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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Montenegro tenta enterrar Pedro Nuno e Spinumviva ao estilo Cavaco 87'

No Governo, acredita-se que Pedro Nuno será corrido se perder próximas eleições e próximo líder do PS garantirá condições de governabilidade. Caso Spinumviva perderá gás depois do teste das urnas.

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Luís Montenegro preferiu eleições legislativas a ser cozido em lume brando. Com essa decisão, deixou o país político a fazer a mesma pergunta: e se, depois de contados os votos, tudo ficar na mesma. Um Executivo precário, em minoria, com um primeiro-ministro enrolado numa roleta interminável de casos e casinhos, sem condições de governabilidade, nem para passar o seu Programa de Governo, quanto mais para aprovar um Orçamento do Estado. A essa pergunta, no entanto, o núcleo duro do primeiro-ministro vai respondendo com uma certeza: nada ficará na mesma depois das legislativas.

Esta conclusão parte de duas certezas: se a Aliança Democrática sair novamente vencedora — e é nisso que acreditam convictamente os sociais-democratas, devidamente suportados por sondagens animadoras — o caso Spinumviva ficará para trás das costas e Pedro Nuno Santos sairá pela porta pequena do Largo do Rato. Legitimado pelos votos dos eleitores, Montenegro não mais falará sobre a sua empresa familiar; e o PS lançar-se-á numa crise interna que vai obrigar o partido, em caso de mudança de líder, a reorganizar-se — o que pressupõe uma atitude mais moderada e construtiva na oposição.

Ultrapassadas as próximas eleições legislativas, sem que se perspetive que exista uma maioria absoluta ou uma maioria à direita ou à esquerda, o partido que delas sair vencedor será convidado a formar Governo. A seguir, imediatamente na ressaca das eleições, terá de ultrapassar o primeiro teste de algodão: consegue ou não aprovar o seu Programa de Governo. Da última vez que isso aconteceu, mesmo por entre muitos avisos, Pedro Nuno Santos permitiu a Montenegro que começasse a governar. Agora, e atendendo à rutura definitiva entre PS e PSD, seria impensável imaginar que algo desse género se possa repetir.

Mas é aí que está a chave: no Governo, ninguém acredita que Pedro Nuno sobreviva a nova derrota nas urnas, pelo que a liderança do PS mudará necessariamente de mãos. Será o próximo secretário-geral socialista a tomar uma decisão — Fernando Medina, José Luís Carneiro, Ana Catarina Mendes, Francisco Assis ou outra figura — sobre o próximo ciclo político. Qualquer líder que suceda a Pedro Nuno Santos não estará em condições de comprar uma guerra com o partido feito em frangalhos. “Quem perder não tem condições de não viabilizar [o próximo Governo]”, sentencia um elemento do Conselho de Ministros.

Naturalmente, os aliados de Montenegro vão acreditando que o primeiro-ministro conseguirá virar a narrativa a seu favor e provar que foi a oposição — com o PS à cabeça — que deitou irresponsavelmente abaixo o Governo. Entrará em cena a estratégia há muito preparada por este Governo: contra os bloqueios, repetir Cavaco Silva 87'

Quem perder está fora — e tem de sair da frente

Na SIC Notícias, António Leitão Amaro, atual ministro da Presidência, foi confrontado precisamente com a magna questão: mesmo que Luís Montenegro vença as próximas eleições legislativas, quem lhe garantirá a aprovação do Programa de Governo e as condições necessárias de governabilidade. Na resposta, o social-democrata disse exatamente aquilo que os seus colegas de Executivo foram dizendo em off the record ao Observador: “Será a maioria que sair das próximas eleições”. E quem define a próxima maioria serão, não os atuais, mas os próximos protagonistas.

“Há um ano, diziam-nos que não ganhávamos eleições. Depois, que não íamos governar. E, por fim, que não íamos conseguir aprovar o Orçamento do Estado”, atirou António Leitão Amaro, parecendo lembrar que Luís Montenegro conseguiu sempre superar as baixas probabilidades com que teve de ir a jogo. No próximo ciclo político, derrotando Pedro Nuno Santos, o líder social-democrata terá um PS obrigado a permitir à Aliança Democrática que governe — pelo menos a prazo.

