Dark Mode 151kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia
i

.

© DR

.

© DR

"O turismo estava numa fase descartável, fácil de consumir, barata e suja" /premium

Viagens locais, feitas a um ritmo mais lento e de forma segura são as tendências que, na opinião de Leyla Acaroglu, nomeada defensora da Terra pelas Nações Unidas, vão marcar o futuro do turismo.

Para Leyla Acaroglu, a designer nomeada “Champion of the Earth” pelas Nações Unidas, a recuperação do setor do turismo, profundamente abalado pela atual pandemia, passa essencialmente por variáveis como slow travel, viagens com sentido, feitas em segurança e até localmente. Aquela que é uma das principais oradoras da 3º edição da Lisbon Tourism Summit, evento organizado pela Beta-i e apoiado pelo Turismo de Portugal, a acontecer esta quarta-feira em formato online, defende que “afastarmo-nos da versão fast food do turismo” pode trazer vários benefícios.

Socióloga e empresária, Acaroglu é protagonista de várias conferências sobre design e sustentabilidade, autora de livros e até a fundadora do primeiro “brain spa” em Portugal, um retiro com dormida cujo objetivo passa por nos desligarmos do mundo exterior e focarmo-nos no vasto tópico da sustentabilidade. Em entrevista ao Observador, defende que “tanto a fast fashion como a fast travel foram interrompidas pela Covid-19 numa altura em que muito provavelmente precisavam de ser interrompidas. Numa altura em que tínhamos companhias aéreas a falar de tirar os assentos e transformar os aviões em autocarros no ar”.

O que é que a pandemia nos ensinou sobre sustentabilidade?
Acho que nos ensinou que as nossas ações enquanto humanos no mundo têm ramificações e acabam por afetar-nos. Um dos conceitos-chave da sustentabilidade é que, enquanto humanos, a força dominante no planeta, alterámos muito os ecossistemas do mundo para nos beneficiarmos e, em retorno, surgiram consequências não intencionadas. Cientistas da Universidade de Harvard já demonstraram uma relação entre as alterações climáticas e a pandemia tendo em conta a destruição de ecossistemas e o facto de os animais estarem cada vez mais próximos de assentamentos de humanos. Existe uma ligação muito clara entre estas doenças serem mais proeminentes no nosso mundo humano e os efeitos que vemos em relação às grandes alterações nos sistemas, como as alterações climáticas e a destruição de ecossistemas. Ao mesmo tempo que estamos a combater esta pandemia global vemos partes do mundo que já combatem os efeitos das alterações climáticas. Em janeiro tivemos os fogos na Austrália e agora temos na Califórnia, uma vez mais com incêndios catastróficos e mortíferos. Sabemos que Portugal também sofre com isto. Penso que as ligações e as relações entre as nossas ações e os efeitos que elas têm no mundo estão cada vez mais a tornar-se óbvias para as pessoas por causa da pandemia.

Acha que a pandemia é o resultado de decisões que já tomámos?
Definitivamente. Estamos a viver o legado de 70 anos de crescimento económico contínuo, a seguir à Segunda Guerra Mundial, altura em que a principal preocupação era reconstruir a economia. Elevar as pessoas da pobreza era também um dos principais desafios do crescimento económico. Claro que de algumas formas fomos muito bem sucedidos, vivemos tempos muito prósperos. Fizemos um trabalho ótimo, mas a pandemia em si é uma combinação de vários fatores em jogo, incluindo o desrespeito e a destruição da natureza. Não apenas o facto de os humanos comerem animais selvagens, mas também a destruição de espaços naturais, para produção de comida ou de imóveis, por exemplo. Há coisas que não sabíamos na altura que sabemos agora, como a importância dos pântanos para a filtragem da água…

Estamos definitivamente a tentar correr atrás de decisões do passado e temos de respeitar o facto de a maior parte dessas decisões terem sido feitas num vazio de informação sobre como o mundo natural funciona. Temos muito a aprender, mas já sabemos que continuar a destruir a Amazónia ou continuar a plantar monoculturas à custa de ter ecossistemas diversificados são coisas que vão ter impactos negativos. No passado estas relações não eram óbvias, mas agora são. É uma situação muito trágica se não fizermos mudanças agora que temos a informação [do nosso lado]… Não podemos culpar o passado, onde não existia uma consciência destas coisas, mas certamente que poderemos ser culpados no futuro.

"É uma situação muito trágica se não fizermos mudanças agora que temos a informação [do nosso lado]... Não podemos culpar o passado, onde não existia uma consciência destas coisas, mas certamente que poderemos ser culpados no futuro."

