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▲Partido de Javier Milei, A Liberdade Avança, vai a votos em todas as províncias argentinas

AFP via Getty Images

▲Partido de Javier Milei, A Liberdade Avança, vai a votos em todas as províncias argentinas

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Sob o olhar atento de Trump, Milei enfrenta umas desafiantes legislativas que são o tudo ou nada

Milei quer mais apoio parlamentar para avançar com reformas. Conta com o apoio de Trump — que empresta 20 mil milhões de dólares à Argentina. Mas os peronistas podem renascer.

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“Nunca disse que ia ser fácil. Não se pode acabar da noite para o dia com cem anos de populismo. Acompanhem-me, porque vamos na direção correta.” Na cidade argentina de Córdoba, o Presidente da Argentina, Javier Milei, apelou, na terça-feira, a que os argentinos lhe deem mais um voto de confiança, neste caso ao partido que lidera, A Liberdade Avança. “Tirámos 12 milhões de argentinos da pobreza”, garantiu o chefe de Estado, dando vários exemplos de como o país está melhor do que em 2023.

Este domingo, cerca de 38 milhões de argentinos vão novamente às urnas para as eleições legislativas. Serão substituídos metade dos lugares da câmara baixa do Congresso da Argentina (a Câmara dos Deputados) e alguns lugares no Senado. Isso mudará a configuração parlamentar do país. Neste ato eleitoral intercalar entre duas presidenciais, Javier Milei vai testar a sua liderança — e perceber se, dois anos depois de ser eleito como um outsider pela adoção de políticas que define como anarcocapitalistas e libertárias, continua a ter o apoio da população.

Uma vitória ou uma derrota do Presidente argentino pode comprometer a sua capacidade de governação e de empreender reformas nos próximos anos. Caso A Liberdade Avança e os seus aliados de direita vençam estas legislativas, Javier Milei terá via livre para aplicar as suas medidas. Se perder, mantém-se o padrão atual: o Congresso, composto sobretudo por forças peronistas de esquerda, vai continuar a bloquear muitas das suas iniciativas — o que pode comprometer a sua reeleição em 2027.

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▲ Javier Milei numa ação de campanha para estas legislativas em Córdoba

Anadolu via Getty Images

Os peronistas estão a tentar ganhar força nestas eleições. E estão embalados pelos bons resultados que obtiveram nas eleições municipais de Buenos Aires. A União Pela Pátria (a coligação que junta vários partidos de esquerda) venceu o bloco de direita por 19 pontos percentuais em setembro, o que foi visto como um possível renascimento desta força política e um cartão amarelo ao mileísmo. Ainda que o país não seja apenas a capital (tradicionalmente um bastião dos peronistas), pode ser um bom indicador para a esquerda argentina para as legislativas.

[A 14 de janeiro de 1986 um acontecimento muda o rumo da campanha das presidenciais: a inesperada agressão a Soares na Marinha Grande. Nas urnas, o socialista e Zenha lutam por um lugar na segunda volta frente a Freitas. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.]

O apoio dos Estados Unidos será uma grande ajuda para a Argentina, um país marcado pela instabilidade económica. Porém, não será um cheque em branco. Donald Trump já deixou o aviso de que se os “socialistas ou comunistas” ganharem estas legislativas, os EUA “não serão tão generosos com a Argentina”. “Se não ganhar, não contarão connosco”, garantiu o Presidente norte-americano.

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▲ Javier Milei e Donald Trump quando Presidente argentino visitou os Estados Unidos no meio de outubro

China News Service via Getty Ima

Donald Trump deixou claro que vai tirar o tapete ao aliado da Casa Rosada se este não mostrar resultados nestas legislativas, o que complicaria a situação económica da Argentina e, por conseguinte, o programa e a carreira política de Javier Milei. Pressionado por uma esquerda que se quer reafirmar no país e até por Washington, o Presidente argentino enfrenta uma verdadeira prova de fogo nestas legislativas.E pode ser o tudo ou nada para o mileísmo.

A importância destas eleições legislativas para Milei. De “construir uma maioria sólida” ao “apoio da cidadania”

O rumo político que a Argentina vai tomar nos próximos dois anos está em jogo nestas legislativas. “Nestas eleições, renova-se metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado“, começa por explicar o politólogo e professor na Universidade de Buenos Aires Miguel De Luca, em declarações ao Observador. Na Argentina, há eleições legislativas de dois em dois anos, funcionando num modelo idêntico às intercalares norte-americanas.