Mais a mais existe um factor que serve de esperança aos elementos da Aliança Democrática: a esperança de que enquanto o adversário do outro lado se chamar Pedro Nuno Santos, Montenegro sairá sempre a ganhar. Para os sociais-democratas, o líder socialista, pelo perfil e percurso político que tem, assustará sempre mais — mais até do que um Luís Montenegro abalado por um caso delicado. “É um seguro de vida”, diz ao Observador um influente social-democrata.

Depois existe o Chega. É verdade que o partido de André Ventura é particularmente hábil em crescer a partir deste tipo de pântanos, concede-se no PSD. Todavia, os sociais-democratas estão convictos de que o Chega enfrentará as próximas eleições em situação muito difícil em virtude dos casos que abalaram o partido. E, por outro lado, Montenegro terá superado a desconfiança que existiu no eleitorado mais à direita nas legislativas de 2024 — há um milhão de votos do Chega que podem alimentar a Aliança Democrática. Seria o efeito do voto útil à direita que não existiu na última ida às urnas.

Confrontados com outra importante questão — mesmo depois de uma vitória nas urnas, como é que Luís Montenegro se libertará da sucessão de suspeições, insinuações, ataques e críticas sobre o caso em que se envolveu — os mesmos elementos que aconselham o primeiro-ministro cortam a eito: se for relegitimado pelo voto dos eleitores mesmo depois de tudo o que se soube sobre a sua vida familiar e empresarial, o “Spinumvivagate” ficará esvaziado na sua importância política. Com ou sem comissão parlamentar inquérito, será assunto arrumado. “Já ninguém vai querer saber disso.”

Isto obedece a uma ideia que os sociais-democratas tentam passar a todo custo: o PSD faz “política que vale a pena”, foca-se nos temas que interessam às pessoas, não se perde em casos e não pratica “calculismo e politiquice”. É de resto uma ideia que já tem corrido no interior do Executivo, que acredita que o caso não está a ganhar grande tração junto do eleitorado e que as pessoas estão cansadas de ouvirem permanentemente falar de um caso cujos contornos não entendem verdadeiramente.

Claro que todas estas conjeturas só resultam no papel. Até agora, ninguém consegue dizer de caras que Luís Montenegro e a Aliança Democrática não sairão penalizados nas urnas depois de tudo o que aconteceu. Nem mesmo os mais otimistas. Foi, a todos os níveis, uma jogada de altíssimo risco que pode atirar o PSD de novo para a oposição. Mas, naturalmente, os aliados de Montenegro vão acreditando que o primeiro-ministro conseguirá virar a narrativa a seu favor e provar que foi a oposição — com o PS à cabeça — que deitou irresponsavelmente abaixo o Governo. Entrará em cena a estratégia há muito preparada por este Governo: contra os bloqueios, repetir Cavaco 87′.

Se a Aliança Democrática sair novamente vencedora, o caso Spinumviva ficará para trás das costas e Pedro Nuno Santos sairá pela porta pequena do Largo do Rato. Legitimado pelos votos dos eleitores, Montenegro não mais falará sobre a sua empresa familiar; e o PS lançar-se-á numa crise interna que vai obrigar o partido, em caso de mudança de líder, a reorganizar-se — o que pressupõe uma atitude mais moderada na oposição

Estava escrito nas estrelas: Montenegro imita Cavaco

No entanto, há uma diferença entre os dois: em 1987, Aníbal Cavaco Silva foi derrotado por uma moção de censura aprovada pela oposição e teve de bandeja a narrativa que lhe permitiu alimentar a tese de vitimização; Luís Montenegro vai cair porque não mostrou ter capacidade para superar uma crise que nasceu a partir da sua situação particular e depois de não conseguir aprovar uma moção de confiança no Parlamento. São, apesar de tudo, pontos de partida muito diferentes, pelo que importa, desde já, ajustar a narrativa.

No Parlamento, assim que Luís Montenegro anunciou que vai mesmo avançar com uma moção de confiança, o argumentário pré-eleitoral começou a ser preparado. Desde logo, com a ideia-base que serve qualquer guião de uma crise política: é preciso colocar o ónus no outro lado – neste caso, na oposição – para responsabilizá-la pela instabilidade que o país vive e esperar que os eleitores façam o que fazem sempre, ou seja, castigar a parte que os obriga a ir às urnas antes de tempo.

