"O que se passa agora não é rivalidade, é estupidez pura". Pacheco, o algarvio que jogou no Benfica e no Sporting /premium

Foi um dos protagonistas do Verão Quente de 1993 e falou com o Observador sobre o Benfica, o Sporting e a Supertaça. E ainda sobre "os outros" que não são "pessoal do futebol" e "dão cabo de tudo".

António Pacheco jogou no Benfica, jogou no Sporting e é do Algarve. A Supertaça Cândido de Oliveira, que serve como palco oficial do início da temporada propriamente dita, joga-se este domingo, com Benfica e Sporting a disputarem o primeiro título da época no Estádio do Algarve, entre Faro e Loulé. António Pacheco é de Portimão mas esse é um pormenor que, para estas contas, pouco interessa. “Posso dizer que estou a jogar em casa”, reconhece o antigo jogador no início da conversa com o Observador, que serve enquanto antecipação do dérbi da Supertaça mas também enquanto reflexão sobre aquilo a que se chama agora “rivalidade exagerada” e a que Pacheco chama apenas “estupidez”.

Depois de começar a carreira no Torralta, ainda muito jovem, António Pacheco cumpriu o sonho de representar o clube da terra, o Portimonense, antes de viajar até Lisboa para se juntar ao Benfica. Os seis anos na Luz trouxeram-lhe dois campeonatos nacionais, uma Supertaça e uma Taça de Portugal e ainda duas finais europeias (ambas da Taça dos Campeões Europeus e ambas perdidas, primeiro para o PSV e depois para o AC Milan), a chegada à Seleção Nacional e o luxo de dizer que jogou com Chalana, Bento, Veloso, Diamantino e companhia. Mas acabaram com uma das maiores polémicas desportivas dos anos 90 — e uma das maiores de sempre.

No verão de 1993, que ficou conhecido como Verão Quente, mudou-se em conjunto com Paulo Sousa do Benfica para o Sporting. A ida de um rival para o outro, numa altura em que os encarnados não viviam o melhor momento a nível interno, não caiu bem junto do clube da Luz e demorou a ser perdoada: mesmo que Pacheco não tenha tido em Alvalade o mesmo sucesso que tinha tido na Luz. O momento oficial do “regresso” do antigo extremo aos encarnados, mesmo que de forma figurada, foi aproveitado para um anúncio publicitário do clube que mostrava Rui Costa, Mozer, Rui Águas e outros a receberem Pacheco de braços abertos.

No verão de 1993, Pacheco e Paulo Sousa trocaram o Benfica pelo Sporting e protagonizaram duas das transferências mais polémicas do futebol português

Nos últimos anos tornou-se habitual dizer-se que a rivalidade entre os principais clubes está a chegar a níveis exagerados e sem precedentes. Isto é mesmo assim? Ou as coisas já estiveram piores?
Não considero tudo aquilo que se passa agora como rivalidade, o que se passa agora é estupidez pura. E está agora presente no nosso dia-a-dia com muita responsabilidade para grande parte da comunicação social e uma enorme responsabilidade para estes antigos jogadores e pseudo comentadores que transportaram para o país, de uma maneira geral, a conversa de café mais negativa que pode existir. Isto não é rivalidade, é estupidez. A rivalidade é uma coisa boa, acho que faz parte não só do nosso futebol mas do futebol em geral, no mundo inteiro. Porque isso é a essência do desporto, é ter alguém com quem competir, com quem rivalizar. E é pena que essas pessoas não saibam perceber o que é que essas palavras querem mesmo dizer. E depois transportam isso, de uma forma muito negativa, para a comunicação social.

Mas, por exemplo, se um jogador do Benfica saísse agora para o Sporting ou vice-versa, era tão grave e tão polémico como foi em 1993 consigo e com o Paulo Sousa?
Era grave, era grave, porque o essencial nunca seria debatido. Não sei porquê, mas há uma grande parte de pessoas dos clubes — e pessoas com alguma responsabilidade –, que transportam isto para justificações de maus trabalhos ou justificação para um mau momento. Trazem só os aspetos negativos para a praça pública quando isso no fundo não é o que se pretende. E basta olharmos para a Europa civilizada: há trocas de jogadores entre clubes e desde que as coisas sejam feitas como deve ser e na base da legalidade, as pessoas aceitam isso bem, não tem problema nenhum. A questão é que aos clubes portugueses não basta só estar por cima, é preciso achincalhar o adversário, e isso é mau. E normalmente até é feito por pessoas que não o deveriam fazer. Daí esse tipo de eventos serem sempre coisas negativas.

