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Luís Marques Mendes a tirar o seu terceiro café na cozinha de sua casa
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▲Luís Marques Mendes a tirar o seu terceiro café na cozinha de sua casa

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Luís Marques Mendes a tirar o seu terceiro café na cozinha de sua casa

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Audiências emolduradas, a 2.ª volta na A1 e um almirante sem descanso nas férias. Os bastidores do primeiro dia do candidato Mendes

Desde o café da manhã até ao momento em que se apresentou, o Observador acompanhou a primeira viagem do candidato Marques Mendes, que já só pensa numa segunda volta contra o almirante.

Marques Mendes bebe um último café antes de sair de casa, o que contribui para o seu lado mais elétrico — ou “fogoso”, como lhe chama Marcelo. A manhã já vai adiantada — como é natural de um notívago que escreveu o discurso da candidatura a Belém pela madrugada dentro — e a saída para norte ainda se atrasa mais pelo mini tour que faz ao Observador pela sua casa, em Caxias, onde os quadros da mãe Isabel decoram as paredes. No escritório há duas molduras que chamam a atenção: têm gráficos com as suas duas melhores audiências registadas na SIC. “Sou recordista. São recordes do comentário”, explica.

As audiências são francamente melhores do que as sondagens para a Presidência da República, mas isso não demove um animado e descontraído Marques Mendes na quinta-feira em que vai rumar a Fafe. “Se fosse pelas sondagens, não me tinha candidatado. Para aqueles que dizem que sou um taticista, demonstra que não houve taticismo nenhum. Taticismo era não ter avançado”, confessa ao Observador.

Os 1,7 milhões de telespectadores da melhor audiência de sempre — numa moldura ao lado de outras de Mendes com Sampaio, Cavaco, Marcelo ou até o Papa João Paulo II — seriam suficientes, se convertidos em votos, para passar à segunda volta (Soares passou com 1,4 milhões num universo de muito mais votantes). É para isso que trabalha, para um mano-a-mano com o almirante Gouveia e Melo: “Estas eleições só se resolvem na segunda volta.”

Observador: Tem a expectativa de uma segunda volta?

Marques Mendes: Parece inevitável uma segunda volta. Estas eleições só se resolvem na segunda volta. Isso parece-me mais ou menos claro.

Mendes não se detém, por agora, muito tempo a explicar as molduras com as personalidades do partido. Numa das fotografias está Luís Montenegro, com quem concertou o avanço: “Informei sempre o PSD das minhas intenções. Informei o secretário-geral-adjunto do PSD e o líder do PSD das minhas intenções. Obviamente que essa articulação existiu.” Também há uma fotografia com Cavaco Silva, de quem foi ministro e que fez também questão de informar previamente que iria avançar para Belém. Fez o mesmo, por mensagem, com Francisco Pinto Balsemão. Com Marcelo o contacto é, naturalmente, reservado, mas ao longo da conversa acaba por confessar sobre o atual chefe de Estado: “Somos muito amigos“.

▲ No seu escritório tem duas molduras onde tem as suas duas melhores audiências do seu comentário semanal na SIC

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Despachada a conversa sobre amigos e barões está na hora de sair de casa rumo a Fafe, onde vai lançar a candidatura a Belém. Marques Mendes e a mulher, Sofia, um dos seus grandes apoios, dirigem-se para o carro. O quase candidato oficial leva um saco de papel na mão com os jornais do dia e veste a farda de campanha: um blazer azul escuro com padrões suaves e sem gravata (mudaria depois de roupa para a apresentação do final da tarde). Não há vizinhos nas redondezas, embora um deles até pudesse ajudar a lembrar os tempos em que andava na política ativa: o amigo e ex-colega de Governo Fernando Nogueira mora na casa ao lado.

[Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador]

Luís Marques Mendes: o café antes da viagem e as audiências como inspiração

Mendes começa uma viagem de carro de quatro horas, com a mulher Sofia ao volante. Durante boa parte da viagem vai a responder a mensagens de WhatsApp. Nos últimos dias chegou a estar até às três da manhã a devolver felicitações pela candidatura. Antes de se apresentar no Lar António Marques Mendes, que tem esse nome em homenagem ao pai, o candidato pára em algumas estações de serviço. Está pouca gente, mas não passa pelas áreas de Santarém e da Mealhada sem uma selfie. Uma das poucas pessoas que ali está àquela hora, e das poucas que abordaria Mendes nas duas paragens que o Observador acompanhou, fez um comentário elogioso: “Deixe-me tirar aqui uma selfie com o futuro Presidente da República de Portugal”.