Os deputados e senadores que vão a jogo este domingo são aqueles que foram eleitos nas legislativas de 2021, antes da candidatura presidencial de Javier Milei. Aliás, o Presidente argentino foi eleito deputado pela Liberdade Avança há quatro anos, cargo que abandonou para se tornar o inquilino da Casa Rosada. Na Câmara dos Deputados, o atual chefe de Estado teve a sua primeira experiência política, depois de anos a ser comentador em televisões e de já ser uma estrela nas redes sociais.

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▲ Câmara dos Deputados na Argentina

AFP via Getty Images

O contexto político em 2021 era completamente diferente na Argentina — A Liberdade Avança tinha ficado apenas em quarto lugar, elegendo quatro deputados. Eram as coligações de centro-direita e de centro-esquerda que dominavam a composição parlamentar. Nas legislativas de 2023, o partido de Javier Milei furou a bipolarização política, rivalizando com os dois blocos. Mesmo assim, os peronistas continuavam a ser a maior bancada na Câmara dos Deputados.

Por controlarem a Câmara dos Deputados, os peronistas e também outras forças políticas independentes conseguiram, ao longo dos últimos dois anos, ser uma força de bloqueio às políticas de Javier Milei. Em declarações ao Observador, Anabella Busso, investigadora e professora na Universidade Nacional de Rosario, explica que, fruto dos entraves, o Presidente argentino tem governado “principalmente através de decretos de necessidade e de urgência e por via do veto das leis que são aprovadas pelo Congresso e que o Presidente não gosta”.

“Nos últimos meses, o Congresso logrou alcançar maiorias que foram rejeitadas por vetos do poder executivo. Constitucionalmente, isso implica que [a presidência] deve promulgar as leis e aplicá-las. No entanto, a Constituição continua a ser violada, uma vez que [o Presidente] as promulga e não as aplica”, prossegue Anabella Busso, definindo esta “situação como juridicamente insustentável”.

epa12005343 Argentina's President Javier Milei participates in a tribute commemorating the 43rd anniversary of the Falklands War in Buenos Aires, Argentina, 02 April 2025.  EPA/JUAN IGNACIO RONCORONI

▲ Convivência entre o Poder Executivo e Legislativo não têm sido fácil desde que Javier Milei chegou ao poder

JUAN IGNACIO RONCORONI/EPA

Para contornar os obstáculos políticos, Javier Milei quer vencer estas legislativas. “Uma vitória da Liberdade Avança seria uma consolidação do apoio parlamentar ao Presidente, um candidato outsider que governou durante dois anos em minoria no Congresso Nacional”, resume Miguel De Luca, destacando que também significaria um “apoio da cidadania ao plano económico do Governo”.

Miguel De Luca recorda que, nos últimos dois anos, vários dos projetos “não tiveram o respaldo de outras forças políticas”. Os motivos? “Por um lado, pelas suas medidas extremistas da redução das despesas públicas; por outro, por se negar a formar um acordo legislativo com forças políticas do centro-direita ou moderadas”, aclara o professor da Universidade de Buenos Aires.

Na mesma linha, Mariana Sendra Gallardo, professora de Ciência Política na Universidade de Deusto em Bilbau, diz ao Observador que a vitória do bloco liderado por Javier Milei “significaria um avanço na consolidação desta força política”. “Até agora, o Governo de Javier Milei tem como base a sua liderança, mas não tem ainda uma maioria forte com capacidade de marcar a agenda política”, enfatiza a docente argentina. “Aumentar o número de deputados da Liberdade Avança significa começar a construir uma maioria sólida. E também um apoio da cidadania ao programa do Governo.”

"Até agora, o Governo de Javier Milei tem como base a sua liderança, mas não tem ainda uma maioria forte com capacidade de marcar a agenda política."
Mariana Sendra Gallardo, professora de Ciência Política na Universidade de Deusto em Bilbau

30, 35 e 40%. O que é uma derrota ou uma vitória para Milei?

Vários analistas e até especialistas ouvidos pelo Observador estipulam algumas metas eleitorais. Há um cenário de um triunfo inequívoco que dará um balão de oxigénio a Javier Milei para os próximos dois anos, uma vitória pírrica que permite salvar a face mas que deixa a presidência ainda dependente do Congresso ou uma derrota que pode ser o início do fim do mileísmo.

