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A 3 de janeiro de 1947, John F. Kennedy tomou posse no Congresso como representante do 11.º distrito do Massachussetts. Nesse dia, Kennedy assentou a primeira pedra daquela que se viria a tornar a maior dinastia da política norte-americana. Nos 78 anos que se seguiram, só houve dois anos em que um Kennedy não ocupou um cargo público federal nos Estados Unidos. A preponderância da família na elite política norte-americana caminhou de mão dada com as tragédias e com o que viria a ser conhecido como a “maldição dos Kennedy”.
Aos assassinatos, acidentes de avião, escândalos e overdoses, soma-se agora uma divisão familiar sem precedentes. O ponto de viragem foi a tomada de posse de Robert F. Kennedy Jr. como secretário da Saúde e Serviços Humanos, esta quinta-feira. O feito é inédito pelo facto de ser a primeira vez, em todo este tempo, que um Kennedy exerce um cargo político numa administração republicana — a família é, historicamente, democrata.
A adesão de RFK à campanha de Donald Trump já tinha sido criticada por cinco dos seus irmãos, logo quando foi anunciada. Contudo, o tom era principalmente de desilusão. A sua nomeação para o Departamento da Saúde trouxe acusações bem mais acesas por parte da prima, Caroline Kennedy, que enviou uma carta ao Senado, em que classificava RFK Jr. como um “predador” e pedia que não o confirmassem como secretário.
As acusações de Caroline Kennedy — a única filha de JFK que ainda está viva — não encontraram eco na terceira geração dos Kennedy. Entre os netos e sobrinhos netos do Presidente assassinado em Dallas, só uma voz se levantou contra Bobby, como a família trata RFK: Jack Schlossberg, filho mais novo de Caroline, que ganhou fama nas redes sociais pelas seus comentários exagerados, que incluíam críticas ao tio, aos primos, ao Partido Republicano, mas também ao Partido Democrata. Entre a abrupta viragem à direita, o peso do legado daqueles que já morreram e a esperança de uma nova geração democrata, a “família real” dos Estados Unidos está mais dividida do que nunca.
Robert F. Kennedy. O sobrinho que se tornou MAGA e colocava pintainhos no liquidificador
Robert F. Kennedy Jr. nasceu em 1954, o terceiro de onze filhos do senador Robert F. Kennedy Sr. — irmão do Presidente JFK. À semelhança do pai e do tio, Bobby Kennedy começou a carreira política no Partido Democrata. Em 2023, anunciou a candidatura às primárias do partido para as eleições presidenciais do ano passado.
▲ Kennedy abandonou a sua campanha e apoiou Trump em agosto de 2024
ALLISON DINNER/EPA
A campanha não correu bem e acabou por desistir da candidatura pelos democratas e apresentar-se como independente. Menos de um ano depois, em agosto de 2024, suspendeu esta candidatura e declarou apoio a Donald Trump. Daí a entrar no círculo interno do MAGA foi um passo curto. Apareceu ao lado do então candidato republicano em comícios e acabou como secretário da Saúde e Serviços Humanos. O seu lema é adjacente ao MAGA de Trump: “Make America Healthy Again” (‘Tornar a América Saudável Outra Vez’, em tradução livre).
Foi durante o processo de confirmação como secretário que surgiram as duras críticas da prima, Caroline Kennedy, que denunciou a visão negacionista das vacinas de RFK e o facto de este encorajar pais a não vacinarem as crianças quando os seus próprios filhos são vacinados. “Ele está disposto a enriquecer negando o acesso a uma vacina que previne quase todas as formas de cancro cervical”, escreveu Caroline na carta enviada ao Senado no dia 28 de janeiro, a que o Washington Post teve acesso. Nela, citava uma reportagem do New York Times que apontava que RFK Jr. iria manter investimentos financeiros num processo contra um fabricante da vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV), administrada a adolescentes para prevenir cancro cervical.
O negacionismo de Bobby ganhou visibilidade durante a pandemia, quando promoveu e financiou campanhas de desinformação sobre a eficácia das vacinas contra a Covid-19. À data, a irmã Kerry chegou a notar que as visões de Bobby são “perigosas” e “põem vidas em risco”. Mas, agora, as críticas de Caroline vão mais longe e denunciam um longo historial de comportamentos problemáticos de RFK Jr., bem antes de ter virado à direita e se ter juntado ao MAGA.
“Eu nunca quis falar publicamente dos meus familiares e dos seus problemas”, escreveu. “Conheci o Bobby a minha vida inteira, crescemos juntos. Não é uma surpresa que ele mantenha aves de rapina como animais de estimação, porque ele próprio é um predador”, continua Caroline. O facto de Kennedy ter falcões de estimação é apenas uma de várias críticas que lhe são feitas relacionadas com maus tratos a animais: a filha acusou-o de ter cortado uma cabeça de baleia e que a atou ao tejadilho do carro durante uma viagem, e o próprio admitiu ter deixado uma cria de urso morta no meio de Central Park, em Nova Iorque.
