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"Este disco é claramente uma confissão, sou feita de muitos textos", diz-nos Cátia Mazari Oliveira, nome artístico A Garota Não
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▲"Este disco é claramente uma confissão, sou feita de muitos textos", diz-nos Cátia Mazari Oliveira, nome artístico A Garota Não

▲"Este disco é claramente uma confissão, sou feita de muitos textos", diz-nos Cátia Mazari Oliveira, nome artístico A Garota Não

"Não quero angustiar quem me ouve, quero dar alguma coisa boa": visita guiada às novas canções de A Garota Não

Cátia Oliveira faz da música reflexão, projetada no presente e no futuro. No novo álbum, "Ferry Gold", o exercício acontece mais uma vez. A cantora e compositora leva-nos à descoberta das canções.

Nos últimos anos, A Garota Não afirmou-se como uma das cantautoras mais relevantes da música portuguesa. Num cruzamento entre a indie pop contemporânea e a canção mais próxima da intervenção, tem vindo a trilhar um caminho muito próprio, de forma inspiradora e desalinhada. Prova disso é o seu novo (e terceiro) disco, Ferry Gold, lançado no início de maio, que sucede ao aclamado 2 de Abril — o álbum editado em 2022 que definitivamente a catapultou e que a tem mantido na estrada, concerto após concerto, de norte a sul do país, desde então.

Ora, Ferry Gold chegou com a fórmula mais anti-pop possível, distante de todas as convenções da indústria da música. Começou por estar disponível apenas em CD e, até ao momento, o disco só está disponível online no Bandcamp. Sem quaisquer singles nem anúncios prévios, sem videoclips nem press-releases, praticamente sem comunicar à imprensa. Apesar de tudo isto implicar tomadas de decisões, também parece não ter havido necessariamente um manifesto contra a maneira como os lançamentos costumam acontecer em 2025, nenhum tipo de anti-estratégia. Aconteceu, apenas, naturalmente. Ou por razões artísticas.

“Lancei o disco como um todo e fiz questão de não lançar nenhum single. Acontece demasiado as pessoas irem lançando single atrás de single e quando o disco sai aquilo já quase não me soa a novidade”, explica Cátia “A Garota Não” Mazari Oliveira ao Observador. “Queria que não fosse eu a dizer qual é a música para a qual as pessoas devem estar mais despertas, que é isso que a gente faz com um single. É dizer assim: ‘olha, está aqui o meu tema mais apetecível’. Quero antes que cada um faça realmente a sua viagem e tire de cada canção os pontos que lhe interessem mais, ou que não lhe interessem de todo.”

As 19 faixas de Ferry Gold nascem, quase exclusivamente, de “lugares terceiros”. “Ou de algum beat, ou de alguma fala parlamentar, de uma notícia, de uma mania minha, de uma observação na esplanada de um café, em lugares onde somos sociais e que são lugares que muitas vezes me inspiram, não necessariamente a boas reflexões, mas como lugares onde encontro alguma ponta para a criação. E falam de muitas coisas, falam de luto, falam de luta, falam de amor, falam de muitas ironias coletivas e falam de sonhos. Gosto muito desta expressão, que é um bocadinho roubada ao Saramago, sonhos levantados do chão.” O vasto imaginário de referências de Cátia Oliveira, que pode ir de Florbela Espanca a Allen Halloween, de Federico García Lorca a João Quadros, de Xullaji a Márcia, está bem explanado neste Ferry Gold que reúne muitos contributos indiretos — ou seja, A Garota Não inspirou-se na obra de tantos outros e usou-a como matéria-prima para construir os seus textos e canções.

“Ainda fico muito nervosa, ainda não é uma coisa com a qual lido bem, os muitos concertos, mas sinto que nesta tour estou mais conciliada com aquilo que estou ali a fazer. Também sinto que há uma dureza extra, porque muitas vezes os temas que levo são muito angustiados, são coisas em que procuro ter sempre uma ponta de esperança e de paz. Não quero angustiar ninguém que me ouve, quero dar alguma coisa boa, algum caminho positivo."

“Não me lembro se era o Manuel António Pina que dizia ou se ele dizia isto que alguém outro dizia, mas nós acabamos todos por ser ladrões da obra uns dos outros”, diz-nos. “Só que às vezes denunciamo-nos mais. E aqui não queria que passasse nada ao lado e por isso é que faço muita questão de creditar tudo a toda a gente, de ter pedido sempre que possível, sempre que estão vivos, autorizações para a utilização de um excerto, de uma ideia. Acho muito bonito assumirmos que de facto somos, cada um de nós, feitos de muitos textos. E este disco é claramente uma confissão, sou feita de muitos textos e às vezes não tenho uma melhor maneira de falar da corrupção humana por uso de drogas, por exemplo, do que já fez o Allen Halloween. Então porque é que não vou pegar nas palavras dele? Que me significam tanto e que me levam também a memórias da minha própria vida, que não vivi na primeira pessoa mas vivi através da minha irmã, porque ele descreve aquilo com muita propriedade e eu encontro-o na narrativa dele. Por vezes as coisas já foram tão bem ditas que não preciso de estar sempre a tentar reescrevê-las na minha própria voz. É um exercício catártico muito importante, mas às vezes a coisa já está dita e vamos honrar também quem já o disse, quem já fez esse trabalho.”

Enquanto “recoletora de histórias e experiências”, que depois vão moldar a sua música, A Garota Não inicialmente chamou Ensaios a este disco. “No fundo era isto, cada canção é um ensaio sobre algum tema, ou sobre algum autor, ou sobre algum livro, ou sobre alguma circunstância terceira. Mas depois achei que só chamar Ensaios podia ser redutor, porque parece que tem uma carga muito académica, e não queria nada que isto fosse entendido do ponto de vista académico, porque são só textos ou reflexões que não esgotam nenhum tipo de reflexão, são só lugares de ponto de partida para uma reflexão que cada um depois há-de fazer à sua maneira. Então abandonei esse nome.”

Fez-se luz em torno de Ferry Gold, uma canção que já existia e que evocava um tema próximo. Alude ao barco que liga Setúbal, a terra natal de Cátia Oliveira, a Tróia — e à exploração do transporte, cada vez mais dispendioso, que por sua vez está relacionado com o turismo na famosa península. “Percebi que Ferry Gold poderia ser chamativo e trazer mais à conversa este tema que está a acontecer na Península de Tróia. Está a ser muito bem defendido por grupos como as Dunas Livres ou a plataforma Tirem as Mãos do Litoral Alentejano, mas pretendi também dar aqui uma ajuda para que este assunto fosse tratado nacionalmente e internacionalmente, porque, tratando-se de sistemas naturais, de reservas ecológicas, é um tema que é universal, não é de um país. Porque toda a Europa perde quando o teu território está a ser devassado por uma ausência de planeamento urbanístico.”

Invariavelmente, mesmo que não siga todos os passos mais habituais de um novo lançamento, este novo Ferry Gold terá em breve existência em palco: “Ainda fico muito nervosa, ainda não é uma coisa com a qual lido bem, os muitos concertos, mas sinto que nesta tour estou mais conciliada com aquilo que estou ali a fazer. Também sinto que há uma dureza extra, porque muitas vezes os temas que levo são muito angustiados, são coisas em que procuro ter sempre uma ponta de esperança e de paz. Não quero angustiar ninguém que me ouve, quero dar alguma coisa boa, algum caminho positivo. Sinto que, desta vez, porque temos vídeos em cada uma destas faixas, e os vídeos também são muito serenos, não ilustram as canções, são quase respostas de beleza a cada canção… E passam muito pelo registo de elementos da natureza, com um registo quase em câmara lenta, muito devagar e contemplativo. Estou muito confortável com o meu papel em cima do palco neste Ferry Gold.”

Criada no bairro 2 de Abril, em Setúbal, A Garota Não faz da música reflexão — uma história, uma visão e uma geografia particulares, projetadas no presente e no futuro. Em Ferry Boat, o exercício acontece mais uma vez. E para desconstruirmos e irmos ao fundo das novas canções, viajámos, com Cátia Oliveira como guia, através de algumas das histórias que deram origem a outras tantas novas canções.

“A Casa de Bernarda Alba”

“Este texto é do Federico García Lorca, é uma peça de teatro. Até fiz esta música para uma espécie de revisitação da peça que uma companhia de Setúbal fez. A Casa de Bernarda Alba é uma espécie de metáfora para um país em ditadura, onde se respirava mal, onde havia sempre alguém que estava à espreita ou à vigia. Como se esta espreita e esta vigia acontecessem além de uma ordem qualquer. Uma ordem que, na verdade, vivia do medo. Há esta figura muito forte, muito intensa, que é Bernarda Alba, uma mãe encarcerada pela opinião do outro, pela vigilância do outro, por uma espécie de austeridade moral, que era muito própria daquele tempo. E era uma austeridade tanta que era como se aquela mãe preferisse ter uma filha morta do que uma filha que perdesse a virgindade antes do casamento. O tema central da peça de teatro vai desembocar nesta ideia.”

“Este País Não É Para Mães”

“Fala de um Serviço Nacional de Saúde a precisar ele próprio de cuidados intensivos. Enquanto cidadã, enquanto contribuinte, sinto que não é justo. Não é justa a carga de impostos brutais que temos em Portugal para estarmos neste lugar onde todos os fins de semana há seis ou sete centros hospitalares sem serviços de ginecologia, sem serviços de várias especialidades. Não estamos a falar de especialidades estéticas. Estamos a falar de sobrevivência. E temos tido sistematicamente serviços fechados, encerrados durante o fim de semana inteiro. A maternidade continua a ser, ou está neste momento a ser, mais do que alguma vez, um assunto muito mal tratado. E não é só nos hospitais.

Esta canção toca na questão dos hospitais e do serviço de saúde, mas também vai buscar elementos ao meio laboral… Uma mulher não pode ser convidada a sair de uma empresa porque está grávida ou porque manifesta desejos de ser mãe. A maternidade não pode constituir uma desvantagem na hora de uma contratação. Nós, enquanto empresas, serviços, país, temos que integrar esta condição que envolve ser mulher. Porque menstruamos, ficamos grávidas, parimos. E esse é um lugar de exaustão que tem de ser tratado com muito respeito. Eu falo disso também na letra. A mulher é, muitas vezes, elogiada pelo seu trabalho, pelo seu desempenho. Mas e se a mulher quiser subir na carreira e ter três ou quatro filhos? É praticamente impossível. Há exceções, mas não é uma coisa que aconteça, por injustiça. Sinto que estamos a querer mulheres muito boas, trabalhadoras, muito criativas, muito empreendedoras, mas que, do ponto de vista da maternidade, sejam quase asséticas, estéreis. E tudo o que isto, na verdade, provoca ao nível da sustentabilidade humana de um país. Ouvimos falar muito do problema da Segurança Social, mas não estamos realmente a perceber.”

"Esta frivolidade em que vivemos, a urgência, a rapidez de estarmos sempre a linkar, a clicar, a seguir, a bloquear, a amar, a deixar de amar. É uma reflexão que faço também muitas vezes na minha vida."

“Aurora”

“Nasce de um poema de uma escritora do século XIX, Mariana Angélica de Andrade, nascida em 1840. Eu tenho 41 anos e nunca tinha ouvido falar desta mulher em Setúbal. Foi preciso encontrar este livro para perceber que existiu e que escrevia coisas que, porventura, são extraordinariamente atuais. Sendo que o contexto histórico e social é, obviamente, outro. Fiquei presa a um dos poemas dela, o Mistérios do Toucador. Descreve o regresso de uma senhora a casa depois de um baile. À medida que ia tirando os dentes, a peruca, desfazendo a maquilhagem e tirando os algodões do vestido, dizia à empregada: ‘eu fui rainha do baile entre patetas’. A Mariana é uma poeta do século XIX, perfeitamente desconhecida do público. Além do tema, flagrantemente atual — vivermos muito sob o olhar da importância da estética, da aparência — quis trazê-la ao disco para lutar contra o apagão, este apagão coletivo que existe tantas vezes em relação à obra feminina.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

A segunda parte da canção já não deriva tanto dos Mistérios do Toucador. Parto muitas vezes de um detalhe, de um elemento, e depois escrevo à medida do sabor do meu vento naquele dia. Falo de uma outra mulher hipotética, já não é a senhora que vinha do baile, é uma outra personagem, que é a Cassilda. E isto para descrever uma relação de assédio na qual o patrão ostensivamente faz notar o seu apetite sobre aquela empregada. Porque um dia ela vai de vestido mais justo e ele persegue-a com o olhar, a cada movimento, a cada gesto. E no disco é a minha querida Aldina Duarte que faz a leitura do texto que resolve esta história. Ela está a ler a carta como se fosse a Cassilda, que tinha escrito uma carta ao patrão a dizer-lhe que ficasse ele com aquele vestido para se babar em cima dele. E a Aldina Duarte acaba por ler esse texto que escrevi que pretende resolver aquela narrativa e que na verdade é uma narrativa que acontece todos os dias.”

“No Train A Curtir Coltrane”

“Nasceu num daqueles dias de tempo livre, depois de uma canção que andava a ouvir muito, chamada Chakras, que junta o Beware Jack, o Sam The Kid e o Xullaji. E naquele dia quis pegar em excertos da letra e fazer uma nova melodia à guitarra. Adoro os jogos de palavras que o Xullaji faz, os ritmos, as métricas, a leveza com que ele junta idiomas para servir a mensagem. Junta o português muitas vezes com o inglês ou até com o francês, o que for preciso. Esta universalidade da linguagem para comunicar alguma coisa é um lugar que me fascina muito e acho que o Xullaji faz isto com uma grande classe. E depois, no fundo, o tema. Não e só a forma como ele escreve, mas é o tema sobre o qual ele escreve, o que ele invoca, esta frivolidade em que vivemos, a urgência, a rapidez de estarmos sempre a linkar, a clicar, a seguir, a bloquear, a amar, a deixar de amar. É uma reflexão que faço também muitas vezes na minha vida e pareceu-me muito certo colocar nas palavras que já estavam tão bem ditas do querido Xullaji para também trazer um contributo dele.”

“No Love”

“Uma canção sobre encontrar a nossa paz, de sermos filhos, como diz o Allen Halloween. Esta também nasce de uma letra que já existia, fiz umas colagens a partir de uns excertos. O Halloween fala a determinada altura sobre encontrarmos paz porque no fundo somos muitas vezes filhos de casamentos falhados, sobre sermos produtos, sobre nos sentirmos culpados todos os dias de alguma coisa, e às vezes nem sabemos bem o que coisa é essa. É uma culpa que nos rebenta, que nos faz ir por caminhos doentes. Esta canção é uma vontade de refletir sobre a necessidade de aprender a amar o outro e de ter amor próprio, a sermos mais generosos, com o outro e connosco próprios. Somos muitas vezes vis. O Halloween tem muitas canções que me levam para este lugar. Ele muitas vezes narra autenticamente episódios da vida que conhece e são sempre lugares de angústia, de rebentamento interno que, na verdade, merecem que procuremos melhores caminhos para os curarmos. No Love é um bocadinho essa canção. Fala de demónios, mas fala de desejos de cura também.”

▲ "Por vezes as coisas já foram tão bem ditas que não preciso de estar sempre a tentar reescrevê-las na minha própria voz. Às vezes a coisa já está dita, vamos honrar quem o disse"

Marisa Cardoso

“Ferry Gold”

“Aqui replico um textinho que está no próprio booklet:

Na praia que era de todos, dei muitos mergulhos voadores. Fiz exércitos de carochas da paz e comi gelados de laranja. A areia era fina, macia e quente e na maré vazia formava milhares de poças, onde cada um brincava com a imaginação que tinha. O resto do tempo eram cambalhotas, pinos e rodas até doer os pulsos. E depois adormecer naquele fim de tarde de sonho. Se um dia me perguntarem por Tróia, era sobre isto que gostaria de falar. Em vez do incomportável preço dos bilhetes da vaidade de quem exclui, do espaço público feito privado, das dunas protegidas por caterpillars, dos governos que adormecem sob a palmeira importada, dos condomínios de luxo, da segregação. Há muitas outras Tróias no país, mas dão por outros nomes.

É este texto que sintetiza o meu sentimento sobre o Ferry Gold. Aqui em Setúbal, e há um território de muitos concelhos — Seixal, Moita, Montijo, Almada, Sesimbra — cujo grande luxo era passar as temporadas das férias grandes em Tróia. Na verdade, era a única possibilidade que muitas famílias tinham, porque muitas vezes não há margem para férias em destinos de sol, seja aqui ou no estrangeiro. Tróia era perto, acessível e era um paraíso. Agora, vemo-nos completamente expropriados de uma coisa que é espaço público, que é uma praia que não foi comprada por ninguém. Mas, através do preço dos transportes, que têm subido escandalosamente — para uma família de quatro pessoas ir a Tróia num dia custa perto de 50 euros — é uma coisa completamente incomportável…

Além disto, existe a questão ambiental, avassaladora, com dunas que estão a ser terraplanadas. Estamos a falar de reservas naturais, de territórios protegidos. Acontece tudo sob um planeamento que está completamente datado, que não tem em consideração programas de proteção da natureza e que acaba por tornar possível toda aquela tragédia natural que está a acontecer. É muito preocupante. E é triste.”

“Os Sapatos Da Minha Mãe”/”Não Te Dês À Tristeza”

“Vou falar destas duas em bloco porque também as canto em bloco no concerto. Os Sapatos Da Minha Mãe nasceu de um convite que me foi feito no ano passado por uma revista para escrever um poema para uma edição especial. Na altura, escrevi uma coisa chamada O Tríptico do Cansaço. E um dos mini poemas desse tríptico é sobre uns sapatos que um dia a minha mãe comprou. Ela foi guardando os sapatos durante anos, à espera daquele dia, que era o dia de sair, o dia em que ela ia arranjar-se. E o que aconteceu é que, às tantas, adoeceu, morreu e nunca os calçou. E doeu-me imenso quando fui dar com aquela caixa de sapatos no armário, completamente intocados. Nunca tinham posto a sola na rua. Eu já não gostava nada desta ideia de termos coisas que não usamos sempre à espera de alguma ocasião especial, quando cada dia, na verdade, é uma ocasião especial para se usar, para se dizer, para se ser quem quiser… Esta é uma reflexão sobre a importância que tudo tem. Sinto que a minha mãe fazia o melhor em cada dia, mas era o melhor até à exaustão. E andava sempre muito cansada porque trabalhava de facto demais. Porque tinha, como muitas mulheres, o trabalho que trazia dinheiro para casa e tinha às costas todo o trabalho de casa, absolutamente todo. Quando falo deste texto dos sapatos da minha mãe, o tema é na verdade este, este esgotamento, esta exaustão que a mulher sofre, que sente e que engole diariamente, muitas vezes calada.

Depois colei isto com o Não Te Dês À Tristeza, que nasce a partir de um livro da Márcia, a cantautora. Ela tem um livro muito bonito chamado As Estradas São Para Ir. O que fiz foi apanhar frases aqui e ali, em muitas páginas, e escrevi este poema, também um pouco em homenagem às belezas que a Márcia muitas vezes mostra aos ouvidos e ao coração. Quis fazer um ensaio sobre a Márcia e fiz esta canção. Quis escolher palavras bonitas, mas sobretudo queria tocar nesta ideia de que, muitas de nós que ficámos órfãs de mãe, morremos todos os dias um bocadinho com saudades delas, é uma coisa muito cruel. Então digo-lhe várias vezes, porque ela diz isto no texto dela: ‘mãe eu tenho saudades tuas, faltava-me dizer’. Faltou-nos dizer também, enquanto elas estavam vivas, mais coisas bonitas.”

"Não há espaço nem para a tristeza, nem para a solitude, nem para a existência mais reservada e interior. Damo-nos pouco a este espaço. E quando finalmente o fazemos, parece que temos que lutar com as vozes que se levantam para dizer ‘ai, mas tu estás sempre tão sozinha, sempre tão metida contigo’. Quando deve ser uma coisa tão natural sermos seres sociáveis, mas também sermos seres introspetivos."

“Levante-se Uma Escola”/”Fronteiras Invisíveis”/”Limpa Palato”

“Faço isto em bloco no concerto porque funcionam as três como uma espécie de oração de respeito pela vida. A tal poeta do Sado de que falei há pouco, Mariana Angélica de Andrade, escreveu este outro poema que falava das touradas. Para ela, era vil do ponto de vista do homem e do animal. E eu li aquele poema e fiquei tão encantada com ela. Ela fazia a proposta preciosa de cada praça de touros ser transformada numa grande escola. Acabo por cantar estes versos quase numa espécie de mantra na canção, em loop, um bocado na lógica de que se dissermos muitas vezes uma ideia, ela pode tornar-se verdade. Quem sabe um dia, se tantas vezes dissermos, ‘levante-se uma escola nessa praça de touros, levante-se uma escola nessa praça de touros, levante-se uma escola nessa praça de touros’.. Acabo o texto a dizer ‘que se mate a tradição se a tradição maltrata sem razão’. Porque coisa nenhuma pode justificar que se maltratem animais por divertimento, a entreter os homens.

Levante-se Uma Escola está junta com outra que fala das Fronteiras Invisíveis em que vivemos, fronteiras que são formadas por preconceitos — de classe, de estatuto — que acabamos por aceitar. Esta música escrevi no decorrer do assassinato do Odair Moniz. Tanto que antes já tinha conhecido vários outros Odair, tinham só nomes diferentes…

Esta tríade acaba com a canção Limpa Palato, que acontece só ao piano e com vozes assim sussurradas, sem texto. Na minha cabeça, é o momento em que ficamos ali a pairar nestas ideias do respeito pelo animal, do respeito pelo homem, numa vida mais justa, mais bonita, em todos os sentidos. É a única que não tem palavras nem música minha, é do meu amigo guitarrista Sérgio Mendes, que faz a produção do disco comigo. Ele andava ali a desenhar aquela nota, aquela melodia. E ficava tão bem para aconchegar aquele pensamento, aquela ideia. Assim fizemos.”

“Impossível”

“Somos feitos de muitos textos e um poema nunca é lido da mesma maneira, depende das vivências, das experiências. Deparei-me com a Florbela Espanca muito cedo, acho que foi a minha primeira poeta, porque os meus pais tinham uma série de livros da Reader’s Digest lá em casa que compravam às prestações mensais, e os livros estavam todos imaculadamente embalados. Houve um dia em que fui à estante, tirei um livro ao calhas e saiu a Florbela Espanca. Depois, abri numa página aleatória e o primeiro poema que me lembro de ler dela era este Impossível. Fiquei muito impressionada com a maneira como ela exprimia aquele desalento, como ela se mostrava às vezes no limite da vulnerabilidade mental e emocional, o que é que fazia com aquela beleza e aquela coragem. Acho que ela era muito corajosa.

Já canto este poema desde miúda, mas na verdade nunca o tinha gravado, e gravei agora para trazer ao disco também este assunto da obrigação contemporânea de estarmos sempre felizes, de sermos felizes a toda a hora, e de estarmos sempre em trânsito de alguma forma, em movimento, em grupo, em termos de fazer parte de cada coisa. Não há espaço nem para a tristeza, nem para a solitude, nem para a existência mais reservada e interior. Damo-nos pouco a este espaço. E quando finalmente o fazemos, parece que temos que lutar com as vozes que se levantam para dizer ‘ai, mas tu estás sempre tão sozinha, sempre tão metida contigo’. Quando deve ser uma coisa tão natural sermos seres sociáveis, mas também sermos seres introspetivos. Sozinhos vamos a lugares onde nunca vamos quando estamos acompanhados. E precisamos muitas vezes deste espaço para fazer algum tipo de criação, ou só para fazer algum tipo de organização interna. Gosto muito quando a Florbela diz: ‘Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste: Parece Sexta-Feira de Paixão/Sempre a cismar, cismar de olhos no chão/Sempre a pensar na dor que não existe/O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!/Faça por estar contente! Pois então?!’ E é isto. O resumo final é esta frase. Pois então, porque temos esta obrigação, mas não temos nada. É muito bom ter espaço para ser triste, para estarmos sozinhos, para sermos introspetivos.”

▲ A Garota Não tem concertos marcados um pouco por todo o país até ao final do ano par apresentar as canções deste novo "Ferry Boat"

“Alaska”

“É um poema do João Quadros, que mo ofereceu. Não é um poema para mim, atenção, nunca tive uma história de amor com o João Quadros. Tenho uma história de amor com o Quadros, mas em termos intelectuais. E o Quadros, além de ser um acutilante escritor de humor, é um acutilante escritor de poemas, com ambientes muito diversos. Este poema rasgou-me quando o li e pensei: eu quero musicar isto. Agarrei-me à guitarra assim que ouvi aquilo e fiz esta canção. Na verdade ele não escreveu o poema sobre mim. Eu acho que ele escreveu o poema sobre ele e sobre alguma história que viveu muito profundamente. Mas como na altura eu desafiava o Quadros a escrever um livro, a pôr as coisas dele em livro, ele dizia: ‘olha, está aqui este para ti’.”

“O Homem Que Viu A Abelha Morrer”

“É uma história inventada. Fui ver um concerto do Luca Argel e ele cantou uma canção muito linda, cuja história era, muito basicamente, a história de um gato. Ele está a falar como se fosse a voz do gato, que tinha perdido o dono. O dono tinha morrido, mas o gato ainda não se tinha apercebido do que é que tinha acontecido. Deixou de ter a comida àquela hora, deixou de ter alguém que lhe desse atenção, mas não percebeu o que é que aconteceu. Então, estava a dizer ao dono: ‘volta, por favor, prometo que não vou mais rasgar-te o sofá, ou não te vou dar com a pata quando estiveres a fazer-me festas na barriga’. É uma história muito querida. E fiquei muito comovida quando ouvi o Luca cantar isso num concerto. Depois, um dia, eu também gosto muito de fazer a minha introspeção junto da natureza e adoro estar de volta de plantas, a plantar coisas, a tratar, a podar, a tratar de pragas, e às vezes encontro abelhas muito queridas — e vespas.

Adoro abelhas e esta história imaginei-a também com a voz de uma abelha que está prestes a morrer, mas que se despede com toda a delicadeza, toda a doçura, que agradece aos pássaros, às lagartixas — são os maiores predadores das abelhas — por a terem deixado viver aquele tempo todo. Agora só quer descansar sobre uma flor. É a história que creio ser a mais poética e querida que tenho neste disco. E a música chama-se O Homem Que Viu A Abelha Morrer porque há um homem que está a observar esta conversa, esta despedida. No fundo, é o que eu às vezes sinto que estou a fazer quando estou quieta, só na natureza.”

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