas” não vem ao acaso. Foi precisamente esse que saiu beliscado da mais recente crise política, com António Costa a puxar para si e para o PS o bastião do rigor das contas que por norma, os partidos da direita sempre reivindicaram para si. “A diferença entre nós e eles é que o CDS de cada cêntimo faz património, enquanto o dr. António Costa fala de contas certas, mas para ele contas certas é chamar a troika”, disse Nuno Melo aos jornalistas enquanto passeava pela feira e distribuía folhetos e beijinhos, lembrando mais uma vez que António Costa é o verdadeiro candidato do PS às europeias, e não o cabeça de lista Pedro Marques.

“É mais alto e mais bonito do que na televisão”, comentaria uma cliente da feira depois de cumprimentar o candidato. Os feirantes, na verdade, estavam todos mais interessados nas canetas que os membros da comitiva, de bandeira ao ombro, ofereciam a quem passava. E por bons motivos: “É que sem caneta não há cruz” no boletim de voto, diria uma das contempladas com um beijinho de Nuno Melo. “26 de maio, não se esqueçam”.

O CDS está em casa, mas nem por isso a enchente é muita. Ainda é cedo, diga-se. Eram 8h45 quando começou a incursão entre peças de roupa, panelas, frutas e legumes. Nuno Melo aproveita a ocasião para falar aos jornalistas e atacar António Costa, que ontem esteve num jantar com Frans Timmermans, o candidato a presidente da Comissão Europeia apoiado pelos socialistas, e que passou todo o jantar sem referir uma única vez o candidato Pedro Marques. “O PS quer fazer esquecer Pedro Marques”, mas Nuno Melo faz questão de não deixar o candidato socialista cair no esquecimento, associando-o à austeridade do desinvestimento, numa caricatura que está muito longe da imagem de contas certas que agora o PS quer puxar para si.

“No que nos toca, não esqueceremos o dr. Pedro Marques. O PS quererá fazer esquecer o dr. Pedro Marques. Nós recordaremos sempre o dr. Pedro Marques por aquilo que ele é: o candidato da austeridades que quer atribuir aos outros as más contas que salvaram o país”, disse.

A meio da feira, aos jornalistas, o eurodeputado centrista ainda definiu as europeias como um “teste difícil”. Bem diferente das últimas autárquicas, em que Assunção Cristas “retirou a maioria absoluta ao PS” na câmara de Lisboa, permitindo-lhe “liderar a oposição”, tanto na autarquia como no parlamento.

Um resultado que o deixa com “muito orgulho”, mas que sabe que é difícil de repetir. Porque “nem as autárquicas são as europeias nem as circunstâncias são as mesmas”, disse aos jornalistas quando questionado sobre se sentia a pressão de ser o primeiro a ser testado nas urnas depois do bom resultado de Cristas em Lisboa. A meta para Melo é clara: fazer igual ou melhor do que 2009, altura em que o CDS concorreu sozinho e elegeu dois eurodeputados.

Mais uma voltinha, mais uns beijinhos e mais umas canetas requisitadas. No dia em que arranca o período oficial de campanha eleitoral, a campanha de Nuno Melo começou numa feira e, segundo a agenda prevista, será quase sempre assim: os planos preveem pelo menos uma feira ou um mercado por dia. Uma feira por dia nem sabe o bem que lhe fazia? Mais ou menos isso. Foi Paulo Portas quem inaugurou a forma de fazer campanha nas feiras e nos mercados, e o CDS orgulha-se desse legado. “Temos de ir onde as pessoas estão, fazer uma campanha de proximidade, e as pessoas de manhã estão na feira”, explica, lembrando que Paulo Portas (apelidado de Paulinho das Feiras) foi gozado por isso, mas hoje em dia “não há partido, nem o BE, que não vá a feiras”. “Gozam-nos, mas imitam-nos”, comenta.

Estamos então perante o novo Melinho das Feiras? “Não me importo nada. Mas não se deve copiar o original, o Paulo é único”, respondeu.

O mar e o plástico. Melo limpa praia e alerta para reafetação de fundos

Depois da feira, o mar. Neste que é o primeiro dia de campanha oficial, Nuno Melo (que hoje segue sozinho, sem figuras de peso do partido a acompanhá-lo), anda pelo distrito de Viana do Castelo e parou à beira mar: numa praia com, literalmente, dois banhistas. Trata-se da praia do Coral, em Viana do Castelo que, por motivos da corrente, acumula muito plástico na areia.

Relaxado e sem grande aparato, Nuno Melo, juntamente com o diretor de campanha, Pedro Morais Soares, e um pequeno grupo de jotas, chegam à praia discretamente, calçam as luvas, pegam nos sacos de serapilheira e tratam de começar a recolher o plástico que vão encontrando. Foram vinte minutos disso, numa “ação simbólica”, sendo já a terceira do mesmo género, ligada ao mar, que o CDS realiza no âmbito da pré-campanha. E se no caso das feiras Nuno Melo já se tinha queixado de que hoje em dia não há partido que não imite o estilo de campanha do Paulinho das Feiras, na praia voltou a queixar-se do mesmo: “Até nisto já fomos copiados por outros partidos”, disse, referindo-se às ações de recolha de lixo e de plástico nas praias que partidos como o PAN têm vindo a realizar.

O objetivo era claro: falar de reafetação de fundos comunitários para o mar. O tema pode não ser apetecível do ponto de vista mediático, e por isso Nuno Melo desabafa num à parte longe dos microfones: “Queixam-se de que não falamos de Europa, mas depois quando falamos não querem saber”. Mas nem por isso deixa de o fazer. Portugal tem a terceira maior Zona Económica Exclusiva da União Europeia, pelo que tem de fazer do mar não só uma oportunidade como uma obrigação. “Quando limpamos o mar português estamos a limpar poluentes que atravessam oceanos e podem ter múltiplos destinos. É obrigação dos Estados, sim, mas também é obrigação da União Europeia de adequar os fundos comunitários à realidade”, disse aos jornalistas.

ARMÉNIO BELO/LUSA

E a realidade é que os fundos do Mar 2020 — que, segundo o candidato, está a ser “miseravelmente executado” pelo atual Governo — são atualmente restritivos nas ações de limpeza, limitando-se à limpeza de redes de pesca, quando os mares são atualmente poluídos por muitos mais tipos de materiais diferentes, sobretudo por plásticos. Daí que seja preciso, disse, “uma reconfiguração do Mar 2020 à nossa realidade, para que seja possível afetação de fundos a uma limpeza que deve ser prioritária”, acrescentou.

Podia ser o PAN ou os ecologistas dos Verdes a falar, mas era mesmo Nuno Melo, quando disse que no “topo das prioridades” do CDS para o próximo mandato vai estar o ambiente e as alterações climáticas. Fica a promessa.