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▲Mais homens, mas menos armas modernas: a comparação dos exércitos da Europa e da Rússia

Anadolu Agency via Getty Images

▲Mais homens, mas menos armas modernas: a comparação dos exércitos da Europa e da Rússia

Anadolu Agency via Getty Images

Muitos militares, equipamentos antigos e armas nucleares. Como se comparam as capacidades militares da Europa e da Rússia?

A Europa tem mais homens, mais tanques, mais jatos. A Rússia é mais moderna e mais bem preparada. E tem mais armas nucleares. Em confronto, as capacidades europeias podem fazer frente à Rússia?

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“Temos de ter discussões tanto com os britânicos como com os franceses se a segurança nuclear do Reino Unido e França também se aplica a nós”. As palavras foram deixadas por Friedrich Merz na semana passada, ainda antes de as eleições o terem confirmado como o novo chanceler alemão. Merz explicou o pedido de ajuda a Londres e Paris: são as únicas potências europeias com armas nucleares e que agora se unem para uma proposta de cessar-fogo na Ucrânia (na cimeira de Londres deste domingo), depois da escalada de tensão entre Trump e Zelensky (após a discussão na Sala Oval de sexta-feira) e dos EUA começarem a falar de uma saída da NATO (também já este domingo).

Emmanuel Macron, o Presidente francês, já tinha aberto a porta à possibilidade de as capacidades nucleares fazerem parte dos diálogos sobre segurança europeia. Keir Starmer, o primeiro-ministro, britânico não a fechou. Das palavras aos atos, Starmer anunciou na última terça-feira um aumento (modesto, mesmo assim) do investimento para a Defesa. O Reino Unido enfrenta “uma nova era perigosa”, declarou.

A origem do perigo? A Rússia. O debate sobre a segurança europeia interliga-se com o apoio dado à Ucrânia para resistir à invasão russa, desde fevereiro de 2022. Mas se, até agora, a segurança da Europa foi assegurada pelos Estados Unidos, através da NATO, a nova administração norte-americana deu sinais de que isso pode estar prestes a mudar. E que será necessário reorganizar a defesa europeia.

A Europa pode defender-se sem esta NATO?

Em resposta, a União Europeia (UE) também terá de investir, e muito, em defesa. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão, afirmou que a comunidade deve criar um instrumento europeu para “gastos em defesa mais eficazes”. O debate sobre a segurança da Europa faz-se em dois eixos: o da UE e o do braço europeu da NATO, cujos membros se sobrepõem em grande parte.

Para além das armas nucleares, os investimentos anunciados para o futuro visam muitas outras capacidades europeias que a Europa precisa de melhorar se quer ter a possibilidade de fazer frente às capacidades do seu inimigo, Vladimir Putin. Porém, neste momento, como é que se comparam as capacidades da Europa e da Rússia?

Armas nucleares: França e Reino Unido contra a maior potência nuclear mundial

As capacidades nucleares podem ocupar o centro da discussão, mas a sua eficácia é principalmente de dissuasão. Esta tem sido uma das ameaças mais frequentes do Kremlin durante a guerra na Ucrânia: Putin já ameaçou por várias vezes Kiev e os aliados com mudanças na doutrina nuclear e a utilização das armas nucleares.

Ameaça preocupante ou apenas bluff? Putin revê doutrina, mas esta é a 12.ª vez que agita o papão do nuclear

A Rússia é o país do mundo com mais armas nucleares. Segundo dados norte-americanos, Moscovo tem 1.549 ogivas nucleares posicionadas em 540 lançadores e mísseis. Mas a comunidade de serviços secretos norte-americanos estima que os russos mantenham mais de mil ogivas à margem dos tratados de redução de riscos nucleares. Ao todo, em março de 2024, os Estados Unidos estimavam que o arsenal nuclear russo tinha aproximadamente 5.580 ogivas, incluindo as que estão operacionais, as que não estão e as que inativas para serem desmanteladas.

Porém, importa notar que, num confronto nuclear, a Rússia tem como aliados outros Estados com capacidades nucleares: China e Coreia do Norte (além do potencial que pode ainda vir do Irão).

Tal como a Rússia, a China ratifica o tratado de não proliferação nuclear e, em dezembro de 2024, o Departamento de Defesa norte-americano estimava que Pequim tinha 600 ogivas operacionais. A Coreia do Norte não ratifica o tratado e estima-se que tenha 30 ogivas — contudo, estes são os números menos confiáveis. A Rússia conta ainda com o apoio do Irão que, apesar de não ter armas nucleares, desenvolveu bastante o seu programa nuclear e possui capacidades para desenvolver estas armas.

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▲ Starmer e Macron lideram as duas potências nucleares da Europa

SOPA Images/LightRocket via Gett

Face a este cenário, o arsenal europeu, que Macron e Starmer pretendem pôr em cima da mesa parece muito menos impressionante. França é a maior potência nuclear da Europa e tem 290 ogivas operacionais, em 98 sistemas de lançamento: mísseis balísticos, submarinos e mísseis cruzeiro. O Reino Unido, por sua vez, tem 225 ogivas nucleares. Contudo, apenas 120 estão operacionais, em submarinos. As restantes 105 encontram-se armazenadas.

