Uma cidade “pior do que há quatro anos”, que “cheira a lixo” e que sofreu muito recentemente o choque com o acidente do elevador da Glória. Foi com este cenário desenhado que os quatro principais candidatos a Lisboa entraram no debate, com três deles prontos para criticar o incumbente, Carlos Moedas (que acabaria por se queixar de um confronto de “três contra um”).
Ainda assim, cada um seguiu um guião mais específico: Moedas queria bipolarizar o debate e atacar Leitão, puxando-a à conversa em temas quentes; a socialista apareceu em tom moderado, mas criticando Moedas em vários pontos por ter concretizado menos do que devia em quatro anos; João Ferreira aproveitou a decisão da ERC para tentar mostrar porque é que a CDU decidiu correr em pista própria nestas eleições, colando PS a PSD; e Bruno Mascarenhas tentou apresentar-se defendendo bandeiras do Chega, como a imigração, e colando também os partidos do centrão.
No final, e com críticas ao estado da habitação, higiene ou transportes em Lisboa, Moedas iria deixando uma justificação e uma promessa: está satisfeito com o seu trabalho, mas quer fazer mais; o seu projeto ainda vai só “a meio”, até porque teve de “corrigir” os erros das governações socialistas anteriores. Moral da história: precisa de mais anos na autarquia para apresentar melhores resultados — e para isso parece acreditar que precisa de uma corrida bipolarizada entre as coligações lideradas por PS e PSD.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Moedas a bipolarizar, em defesa de um projeto que precisa de mais tempo
Carlos Moedas apareceu no debate como o alvo evidente: além de ser o incumbente, tradicionalmente a figura mais atacada por ser o candidato que tem mais contas a prestar (“são três contra um”, queixava-se a certa altura), o debate aconteceu no rescaldo da tragédia no elevador da Glória. Nesse capítulo, repetiu que demitir-se seria uma “cobardia” e puxou à emoção dizendo que “sofreu” ao lado dos lisboetas (e não dos “comentadores) — e, com Leitão a fazer críticas em tom moderado, não foi o capítulo em que sofreu ataques mais graves.
Os maiores ataques acabaram, sim, por ter a ver com a vida na cidade — sobre a habitação insuficiente em Lisboa, a má gestão do lixo ou a maneira como liga imigração e insegurança –, e Moedas foi-se justificando sempre com o guião que levava preparado: o seu tempo ainda vai a meio, em quatro anos não conseguiu corrigir “os erros de 14” (do PS), e por isso mesmo precisa de ser reeleito e de ter mais tempo para concluir o projeto e mostrar resultados completos, seja na iluminação da cidade, na construção de mais habitação pública ou na gestão do lixo.
E assim, apesar de elogiar a ação do seu executivo em vários temas — o que fez na habitação foi “absolutamente único” e vai continuar, com mais projetos para aproveitar terrenos públicos e devolver os bairros históricos aos jovens, por exemplo; foi “dos primeiros políticos” a alertar para o tema da imigração, que já vê melhorar, com mais “fiscalização em bairros complicados” — Moedas foi assumindo que ainda quer fazer mais. Precisará, pediu, de mais anos para isso.
De resto, a tática estava definida: vinha para bipolarizar a corrida e não se dedicar especialmente a responder a João Ferreira ou Bruno Mascarenhas, e por isso dedicou-se a atacar Alexandra Leitão sempre que pôde. Em vários momentos, o atual presidente da câmara puxou pela candidata socialista para a conversa e tentou que as propostas do PS, assim como a relação do partido com os privados ou a posição sobre a devolução do IRS aos munícipes (o programa da coligação liderada pelos socialistas não prevê nada sobre o tema), fossem a debate. A decisão final, acredita Moedas, far-se-á entre os votantes das duas maiores coligações.
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Alexandra Leitão ao ataque, com “serenidade” na Glória
Alexandra Leitão surgiu pronta a atacar Carlos Moedas e o trabalho na Câmara de Lisboa nos últimos anos em praticamente tudo. A exceção foi mesmo o acidente do elevador da Glória, onde continua a pedir “serenidade”, mesmo quando assume a necessidade de esclarecimentos e apurar responsabilidades. A seu tempo. Ainda lançou uma farpa ao atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa com um “quando finalmente houve reunião”, mas fez questão de manter a postura de responsabilidade, continuando a recusar pedir a demissão do autarca — e ignorando as acusações de cinismo feitas por Moedas na entrevista em que também chamou “sicário” a Pedro Nuno Santos.
De resto, a cabeça de lista da coligação Viver Lisboa, que integra PS, Livre, Bloco de Esquerda e PAN, não poupou Moedas no que aos valores da manutenção dos elevadores da Carris diz respeito — com Moedas a jurar novamente que houve um aumento do investimento durante o seu mandato. “No que toca à despesa com a manutenção, não houve um aumento”, sublinhou a socialista, escudando-se em notícias que dão conta disso mesmo e pegando nesse ponto para usar como a única arma de arremesso sobre o assunto.
Nos restantes temas discutidos, Alexandra Leitão procurou todas as razões e mais algumas para menorizar os últimos quatro anos. Na habitação, não só assegurou que há “capacidade para fazer 4500 fogos em muitos dos programas de renda acessível”, como realçou que os mesmos “não saíram do papel” no mandato de Moedas. E disse mais: é preciso tomar conta dos devolutos e deve permitir-se uma “majoração em todos os empreendimentos privados que aceitem pôr 25% da construção em arrendamento acessível”. Por outro lado, criticou duramente a propaganda de Carlos Moedas, fazendo uma distinção entre “atribuição de chaves com casas novas do tempo anterior” e garantiu que a habitação nova levada a cabo em quatro anos “é bem pequena”. Aproveitou o embalo para acusar o presidente de Lisboa de querer “acabar a suspensão de licenças de alojamento local” — o que permitiu a Moedas defender-se e assegurar que não.