Mas esta Supertaça está a ser mais jogada fora das quatro linhas do que dentro? Talvez por ser ainda uma Supertaça e por estarmos em agosto…
Apesar de tudo, esse é o aspeto sobre o qual não gosto muito de falar. Gosto é de falar de futebol e ver duas equipas: uma que está muito bem e que vive um momento de euforia, que é o Benfica, e outra que está a sair de um processo difícil e que está a reconstruir-se e tem ambições. Disso é que gosto de falar. E do ponto de vista estratégico e do ponto de vista tático. Agora aquelas coisas… as pessoas levam tudo para o resultado final e daí querem tirar consequências imediatas. Essa é a parte negativa, é aquilo de que não gosto.

"Isto não é rivalidade, é estupidez. A rivalidade é uma coisa boa, acho que faz parte não só do nosso futebol mas do futebol em geral, no mundo inteiro. Porque isso é a essência do desporto, é ter alguém com quem competir, com quem rivalizar. E é pena que essas pessoas não saibam perceber o que é que essas palavras querem mesmo dizer".

Mas acha que o ambiente criado aponta para a possibilidade de este dérbi acabar como acabou o de abril, nas meias-finais da Taça de Portugal, com confrontos dentro de campo entre os jogadores e expulsões dos dois lados?
Os confrontos dentro de campo são uma coisa, até pela experiência que tenho, que não me preocupa. Os confrontos dentro de campo acabam logo ali. De uma forma ou de outra, terminam ali. Depois, haverá consequências ou não para o que se passa dentro de campo. Os problemas são os confrontos fora de campo, esses é que nunca terminam logo ali e nunca sabemos quais são as consequências. Esses são os confrontos que me preocupam. Com os jogadores é o momento, há situações nem sempre agradáveis que acontecem dentro de campo mas é fruto do momento e as coisas morrem ali. Já aconteceu várias vezes, mesmo no tempo em que eu jogava, às vezes havia alguns desentendimentos… nós percebemos o momento. Depois aquilo morre ali ou três ou quatro dias depois. No meu tempo era normal almoçar ou jantar com colegas do rival porque no fundo éramos todos amigos e conhecíamo-nos há uma série de anos. Os jogadores sabem resolver isso muito bem e acho que quem comanda e quem decide neste tipo de situações devia pôr os olhos na forma como os jogadores decidem as coisas. Por muito a sério que possam estar a falar dentro de campo, as coisas resolvem-se logo e de forma fácil.

Mas isso ainda acontece? O Gonçalo Paciência deu uma entrevista há uns dias onde diz que o pai, o Domingos, passava férias no Algarve com o Mozer, que dentro de campo era muito duro com ele. Ainda é possível isto acontecer nos dias de hoje, os jogadores adversários ainda se dão assim tão bem?
Acho que se dão bem. A questão é que não é noticiado e quando se chega à hora de revelar isso há sempre um receio porque, infelizmente, agora há esta questão dos departamentos de comunicação. E esta imagem que se pretende passar para o exterior não é feita da melhor forma e não abona nada a favor da paz e da confraternização que deve existir entre clubes e jogadores. Só por causa disso; porque os intervenientes diretos do espetáculo sabem muito resolver as coisas e estão juntos e respeitam-se e gostam uns dos outros e há casos em que têm mesmo uma amizade pessoal muito elevada. O pessoal do futebol resolve muito bem essas coisas. A questão são os outros, que dão cabo de tudo.

O dérbi das meias-finais da Taça de Portugal, em abril, terminou com confrontos no relvado e expulsões

LUSA

E este domingo?

Esteve dois anos no Sporting: primeiro com BobbyRobson, depois com Carlos Queiroz. Conquistou apenas uma Taça de Portugal, em 1995, e saiu para o Belenenses antes de emigrar pela primeira e única vez. Representou o Reggiana de Itália durante duas épocas e regressou a Portugal já com 32 anos para reforçar os açorianos do Santa Clara. Ainda jogou pelo Atlético e pelo Estoril antes de terminar a carreira, em 2001, para depois se aventurar enquanto treinador — primeiro no mesmo Atlético e depois no clube de sempre, o Portimonense.
Mais de 25 anos depois de trocar o vermelho pelo verde e branco, António Pacheco continua a garantir que foi “uma pessoa corretíssima” durante todo o processo e que nunca teve como objetivo provocar danos ou prejudicar o Benfica. Sobre Bruno Fernandes, que parece estar cada vez mais perto da porta de saída mas vai estar presente no jogo da Supertaça, o antigo internacional português garante que o ainda médio do Sporting “estará completamente concentrado” porque é “um rapaz que tem prazer em jogar”.

Então e prognósticos? “Tudo é possível”, garante. E só tem uma certeza: quem perder terá de “arrepiar caminho” e seguir em frente.

