Catarina nunca tinha visto tamanha confusão. Corria o verão de 1963 e estava sentada em cima de uma mala, com uma amiga, a contemplar o gigantesco painel de partidas e chegadas de estação de Victoria, em Londres, no meio de uma multidão apressada. Logo ela que, aos 17 anos, nunca tinha sequer apanhado um comboio da sua Coimbra até Lisboa, estava agora na maior metrópole europeia à procura da plataforma certa para Brighton, onde a aguardava uma família de acolhimento para a sua primeira grande experiência europeia.
“Tive a oportunidade de ouvir os Beatles, que eram proibidos em Portugal, e de conversar com outros estudantes que estavam alojados na mesma casa, uma italiana, um dinamarquês, uma persa”, recorda Catarina Resende de Oliveira. “Ali apercebi-me pela primeira vez do quão afastado Portugal estava da Europa.”
O isolamento ainda continuaria por mais umas décadas. No dia 1 de janeiro de 2026 completam-se quarenta anos da adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia (CEE). Nesse longínquo 1986, a neurocientista tinha 40 anos. A primeira metade da vida de Catarina Resende de Oliveira foi passada com fora do clube europeu. A segunda metade revelou-lhe um mundo diferente.
Essa nova realidade tinha começado a desenhar-se em 1951. Enquanto Portugal vivia debaixo da ditadura isolacionista do Estado Novo, a Europa começava a experimentar um modelo político transformador. Seis países – França, Alemanha Ocidental, Itália, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo – criaram nesse ano a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), colocando recursos essenciais para a indústria e para a guerra sob uma autoridade comum. Ao partilhá-los, reduzia-se o risco de um conflito como aquele que destruíra o continente entre 1939 e 1945, na Segunda Guerra Mundial.
Essa união seria depois cimentada com a assinatura dos Tratados de Roma, em 1957, que fundaram a Comunidade Europeia da Energia Atómica e a Comunidade Económica Europeia (CEE), com a ambição de criar um mercado comum, com livre circulação de mercadorias, pessoas, serviços e capitais.
Ambos os acontecimentos passaram despercebidos a Catarina, ainda criança. Uma das primeiras memórias daquela que, mais tarde, seria a principal pioneira nacional na investigação de doenças como Parkinson e Alzheimer, é a de não querer ler: “Aos cinco anos, a minha mãe quis que eu avançasse na aprendizagem das letras, para entrar na escola já preparada. Era um livrinho com um menino e uma menina a fazerem bolas de sabão. Mas eu não queria aprender e as lágrimas caíam-me pela cara, ao ponto de, com tanto choro, nem conseguir ver as letras”, recorda. “Não queria crescer, queria continuar a ser uma menina. Porque haveria de o fazer, se estava tão bem a brincar? Acho que nunca fui tão inteligente como nessa altura.”
Os Resende de Oliveira tinham vindo de Murtosa, Aveiro, para se instalarem em Coimbra, por imperativo da profissão do pai, médico. Catarina era a mais nova de quatro irmãos, com uma diferença de dez anos para o anterior: “Era quase uma neta”, diz a cientista, recordado os passeios de triciclo pelo Jardim da Sereia. No seio familiar, acrescenta, sempre se discutiu política. “Os horizontes eram mais alargados do que era comum em Portugal.”
Ainda assim, não escapava aos ditames de um regime profundamente inspirado pela moral católica. Frequentou o Liceu Infanta Dona Maria, só para raparigas, e apenas no baile de finalistas lhe era permitida a reunião com pupilos do sexo oposto. Quando entrou em Medicina na Universidade de Coimbra (UC), eram escassas as mulheres na sala de aula: “Acabámos pouco mais de vinte num total de 130 alunos. Os rapazes iam ao bar da Universidade de Letras porque aí é que havia mais meninas.”