Em qualquer um dos casos, o Liberdade Avança não vai totalmente a sós nestas eleições legislativas. Numa tendência que se vem impondo na política argentina, o partido do Presidente tem-se aproximado da Proposta Republicana (PRO), um partido de direita liderado por Mauricio Macri, o antigo Presidente argentino e que foi visto durante muito tempo como o principal opositor aos políticos peronistas no país. As duas forças políticas uniram-se em muitas províncias e vão a jogo coligadas.

“Para ter uma ideia concreta dos resultados, será necessário analisar quantos deputados e senadores obterá cada força política na eleição que abarca 24 distritos eleitorais (23 províncias e a cidade de Buenos Aires). O partido do Presidente tem o mesmo nome em todos os boletins eleitorais. Já as outras foras políticas têm nomes distintos de acordo com o distrito, mais além da sua identidade partidária”, explana Anabella Busso, ilustrando que o peronismo em várias províncias tem o nome Força Pátria e noutras “tem outras designações”.

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▲ Praticamente metade dos lugares na Câmara dos Deputados serão substituídos

Bloomberg via Getty Images

Há quatro grandes forças a competir a estas eleições, apesar da diversidade partidária que cada uma das províncias apresenta. Há o Liberdade Avança, os partidos peronistas — sendo a designação Força Pátria a principal —, uma Frente de Esquerda composta por partidos socialistas e comunistas e ainda uma coligação entre sete governadores que não se identificam nem com o peronismo nem com o mileísmo.

Neste contexto, o Liberdade Avança assume-se como o principal partido no panorama argentino, tendo uma presença nacional que as restantes forças políticas não têm. Além deste fator, está coligado com o PRO em muitos locais — o que aumenta a exigência nestas eleições. “O que Milei precisa é de ter um terço de lugares no Congresso com os seus aliados do PRO para evitar a insistência nos vetos presidenciais”, diz, ao Observador, a cientista política e professora de Ciência Política na Universidade de Columbia Maria Murillo.

Ou seja, conseguir que 35% dos congressistas sejam do Liberdade Avança ou de aliados políticos. Para Anabella Busso, este é o que pode ser definido como “triunfo” para Javier Milei nestas legislativas. Caso contrário, “terá problemas para continuar com os vetos e com os decretos — e vai complicar-se ainda mais a frente externa”.

"O que Milei precisa é de ter um terço de lugares no Congresso com os seus aliados do PRO para evitar a insistência nos vetos presidenciais."
Maria Murillo, cientista política e professora na Universidade de Ciência Política na Universidade de Columbia

Em declarações ao Observador, Virginia Oliveros, professora de Ciência Política na Universidade de Tulane, apresenta outros números, que incidem apenas sobre as percentagens que o Liberdade Avança obterá no sábado. “Muitos analistas esperam algo entre os 30 e os 40%. Um resultado perto dos 30% seria considerado uma derrota”, aponta a especialista. “Menos do que isso é difícil, uma vez que Milei obteve cerca de 30% dos votos na primeira volta das eleições presidenciais de 2023.”

“A expectativa é que ele seja capaz de manter a maioria dos seus apoiantes de base, por isso, é difícil imaginar um resultado abaixo dos 30%”, continua Virginia Oliveros. “Uma grande vitória” seria chegar aos 40%. Segundo a especialista, existe atualmente uma conjuntura relativamente desfavorável para a presidência para obter esse resultado, principalmente pela “situação económica” da Argentina e pelos “escândalos de corrupção”. “Tudo isso traduziu-se numa queda da popularidade [de Javier Milei] e na confiança do seu Governo.”

Esta opinião também é partilhada por Mariana Sendra Gallardo. A professora universitária em Bilbau assinala que um “fracasso é se o Liberdade Avança obtiver 30% dos votos ou menos”. “Vai interpretar-se necessariamente, mesmo que sejam eleições legislativas, como uma desaprovação de uma parte importante da cidadania em relação às políticas de governo de Milei”, salienta, acrescentando que também será uma “consequência dos últimos casos de corrupção que se tornaram públicos em relação a figuras importantes do Liberdade Avança, entre estas a sua irmã, Karina Milei”.

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▲ Apoiantes do Liberdade Avança, partido de Javier Milei

AFP via Getty Images

Para o político Milei, o que significa uma vitória ou uma derrota nestas eleições?