▲ Luís Marques Mendes na sala de sua casa onde tem vários quadros feitos pela sua mãe

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Muita ética, pouca fruta: não haverá Tutti-Fruttis na campanha de Mendes

O carro continua a seguir pela A1 fora. Mendes vai antecipando que o discurso que fará horas depois vai ter uma grande componente sobre ética — o que se confirmaria. Diz ao Observador que lhe “faz impressão” que em 20 anos a situação relativamente à ética na política só tenha piorado. “Daí para cá nada se fez”, lamentou. Falou dos autarcas que afastou, de como teve de ter “coragem” para o fazer e como se tornou impopular em alguns setores do partido, com danos colaterais que se mantêm até hoje.

O caso Tutti-Frutti é dos que lhe faz “muita impressão” e — embora admita que seja difícil prever —, acredita que era possível que “não tivesse acontecido” se o partido tivesse seguido a bitola ética que quis impor como líder na altura. Além disso, deixa outra garantia: da sua comissão de honra não farão parte acusados do Tutti-Frutti. Vai ser criterioso nas escolhas.

O candidato vai explicando que houve ministros que quiseram ir a Fafe, mas que o próprio optou por pedir a essas pessoas que não fossem a este evento. Alertava o Observador, no entanto, que “muito autarcas” haveriam de aparecer de surpresa e que não controlaria essas presenças. Mais tarde apareceriam em Fafe figuras que não abonam a quem no púlpito falava de ética: Álvaro Amaro, condenado em primeira instância, e Hermínio Loureiro, também a braços com a justiça. O candidato controla o discurso, não os apoiantes.

▲ Marques Mendes viajou à pendura até Fafe

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Mendes segue à pendura e lembra as propostas que ficaram pelo caminho quando era líder e que agora quer recuperar para a candidatura. “Propus primeiro que a Assembleia da República tivesse uma comissão de Ética independente — ou seja, com uma composição fora do normal: ex-presidentes do Parlamento e ex-Provedores de Justiça para que os deputados não estivessem a julgar-se a si próprios.” Este organismo que Mendes queria criar em 2005 (e que agora recupera) deve ter “poderes para sancionar deputados e mesmo para propor a sua suspensão de mandato, quando houvesse comportamentos desviantes, inaceitáveis.” E exemplifica: “O caso do deputado do Chega [Nuno Pardal, acusado de prostituição de menores], caberia neste âmbito.”

O ex-líder do PSD vai lamentando que toda a gente elogie as propostas que visam melhorar a ética mas, quando chega a hora de aprovar legislação, deite tudo por terra com argumentos jurídicos. “Dizem logo que é preciso uma revisão constitucional. E qual é o mal? Faz-se uma revisão cirúrgica”. Lembra, por exemplo, que quando a Europa exigia referendos sobre o Tratado Constitucional ele e Sócrates conseguiram preparar uma “revisão constitucional cirúrgica em 24 horas”. E chegava, neste ponto da conversa com o Observador, a uma característica que destacaria no discurso: a capacidade de construir consensos e fazer acordos de regime. Lembrou, a esse propósito, a parceria que fez com o PS em nome da ética: a limitação de mandatos dos autarcas.

Os mísseis apontados a um almirante de férias

O carro rumo a Fafe já passou a área de serviço de Santarém. Apesar de nunca dizer diretamente o nome de Gouveia e Melo, a conversa avança para a posição do almirante sobre eventuais cortes no Estado Social. Isto porque no podcast Expresso da Manhã aquele que será seguramente o seu principal adversário admitiu que, “de alguma forma, vai haver alguma afetação nas despesas sociais” para possibilitar um maior investimento na área da Defesa.