Maria João Gala
Nos seis anos de curso, entre 1964 e 1970, não se cruzou com nenhum colega de outro país europeu (hoje a UC tem mais de cinco mil estudantes estrangeiros, provenientes de 118 diferentes nacionalidades). “Acho que o primeiro europeu de que me lembro na universidade foi o pediatra-geneticista francês Arnold Munnich, que veio dar umas palestras já depois do 25 de abril. Era um país fechado a tudo aquilo que era o fluxo de pessoas, a troca de ideias e conhecimento.”
Mas isso não limitou os académicos de saberem das revoltas estudantis e culturais que tiveram lugar em Paris, em 1968. Muitas famílias tinham parentes emigrados em França que lhes transmitiam as notícias. Um ano mais tarde, em 1969, a onda de descontentamento chegou a Coimbra, ainda que com menor pujança, apanhando a finalista Catarina de Oliveira já com firmes valores de esquerda. “Foram tempos inesquecíveis, com assembleias magnas muito tensas, o memorável protesto da final da Taça de Portugal entre a Académica e o Benfica e o constante apelo aos colegas para boicotarem os exames, já com uma acentuada crítica ao regime”, conta.
No pico da crise estudantil, Catarina casou com Manuel Leão, colega de curso, que fazia parte do principal grupo de contestatários: “Foi do entusiasmo”, brinca a investigadora. Como castigo pela insolência, Leão foi convocado para o serviço militar obrigatório, que cumpriu em Mafra, juntamente com uma companhia de académicos inssurrectos. Acabou por ser enviado para Angola, para ser médico de uma companhia portuguesa destacada em Luvuei, no Moxico, junto à fronteira com a Zâmbia e 1800 quilómetros de Luanda. Mas nem a distância nem os perigos da guerra demoveram Catarina de o visitar.
Do Ultramar para a Europa
O destino da cientista também iria passar por Angola. Já era professora assistente de neurologia na UC, em 1971, quando foi convidada pelo professor António Nunes Vicente para integrar uma equipa dedicada a estruturar o ensino da neurologia em Luanda. Apesar de já ser mãe de dois filhos pequenos, aceitou. “Com o meu marido lá, ainda que a quase dois mil quilómetros, foi uma forma de juntar o útil ao agradável.”
A génese do Parlamento Europeu (a Assembleia Comum da CECA, de 1952) já tinha duas décadas: inicialmente com poderes limitados, era composta por representantes designados pelos parlamentos nacionais, introduzindo a ideia revolucionária de que a integração europeia deveria ter uma dimensão democrática supranacional. Dez anos depois, em 1962, essa instituição adoptaria o nome de Parlamento Europeu, refletindo a ambição crescente de deixar de ser um órgão apenas consultivo e de se afirmar como órgão central da democracia europeia.
A sede (embora oficializada apenas em 1997, com o Tratado de Amesterdão) era em Estrasburgo, cidade francesa encostada à Alemanha, como símbolo da reconciliação entre dois países inimigos na guerra. E em janeiro de 1973, pouco depois da chegada de Catarina a África, a CEE registou o primeiro alargamento, com a entrada do Reino Unido, Irlanda e Dinamarca, deixando o clube europeu com nove membros.
“É curioso que foi a partir de Luanda, e não de Portugal, noutro hemisfério, que passei a olhar com mais clareza para a formação do projeto europeu”, diz Catarina Resende de Oliveira. “A sociedade em Angola era mais livre, mais aberta, mais avançada, o que permitiu perceber que enquanto Portugal e Espanha estavam num casulo, havia uma outra Europa a caminhar numa direção diferente.”
Não obstante, a neurocientista estava à época em maior contacto com as tradições africanas do que com a democracia europeia. Autorizada por um oficial a visitar o marido, viajou até ao Moxico para viver um dos meses mais surreais da sua vida: “Levaram-me um camuflado e bastou vestir o casaco, porque me chegava até aos pés”, diz, lembrando o percurso no veículo militar. Ficou num acampamento, recebendo visitas dos sobas (chefes locais) curiosos “para conhecerem a mulher do doutor”. “Ofereciam-me galinhas e outros presentes.” Ela e o marido ainda puseram em prática os conhecimentos médicos, quando os meninos locais fizeram os seus rituais de circuncisão: “Eles ficavam numa espécie de berço com uma fogueira à frente, sempre acesa, e nessa altura conseguimos convencer o homem velho a fazer a desinfeção dos pénis dos garotos. Depois, regressavam ao aldeamento, e era a única altura em que os homens e as mulheres dançavam juntos.”