Acima de tudo, nestas legislativas, Javier Milei espera obter legitimidade eleitoral para avançar com o seu programa eleitoral. A dimensão da vitória vai determinar não só se o Presidente renova a confiança nas urnas para isso, como também servirá para perceber se a oposição continua a ser uma força de bloqueio e ganhará força para as presidenciais de 2027.

“Um bom resultado implicaria que o Governo ganhasse apoio legislativo suficiente para levar avante reformas estruturais que Milei já antecipou e que acredita que são necessárias para o país, como, por exemplo, uma reforma tributária e laboral“, afirma Mariana Sendra Gallardo. Com o Congresso a opor-se, o Presidente argentino terá mais dificuldades em avançar com estas medidas.

A capacidade de seguir a sua agenda política é algo que Javier Milei terá se os resultados forem positivos no domingo. Ao Observador, Luis Schenoni, professor do departamento de Ciência Política da University College London, expõe o melhor cenário para a presidência nestas legislativas. “Um bom resultado pode gerar estabilização económica, ainda que seja moderada, com uma melhoria percetível do poder de compra e a consolidação de um ‘escudo legislativo’, isto é, uma base parlamentar para uma aliança política (com o PRO, setores do radicalismo ou governadores) que lhe permita suster a governabilidade”, sustenta.

"Um bom resultado pode gerar estabilização económica, ainda que seja moderada, com uma melhoria percetível do poder de compra e a consolidação do um 'escudo legislativo', isto é, uma base parlamentar para uma aliança política." 
Luis Schenoni, professor do departamento de Ciência Política da University College London

Se esta aliança política se mantiver, será possível “prosseguir reformas estruturais”, algo que é “possível que se repercuta num maior crescimento económico”. “Se também mantém o controlo da agenda pública e a oposição continua fragmentada, Milei pode projetar uma imagem de líder que ‘ordenou o caos’, um ‘piloto entre tempestades’“, prossegue Luis Schenoni. Ora, essa reputação pode vir “fortalecer” uma recandidatura à presidência e a “continuidade do seu projeto liberal”.

Mas não é assim tão linear. Mesmo no caso de uma vitória retumbante, Virginia Oliveros adverte que a mudança do Congresso não será total, já que apenas metade será renovado. Em certas leis mais polémicas, poderá continuar a haver um bloqueio da oposição. “A única forma de avançar após as eleições é tentar reconstruir a coligação que o ajudou, em particular durante o seu primeiro ano — uma coligação que inclui o PRO, assim como alguns peronistas. Claro que, depois de uma vitória forte, essa reconstrução pode ser mais fácil”,destaca a professora universitária.

No mesmo sentido, Mariana Sendra Gallardo avisa que se Javier Milei “não mudar o seu estilo confrontacional e pouco inclinado a negociar” é “provável” que a relação com os governadores e os congressistas “se complique cada vez mais”. Em consequência, pode haver “uma baixa aprovação das leis impulsionadas pelo Governo”. “Pode acontecer que seja a Câmara dos Deputados quem marca a agenda, sancionando as leis que contrariem as políticas de Milei.”

epa11022101 Argentina's President Javier Milei greets supporters from the balcony of the Casa Rosada in Buenos Aires, Argentina, 10 December 2023. Milei arrived at the Casa Rosada (seat of government) for the first time as head of state of the South American country, after taking the oath of office in Congress and delivering his speech to citizens. The leader of La Libertad Avanza (ultra-right) moved with his sister and main advisor, Karina Milei, in a convertible vehicle to the Plaza de Mayo, where, upon arriving at the Metropolitan Cathedral, he got out of the car and walked among the shouting of his followers.  EPA/Enrique Garcia Medina

▲ Mesmo que Milei vença estas legislativas, pode correr riscos para as suas escolhas políticas

Enrique Garcia Medina/EPA

No pior dos cenários, em que a Liberdade Avança não chega aos 30% dos votos no domingo, Miguel De Luca não tem dúvidas: isso “colocará em risco o programa” do Presidente e até “a capacidade de Javier Milei de manter as rédeas do Governo”. Com uma agenda disruptiva e mantendo a essência antissistema que o fez chegar à Casa Rosada, não será nada fácil, neste cenário, que o seu projeto político vingue.