O que se segue para o turismo depois da Covid-19?
Trata-se de uma indústria gigante que foi fortemente afetada e penso que estamos a assistir mais [à adoção do] slow travel, ou seja, o facto de as pessoas fazerem viagens mais intencionais, o que vai resultar na procura de experiências de maior impacto, de maior valor, ao invés de se tirar o fim de semana para ir à praia através de uma companhia aérea baratinha. Acho que as pessoas vão considerar mais sobre as férias e também tentar retirar valor dessas experiências ao invés de optar por um estilo mais descartável de viagens que se viu no passado. Entrámos num registo mais slow, mais vagaroso — o devagar é algo que as pessoas têm vindo a desejar num sentido coletivo, acho que faz parte do desejo geral de procurar mais autenticidade nas suas vidas, portanto, experiências reais e genuínas. Falo de turismo que trabalhe com comunidades locais e genuínas, que apresente experiências autênticas… Acho que vamos assistir a mais respeito no turismo e que vai ficar mais caro viajar.

Acho doido que alguns dos destinos mais populares tenham sido destruídos, como Veneza e agora a praia na Tailândia que está fechada…É um pouco triste. O turismo é uma representação: pegamos em coisas que adoramos, que são bonitas, e todos queremos vê-las em primeira mão. São coisas que destruímos no nosso desejo coletivo de experimentá-las. Espero que agora possamos ver mais respeito, mais consideração. Penso também que os operadores de turismo vão ver este tempo para se transformar e há duas grandes áreas em que podem fazer uma mudança de negócio sustentável. Uma é operacional e tem que ver com a adoção de medidas ecológicas, do ponto de vista da energia, da água ou da redução do uso de plástico, etc. A outra tem que ver com a experiência: passar de providenciar o serviço básico para realmente oferecer uma experiência com valor acrescentado. Afastarmo-nos da versão fast food do turismo pode beneficiar muitos operadores. E isso não tem de ser caro, porque muitas das estratégias relacionadas com a sustentabilidade são cost-saving quando as fazemos bem.

Mas não é provável, e até expetável, que quando a pandemia terminar possa existir uma grande tentação por parte dos operadores em maximizar os lucros?
Claro, mas só podemos maximizar lucros quando temos clientes dispostos a pagar por essas experiências. A maior parte dos negócios que maximiza lucros é eventualmente responsabilizada pelos seus acionistas ou pelos seus clientes. É possível maximizar os lucros no curto prazo, mas a longo prazo estes operadores vão sair a perder. E qualquer empresa que não consiga ver isso tem o líder errado.

"O turismo é uma representação: pegamos em coisas que adoramos, que são bonitas, e todos queremos vê-las em primeira mão. São coisas que destruímos no nosso desejo coletivo de experimentá-las. Espero que agora possamos ver mais respeito, mais consideração."

Não, a pandemia não é boa para o ambiente. Mas pode deixar pistas para um futuro sustentável

Não é irónico que a paralisação do turismo tenha feito cair as emissões de gases poluentes em alguns pontos do globo?
É como a fast fashion. Basicamente, o turismo estava numa fase descartável, fácil de consumir, barata e suja. Havia muitos hotéis a serem construídos, pequenos-almoços cheios de desperdício, maximização das rotas… Sim, temos muitos operadores que não se importam, operadores menos éticos que tentam maximizar os lucros e explorar pessoas — e há tanta exploração na indústria do turismo. Houve muitas questões éticas tendo em conta o facto de se esperar que as pessoas trabalhassem mesmo em situações que podiam pôr a sua segurança em risco.

Leyla Acaroglu, socióloga e empresária, é protagonista de várias conferências sobre design e sustentabilidade, autora de livros e até a fundadora do primeiro "brain spa" em Portugal

James Duncan Davidson

Como é que se alcança um equilíbrio entre a democratização dos voos e o turismo de massas?
É um dilema de equidade. Lembro-me, quando era uma jovem adulta, de juntar todo o meu dinheiro e viajar. Vivia na Austrália e, por isso, era mais difícil sair do país. Juntava todo o meu dinheiro, trabalhava muito e viajava com a intenção de isso significar mesmo alguma coisa. E ia durante mais tempo. Não penso que haja uma solução fácil para isto porque, às vezes, os custos precisam de representar o impacto e há problemas de equidade nisso. Mas é da responsabilidade da indústria tornar as viagens mais baratas ou é da responsabilidade da sociedade fazer com que as pessoas ganhem mais para que possam fazer mais com o dinheiro que recebem? Quando olhamos para a big picture há muitas coisas que custam muito dinheiro.

É um dilema, não sei de onde deve vir a solução. Acredito verdadeiramente que viajar devia ser mais caro. Não acho que devesse ser tão caro ao ponto de as pessoas não poderem visitar um membro da família que está a morrer, mas também não acho que deva ser tão barato ao ponto de ser mais acessível metermo-nos num avião do que num autocarro na nossa comunidade local. Não quero criar um sistema onde as únicas pessoas que podem viajar são os ricos e os famosos, mas também penso que a indústria de aviação é uma daquelas que está agora a acertar as contas consigo mesma. Muitas pessoas vão querer viajar a seguir à pandemia porque sentem saudades, mas também para visitar amigos e familiares. O que quero dizer é que viajar não está apenas relacionado com turismo, é também sobre comunidade e conexão. Temos viagens de negócios [“business travel”, em inglês], talvez devêssemos considerar “viagens emocionais” [“emotional travel”]. Acho que é algo sobre o qual se pode trabalhar.