Os comportamentos remontam à juventude, descreve a prima. “Ele divertia-se a exibir que punha pintainhos e ratos em liquidificadoras, para alimentar os seus falcões. Era muitas vezes uma cena perversa de desespero e violência”, pode ler-se na carta.
Caroline Kennedy deixa um único elogio a Bobby: o facto de ter conseguido ultrapassar os seus problemas de toxicodependência. Mas este elogio surge de mão dada com uma outra crítica: ao facto de ter arrastado com ele familiares cujos problemas com drogas levaram à morte.
John Sr., Bobby Sr. e Ted. A maldição e o legado dos três irmãos Kennedy
No dia 26 de abril de 1984, a capa do New York Times anunciava a morte de David Anthony Kennedy aos 28 anos. “Levava uma vida profundamente perturbada desde o assassinato do seu pai [Robert F. Kennedy]. Sofria de adição a heroína e álcool, mas a causa da morte não foi determinada”, pode ler-se no jornal. Menos de três semanas depois, o mesmo jornal noticiava: “3 drogas culpadas no caso de David Kennedy”.
▲ Presidente John F. Kennedy, momentos antes de ter sido assassinado, em 1963
Bettmann Archive
Não foi a primeira vez que a morte de um Kennedy fez capa e não seria a última. “Kennedy foi morto por sniper enquanto andava de carro em Dallas; Johnson jurado como Presidente no avião”, lia-se no dia 23 de novembro de 1963, depois de o Presidente John F. Kennedy ter sido assassinado. A 6 de junho de 1968, o cenário repetia-se: “Kennedy está morto, vítima de assassinato”. A vítima era o irmão mais novo de JFK, o senador Robert F. Kennedy Sr. e pai de Bobby e David.
No ano seguinte, o irmão mais novo dos nove Kennedy ficou também sob os holofotes, depois de ter tido um acidente de carro onde morreu a secretária Mary Jo Kopechne, que seguia como passageira. O senador Ted Kennedy fugiu do local do acidente. Dias mais tarde, fez uma declaração em direto na televisão, numa tentativa de salvar a sua carreira política. “Uma maldição horrível paira sobre todos os Kennedy”, afirmou.
A maldição ia além dos assassinatos: a irmã mais velha dos Kennedy foi sujeita a uma lobotomia falhada e o pai Kennedy sofreu um AVC que o deixou mudo. Anos mais tarde, a maldição voltava a ser falada quando, no verão de 1999, um avião desapareceu ao largo do Massachussetts com dois Kennedy a bordo: o filho mais velho de JFK, John F. Kennedy Jr., e a mulher, Carolyn Bessette Kennedy. O avião foi encontrado dias mais tarde, no fundo do mar, sem sobreviventes.
▲ John F. Kennedy Jr. e a mulher, Caroline, duas das vítimas mais famosas da "maldição"
NY Daily News via Getty Images
Voltando à reta final dos anos 60, coube a Ted, o senador de 37 anos, assumir-se como patriarca da família. “Alugava um autocarro e levava os três filhos e 26 sobrinhos e sobrinhas em viagens de rafting, aventuras de vela e peregrinações a locais como Valley Forge e Bunker Hill”, lembra o Politico.
Seis décadas depois, a maldição e o legado dos Kennedy serve de arma de arremesso contra RFK Jr., acusado de causar a atual cisão da família. “Os irmãos e os primos que Bobby encorajou a seguirem o caminho de abuso de substâncias sofreram com adição, doenças e morte”, escreveu Caroline Kennedy ao Senado, numa referência à morte de David.
“Bobby continua a apoiar-se no assassinato do meu pai e do dele. É incompreensível que alguém esteja disposto a explorar as suas próprias tragédias familiares para publicidade”, continua Caroline. Em agosto, os irmãos de RFK Jr. já tinham denunciado a distância entre os valores da família e a aproximação do irmão a Donald Trump. “A decisão do nosso irmão Bobby de apoiar Trump é uma traição a todos os valores que o nosso pai e a nossa família sempre tiveram como queridos. É um final triste para uma história triste”, escreveu Kerry Kennedy.
A mensagem nas redes sociais foi assinada por cinco dos nove filhos sobreviventes de RFK Sr.: Kathleen, Courtney, Kerry, Chris e Rory. Kerry preside à associação RFK Human Rights, que procura preservar os “ideais de justiça e igualdade e paz” do senador democrata. Fixado nas redes sociais da organização lê-se uma mensagem: “Não estamos afiliados com Robert F. Kennedy Jr.“. O novo secretário de Saúde dos Estados Unidos não respondeu a nenhuma das acusações.