Ataques ao almirante, o legado na ética e o piscar de olho ao centro. O discurso de Marques Mendes nas entrelinhas

Mendes é implacável com a ideia: “Esta é uma matéria que, por um lado, exige sensibilidade e outra preparação. Começamos pela preparação: para quem domina estas matérias, sabe que há-de ser criado um mecanismo europeu para esta matéria: não é preciso cortar nas despesas. Não é um questão portuguesa, é europeia, e vai-se resolver nesse quadro. Era bom que as pessoas estivessem também informadas e preparadas. É a isto que eu chamo experiência“. Basicamente, Mendes acabara de sugerir que o almirante está impreparado. E ainda acrescentaria: “São declarações precipitadas”.

Para o candidato, o que é necessário é que “uma pessoa domine as questões internacionais e europeias”. Mendes, em contínuos ataques ao principal adversário, avisa ainda que “no plano do discurso não vale a pena estar a assustar as pessoas, senão a dada altura as pessoas afastam-se da democracia e isso também não convém.” E remata: “Estes discursos um bocadinho alarmistas não são nada positivos.”  Questionado diretamente se se referia ao almirante, Mendes remete o combate para mais tarde: quando Gouveia e Melo voltar das férias.

▲ No fim do seu discurso na apresentação da candidatura presidencial, Marques Mendes cumprimentou as centenas de pessoas que encheram o auditório com o nome do seu pai

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A estratégia: presença (mas não muita)

Marques Mendes tem noção de que ainda falta um ano para as eleições e por isso quer conciliar dois objetivos: “Ter presença e agenda política, mas por outro lado evitar a banalização.” O candidato divide o ano em fases diferentes. A primeira etapa de ataque vai desde o momento da apresentação até ao fim de junho, em que Mendes irá aparecer a um ritmo de uma (no máximo duas) vezes por semana em eventos públicos — para não desaparecer, nem desgastar demasiado a imagem. Depois disso, acredita a campanha de Mendes, há um período de “pousio” entre junho e setembro, em que o país político vai para férias e se dedica a autárquicas. Só depois disso entra o modo turbo: de outubro a janeiro o ritmo será fulgurante, de campanha.

Nesta fase inicial, o PSD está já a ajudar Marques Mendes com logística e, mesmo a assessora mais próxima, veio da órbita do Governo (estava com um ministro e agora está com Mendes). A presença de Paulo Cavaleiro, secretário-geral do PSD e homem do terreno de Montenegro, no evento de Fafe denuncia que o partido esteve por detrás do esforço logístico da apresentação. Quanto a agências de comunicação, Mendes ainda está a decidir.

▲ Marques Mendes a cumprimentar quem o encontrou na área de serviço da Mealhada

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Ao mesmo tempo a, para já, curta equipa vai cumprindo com mínimos. Já tem redes sociais: Marques Mendes 2026. “Não é um bicho de sete cabeças e é indispensável ter”, comenta o candidato com o Observador. Até para piscar o olho ao eleitorado jovem, que vota bastante no PSD, mas que estará à partida mais distante de Mendes.

“Os jovens são um eleitorado essencial. Também quero, de uma forma muito especial, dirigir-me aos jovens. Esse era o setor que menos acompanhava os comentários televisivos. Não era por ser eu, é porque os jovens não veem televisão. Ao contrário dos mais velhos. Nas audiências eu via que não havia jovens a ver, mas os mais velhos sim”, confessa o candidato ao Observador. Para já, Mendes ainda não tem Tik Tok, mas já tem Facebook, Instagram e X. É um começo.

▲ Marques Mendes a sair de casa com a sua mulher

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A marca M é de Mendes, não é de Marcelo

Marques Mendes não esconde que é muito “amigo” de Marcelo, mas destaca as diferenças entre ele e o Presidente dos afetos. “Também acho que sempre fui muito afetivo e gosto muito do contacto com as pessoas, mas nós somos muito diferentes”, começa por dizer. O candidato diz que é diferente de Marcelo “quer no estilo, quer na substância da política.” E acrescenta: “Sempre fomos: incluindo quando trabalhámos juntos. Somos muito amigos, respeitamos essa amizade, mas também respeitamos as diferenças.”

Mendes discorre sobre o incumbente — que deseja que se torne seu antecessor em março de 2026. “Não estou a dizer que seja melhor que ele, mas diferente sim. Não vou fazer nada para acentuar essas diferenças. Já quando ele era líder e eu líder parlamentar as diferenças eram sempre muitas”, lembra ao Observador.