Montenegro apostou forte nesta estratégia, desde logo descrevendo os seus opositores como “agitadores” que querem tanto atacá-lo que não se importam de arrastar o país para um período que, se não fosse cortado já pela raiz, resultaria numa “agonia lenta” (expressão de Paulo Rangel) e numa “degradação” em lume brando das instituições democráticas.

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Foi assim que Montenegro se defendeu da acusação de querer provocar eleições, que ouviu repetidamente durante o debate e que terá de enfrentar durante toda a campanha: mais vale dois meses de suspensão da estabilidade do que um ano e meio (até a Assembleia da República poder ser dissolvida novamente) de degradação lenta da situação política.

Do lado do PSD, a tese que coloca a oposição como um bloco irresponsável contra um Governo responsável que só queria continuar a trabalhar – tem sido recorrente o recurso ao famoso “deixem-nos trabalhar”, de Cavaco Silva, figura inspiradora de Luís Montenegro – foi ganhando força. Hugo Soares acusou a oposição de lançar “lama” e fazer a política do “ridículo”, tudo para ganhos próprios. Luís Montenegro reforçou a ideia, atribuindo a crise ao “egoísmo” e “taticismo” do PS.

Confrontados com outra importante questão — mesmo depois de uma vitória nas urnas, como é que Luís Montenegro se libertará da sucessão de suspeições, insinuações, ataques e críticas sobre o caso em que se envolveu — os mesmos elementos que aconselham o primeiro-ministro cortam a eito: se for relegitimado pelo voto dos eleitores, o "Spinumvivagate" ficará esvaziado na sua importância política. Com ou sem comissão parlamentar inquérito, será assunto arrumado. "Já ninguém vai querer saber disso"

Atirar discurso positivo contra “campanha negra”

Apesar da confiança — contida, para já — no PSD, existe a perfeita consciência de que será uma campanha eleitoral muito difícil, onde todos os detalhes sobre a Spinumviva — e demais contornos sobre a vida pessoal e empresarial de Montenegro — serão explorados ao limite. Isso pode obrigar o primeiro-ministro a passar 15 dias a ter de reagir a todo e qualquer novo desenvolvimento que venha a surgir. À cabeça: a Procuradoria-Geral da República abrirá ou não um inquérito ao caso que envolve Montenegro.

Para combater a “campanha negra”, os sociais-democratas vão desenhando, desde o primeiro minuto, uma estratégia a duas velocidades: em primeiro lugar, pintar como inimigos da estabilidade e, por arrasto, do país todos aqueles que juntem aquelas dez letrinhas, S-p-i-n-u-m-v-i-v-a.

Aliás, a determinada altura do debate parlamentar, o primeiro-ministro ensaiou mesmo uma frase que pode vir a ditar o tom e a atitude de Montenegro nas próxima campanha para as eleições legislativas: a ideia de que “tem mais do que fazer do que estar sempre a responder” aos deputados — e à comunicação social. É uma forma de preparar uma narrativa que tem feito algum sucesso noutras latitudes e que já fez e vai fazendo escola em Portugal. Apresentar-se a votos contra os interesses instalados na política e que têm nos jornais e nos jornalistas muitos aliados.

A segunda parte da estratégia passa por provar então que o PSD está mesmo concentrado nas tais políticas que importam. Não por acaso, ainda mal tinha provocado, como o próprio disse, a “incredulidade” de quem o ouvia anunciando a moção de confiança e poucos segundos depois Montenegro já fazia uma extensa enumeração das medidas mais positivas que o Governo tomou e de dados económicos animadores (da baixa da dívida externa ao desemprego em mínimos históricos), para concluir que Portugal é um país que caminha na direção certa e que olha para o futuro com otimismo.

Esse elenco de medidas tem estado de resto na ponta da língua de todos os ministros que têm falado publicamente, e voltou a ser referido no encerramento do debate por Paulo Rangel, que lembrou reduções de impostos, construção de casas ou a execução do PRR para dizer que o Governo “não desiste deste movimento reformador que está a transformar o país”. De um lado, um PS que alinha em argumentos populistas que se viessem do Chega não espantariam, insiste o Executivo; do outro, um Governo que garante estar empenhado em governar. Resta saber se a tese convencerá os eleitores que tiverem de voltar às urnas após uma queda auto-provocada.

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