A utilização destas armas no palco europeu poderá incluir o posicionamento de lançadores na Alemanha, para “enviar uma mensagem forte”, segundo um oficial francês avançou ao The Telegraph. A Alemanha não tem armas nucleares, mas estima-se que 20 ogivas norte-americanas estejam posicionadas na base militar alemã de Büchel.

Tanques, jatos de combate e artilharia: as vantagens da Europa

Se a Rússia ultrapassa largamente a Europa no que diz respeito ao número de armas nucleares, o mesmo não se pode dizer das armas tradicionais, como veículos de combate e sistemas de artilharia. A fundação Friedrich Ebert, uma organização alemã fundada pelo SPD, reuniu os dados das capacidades militares de vários países em 2023. Os dados distinguem entre o braço europeu da NATO e a UE pelo que importa assinalar as diferenças entre as duas organizações.

A Aliança Atlântica é constituída por 32 membros, mas apenas dois são na América do Norte: Estados Unidos e Canadá. Desses 30 membros, 23 são Estados membros da UE. Os Estados que fazem parte da NATO, mas não da UE, são a Albânia, Islândia, Macedónia do Norte, Montenegro, Noruega, Turquia e Reino Unido. Por outro lado, a UE tem 27 estados membros, dos quais quatro não são parte da aliança militar: Chipre, Áustria, Irlanda e Malta. A sobreposição da NATO e da UE facilita a análise dos contingentes militares.

No que toca a veículos terrestres blindados, a Rússia tem mais de 11 mil, um número significativamente menor quer que a NATO europeia (ultrapassa os 35 mil), ou que a UE (cerca de 24 mil). Esta análise permite concluir que Albânia, Islândia, Macedónia do Norte, Montenegro, Noruega, Turquia e Reino Unido, em conjunto, controlam 11 mil destes veículos.

"A União Soviética baseou-se fortemente na defesa aérea e de mísseis terrestres no seu planeamento militar. A Rússia tem seguido o mesmo caminho nas últimas décadas. Este facto desempenha um papel importante na atual guerra na Ucrânia."
Fundação Friedrich Ebert

O segundo equipamento são os sistemas de artilharia. Também aqui a Europa está em vantagem. A Rússia tem pouco mais de 3 mil, a União Europeia tem 4,7 mil e a NATO europeia tem 6,7 mil.

Em relação a jatos de combate, o cenário repete-se: a Rússia tem cerca de 1.100, a UE de 1.500 e a NATO europeia perto de 2 mil.

A superioridade de números da Europa reflete-se ainda na quantidade de tanques: a Rússia tem 2 mil, a NATO europeia ultrapassa os 6 mil e a UE fica-se pelos 3.8 mil.

O último indicador inverte a tendência. Tratam-se dos mísseis terra-ar. A União Europeia não tem nem mil desde mísseis, enquanto a NATO europeia tem 1.200. Já a Rússia tem 2.500. Este investimento russo tem raízes históricas. “A União Soviética baseou-se fortemente na defesa aérea e de mísseis terrestres no seu planeamento militar. A Rússia tem seguido o mesmo caminho nas últimas décadas. Este facto desempenha um papel importante na atual guerra na Ucrânia”, pode ler-se na análise qualitativa destes números.

Drones, satélites e novas tecnologias: as vantagens da Rússia

Se as armas nucleares são utilizadas apenas como dissuasão e a Europa está claramente em superioridade numérica no que toca aos arsenais, por que é que os líderes europeus estão a colocar um foco tão grande no investimento em defesa? Estes fundos visam mais do que aumentar as capacidades militares, visam modernizá-las e adaptá-las a 2025.

A guerra na Ucrânia é uma guerra de atrito, com uma linha da frente e que se trava com tanques e artilharia. Mas as guerras modernas não se travam apenas por atrito. Há uma série de capacidades militares que refletem as novas formas de fazer guerra.

Três exemplos são os veículos aéreos não tripulados (UAV, que incluem drones), dispositivos de supressão de defesa aérea e satélites. Os UAV têm sido um dos equipamentos mais utilizados na guerra na Ucrânia. “Recolha de informações e operações de ataque, assim como apoio a alvos para outros sistemas militares, são funções cruciais dos drones. Mas também servem diferentes funções, como servir de chamariz (para enganar defesas aéreas inimigas), transmitir sinais, transportar equipamento e colocar minas”, descreve Ulrike Franke, analista no European Council on Foreign Relations.

Apesar das muitas utilizações, a produção de drones na Europa é escassa: os maiores exportadores destes aparelhos são a China e a Turquia. Ainda que a Turquia faça parte da NATO, mantém laços económicos com a Rússia, pelo que Ancara não é um ator central quando se fala em segurança europeia.