Jack Schlossberg. O “instável” e “engraçado” herdeiro Democrata dos Kennedy
“Se não resistirem, EU FAREI ISSO POR VOCÊS. É tempo de algo novo…”. O tom exaltado, a utilização de caixa alta e as promessas ambíguas são características que podiam indicar que esta publicação no X, do dia 27 de novembro de 2024, tinha sido feita por Donald Trump. Porém, foi feita por Jack Schlossberg, de 32 anos, em resposta a um podcast da equipa de campanha de Kamala Harris, depois da pesada derrota eleitoral. Schlossberg acusava a equipa da campanha democrata de não assumir responsabilidade pela derrota, mostrando-se, aparentemente, disponível para ser uma alternativa.
A proposta de Schlossberg não será totalmente vazia, pois tem à partida, um grande trunfo do seu lado: o legado. John “Jack” Kennedy Schlossberg é o filho mais novo de Caroline Kennedy e herda do avô o primeiro nome e o apelido que ainda pesa dentro do Partido Democrata. É o mais novo do clã Kennedy a envolver-se na guerra familiar contra Robert F. Kennedy Jr, depois de ter publicado nas redes sociais um vídeo em apoio à carta que a mãe enviou ao Senado.
▲ O neto de JFK falou na Convenção Nacional Democrata, no verão de 2024
YouTube/Democratic National Convention
“Estou tão orgulhoso da minha corajosa mãe, que viveu uma vida de dignidade, integridade e serviço”, afirmava no vídeo do final de janeiro. Politicamente, Schlossberg tem ainda pouca bagagem: licenciou-se em História em Yale, estudou Direito e Gestão em Harvard e foi estagiário sob a alçada de John Kerry— secretário de Estado da segunda administração Obama. Mais recentemente, discursou na Convenção Nacional Democrata, no verão de 2024, e é correspondente de política na Vogue — onde o seu primeiro trabalho foi a tentativa de assassinato ao Presidente Trump.
Mas é nas redes sociais que Schlossberg faz furor. Ali multiplicavam-se os vídeos e publicações polémicos, exaltados e insultuosos. Na semana passada, contudo, apagou todas as redes sociais. “Peço desculpa a todos os que magoei. Estava errado. Vou apagar todas as redes sociais. Para sempre. Foi divertido. Obrigado de qualquer forma a todos”, escreveu na publicação de despedida.
Dias depois, na passada segunda-feira, foi publicado um podcast que tinha Schlossberg como convidado — gravado logo após a tomada de posse de Donald Trump. O neto de JFK justificou as suas atitudes erráticas, nomeadamente quando classificou a avó, Jackie O., como “mais gira” do que a atual segunda-dama Usha Vance. “[Disseram] que era estranho [e perguntaram] por que havia de dizer algo assim. Foi por isso que o fiz. A internet é o sítio para se ser estranho”, argumentou. Na mesma entrevista, Schlossberg admitiu ter escrito e dito muitas mentiras nas suas publicações, apenas para gerar choque e engajamento.
Esta presença nas redes sociais tinha uma estratégia coerente por trás. “A internet é um sítio difícil para alguém se destacar, especialmente se não se tiver algo controverso, ou pelo menos inesperado, para dizer. Os democratas não jogam este jogo tão bem como podiam. Este é o tipo de jogo que o outro lado [os republicanos] estão a jogar muito bem, o que deixa as pessoas passadas — e obter uma reação é quase metade da batalha“, explicou.
A campanha foi bem sucedida: os críticos acusaram-no de ser “perturbado” e “instável”, os fãs lamentaram o seu desaparecimento da bolha digital, mas ninguém ficou indiferente. Não eram as suas ideias políticas que atraíam os fãs — “Eu só acho que ele é engraçado na internet”, disse um fã durante um concurso de sósias em Washington D.C. no final de novembro —, mas o Kennedy mais novo nunca as escondeu. “Eu adoro o meu país, eu adoro política. Quero saber o que acontece”, afirmou no podcast.
Sem puxar dos galões que o apelido lhe confere, Schlossberg também não fechou a porta a um cargo político no futuro. No final do ano passado, esquivou-se a uma entrevista com o Washington Post, mas prometeu que ia continuar ativo na bolha política e mediática em 2025.
Antes do silêncio online, os últimos “tiros” foram disparados no Instagram, numa série de vídeos que visavam os seus familiares mais jovens. “Isto é para o resto dos meus primos: estou a dizer aos media para perguntarem aos meus primos — tenho muitos — o que pensam e por que não dizem nada sobre Bobby Kennedy e por que não estão a falar das histórias que têm“, questionou.
“O tipo está prestes a estar responsável pela saúde pública dos Estados Unidos da América. Por que é que sou o único que está a falar? Acordem! Isto não é a m**** de uma simulação. Estes tipos estão a tomar controlo. Se eles não quiserem falar, saberemos de que lado estão”, atirou. Os Kennedy mais novos mantêm o silêncio, ao contrário dos tios e pais. Estão a tomar o lado do tio Bobby, como acusa Schlossberg? Ou mantêm a neutralidade típica de uma verdadeira família real?