E entretanto chegou a revolução. Catarina ainda se recorda do que comeu no dia 25 de abril de 1974: linguado grelhado. “Soube-me a liberdade.” De Lisboa, chegavam informações de que o regime tinha sido derrubado pelos militares, mas escasseavam detalhes. Correu até casa do irmão, engenheiro civil também empregado em Luanda, que tinha um telex. E aí confirmou os rumores. “Há coisas que uma pessoa não esquece mais. Senti-me tão feliz. Percebi rapidamente que tanto a minha vida como o meu trabalho iam mudar a partir dali.”
E assim foi. Ainda assistiu ao 1º de Maio de 1974 num cinema em Luanda: “Quase chorei. De alegria. Mas também de pena por não lá ter estado.” Regressou a Coimbra com o marido em julho desse ano para viver o arranque do processo democrático. Teve mais dois filhos. E aprofundou o interesse pelos mistérios do cérebro: “Fui muito inspirada pelo professor Nunes Vicente, neurologista, e pelo funcionamento do cérebro em si. No fundo, intrigava-me o que nos fazia criar a nossa identidade, sermos todos diferentes uns dos outros e termos uma visão própria da realidade, quase como uma impressão digital cerebral.”
Catarina ouviu o mentor dizer-lhe que o futuro da neurologia estaria na correlação entre a clínica e a ciência. E foi precisamente aí que se posicionou. “Acabei por fazer toda uma carreira clínica e por me doutorar já com investigação em neurociências na área do tratamento da doença de Parkinson.” Para isso, teve de aprofundar o conhecimento em bioquímica na Faculdade de Ciências da UC, onde se cruzou com Arsélio Pato de Carvalho, que a investigadora considera um visionário. Acabaria por ser esta a semente da criação do Centro de Neurociências e Biologia Celular da UC, o primeiro desta área no país, onde iria trabalhar como investigadora e de que seria presidente a partir de 2004. Catarina, autora de mais de trezentas publicações em revistas científicas da especialidade, esteve na génese do desenvolvimento da neurociência em Portugal.
Era nestas lides que a especialista andava quando, em 1979, se realizaram as primeiras eleições europeias, que marcaram um ponto de viragem: pela primeira vez, os cidadãos dos Estados-membros elegeram diretamente os seus representantes para o Parlamento Europeu. Portugal ainda não fazia parte da CEE – a instabilidade política e económica que se fazia sentir não permitiam ao país atingir ainda os requisitos exigidos para a entrada no grupo – que em 1981 se alargaria, com a adesão da Grécia.
Maria João Gala
Em 1984, Catarina Resende de Oliveira concluiu o doutoramento na UC. Apesar de ter estudado o trabalho de dezenas de especialistas europeus, ainda era uma raridade a presença de professores e doutorandos internacionais nos anfiteatros da universidade. Nesse mesmo ano, a CEE lançara o primeiro Quadro de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico, marcando o início de uma política científica europeia estruturada, que contemplava o financiamento de projetos conjuntos entre universidades, laboratórios e centros de investigação de diferentes países.
“Comecei a sentir um ambiente mais internacionalizado nos Cursos de Formação de Oeiras, organizados pelo Instituto Gulbenkian de Ciência. Decorriam em agosto, o que nos levava a passar duas semanas do verão em Oeiras. Vinham professores estrangeiros e tínhamos acesso a tecnologias que não existiam noutros locais. Foi a primeira vez que na minha formação me lembro de receber uma forte influência externa, o que me permitiu ganhar uma visão mais ampla do panorama científico.”