Luis Schenoni vai ainda mais longe. “Uma derrota contundente” seria uma hecatombe para o Presidente argentino. Com os casos de corrupção que têm assombrado o Governo, juntamente com as dificuldades económicas que o país ainda atravessa, esta perda do “escudo legislativo” pode mesmo derivar num impeachment. Tendo a oposição uma vasta maioria no Congresso, poderia avançar a oposição nesse sentido.

Uma derrota nestas legislativas pode comprometer o futuro político do Presidente argentino. Mesmo que até nem resulte num impeachment, se perder, Javier Milei pode enfrentar várias dificuldades em colocar em prática o corte disruptivo com o peronismo que prometeu quando foi eleito. Daí que o Presidente argentino tenha dramatizado o discurso em Córdoba, onde disse que “ou a liberdade avança, ou a Argentina retrocede”.

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▲ Luis Caputo, ministro das Finanças de Milei, diz que estas eleições "são mais importantes do que as presidenciais de 2027"

AFP via Getty Images

As palavras são idênticas às do ministro das Finanças. Luis Caputo declarou esta quarta-feira que estas eleições são “mais importantes do que as presidenciais de 2027”. “O voto é muito importante. Não gosto de ser desrespeitoso, mas sinto que preciso dizer isso. E digo isto como argentino: um voto que não vá para A Liberdade Avança hoje faz-me sentir muita pena dos argentinos, porque é praticamente um voto desperdiçado”, realçou o governante aliado de Javier Milei.

Estas legislativas também poderão dificultar uma eventual recandidatura. Se a presidência continuar bloqueada pelo Congresso, isso não permitirá mostrar obra feita aos argentinos na véspera das presidenciais, marcadas para daqui a dois anos. Mas Mariana Sendra Gallardo desvaloriza essa possibilidade. À direita, o “candidato natural será, sem dúvida alguma, Javier Milei, já que a Constituição o permite”. Mesmo que não tenha bons resultados eleitorais nestas legislativas, o chefe de Estado “ainda tem um núcleo forte de seguidores que o apoiarão seja qual for o estado do país e isso apontará para uma possível reeleição em 2027”.

O peronismo pode ganhar força e unir-se nestas eleições?

O movimento peronista na Argentina olha para estas eleições como uma oportunidade. Se vencerem as legislativas e continuarem a ser uma força de bloqueio no Congresso, poderão ganhar votos de todos aqueles que estão insatisfeitos com o rumo da Argentina — e manter-se um obstáculo para a presidência. Em setembro, o bom resultado nas eleições municipais de Buenos Aires já foi encarado como um momento de esperança para estes partidos de esquerda.

epa09794084 Vice President of Argentina, Cristina Fernandez de Kirchner, participates in the traditional annual speech at the opening of sessions of the National Congress with the in Buenos Aires, Argentina, 01 March 2022. The President of Argentina will review his management and announce the main legislative projects of the Government, among them the one that seeks to endorse the agreement reached with the IMF to refinance the high debt with the organization.  EPA/Juan Ignacio Roncoroni / POOL POOL

▲ Cristina Kirchner, a antiga Presidente argentina que é uma das figuras do peronismo

Juan Ignacio Roncoroni / POOL/EPA

“O peronismo é o principal partido político do país”, constata Miguel De Luca. O politólogo argentino enumera os motivos: “É o bloco parlamentar mais numeroso do Senado e da Câmara dos Deputados. Também a maioria dos governadores das províncias (sete de 24) são peronistas”. Nestas eleições, preconiza o especialista, é expectável que tenham “um bom resultado nas províncias que governam” e que se mantenham “como uma alternativa política para as presidenciais de 2027”.

Para Anabella Busso, o peronismo também pode ter “bons resultados” nestas legislativas e manter-se-á como a “principal oposição ao Governo”. Ainda assim, a especialista avisa que não é provável que os bons resultados que obtiveram os diferentes partidos de esquerda em Buenos Aires se repitam. “Mas pode conquistar várias províncias”, ressalva.

Nos bastiões, o peronismo continuará dominante e será o principal movimento de oposição. “Um bom resultado facilitaria o processo de reunificação do peronismo, um processo que está em curso, mas ainda tem tarefas pendentes”, considera Anabella Busso, recordando que — após as eleições presidenciais de 2023 e a vitória de Javier Milei — os peronistas perderam o rumo. Ainda existe uma fiel base eleitoral, sublinha Anabella Busso. Mesmo que a presidência seja de Javier Milei e que a direita tente abafar o movimento, a especialista realça que o peso eleitoral do peronismo na Argentina ainda é de “35 a 40%”.

