O último ano foi claramente a melhor época da carreira de João Almeida. O ciclista português venceu a Volta à Suíça, a Volta ao País Basco e ainda a Volta à Romandia, acrescentando também o segundo lugar na Volta a Espanha, onde igualou o feito de Joaquim Agostinho em 1974, na Volta ao Algarve e na Volta à Comunidade Valenciana. Pelo meio, a única desilusão foi mesmo o abandono no Tour, depois de uma queda violenta. Em 2026, João Almeida quer ainda mais.
Aos 27 anos, o ciclista natural de A-dos-Francos já não é o jovem inexperiente que em 2020 saltou para as capas dos jornais por ser o dono da camisola rosa do Giro durante 15 dias. Chegou à Emirates, tornou-se o braço direito de Tadej Pogacar, ficou no quarto lugar do Tour em 2024 e é presença recorrente na lista de favoritos à vitória nas principais provas da temporada. Um estatuto que, este ano, até já lhe deu o direito a escolher o próprio calendário.
Depois de dois anos consecutivos a participar no Tour, João Almeida abdicou da competição mais mítica do ciclismo mundial e vai regressar ao Giro, que saltou em 2024 e 2025. “Inicialmente, o plano era fazer Tour e Vuelta. Mas depois discuti com a equipa e chegámos à conclusão de que eu preferia fazer o Giro e a equipa concordou, mudámos isso. Pessoalmente, acho que faz sentido voltar ao Giro, mudar um pouco o calendário. Acho que é uma boa oportunidade para tentar ganhar a corrida ou para, se não ganhar, ficar o mais perto possível”, explicou o ciclista português esta segunda-feira numa conferência de imprensa a partir de Silves, no Algarve e onde está a treinar, em que o Observador marcou presença.
▲ Ciclista português venceu duas etapas da Vuelta no ano passado, incluindo a da mítica subida ao Angliru
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João Almeida, que está atualmente numa espécie de pré-temporada, vai assim dar início a 2026 na Volta à Comunidade Valenciana, onde ficou no segundo lugar no ano passado, já a partir do dia 4 de fevereiro. Segue-se a Volta ao Algarve entre 18 e 22 de fevereiro, onde surge novamente como favorito à vitória a par do ex-companheiro Juan Ayuso, agora na Lidl-Trek, e depois o Paris-Nice e a Volta à Catalunha. Na sequência de um pequeno estágio de preparação, o ciclista português prossegue então com o Giro, a partir do dia 8 de maio, e participa ainda na Volta a Burgos antes da Vuelta, que arranca a 22 de agosto.
Deu para tentar, não deu mesmo para conseguir: João Almeida desiste do Tour
“Vou começar antes da Volta ao Algarve, na Volta à Comunidade Valenciana, e espero chegar a Espanha com o objetivo de disputar a corrida e ganhar a corrida. Para entrar no Algarve já com um bocadinho de ritmo competitivo e não ser um choque tão grande, porque o Algarve é uma corrida muito exigente e tem sempre um pelotão de corredores muito fortes. Gostava imenso, sendo português, de ganhar a Volta ao Algarve. Seria uma honra. No ano passado estive perto, mas não consegui. É uma corrida que gostava muito de ganhar por ser a corrida com maior nível em Portugal e vou tentar fazê-lo”, explicou na conversa desta segunda-feira.
Sobre a temporada passada, João Almeida não esconde que foi “a melhor de sempre” e lembra que “vai ser sempre difícil superar, ano após ano”. “A única coisa que poderia ter corrido melhor foi a queda no Tour. Foi um momento de azar, mas faz parte do ciclismo, as coisas não vão sempre correr como nós gostaríamos que corressem, faz parte do caminho. Mas sem ser esse momento acho que foi uma temporada ideal”, atirou.
▲ João Almeida reconhece que Tadej Pogacar poderá ter ficado "ligeiramente triste" pela ausência do português do Tour deste ano
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A aposta no Giro em detrimento do Tour – uma escolha que poderá ter deixado Tadej Pogacar “ligeiramente triste”, como admite – é claramente uma aposta na vitória que ainda não alcançou numa Grande Volta. Ainda assim, e mesmo recordando os 15 dias em que vestiu de rosa em 2020 como “uma história bonita”, o ciclista português garante que é “mais uma corrida” e até esvazia a ideia de ter sido uma decisão prematura pela presença entretanto confirmada de Jonas Vingegaard, bicampeão do Tour que também vai estar em Itália.
“Já era expectável que ele fosse. Claro que quando não há confirmações podemos sempre especular, mas acho que é uma coisa boa, acaba por me favorecer. É óbvio que vou ter um adversário muito forte, mas acaba por me motivar e levar-me a dar mais de mim. É indiferente. Somos corredores similares, é óbvio que ele até à data de hoje é um corredor mais forte, tem um palmarés muito superior ao meu. Já ganhou o Tour mais do que uma vez, mas ninguém é imbatível e podemos ir com confiança no que podemos fazer. O Giro é sempre uma corrida com fatores inesperados, o tempo, a corrida é mais aberta… Mas temos de pensar mais em nós próprios”, sublinha.
Mais do que um objetivo desta temporada, João Almeida reconhece que ganhar uma Grande Volta seria “um objetivo de carreira” e garante que vai dar “o melhor para fazer isso acontecer”. Para lá chegar, conta essencialmente com a experiência – e lembra que é um homem diferente do rapaz que há seis anos liderou a classificação geral do Giro. “Estou mais velho, para começar. No fundo, tenho uma bagagem de experiência muito maior. Foi um primeiro Giro, não sabia ao que ia, não tinha qualquer tipo de experiência para perceber o que estava a acontecer comigo naquelas três semanas. Tudo foi um desafio para o qual nunca tinha tido respostas. E agora quando vou para uma Grande Volta sei como é que funciona, sei aquilo por que vou passar. Claro que todas são ligeiramente diferentes, mas já tenho uma preparação mental para a corrida, já sei o que vou encontrar nos dias seguintes. Tudo isso ajuda a tentar fazer um melhor resultado. Claro que se voltasse atrás e àquela altura faria coisas diferentes, mas faz parte da experiência”, atira.
▲ Em 2020, quando ainda estava na Deceuninck–Quick-Step, o português vestiu a camisola rosa do Giro durante 15 dias
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Sem entrar em grandes polémicas, João Almeida comentou ainda a saída de Juan Ayuso da Emirates: o ciclista espanhol rescindiu contrato com a equipa em plena Vuelta e em ambiente de aparente “guerra fria” com o português, que agora reconhece que este “libertou um bocadinho de espaço”. “Acho que a equipa faz sempre um bom trabalho na gestão de todo o calendário e temos todos oportunidades. Mas claro que facilita um bocadinho a vida em termos de escolher as corridas que quero discutir e participar”, defende.
Tal como sempre e desde o momento em que saltou para a atualidade desportiva nacional, quando passou as tais duas semanas com a camisola rosa do Giro em 2020, João Almeida mantém uma humildade acima da média – mas não esconde que a atenção mediática de que é alvo em Portugal “dá motivação para continuar”. “Procuro sempre consistência e também tenho o mindset da longevidade quando faço as coisas. Acho que é positivo. Espero continuar a subir nesse ranking, digamos assim, de desportistas nacionais. E assim sempre estou mais perto do Ronaldo”, brinca.
Por fim, o ciclista português garante que não dá importância ao facto de ser quase sempre lançado como um dos favoritos a ganhar o Giro, a Vuelta ou até o Tour. Até porque, como lembra, o que importa não é ser favorito – é ganhar. “Passa um bocadinho ao lado, sinceramente. Não quero ficar como uma promessa, quero ganhar de verdade. Mostra que os adversários levam-me em conta e que tenho vindo a afirmar-me como ciclista. Mas no fundo, sinceramente, passa-me um bocadinho ao lado. Ser favorito e ganhar são coisas diferentes”, termina.