Há muito que o país, a braços com uma grave crise económica, cantava com os GNR que queria “ver Portugal na CEE” (o single fora lançado em março de 1981). Entre a comunidade científica, esse desejo era ainda mais latente, pois prometia a abertura de novas fontes de financiamento e de conhecimento partilhado. “A maioria de nós encarava a entrada com bons olhos, pois sabia que ia contribuir para o desenvolvimento do país e da ciência.”
Laboratórios sem fronteiras
Em junho de 1985 o então primeiro-ministro Mário Soares assinou no Mosteiro dos Jerónimos a adesão à CEE, consumada a 1 de janeiro do ano seguinte, ao lado de Espanha, no terceiro alargamento do clube europeu, que ficava agora com 12 membros. O momento, segundo a investigadora, representou o regresso pleno do país à Europa após décadas de isolamento. “Para quem viveu este período, foi uma mudança concreta no quotidiano, com novas estradas, escolas, universidades e perspetivas mais amplas.”
Logo em 1987 deu-se o lançamento do programa Erasmus, possibilitando a milhares de estudantes universitários estudarem temporariamente noutro país europeu, com reconhecimento académico e apoio financeiro. Dois dos filhos de Catarina aproveitaram a oportunidade. “A Ana fez Farmácia e esteve em Salamanca. E o Pedro, que andava em arquitetura, fez Erasmus em Barcelona, teve aulas em catalão e fez amizades lá que perduram até hoje.“ A neurologista reforça o impacto enorme que o programa teve nas universidades, considerando-o mesmo como o principal motor da mobilidade comunitária e da construção da identidade europeia. “Foi crucial para o incremento do fluxo de estudantes e docentes, partilha de conhecimento e cruzamento de diferentes pedagogias.”
Foi também em 1987 que a primeira neurocientista portuguesa se estreou como votante numas eleições europeias. Nunca falhou nenhuma. “Acho muito importante termos uma representação real nos organismos europeus. Não temos de andar a reboque dos outros todos, não é? Também temos de assinalar as nossas necessidades e ambições, e isso só se faz com a voz dos nossos representantes em Bruxelas e Estrasburgo.”
O PSD foi o grande vencedor dessas eleições, com 37,45% dos votos e dez eurodeputados, com Pedro Santana Lopes à cabeça. O PS ficou em segundo (com Maria de Lourdes Pintasilgo e outros cinco), o CDS em terceiro (quatro membros do Parlamento Europeu eleitos), à frente da CDU (três) e do PRD (um).
Um dos méritos maiores do Parlamento Europeu, reconhece a professora coimbrã, foi na promoção da igualdade de género. A primeira diretiva remonta a 1976 e consagrou o princípio da igualdade salarial para trabalho igual e proibiu a discriminação no acesso ao emprego, formação e progressão na carreira. Mais tarde, Estrasburgo conseguiria mesmo aprovar, após uma década de bloqueio, uma importante diretiva que impunha metas de representação feminina nos conselhos de administração de grandes empresas.
Catarina aponta para o quadro de honra da faculdade, em que só ela e uma colega figuram como presidentes do conselho científico, entre 12 homens. “Sempre me movimentei num mundo dominado por homens”, desabafa. “Mas nunca senti inferioridade nem discriminação”. Por isso, tem uma certa aversão à implementação de quotas, embora acredite que uma mulher tem de atingir um nível de conhecimento muito superior ao de um homem para ser avaliada de igual para igual. “Louvo que os programas europeus de investigação contemplem critérios de igualdade de género e de promoção de mulheres líderes de projeto.”
Tal como a maioria dos portugueses, Catarina lembra-se da confusão que a palavra Maastricht lhe causava no início dos anos 1990. O tratado europeu celebrado nos Países Baixos, em 1992, introduziu o conceito de cidadania europeia, alargou a cooperação à política externa e à justiça e lançou as bases da moeda única. Quase ao mesmo tempo, Portugal aderiu ao Espaço Schengen (que entraria em pleno vigor em 1995, o mesmo ano em que Áustria, Finlândia e Suécia aderiram à União Europeia), dispensando os seus cidadãos da apresentação de passaporte e vistos nas fronteiras de outras nações europeias aderentes. “Viajar tornou-se infinitivamente mais fácil”, recorda.