Peronistas devem ter "um bom resultado nas províncias que governam e devem manter-se como uma alternativa política para as presidenciais de 2027".
Miguel De Luca, politólogo e professor na Universidade de Buenos Aires

Porém, ainda subsistem tensões e uma divisão no movimento. “A questão chave do peronismo será a de resolver a questão de quem o lidera: se se manterá o domínio de Cristina Kirchner ou se Axel Kicillof (ou outro líder) passará a controlar o partido”, expõe Miguel De Luca.

A ex-Presidente da Argentina ainda continua a ser uma figura dominante na política do país. Mesmo tendo sido condenada a seis anos de prisão por administração fraudulenta (estando a cumprir pena em prisão domiciliária), Kirchner ainda tem uma base de apoiantes bastante sólida. Devido às suas polémicas judiciais, o filho, Máximo Kirchner, tornou-se o rosto deste setor da oposição a Javier Milei, mantendo o estilo populista de esquerda da mãe e empunhando a bandeira da defesa de um maior peso do Estado na economia.

Por seu turno, Axel Kicillof é também encarado como um dos possíveis líderes do peronismo. Sem a influência negativa dos processos judiciais de Cristina Kirchner, o governador de Buenos Aires obteve uma importante vitória nas eleições de Buenos Airesde setembro. Com um estilo mais pragmático, o economista afasta-se do estilo populista da antiga Presidente, procurando atrair eleitores mais ao centro.

▲ Axel Kicillof poderá ser o novo rosto do peronismo em Argentina

JASON SZENES/EPA

A vitória em setembro de 2025 fez com que AxelKicillof se tornasse o líder informal do peronismo, respeitando sempre a herança de Cristina Kirchner, se bem que com um estilo mais sóbrio. Na campanha, o governador de Buenos Aires tem defendido e transmitido a mensagem de que os argentinos têm de “impor um limite” a Javier Milei. “Precisamos de um Congresso que acabe com os vetos e os decretos. Milei governa de costas para o Parlamento”, denunciou, numa entrevista televisiva esta quarta-feira.

O empréstimo de 20 mil milhões de dólares dado por Trump para ajudar Milei

A meio de outubro, Javier Milei deslocou-se à Casa Branca. O Presidente argentino nunca escondeu a admiração que sente por Donald Trump. Os dois assumem-se como sendo políticos de direita radical e antissistema, cultivando uma boa relação pessoal. Para a Argentina, os Estados Unidos são um parceiro económico preferencial; para Washington, Buenos Aires é um importante aliado numa América Latina mais virada à esquerda.

Na viagem a Washington, Javier Milei não regressou ao país natal de mãos vazias. Para ajudar a reestruturar a economia argentina, os Estados Unidos anunciaram um empréstimo de 20 mil milhões de dólares. Na Casa Branca, Donald Trump declarou o “apoio total” ao seu aliado ideológico e usou o acrónimo MAGA para garantir que o homólogo argentino está a “Tornar a Argentina Grande Outra Vez”.

epa12453888 US President Donald Trump (C) hosts a bilateral lunch with Argentine President Milei (not pictured) in the Cabinet Room at the White House in Washington, DC, USA, 14 October 2025.  EPA/Alex Wroblewski/CNP / POOL

▲ Donald Trump almoçou com Javier Milei quando lhe anunciou o empréstimo de 20 mil milhões de dólares

Alex Wroblewski/CNP / POOL/EPA

Se os Estados Unidos vão ganhar alguma coisa com este empréstimo? Donald Trump não precisou. Apenas frisou que está ao lado de Javier Milei, porque a sua “filosofia é correta”: “Ele pode ou não ganhar — eu acho que ele vai ganhar. E se ganhar estaremos do lado deles, se não ganhar vamos embora”, assegurou o Presidente norte-americano.”Estamos a ajudar uma grande filosofia a dominar num grande país. Queremos vê-lo a ser bem-sucedida.”

A par da ameaça de que se a oposição vencer os Estados Unidos retirarão o apoio, há também uma componente geopolítica neste empréstimo norte-americano. Os EUA estão a tentar influenciar Buenos Aires a afastar-se da China. Atualmente, a Argentina é um dos maiores parceiros comerciais de Pequim — e a administração Trump quer inverter isso.