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▲ Zelensky apresenta drones de combate ucranianos. A produção aumentou com a guerra

NurPhoto via Getty Images

Com a guerra, tanto Kiev como Moscovo aceleraram a sua produção destes equipamentos: Vladimir Putin disse que foram produzidos 140 mil drones na Rússia em 2023 e que pretendia ultrapassar um milhão em 2024, o mesmo número prometido por Volodymyr Zelensky. À custa da guerra, a Ucrânia é agora a maior produtora de drones na Europa. Ainda que não haja dados oficiais sobre os números europeus, dada a velocidade em que a tecnologia evolui, os números ainda estão longe dos milhões. Já a Rússia, para além da produção interna, conta com as importações dos Sahed iranianos, que têm sido muito utilizados na Ucrânia.

Esta lacuna fragiliza os sistemas de informação europeus. Segundo o Center for Strategic and International Studies (CSIS),  em 2023, os países europeus tinham apenas 200 drones e 36 aeronaves para missões de vigilância e reconhecimento. Por comparação, os Estados Unidos tinham mais de mil. O cenário é ainda pior no que toca a satélites — que incluem modelos de comunicação e vigilância muito mais sofisticados. A Rússia tinha cerca de 200 destes sistemas espaciais. Os números da Europa nem foram discriminados e ficaram incluídos nos 1.200 contabilizados no mundo inteiro, excluindo os Estados Unidos, a China e a Rússia.

Nesta linha, a Europa revela ainda falhas nos sistemas de supressão e destruição de defesas aéreas. Estes sistemas, encontrados em aeronaves modernas, funcionam através de impulsos eletromagnéticos que impedem o correto funcionamento de artilharia teleguiada. As capacidades europeias nesta dimensão limitam-se a bloqueadores de radares e mísseis anti-radiação. Apenas dois países europeus têm uma versão mais moderna destes equipamentos: Alemanha e Itália. As capacidades europeias neste aspeto focam-se na defesa e não no ataque, analisa o relatório do CSIS.

Ou seja, a Europa tem muitas capacidades militares para travar guerras de atrito. Mas as guerras do século XXI travam-se no ar e com recurso a capacidades de informação e tecnológicas. E a Europa — como um todo e no caso de cada Estado — ainda se encontra muito pouco desenvolvida nesse campo.

epa11525685 A handout picture made available by the Presidential Press Service shows American single-engine supersonic multirole fighter F-16 jets during a ceremony to mark Air Force Day of the Armed Forces of Ukraine at an undisclosed location in Ukraine, 04 August 2024, amid the Russian invasion.  EPA/PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT  HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALESHANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

▲ Os jatos europeus, neste caso F-16, não estão equipados com tecnologias de informação modernas

PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT/EPA

A Europa tem mais militares, a Rússia tem mais preparação

O último ponto em que se podem comparar as capacidades militares da Europa e da Rússia é bastante linear: o tamanho dos seus exércitos. Neste momento, o exército russo tem cerca de 1,13 milhões de soldados ativos, aos quais se somam dois milhões de reservistas. No lado da Europa, um relatório do ano passado contabilizava 1,47 milhões de tropas ativas.

O número absoluto de tropas no continente europeu nunca foi o problema. Porém, este número é a soma de 28 exércitos nacionais (27 da UE, mais o Reino Unido), sem um comando claro ou unificado, ao contrário de Moscovo, que tem milhões de soldados num único exército — ao qual se somam ainda as tropas da Coreia do Norte que lutam em Kursk e a que se podem somar mais recrutas.

Moscovo tem outra vantagem, que se reflete tanto nas tropas como nos seus equipamentos: a velocidade a que os consegue substituir, já que tem uma extensa base populacional a partir da qual recrutar e uma indústria militar interna desenvolvida, assim como aliados a quem importar o que não produz. O mesmo relatório estima que a Europa precisaria de treinar mais 300 mil soldados para conseguir dissuadir um ataque russo hipotético. Além disso, precisaria de produzir não só mais munições, como fazê-lo a uma velocidade muito maior.

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▲ Num cenário hipotético com as capacidades atuais, a Rússia conseguiria atacar a Europa

Anadolu via Getty Images

A Europa tem mais soldados, mais tanques, mais aviões do que a Rússia. Moscovo ganha na modernização dos equipamentos e no número de ogivas nucleares. Mais relevante, num cenário real de batalha, as vantagens da Rússia pesam mais do que a superioridade numérica absoluta. No que toca ao poder nuclear, ambos os lados têm meios de dissuasão, o que cria um impasse.

O investimento em defesa da União Europeia e do Reino Unido procura dar resposta às fragilidades: a aposta na produção e na modernização e uma colaboração mais estreita, para uma melhor integração e articulação de muitos exércitos diferentes como se fossem um só.

Porque com Trump, e com os EUA, mesmo estando na NATO, ninguém sabe com o que contar: é como se a UE puxassem para um lado e a Rússia para o outro.

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