Uma regalia que a académica aproveitou bem nessa década, quando estava na vanguarda da investigação do tratamento da doença de Parkinson e passou a visitar outras universidades e centros de investigação na Europa. “A incidência era na caraterização dos transmissores de dopamina, pois o Parkinson é provocado essencialmente por um déficit de dopamina nos gânglios de base, que estão relacionados com a área cerebral”, explica. “Desenvolveram-se químicos que atuam nos recetores quer como agonistas, ou seja, simulando a dopamina e estimulando o movimento, ou como antagonistas, bloqueando os recetores, como por exemplo os neurolépticos usados no tratamento da esquizofrenia”. Os agonistas dos recetores de dopamina tornaram-se medicamentos cruciais no tratamento de Parkinson, pois simulam os efeitos da dopamina natural para aliviar sintomas como tremor, rigidez e lentidão.
A investigadora recorda que os avanços no diagnóstico e tratamento foram alcançados através de uma medicina empírica, que por vezes aplicava doses exageradas de antagonistas ao ponto de os pacientes ficarem rígidos. “Olhava-se e via-se que era parecido com o que ocorria num quadro de Parkinson, mas exagerado. E foi este conhecimento que nos levou aos avanços terapêuticos. Experimentar era a única forma de progredir.”
No virar do milénio, a atenção da conimbricense virou-se para as doenças ligadas ao envelhecimento, nomeadamente Alzheimer, a forma mais prevalente de demência. Numa altura em que 12 dos 15 países da União Europeia (UE) trocaram as divisas nacionais pelo euro, a moeda única europeia, que entrou em circulação em 2002. “Olhando para trás, a implementação do euro foi vantajosa” afirma, acrescentando que os ideais europeus de livre circulação, mobilidade e colaboração só são possíveis com uma moeda uniformizada. “Lembro-me de ir à Alemanha e ter de andar a trocar dinheiro nos bancos, uma confusão tremenda. Agora é tudo tão fácil. Acho que as gerações mais novas não dão o devido valor a isso porque já dão esta facilidade como garantida.”
O envelhecimento da Europa
Para aqueles que, como Catarina Resende de Oliveira, acreditam que a ciência deve dar resposta às inquietações da sociedade, urgia investigar a fundo as doenças associadas ao envelhecimento. Com a esperança média de vida a aumentar, a incidência de casos de demência crescia também, algo que facilmente constatava por continuar a fazer a ligação entre as consultas a doentes e os laboratórios. “É uma doença com um peso socioeconómico muito elevado, que ultrapassa o próprio doente e atinge a família.”
Tal como ela, as instâncias europeias também se debruçaram intensamente sobre o assunto. Em 2008, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre doenças neurodegenerativas, reconhecendo oficialmente o impacto social, económico e humano destas patologias. Em 2011, lançou a iniciativa “Alzheimer e outras demências”, promovendo financiamento coordenado, partilha de dados e redes transnacionais de investigação. “Essas resoluções europeias têm o condão não apenas de promover o financimento mas também de colocar estas questões na agenda política.”
Um caminho aberto pelo Tratado de Lisboa, em 2007, que Catarina recorda como um momento de grande aparato nacional e de aumento da influência de Portugal na União Europeia: “Também reformou vários parâmetros ligados ao ensino e à investigação na Europa”, sublinha. Nesse mesmo ano a Bulgária e a Roménia juntaram-se à UE, depois de, em 2004, se ter registado o maior alargamento até hoje, com a entrada de dez novos países, a maioria dos quais também pertencentes ao antigo Bloco de Leste.