▲ Marques Mendes numa das estações de serviço da A1 a caminho de Fafe

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E há uma diferença que tem evidenciado: a estabilidade. Mendes quer passar a ideia de que é um maior promotor da estabilidade que o atual Presidente: “Vou dar-lhe a minha teoria geral. A questão coloca-se com muita acuidade desde a última eleição, em março de 2024. O Parlamento está dividido. Não podemos passar a vida em crise e em eleições antecipadas. Portanto, só há uma saída: tem de se fazer pontes para evitar isto. Tem de se agir por antecipação.” É uma crítica velada a Marcelo.

Sobre o que fará caso seja Presidente em caso de chumbo do Orçamento do Estado é mais cauteloso:

Observador: O que deve fazer o Presidente se não houver Orçamento?

Marques Mendes: É cedo. Não sei se vai haver ou não vai haver Orçamento. Da outra vez disseram que não ia haver e houve. O próximo Orçamento ainda é no tempo do atual Presidente. Quanto ao próximo, o que posso dizer é que há muita coisa no plano mais privado, sóbrio e discreto, não na praça pública, que um Presidente pode fazer. De uma forma mais discreta do que com parangonas na praça pública.

Observador: Mas o próximo Presidente deve ser claro se dissolve ou não?
Marques Mendes: Cada um fará como entender.

Observador: Os eleitores não têm o direito de saber e os candidatos o dever de dizer o que vão fazer quando tomarem posse?
Marques Mendes: Esse cenário não se coloca. Neste momento seria completamente precipitado. Ainda não chegámos ao período de orçamento. Não sei se o Orçamento vai necessariamente chumbar. Um pouco como este: achei que este OE ia passar, que era de tão elementar responsabilidade.

Observador: Pode pelo menos dizer que concorda com o princípio de que os mandatos são para cumprir?
Marques Mendes: Sim. Sim. É um bom princípio.

Observador: Preferia não utilizar a bomba atómica?
É a últimas das últimas soluções. Não deve ser banalizada.

Sobre o modelo a seguir, Mendes não tem referências. Nem Marcelo, nem Cavaco, nem Sampaio, nem Soares, nem Eanes. “Não tenho a preocupação de ter assim uma imitação”, diz ao Observador. Isto porque, acredita, o tipo de mandato presidencial depende do “estilo, ideias e circunstâncias”. “Não tenho a preocupação de ser assim ou assado”, remata.

▲ Luís Marques Mendes no escritório em sua casa na manhã do dia em que fez a sua apresentação à Presidência da República

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Ainda assim, Mendes vai tendo alguns traços em comum com Marcelo. É notívago. Prefere escrever à mão os discursos (mesmo que depois os passe para computador) e também privilegia o improviso desde um conselho antigo da mãe. “Quando era muito jovem fazia comícios e, a minha mãe, que os ia ver, disse-me: ‘Tens de improvisar, que ninguém acredita que os discursos são teus; acham que é o teu pai a escrever’. A partir daí, por sugestão da minha mãe, passei a discursar quase sempre de improviso. E ainda hoje é assim”, conta.

Há outro ponto em comum com Marcelo: ambos foram líderes do PSD, mas caíram antes de serem submetidos a votos em legislativas. Mendes não esconde que gostaria de ter sido primeiro-ministro. “Gosto de tomar decisões. É uma mágoa não ter ido a legislativas. Não vale a pena sermos hipócritas. Gostava de ter ido [a votos em legislativas], sim. Mas líder da oposição é dos lugares mais precários, senão o mais precário da sociedade portuguesa”, recorda ao Observador.

Mas esse comboio já passou. Agora é tempo de tentar ser Presidente. A viagem já vai em várias horas e a mulher, Sofia, continua a conduzir. A presença da mulher é outra diferença para Marcelo, que nunca concordou com o informal cargo de Primeira Dama. Sobre esse envolvimento cívico e sobre se Sofia irá desempenhar essa funções ao estilo de Maria Barroso, Maria José Rita ou Manuela Eanes, Mendes não quer queimar etapas: “Vamos acertar isso, mas primeiro é preciso vencer”.

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