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As sondagens mais recentes davam um cenário muito equilibrado. A Liberdade Avança (LLA), partido do Presidente Javier Milei, estava à frente, mas os peronistas estavam muito próximos. Talvez tenha sido por isso que, no início desta noite, havia uma certa tensão no quartel-general da força política. Estas eleições eram uma prova de fogo para o chefe de Estado e poderiam ter sérias implicações no futuro do seu mandato. Ao final da noite deste domingo, estas legislativas converteram-se numa prova inequívoca de que o mileísmo continua bem vivo na Argentina — e o líder libertário obteve uma vitória folgada com 40,8% dos votos.
Em setembro de 2025, as eleições municipais em Buenos Aires foram um revés para A Liberdade Avança. Os peronistas obtiveram uma vitória folgada e deixaram o núcleo duro do Presidente argentino com receio de que o seu movimento político pudesse estar em risco com o renascer do peronismo. A capital não representa o país todo, ainda assim. E estas legislativas mostraram que o movimento político do chefe de Estado está implementado a nível nacional — e isso abre caminho para a recandidatura de Javier Milei à presidência em 2027.
O Presidente argentino recebeu um voto de confiança dos eleitores este domingo. Para mais de 40% dos eleitores, o país deve manter a adoção de políticas libertárias e anarcocapitalistas que defende o chefe de Estado. Com a presidência e uma presença reforçada na Câmara dos Deputados e no Senado, que foi o que ficou decidido nestas legislativas, Javier Milei tem agora praticamente carta branca para avançar com as reformas libertárias que desejar empreender na Argentina.
▲ Javier Milei celebra no quartel-general do partido A Liberdade Avança
AFP via Getty Images
Desde 2021 que o Congresso estava dominado por forças peronistas, que bloqueavam várias iniciativas presidenciais. O Presidente argentino tem essencialmente governado por decretos, tendo estado em pé de guerra com deputados e senadores. Apesar de A Liberdade Avança não ter a maioria absoluta em nenhuma das câmaras, mesmo com a vitória folgada deste domingo, o partido do Presidente argentino ganha capital político e uma representação parlamentar mais forte para seguir a sua agenda.
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Em contrapartida, a oposição peronista sofreu uma derrota, ainda que não tenha assumido. A tentar organizar-se desde a vitória nas presidenciais de Javier Milei, o movimento político de esquerda vai ter de repensar a estratégia a longo prazo. Dividido e sem capacidade de mobilizar eleitores, o peronismo terá um caminho mais difícil para as presidenciais de 2027.
Quem também ficou satisfeito com os resultados eleitorais deste domingo foi o Presidente norte-americano. A uma semana destas legislativas, Donald Trump concedeu um empréstimo de 20 mil milhões de dólares (cerca de 17 mil milhões de euros), que serve essencialmente para estabilizar a economia argentina. Foi um autêntico trunfo eleitoral para Javier Milei, ainda para mais depois de o líder norte-americano ter ameaçado voltar atrás se os “socialistas ou comunistas ganharem” estas eleições.
▲ Apoio de Donald Trump pode ter ajudado Javier Milei a obter um bom resultado este domingo
China News Service via Getty Ima
A vitória em toda a linha de Milei: “Teremos o Congresso mais reformista da História argentina”
A Liberdade Avança mostrou a sua força eleitoral mais além dos seus bastiões, como Córdoba. O partido do Presidente argentino venceu em 16 das 24 províncias argentinas. Apesar de ter sido por pouco (por cerca de um ponto percentual), tudo indica que a força política libertária (com 98,9% dos votos contados) até conquistou Buenos Aires, a capital onde os peronistas costumam vencer e ganharam as eleições municipais há menos de dois meses.
Ao longo da noite eleitoral, o quartel-general do partido A Liberdade Avança passou de uma tensa calma para um clima de otimismo e triunfo, algo que se confirmou quando os resultados foram revelados. Quase nenhuma sondagem mais recente dava um resultado na ordem dos 40% para a força política de Javier Milei, sendo que este valor era considerado o melhor dos cenários para o mileísmo.
A Liberdade Avança até superou os 40%. “Foram 41% bonitos”, adjetivou Javier Milei no discurso da vitória. Não foi a solo, no entanto. A LLA uniu-se à Proposta Republicana (PRO), liderado pelo antigo Presidente Mauricio Macri. Essa foi a estratégia que permitiu mobilizar os eleitores de todo o espaço político da direita — da mais moderada à mais radical.
▲ Apoiantes da Liberdade Avança na celebração dos resultados deste domingo
AFP via Getty Images
Nas legislativas de 2021, a LLA tinha apenas quatro deputados, um dos quais Javier Milei. Dois anos depois, passou para 37. Agora deverão ser 101. Dos 127 deputados que seriam eleitos este domingo, a Liberdade Avança conquistou 64 lugares para a Câmara dos Deputados, mais do que metade. No Senado, a tendência foi a mesma: o partido passou de seis para 20 — e mais que triplicou o número de senadores. Foi, portanto, uma vitória inequívoca, mantendo a tendência de crescimento do mileísmo.