Maria João Gala
Premissas que lançaram a investigadora para o seu período mais profícuo na Europa. Entre 2013 e 2016 integrou o Programa Conjunto de Investigação em Doenças Neurodegenerativas, que a conduziu várias vezes a Bruxelas para se reunir com os pares europeus. “Comecei a participar nas reuniões periódicas dessa rede com a missão de desenvolvimento de metodologias padrão para a análise de biomarcadores [moléculas ou alterações físicas no corpo que indicam a presença, progressão ou risco da doença, como as proteínas beta-amiloide e tau, permitindo um diagnóstico precoce e preciso] da Doença de Alzheimer nos vários países, o que nos permitiu um maior controlo de qualidade”, diz. “Com um universo de partilha de resultados e experiências exponencialmente maior, a investigação dos biomarcadores químicos e genéticos ou de imagem médica tiveram uma aceleração muito grande”.
Em 2015 – um ano depois do sétimo e último alargamento da União Europeia, quando a Croácia aderiu –, Catarina Resende de Oliveira foi agraciada pelo Estado português com o grau de Grande Oficial da Instrução Pública. Nesse mesmo ano iniciou um ciclo de quatro anos enquanto avaliadora do Conselho Europeu de Investigação, na área das neurociências: “Aprendi muito com essa experiência e fiz boas amizades, como com a investigadora Charlotte Teunissen, de Amesterdão, que teve um papel muito importante no desenvolvimento de biomarcadores.” Também passou a ter um número crescente de doutorandos europeus na faculdade e a lecionar em cursos internacionais, com o inglês como língua franca.
A médica neurologista aponta a pandemia de Covid-19 como um exemplo perfeito da importância da cooperação europeia na busca de soluções científicas para emergências sanitárias. “Conseguiu-se obter rapidamente a vacina porque havia 11 anos de investigação em vacinas RNA, que estava posta na prateleira porque ninguém acreditava naquela técnica. Aí viu-se a importância do conhecimento de base.” Pessoalmente, quase nem deu pela calamidade. No início, refugiou-se na casa de família em Murtosa, saíndo com o marido para passeios na natureza. Já em Coimbra, passou o tempo em videochamadas, integrada no programa europeu Research for Covid, entre outros projetos de investigação.
Apesar de se ter jubilado como professora em 2016, com uma última aula muito participada, Catarina manteve-se extremamente ativa. “Nem é bom dizer que me jubilei, porque as pessoas agora pensam que tenho tempo para tudo”, ironiza. Mantém o ritmo alto não apenas por feitio, mas também por saber que é uma das melhores formas de atrasar o envelhecimento das células cerebrais.
Uma receita que a própria UE, cada vez mais velha, deveria adoptar “para evitar sinais de demência”, leia-se, colapso. Na opinião da coimbrã, o bloco continua a evoluir no que toca à investigação médica e científica, “tanto na oncologia, nas doenças do cérebro e nas doenças raras”. Acredita ainda que a possibilidade de recorrer a fundos europeus, como o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), confere oportunidades únicas, desde que os recursos sejam convenientemente alocados.
O discurso muda de tom, contudo, quando aborda o plano político. “Vivemos nesta época meio desnorteada em que as democracias são postas em causa a todo o momento. A Europa tem no seu seio alguns dissidentes que não permitem que ela funcione a uma só voz. Perante outros players mundiais, como os EUA de Trump, tem de se opor ao que ele está a fazer às universidades, à cultura e ao conhecimento”, reflete. “Então, ou a Europa se une num só bloco democrático, ou entalada entre Trump e Putin tornar-se-à um joguete nas mãos deles. E isso preocupa-me, porque eles procuram destruir uma unidade que demorámos muito tempo a construir”.
Catarina viveu quase metade da vida num país “orgulhosamente só”, mas o seu orgulho vai para a segunda parte vivida no espaço comunitário. Não tem dúvidas de que foi o segmento mais produtivo. “Nós temos de ter noção que no mundo de hoje, ao nível da investigação e do desenvolvimento tecnológico, não fazemos nada sozinhos.”
Este artigo faz parte de uma série do Observador dedicada aos quarenta anos da adesão de Portugal à União Europeia. Resulta de uma parceria entre o Observador e o Parlamento Europeu. É um conteúdo editorial completamente independente.