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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Mendes ajusta calendário à crise política e avalia riscos

Candidatura admite que derrota da AD seria má, mas que segunda vitória será vantagem extra. Mendes faz ajustes de calendário, mas continuará a fazer intervenções como o apelo presidencial de 5ª feira.

Luís Marques Mendes preparou a candidatura a Belém com uma realidade que já não existe. A crise política trouxe novos riscos para o candidato que já o levaram, confirmou ao Observador fonte da candidatura, a alguns ajustes de calendário. Os Estados Gerais que ia promover só vão arrancar em abril e o grande momento, a convenção final, que era em julho, passa para outubro — já depois das autárquicas. O maior risco na reavaliação feita pela candidatura seria uma eventual derrota de Luís Montenegro nas legislativas — que atrapalharia toda a estratégia —, mas é um cenário considerado pouco provável pela entourage de Mendes.

A candidatura de Marques Mendes avaliou os novos riscos e tenta agora transformá-los em oportunidades. Desde logo, o próprio candidato tinha confessado ao Observador, no dia em que lançou a candidatura, que temia uma “banalização” da mensagem e um “desgaste” mediático por estar um ano na estrada. Agora, a situação ajuda a que não enfrente esse obstáculo, já que, regista fonte da candidatura, “haverá eleições, depois formação do Governo e, até julho, não se falará de outra coisa”. “Depois entram as autárquicas e só se começa a falar de presidenciais em outubro”.

Marques Mendes já não tem, assim, a “pressão” de ter uma presença mediática constante e vai aproveitar para fazer um trabalho de formiga. Desde logo, avança na mesma com os Estados Gerais, em várias áreas, com a coordenação do ex-ministro Miguel Poiares Maduro. Vão começar em abril (inicialmente seria em março), em simultâneo com a pré-campanha eleitoral. Mas a candidatura até vê que possa “ser útil não ter tanta atenção mediática”.

O antigo líder do PSD aproveitará para fazer um trabalho “porta-a-porta”, mais de “contacto direto com o povo”, sem ter a comunicação social como intermediário. Nas escolas, nas universidades, em debates. Nesta fase mais “morna” na campanha, o candidato não vai deixar de apostar as fichas no eleitorado jovem, aproveitando para esse propósito as redes sociais (já que o espaço mediático dos jornais estará ocupado com a campanha eleitoral).

Paralelamente, os potenciais adversários de Mendes vão atrasar a entrada na corrida, enquanto o candidato aproveitará para intervenções públicas cirúrgicas quando achar relevante e que pode ter ganhos de causa. Foi o que fez, por exemplo, na quinta-feira quando apelou a Marcelo Rebelo de Sousa para que evitasse nova dissolução da Assembleia da República.

No lançamento da candidatura, Mendes marcou diferenças para o atual Presidente ao dizer que “não podemos passar o tempo em dissoluções e eleições antecipadas. Isso não é modo de vida.” Agora, voltou a defender essa ideia e criou um roteiro potencialmente conciliador: primeiro, Montenegro respondia a todas as questões; segundo, o PS abdica a comissão de inquérito; terceiro, o Governo retira a moção de censura.

A crise política obrigou a campanha do social-democrata a entrar num "modo smooth". Luís Marques Mendes não vai desaparecer. Vai andar por aí, mais na sombra, mas sempre disponível para intervir. Neste caso, não teve influência decisiva; mas acredita ter marcado uma posição que lhe será útil no futuro

O maior risco: a derrota de Montenegro

A candidatura de Luís Marques Mendes lidava, até agora, com um cenário de relativa estabilidade. Sabia que mais tarde ou mais cedo ia ter o apoio do partido de Governo e ia aproveitar a estrutura laranja como um esteroide eleitoral. Agora, admite fonte da candidatura, as presidenciais passaram a “ser secundárias”, estando o foco “todo nas legislativas”.

Além disso, a candidatura assume como “maior risco” o facto de Luís Montenegro voltar a ser submetido a votos. “Se perder, não significa que não dê para dar a volta, mas torna as coisas muito difíceis”, admite fonte da candidatura. “Se Luís Montenegro perder, perde a marca PSD e isso vai afetar negativamente o desempenho no partido nas autárquicas e nas presidenciais”, acrescenta a mesma fonte. É o assumir de que Mendes se associa, deliberadamente, à marca PSD.

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Há depois a parte em que o risco se transforma em oportunidade. A candidatura de Luís Marques Mendes acredita que se Luís Montenegro vencer as eleições legislativas essa “relegitimação” favorece a candidatura presidencial, dando balanço para um ciclo positivo. “É uma vantagem extra, que não estava prevista”.

A situação traz um outro risco, mas, esse, a candidatura desvaloriza. Luís Montenegro já deu a entender que apoia Marques Mendes, mas se perder as eleições e o PSD eleger outro líder essa liderança pode ter outras ideias e querer apoiar outro candidato. Mas isso não preocupa a equipa de Mendes.

“Mesmo que Luís Montenegro saísse, que não é provável, qualquer um dos dois possíveis sucessores, Carlos Moedas ou Passos Coelho, não levantariam problemas” de apoio ao candidato Luís Marques Mendes. Além disso, acredita-se na candidatura do social-democrata, a liderança do PSD só mudaria depois das autárquicas, com diretas em novembro, o que daria pouca margem a um novo líder para mudar de candidato presidencial.

"Se Luís Montenegro perder, perde a marca PSD e isso vai afetar negativamente o desempenho no partido nas autárquicas e nas presidenciais", acrescenta a mesma fonte da candidatura de Marques Mendes. É o assumir de que Mendes se associa, deliberadamente, à marca PSD

As intervenções cirúrgicas no espaço mediático

Apesar de a campanha estar num “modo smooth“, Marques Mendes vai continuar a aproveitar as oportunidades para intervir no espaço público. A equipa do candidato considera que, numa altura, em que os portugueses parecem mais sensibilizados para as questões da ética, as posições do antigo comentador como líder partidário são uma vantagem.

Mendes também aproveitará cada momento para mostrar a mais-valia da sua experiência política. Foi isso que fez na quinta-feira com o apelo a Marcelo Rebelo de Sousa (já referido acima neste texto). Marques Mendes avisou até Montenegro durante a tarde, mas o primeiro-ministro refugiou-se no facto de estar “todo o dia no Conselho Europeu”. Isto porque o primeiro-ministro admitiu ter tido um “conhecimento muito fugaz de que havia uma proposta no sentido de esgotar todos os instrumentos e as diligências para poder evitar que o país tenha uma necessidade de auscultação do povo português.”

Apesar de não estar disponível para dar o seu contributo para esse roteiro, Luís Montenegro não deixou de reagir à proposta de Marques Mendes — que tinha sido divulgada a partir da Agência Lusa e teve de imediato eco em vários jornais, rádios e televisões. Afinal, Mendes é conselheiro de Estado e até vai ser ouvido pelo Presidente sobre esta matéria em sede própria. Ainda assim, o primeiro-ministro explicou que o Governo já fez o que lhe competia e deu as “respostas necessárias”, por isso só há “uma última oportunidade” de evitar eleições: aprovar a moção de confiança.

A candidatura de Mendes considera, no entanto, que este é um dos exemplos em que, com intervenções sobre temas específicos, Mendes (que já não tem o canal aberto ao domingo) consegue facilmente intrometer-se no espaço e na atenção mediática. Luís Marques Mendes não vai desaparecer. Vai andar por aí, mais na sombra, mas sempre disponível para intervir. Neste caso, não teve influência decisiva; mas acredita ter marcado uma posição que lhe será útil no futuro.

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