Não é o suficiente para alcançar a maioria absoluta (127) em nenhuma das câmaras, é certo. No entanto, a Liberdade Avança poderá negociar com alguns aliados no Congresso e avançar mais rapidamente com as suas políticas. No discurso de vitória, Javier Milei já abriu a porta a essa hipótese. Para os próximos dois anos, o chefe de Estado argentino disse estar focado “em levar a cabo as reformas que a Argentina necessita para consolidar o crescimento e para a Argentina ser grande novamente”.
“Não tenho dúvidas de que teremos o Congresso mais reformista da História argentina”, proclamou Javier Milei. “Passamos por um momento decisivo: a construção de uma grande Argentina começou“. O líder argentino retirou da equação os peronistas — que categorizou como os “inadaptados de sempre, que pensam que a economia se arranja com a dança de chuva e com paninhos quentes”. Mas há, ressalvou, “dezenas de deputados e senadores com quem podemos fechar acordos básicos”. “Vamos poder sentar-nos para discutir a base para uma Argentina distinta. Um dado que ficou claro é que dois em cada três argentinos não querem regressar ao passado”, destacou.
Como o próprio admitiu, Javier Milei pode ainda ter alguns obstáculos em medidas mais polémicas, mas o Presidente argentino pode agora avançar com o projeto de reforma monetária, laboral e tributária — que tem sido constantemente adiado por conta dos bloqueios legislativos. No discurso da vitória, em vez de um tom confrontacional, o Presidente argentino foi mais sereno e fez um convite direto aos senadores e deputados “pró-capitalistas” para encetar negociações e chegar a acordos.
Politicamente, o chefe de Estado ganha finalmente espaço e “respaldo da lei”, nas palavras do próprio, para concretizar as medidas que foram prometidas na corrida às eleições presidenciais de 2023. Este caminho libertário é “irreversível”, assegurou Javier Milei. “Este resultado não é nem mais nem menos do que a confirmação do mandato que assumimos em 2023.”
Dito doutro modo, nos próximos anos, Javier Milei não vai alterar o rumo de transformar a Argentina num país libertário e anarcocapitalista, como sempre se propôs. Caso perdesse as eleições este domingo, não teria o apoio político para que tal se concretizasse e poderia ter de mudar o rumo. Porém, este domingo, o Presidente argentino deixou a garantia aos opositores políticos e até a alguns aliados de que não vai alterar a trajetória assumida desde 2023.
▲ Javier Milei garantiu que não fará cedências no programa eleitoral que o levou à Casa Rosada
Getty Images
Depois da vitória destas eleições, o Presidente argentino pode começar materializar as suas ideias e mostrar obra feita, em particular para 2027, ano das próximas presidenciais. Com um Congresso mais amigável e menos hostil, Javier Milei tem todas as condições para preparar terreno para a reeleição.Em paralelo, ainda assim, aumentam as responsabilidades e o escrutínio às suas ações — e os seus eventuais falhanços serão em grande medidas atribuídos à Liberdade Avança.
Os problemas económicos na Argentina estão longe de estar resolvidos. O país continua a sofrer de uma forte instabilidade. Até Javier Milei o reconheceu no discurso da vitória e justificou o atual cenário ao argumentar que enfrentou “as piores condições iniciais da História”. Nos últimos dois anos, diz, tentou apenas que o país não caísse um “precipício”. Agora, tem apoio legislativo para ir mais longe.
Trump vê aliado a prosperar e tem também uma vitória geopolítica
O Presidente norte-americano foi também um dos grandes vencedores da noite deste domingo. Dentro da base eleitoral do movimento Make America Great Again (MAGA), grande parte da qual defende posições não intervencionistas, olha-se com alguma desconfiança para o empréstimo de 20 mil milhões que Donald Trump concedeu à Argentina. A indústria pecuária também ficou insatisfeita quando o líder dos Estados Unidos prometeu comprar mais carne bovina à Argentina.
▲ Donald Trump foi criticado por fações da base eleitoral por ter emprestado 20 mil de dólares à Argentina
Alex Wroblewski/CNP / POOL/EPA
Teve de haver algumas explicações à base eleitoral de Donald Trump, que dramatizou o discurso. O Presidente norte-americano alegou que os argentinos “estavam a lutar pelas suas vidas”: “Eles não têm dinheiro. Eles estão a lutar tanto para sobreviver. Eles estão a morrer”. A jogada era um pouco arriscada dentro do trumpismo. Contudo, com a vitória da Liberdade Avança nestas legislativas, o chefe de Estado conseguiu recolher dividendos e segurar um aliado importante numa América Latina virada à esquerda.
Este apoio norte-americano pode ter sido efetivamente o que levou muitos eleitores a votar este domingo. Mesmo que as eleições tenham registado uma taxa de participação mais baixa do que a dos anos anteriores, o facto de os 20 mil milhões de dólares dependerem de quem ganhasse as legislativas este domingo pode ter convencido muitos eleitores a votar no partido A Liberdade Avança.
Em declarações ao Observador num artigo divulgado na passada sexta-feira, Luis Schenoni, professor do departamento de Ciência Política da University College London, tinha enfatizado que Donald Trump “tem uma reputação mais negativa do que positiva” na Argentina. Contudo, o docente universitário explicou que “as pessoas votam com o bolso e temas como a economia e a segurança são mais importantes do que a política externa”.
▲ Javier Milei pode ter tido uma vantagem nestas eleições com empréstimo norte-americano
JUAN IGNACIO RONCORONI/EPA
Foi, assim, uma aposta ganha por Donald Trump. Para Javier Milei, foi um balão de oxigénio para estas eleições. Ainda assim, é certo que aumenta a dependência da Argentina em relação aos Estados Unidos — e também das vontades de Washington. Por exemplo, a administração Trump quererá afastar Buenos Aires da China e também instalar uma base militar em território argentino.
Peronistas caem com estrondo, mas não assumem derrota: “Milei não deve festejar”
Os peronistas, juntamente com aliados em várias províncias, obtiveram cerca de 32% dos votos. Foi um resultado inferior ao que preconizavam as sondagens — e ficaram ainda a uma distância considerável face ao partido de Javier Milei. O bom momento resultante da vitória nas municipais de Buenos Aires de 2025 não se prolongou — e terá sido um ganho esporádico. Das 24 províncias apenas venceram cinco — e terão alegadamente perdido a capital, um bastião, para A Liberdade Avança.
O movimento de esquerda tem tido dificuldade em traçar o rumo para os próximos anos — se continuam a apoiar a antiga Presidente Cristina Kirchner (que está em prisão domiciliária, condenada a seis anos de prisão por administração fraudulenta) ou se apostam num novo rumo encabeçado essencialmente pelo governador de Buenos Aires, Axel Kicillof.
▲ Axel Kicillof no discurso deste domingo
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Ideologicamente, a escolha é entre manter-se mais à esquerda e utilizar o estilo populista típico de Cristina Kirchner, ou mudar para um estilo mais pragmático e tecnocrata de Axel Kicillof. Sem definir o espaço político e a forma como vai difundir a mensagem, o peronismo tenta conciliar as duas fações — mas passa uma imagem dividida e sem força.
Este terá sido um dos motivos que levou o peronismo a obter um resultado com poucas razões para celebrar. Contudo, Axel Kicillof, no discurso que fez este domingo à noite, nunca concedeu a derrota. O governador preferiu salientar que conseguiram “renovar” os 15 lugares no Congresso que iam a jogo nestas legislativas — e até elegeram um 16.º. “Milei não deve festejar este resultado… Seis em cada dez argentinos não apoia a sua mensagem política”, atirou.
Sem nunca fazer uma autocrítica explicíta, Axel Kicillof lembrou a Javier Milei que terá agora “mais responsabilidades” devido a ter conquistado mais deputados. E prometeu que o peronismo se manterá na oposição e vai continuar a lutar pela “educação pública, pela saúde e pelos serviços públicos de qualidade”.
Aquilo que ficou claro no discurso de Axel Kicillof e de outros dirigentes peronistas é que consideram que a explicação da vitória de Javier Milei nestas legislativas se “deve aos Estados Unidos e ao apoio e auxílio do Presidente Trump”. “Mas ele que se lembre que é um investimento. Os Estados Unidos não são uma sociedade de beneficência”, avisou, acrescentando: “Vieram à Argentina para colocar em risco os nossos recursos”.
▲ Cartaz do quartel-general do movimento peronista
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Na interpretação da liderança peronista, as eleições não correram muito mal. Estiveram longe de ser perfeitas, é certo, mas o discurso de Axel Kicillof mostra que os peronistas ainda têm a esperança de que Javier Milei possa vir a ser derrotado em breve. Porém, será mais difícil para o peronismo conseguir impor-se com um Congresso e uma presidência controlados pelo Presidente argentino.
Numas eleições em que Javier Milei tinha muito a perder, o Presidente argentino saiu com uma sólida vitória e viu as suas opções políticas reforçadas nas urnas. “Os argentinos não querem voltar ao modelo de fracasso, ao modelo de inflação, ao modelo da emissão monetária”, declarou o Presidente da Argentina no discurso da vitória. O caminho para a estabilização económica do país não será fácil — mas agora o chefe de Estado tem a faca e o queijo na mão para a concretizar.