Quando a imigração veio a debate, Leitão aproveitou para esclarecer que é preciso garantir “segurança e integração” e que, esses sim, são problemas que podem ser resolvidos por uma autarquia. Já sobre a insegurança, a candidata socialista desconstruiu: atira à falta de iluminação pública e aos espaços públicos abandonados (“Quando os espaços estão abandonados as pessoas não andam lá, não andam lá e há mais insegurança”), culpa Moedas por ter deixado a Polícia Municipal em “mínimos de agentes” e por ainda não ter montado muitas das câmaras de vigilância aprovadas. Ao cair do pano, o tema que mais perseguia Moedas até ao acidente — o lixo —, com Leitão a notar que “Lisboa nunca teve tanto lixo e nunca cheirou tão mal”.
De realçar também que, ao ouvir João Ferreira, Alexandra Leitão foi sendo amigável, completando raciocínios e dando razão ao experiente vereador do PCP, partido que não quis integrar a coligação que encabeça. Mas no final, já na flash, lembrou-se da nega e afastou-se: “Quem quiser que não seja Carlos Moedas a continuar a ser presidente, terá de votar na coligação Viver Lisboa.”
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Entre PS e PSD, João Ferreira meteu a colher
Depois de ter recusado integrar a coligação que juntará PS, BE, Livre e PAN em Lisboa, João Ferreira vinha ao debate também para justificar porque é que a CDU avança sozinha — mesmo que em tese isso possa reduzir as hipóteses de a esquerda conquistar a autarquia lisboeta. Por isso, o comunista dedicou-se durante o debate quase todo a colar PS e PSD e a, por cada crítica que fazia a Moedas, lembrar que o PS tinha feito igual ou viabilizado as suas opções (da aprovação de forma “irrestrita” de novos hotéis na cidade à devolução do IRS às famílias lisboetas, em detrimento de investimentos que a CDU priorizaria).
Como é já habitual nos debates em Lisboa, Ferreira puxou da sua experiência de doze anos como vereador — confirmada pelos outros debatentes, que também a iam referindo — para referir propostas já aprovadas no passado pela CDU, de programas de arrendamento possível ao bloqueio à alienação de terrenos públicos que vão agora servir para construir casas. Com Leitão a mostrar-se amigável em relação à CDU, Ferreira fez tudo para se descolar do PS e tentar mostrar que a CDU é uma esquerda autónoma e que vale por si e pelo seu histórico na cidade — resta saber o que isso significará em termos de votos e da composição final da autarquia.
No tema do elevador da Glória, o candidato lembrou propostas do PCP, já aprovadas, para avaliar sistemas de redundância nos elevadores ou olhar para “elementos críticos” que possam escapar à manutenção, etc. Na segurança, distanciou-se de PS e PSD para se focar mais na recuperação das esquadras de proximidade do que na instalação de mais câmaras de videovigilância (por terem um efeito menos dissuasor na criminalidade). No seu todo, esteve sempre focado em correr em pista própria e mostrar-se como uma alternativa real a PS e PSD.
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Bruno Mascarenhas contra bloco central
Entre três experientes, o candidato do Chega a Lisboa trazia a estratégia montada e começou a pô-la em prática desde cedo: ataque ao bloco central. Não só acusou Carlos Moedas de ser o “perito na desresponsabilização” como colocou tudo no mesmo saco para também atacar Alexandra Leitão com um “custa-me ver o incómodo de PS e PSD na tentativa de atirar problemas para a frente” e outro “PS e PSD estão capturados pelo sistema” — naquela que é tantas vezes a tese usada por André Ventura.
Ainda procurou levar para o debate a questão das queixas dos trabalhadores da Carris relativamente ao elevador da Glória, mas sem grande sucesso. O objetivo ia sendo mostrar que o atual presidente da Câmara não tinha sido eficaz em praticamente nada: “Moedas teve à sua disposição 5 mil milhões de euros para gerir e cidade está bem pior do que estava há quatro anos.” Na estratégia de atirar ao bloco central, acabou por atribuir mais méritos ao PS, ao considerar que na altura em que Fernando Medina deixou a autarquia, Lisboa estava melhor.
Quanto ao mais, Bruno Mascarenhas, que já é deputado do Chega, sugeriu que as pessoas que cumprirem quando vivem em casas municipais devem ter a possibilidade de as comprar, enquanto quem não cumpre deve ficar sem casa “e dar espaço a outras”. Por outro lado, os T2 que pretende colocar a 700 euros serão, realçou, para “privilegiar jovens portugueses”. Na habitação, mais uma colagem entre socialistas e sociais-democratas: “Falam muito no período eleitoral, mas não executam. (…) A doença não pode ser curada por aqueles que provocaram a doença, única alternativa que existe é daqueles que não têm vícios.”
Num dos temas prediletos do Chega, Bruno Mascarenhas considerou um erro querer “integrar pessoas do Hindustão”, justificando que “só podemos integrar os que querem ser integrados, os que têm uma raiz cultural connosco”. Por outro lado, em mais uma crítica a Moedas, o candidato do Chega acredita que o autarca “não se impôs” no que toca à Polícia Municipal e pretende que haja mais agentes em quatro anos e um “aumento de poderes”.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR