Risos envergonhados, pedidos de fotografias, a excitação de quem vê uma pessoa famosa ao perto. O cenário a que Luís Marques Mendes chegou, esta segunda-feira, à escola secundária Rainha Dona Leonor, para dar uma aula sobre o 25 de Novembro, era o clássico de quem tem umas dezenas de alunos à espera, ora nervosos ora entusiasmados. E foi para tentar chegar a esse público que Marques Mendes quis quebrar o gelo e explicar assim a sua posição sobre a importância da data: futebolisticamente, o 25 de Abril foi como ganhar um campeonato, o que naturalmente se celebra com uma festa grande; o 25 de Novembro será mais parecido com uma Taça de Portugal, que também se festeja, mas tem uma importância menor.

Nas palavras do candidato e da sua “comparação tosca”, mas que levou os alunos a assentir em concordância:  “Um clube, quando ganha um campeonato, faz grandes comemorações”. “Hm hm”, ouviu-se na sala. “Uma semana depois, ganha a Taça de Portugal”. Alunos atentos. “Também faz uma comemoração, mas evidentemente toda a gente percebe que ganhar o campeonato é mais importante. Mas, sendo menos importante, também se comemora a taça”, rematou.

A analogia vinha sistematizar a tese que Marques Mendes trazia ao auditório: há uma “hierarquia” a respeitar na comemoração das datas, que gera “polémica” agora que o 25 de Novembro se aproxima (e Marques Mendes lá estará, nas comemorações, no seu papel de conselheiro de Estado). Por isso, e vestindo o fato de comentador pedagógico, começou por explicar a quem o ouvia a importância do 25 de Abril — pela conquista da liberdade de expressão, da democracia, do desenvolvimento de um país muito pobre e pelo fim da guerra colonial — para assegurar que, mesmo que os anos de democracia tenham os seus “erros e falhas”, o 25 de Abril — uma data que assumiu “adorar” — valeu a pena e é a data maior.

Numa explicação sobre os contornos do 25 de Novembro, Marques Mendes fez questão de dar os devidos créditos a Ramalho Eanes, mas também a Mário Soares, mesmo tendo reconhecido depois que hoje em dia é o PS um dos partidos que criticam a equiparação das duas cerimónias. “Sejamos honestos: os vencedores no plano político foram o PS e sobretudo Mário Soares, que foi quem mais enfrentou as forças extremistas. Era mesmo um democrata, uma pessoa corajosa, e o PSD de Sá Carneiro vivia na altura algumas dificuldades — tinha os mesmos pontos de vista mas teve um período longo doente”, justificou. “Soares foi um combatente, o país deve-lhe muito. Mesmo os setores de direita que mais tarde não gostaram muito dele reconheceram que foi o rosto contra uma ditadura de extrema-esquerda”.

Sobre o 25 de Novembro, Marques Mendes defendeu que permitiu “restituir a pureza dos ideais do 25 de Abril”, pondo fim aos exageros extremistas que estavam a colocar “portugueses contra portugueses” (lembrou episódios como o cerco à Assembleia Constituinte ou ao jornal República, que, como lembrou, não era dirigido por “ninguém de direita”, mas pelo socialista Raul Rego) e representando aquela que era, afinal, a opinião maioritária do país.

Como lembrou, “para surpresa de muita gente”, as primeiras eleições livres mostraram que PS e PSD eram as forças dominantes, mesmo que PCP e extrema-esquerda tivessem muita presença na rua e na imprensa. Assim, o 25 de Novembro voltou a “pôr ordem no regime”, a dar tranquilidade e “moderação” — sempre a palavra chave para Mendes — ao país e a recuperar o “espírito dos meses iniciais” da revolução.

Assim, e reconhecendo que a “polémica” está instalada e que há quem diga que não se deve comemorar com a mesma pompa as duas datas, Mendes deu a sua opinião aos alunos: “Podem e devem comemorar-se as duas. Mas elas não estão exatamente no mesmo patamar de importância. O 25 de Abril é mais importante. O 25 de Abril é a data fundadora, e quem não quiser ver isto está a fazer um pouco de demagogia“.

“Não vamos reescrever a História e dizer que o 25 de Novembro é mais importante, porque não é”, pediu. “Há uma hierarquia e deve-se olhar para estas matérias com equilíbrio, bom senso e tolerância”. E concluiu: “Uma coisa nos une: sendo mais críticos ou mais exigentes [da democracia], o 25 de Abril deu-nos a democracia e o 25 de Novembro permitiu a sua consolidação“.

Depois, questionado pelos alunos sobre se há quem queira comemorar a data numa espécie de ajuste de contas, acrescentou: “Admito que haja pessoas, alguns radicais mais à direita, que podem querer comemorar o 25 de Novembro porque não gostam muito de comemorar o 25 de Abril, ou porque o querem desvalorizar ou descredibilizar. Mas esses não têm nenhuma razão, a História é o que é. Ninguém pode disputar esse lugar”.

O desencanto dos jovens e o antídoto contra o Chega

A importância de fazer o elogio da democracia, apesar das suas tais “falhas e erros”, pareceu constante nas intervenções de Mendes, que foi dando aos alunos exemplos da vida em ditadura — eleições que não eram livres, prisões arbitrárias por se dizer o que se pensava, um Portugal “paupérrimo” sem luz elétrica ou água canalizada em todo o lado, jovens que “voltavam em caixões” da guerra colonial — que, supôs, já lhes fizessem “confusão” de tão longínquos que parecem.

O 25 de Abril, admitiu, também já não será tão próximo para estas gerações como para a de Mendes — que tinha 16 anos em 1974, tendo sido eleito vereador do seu concelho, Fafe, com 19 anos — porque “já não há o fator novidade”, mas também porque tem crescido uma “descrença, desilusão e desconfiança” em relação à política. E em muitos casos, garantiu, até lhes dá “muita razão”, pensando na dificuldade de acesso à Habitação ou ao SNS.

“É importante os jovens compreenderem que a situação que vivemos hoje, apesar de todos os erros e falhas, não tem a ver com a outra [ditadura]. Pensem que têm liberdade para criticar o que está mal”, pediu. “Eu também sou exigente e crítico mas nunca me esqueço do que era Portugal sem o SNS — ou se tinha dinheiro para pagar uma cirurgia ou morria-se”, recordou.

Quanto às críticas, deixou duas notas: por um lado, pediu aos jovens, que hoje até têm melhores qualificações, que pensem em intervir de forma política ou cívica — “Se um jovem de qualidade não participar, participam os que têm menos qualidade. Nestas matérias não há vazios. Muita da degradação política que existe é porque pessoas de qualidade não querem dar a sua colaboração à política. Não chega apontar o dedo”.

Por outro lado, cabe então aos políticos moderados esvaziar quem só se dedica a “apontar o dedo”, ou, como descreveu, “protestar, berrar e gritar”. “Hoje há riscos sérios para a qualidade da democracia vindos da extrema-direita ou da direita mais radical”, respondeu a um dos alunos. O antídoto? “Resolver os problemas das pessoas com uma boa governação. Se as pessoas estão insatisfeitas com habitação e Saúde, isso é combustível para a direita radical. A direita radical abastece-se da desilusão, do desencanto; às vezes exagerando, outras vezes inventando. Estes partidos não existem para resolver assunto nenhum, só para protestar, berrar, gritar. Só fazem diagnósticos com grande gritaria. E os argumentos não se medem aos gritos”.

Por isso, foi argumentando Marques Mendes, convém que “as forças moderadas não deem alimento a este tipo de partidos” e, evitando crises políticas — uma das questões em que tem insistido que pode contribuir, com a sua experiência em negociar e construir pontes –, podem ter tempo para apresentar resultados. “Isso compete aos moderados, e nos últimos largos anos houve falhas grandes na justiça, saúde, habitação, imigração e combate à corrupção”, enumerou. “Se houver bons resultados e obra a apresentar, as pessoas estão felizes e falta combustível para a direita radical”.

A longa experiência e os 18 anos “sem cargos” (mas na TV)

Entre a vergonha dos alunos e o compasso de espera que se fez para que um dos candidatos à associação de estudantes da escola fizesse uma pergunta (“Slimani ou Bas Dost?”, iam sugerindo alunos sportinguistas entre risos — desconhecendo, provalemente, que Mendes é benfiquista), lá chegou a última questão: porque é que Marques Mendes resolveu candidatar-se? E foi nesses cinco minutos finais que o antigo líder do PSD tentou usar os seus principais trunfos — sobretudo a experiência política e governativa em tempos instáveis, mas também a isenção que alega ser sua bandeira, aproveitando para frisar que há 18 anos que não tem atividade partidária, como se fosse quase um independente. Isto apesar de ter entrado nas televisões dos portugueses todos os domingos durante mais de uma década.

Falou da sua vida política “intensa”, do trabalho autárquico aos 19 anos, como secretário de Estado aos 28 e ministro aos 32; da fundação da Lusa e das negociações que fez para rever a Constituição ou chegar a um Pacto da Justiça com o PS de Sócrates; da participação em todos os tipos de governo (minoritário, de coligação ou maioritário); sem “ponta de arrogância”, quis frisar que tem uma “experiência que é difícil alguém acompanhar” e por isso pode ser “útil” ao país.

Mas essa experiência em cargos políticos, sublinhou, também “acabou cedo”: aos 50 anos perdeu a liderança do PSD e está “há 18 anos sem qualquer cargo” (exceto o de conselheiro de Estado) — “fazia comentários políticos, mas isso não é ter um cargo”. O que ficou, refletiu, foi a experiência a lidar com partidos, políticos e a Constituição — “fundamental” para exercer o cargo — e com isso poderá “retribuir ao país as oportunidades” que teve.

Além disso, argumentou, a situação internacional é instável — “vejam a proposta de paz dos EUA que é uma rendição da Ucrânia, o que me chocou profundamente; se a Rússia ganha, fica o caminho aberto para invadir qualquer país europeu” — e a nacional também — “o Parlamento está profundamente dividido” e é preciso ter um Presidente que “já sabe lidar com estas situações e fazer consensos”.

O argumentário estava traçado, o currículo também, embora ali ainda não houvesse potenciais eleitores. Na fila para as fotografias com o professor do dia, que deixava clara a notoriedade de Marques Mendes, uma rapariga confessava-lhe que se já fosse maior de idade teria ali um voto; outra informava Mendes de que a avó o “adora” — “um beijinho para a avó”. O candidato pareceu bem recebido, embora fora da sala já houvesse alunos que preferiam entreter-se a ouvir a entrevista de Manuel João Vieira à SIC, em que o candidato desatou a cantar, entre risos.