Para estas legislativas argentinas, os especialistas ouvidos pelo Observador coincidem que o empréstimo será um importante trunfo eleitoral. “O apoio de Trump é bom para a economia”, assegura Luis Schenoni. “O apoio económico garante aos obrigacionistas que a Argentina pagará as suas dívidas no próximo ano, o que dá ao Governo (e aos detentores de obrigações) algum fôlego”, acrescenta Maria Murillo.

"Ele pode ou não ganhar — eu acho que ele vai ganhar. E se ganhar estaremos do lado deles, se não ganhar vamos embora."
Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América

Numa iniciativa mais recente, Donald Trump está a ponderar aumentar a importação de carne de vaca argentina nos Estados Unidos. A medida não está a ser bem recebida pela indústria pecuária norte-americana, que teme prejuízos e concorrência desleal. Curiosamente, neste assunto, as palavras do Presidente norte-americana acabaram por prejudicar Javier Milei na reta final da campanha das legislativas.

Questionado na segunda-feira a bordo do Air Force One sobre o motivo para os Estados Unidos avançarem com a compra de carne bovina da Argentina, o chefe de Estado afirmou que os argentinos “estão a lutar pelas suas vidas”. “Eles não têm dinheiro. Eles estão a lutar tanto para sobreviver. Eles estão a morrer“, afirmou. As palavras foram usadas como uma arma de arremesso contra a presidência, expondo que até o seu principal aliado reconhece as dificuldades económicas que o país atravessa.

Apesar do tom condescendente usado por Donald Trump, Javier Milei ainda pode vender a ideia de que é alguém pró-ativo em busca de soluções para a Argentina. Em sentido inverso, a oposição tem acusado a presidência de se submeter aos Estados Unidos. E deseja explorar a reputação negativa de Donald Trump na América Latina para demonstrar que o apoio financeiro é uma forma de chantagem política.

Apesar de reconhecer que é “bom” para a economia argentina, Luis Schenoni avisa que o empréstimo de 20 mil milhões de dólares é “mau” para a imagem pública de Javier Milei, precisamente porque Donald Trump “tem uma reputação mais negativa do que positiva” na região. Ainda que a Argentina não seja um dos países mais anti-americanos no continente, existe alguma apreensão de que poderá fazer ricochete e prejudicar a campanha para estas legislativas.

No entanto, Schenoni não partilha a opinião de que Donald Trump será um ativo tóxico nestas legislativas. “No geral, as pessoas votam com o bolso e temas como a economia e a segurança são mais importantes do que a política externa”, argumenta o especialista, que destaca que o “balanço” do empréstimo “é positivo se alcançar o objetivo esperado de fortalecer o peso” argentino. O eleitor médio argentino deseja manter a estabilidade económica — e Javier Milei pode argumentar que tem a solução para isso com o empréstimo norte-americano.

Se o partido de Javier Milei perder as eleições ou obter um resultado razoável nestas legislativas, Donald Trump deverá retirar o apoio, como já ameaçou. Essa hipótese ainda traria mais complicações para os próximos dois anos de mandato do Presidente argentino, que perderia — talvez de forma definitiva — o apoio de Washington para avançar com as reformas económicas que prometeu.

"No geral, as pessoas votam com o bolso e temas como a economia e a segurança são mais importante do que a política externa."
Luis Schenoni, professor do departamento de Ciência Política da University College London

Independentemente do resultado, o Presidente argentino vai corrigir a rota do que sobra do seu mandato este domingo. Javier Milei já anunciou que haverá uma remodelação governamental “para alcançar os objetivos das reformas” nos próximos dois anos. As sondagens até agora reveladas mostram um cenário pouco claro; enquanto algumas dão os peronistas à frente, outras mostram A Liberdade Avança em primeiro.

No domingo, se Javier Milei vencer, pode avançar com as suas reformas económicas sem que a oposição bloqueie as suas iniciativas governamentais, por muito arriscadas que sejam. E contará com o patrocínio de Donald Trump, que gosta de estar ao lado de vencedores. Se perder, Javier Milei terá dificuldades em avançar com a ideologia libertária e anarcocapitalista que prometeu revolucionar a Argentina, um país que ainda procura a tão ansiada estabilidade económica.

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