Mas falemos de futebol, então. Quem é que está melhor preparado para a Supertaça?
A lógica diz-nos que é o Benfica. Só que isto é um jogo decisivo, não é?! Resume-se tudo a um jogo. E como se resume tudo a um jogo e quando há equilíbrio… Apesar de o Benfica, do ponto de vista teórico, estar aparentemente melhor, isso não faz com que o adversário seja automaticamente eliminado. Daí ser um jogo interessante. E espero só que corra o melhor possível fora das linhas para que não haja chatices com ninguém, com as famílias que estão cá de férias, que possam usufruir do espetáculo como ele mesmo requer ser usufruído, que é na boa, tranquilo, a desfrutar e a ver as duas equipas a jogar. Depois, o resultado final será sempre a consequência daquele que for o melhor em campo. Normalmente é assim — nem sempre isso acontece, mas normalmente aquele que joga mais e melhor acaba por ganhar. Mas como é um jogo para decidir no momento, tudo é possível, e espero que seja um excelente jogo nesse sentido.

"No meu tempo era normal almoçar ou jantar com colegas do rival porque no fundo éramos todos amigos e conhecíamo-nos há uma série de anos. Os jogadores sabem resolver isso muito bem e acho que quem comanda e quem decide neste tipo de situações devia pôr os olhos na forma como os jogadores decidem as coisas. Por muito a sério que possam estar a falar dentro de campo, as coisas resolvem-se logo e de forma fácil".

Ganhou uma Supertaça quando ainda estava no Benfica, em 1989. Conquistar este troféu logo no início da temporada pode motivar ou desmotivar uma equipa?
Motiva. Desmotivar, já não acredito. Mas motiva, no sentido em que a vitória motiva. Até nós, na nossa vida pessoal, se existe uma coisa boa que nos acontece, é sempre um fator de motivação para o que aí vem. Se as coisas não nos correrem bem, temos de ultrapassar isso com rapidez e seguir em frente. Daí não ser determinante nem no sentido nem noutro. É óbvio que quem ganha sente-se mais motivado e melhor, mais preparado. Quem perde, normalmente arrepia caminho, tenta modificar e segue em frente.

E esta vitória é mais importante para o Benfica ou para o Sporting?
Não sei, não sei, acho que é importante para os dois clubes. Porque vivem os dois momentos diferentes, são clubes, por natureza, ganhadores, e que gostam de ganhar. E a vitória tem sempre tanto para distribuir e para dar… por isso, acho que vai ser igualmente importante para os dois clubes.

O antigo jogador chegou a ser treinador do Portimonense durante duas temporadas, entre 2003 e 2005

O JOGO

Sabe o que é ser um jogador de uma grande equipa que já sabe que vai mudar de ares em breve. Acha que existe a possibilidade de Bruno Fernandes entrar no jogo da Supertaça já a pensar no futuro?
Não, o Bruno é um jogador diferenciado, é um jogador de grande qualidade. Percebo bem o momento que a vida dele está a passar a nível desportivo e acho que vai usufruir do jogo. Ele sabe que tem capacidade para jogar um pouco mais além, digamos assim. Se não for hoje é amanhã, acho que ele não vai perder tempo para pensar sobre daqui a duas semanas quando o jogo é no domingo. É um rapaz que tem prazer em jogar e estará completamente concentrado. E espero bem que jogue e se tiver de sair que saia depois que é sempre bom nós termos os melhores dentro de campo.

Aquela ida do Benfica para o Sporting, em 1993, é o ponto crucial da sua carreira? Ou acha injusto ser sempre recordado por causa disso e por causa desse Verão Quente?
Não, não se trata de ser injusto ou não. Sei o que fiz, sei por que é que fiz, avisei sobre aquilo que ia fazer, expliquei tudo. Mas pronto, naquele tempo também já existiam pessoas que levavam as coisas para os caminhos que mais lhes interessavam. Aliás, acho que fui uma pessoa corretíssima em todos os aspetos em relação ao Benfica. O que não tem nada a ver com o meu gosto pelo Benfica, aquilo era uma questão pessoal, tornei isso bem claro para os responsáveis. Não desertei, não fugi, avisei sobre aquilo que ia fazer, eles todos sabiam — só que não interessou ser divulgado no momento. Agora também já não serve para nada mas o que quero dizer com isto é que aqui não se trata de clubismos, trata-se de uma situação pessoal e pontual. E decidi em consciência, porque sou uma pessoa que procura ser sempre o mais correto possível, em todos os aspetos. Avisei sobre aquilo que ia fazer. Preveni, fiz tudo o que era suposto fazer dentro da melhor clarificação e limpeza possível para não existirem mal entendidos.

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