Voos sem destino: será esta a salvação das companhias aéreas? Ambientalistas discordam

O que acha, por exemplo, dos voos sem destino que algumas empresas estão a praticar?
As pessoas fazem coisas muito estúpidas, vivemos num mundo muito complicado com humanos. É claro que vai haver um mercado para as pessoas esbanjarem o dinheiro em coisas fúteis porque fá-las parecerem mais cool ou fá-las sentirem-se bem. Acho muito estúpido estas empresas fazerem isso mas, ao mesmo tempo, elas estão desesperadas, querem manter os seus colaboradores… É o desespero que está a criar esse tipo de ações.

Consegue explicar porque é que o turismo de massas é tão perigoso para a sustentabilidade? Vamos a tempo de corrigir alguma coisa?
Quero apenas clarificar que há uma diferença entre turismo e viagens, ou seja, há diferentes motivações que nos fazem deslocar entre os sítios. Não temos de deixar o nosso país e metermo-nos num avião, sobretudo na Europa. Há várias formas de viajar, há várias formas de uma pessoa estando em Portugal conseguir ir a Paris, por exemplo. Não tem de ser via avião. Visitar familiares ou amigos ou ir àquela reunião muito importante não é o mesmo que o turismo de massas. Pela falta de melhor palavra, são produtos diferentes que merecem respostas diferentes. Tanto a fast fashion como a fast travel foram interrompidas pela Covid-19 numa altura em que muito provavelmente precisavam de ser interrompidas. Numa altura em que tínhamos companhia aéreas a falar de tirar os assentos e transformar os aviões em autocarros no ar. Concordo que haja algumas questões que agora estão a ser levantadas e que a fast travel precisa de mudar, mas não acho que todo o turismo é mau e não acho que todas as viagens sejam turismo.

"Acredito verdadeiramente que viajar devia ser mais caro. Não acho que devesse ser tão caro ao ponto de as pessoas não poderem visitar um membro da família que está a morrer, mas também não acho que deva ser tão barato ao ponto de ser mais acessível metermo-nos num avião do que num autocarro na nossa comunidade local."

Além da tendência de slow travel, há também a ideia de viajar localmente, dentro do nosso próprio país…
Sim, claro. Há isso e as viagens mais seguras, isto é, o facto de as pessoas optarem por métodos de viagem que não as exponham. Viajar local, devagar e de forma segura.

Acha que as pessoas vão ter mais medo de apanhar o vírus a bordo do que de o avião poder cair?
Até eu própria [tenho medo], porque não podemos controlar como os outros se comportam. Basta uma pessoa não fazer a coisa certa num ambiente fechado para afetar toda a gente.

Como é que a economia circular pode ajudar o setor do turismo numa era pós-Covid-19?
Penso que as inovações na economia circular permitem eliminar tudo o que é descartável. A economia circular muitas vezes refere-se à organização nos negócios de maneira a perceber onde é que há fugas nos sistemas, que coisas estão a vir cá para fora e que são más e como incentivar melhores ações. Isso pode passar por oferecer descontos a viajantes locais ou trabalhar com bancos alimentares locais de maneira a assegurar que o desperdício alimentar é reciclado. Há diferentes pontos em que os operadores de turismo podem trazer a economia circular para o seu negócio de maneira a beneficiar disso.

Uma das principais mensagens que tenta passar com o seu trabalho é esta: as pessoas podem não compreender o sistema que está por detrás de cada decisão que tomam…
A maior parte desses sistemas estão escondidos do nosso campo de visão, literalmente. Não conseguimos ver o carbono e essa é uma das principais razões porque tem sido tão difícil tomar ações sobre as alterações climáticas, porque para nós é um sistema invisível. Muitas vezes não conseguimos ver as cadeias de alimentação que trazem a comida até nós. Não compreendemos o sistema do desperdício e a forma como o lixo sai das nossas casas quando puxamos o autoclismo ou o que acontece aos caixotes de lixo quando os metemos na rua. São coisas invisíveis para nós. Eu tento tornar essas coisas visíveis e também incentivar as pessoas a agir nas suas vidas. A comida é uma grande área de impacto: sabemos que um dos motivos porque a Amazónia está a arder é para a criação de gado e a maior parte das pessoas nunca mataria um animal para o comer.

"Tanto a fast fashion como a fast travel foram interrompidas pela Covid-19 numa altura em que muito provavelmente precisavam de ser interrompidas. Numa altura em que tínhamos companhia aéreas a falar de tirar os assentos e transformar os aviões em autocarros no ar."

É por isso que as pessoas ficam tão incomodadas com temas como as palhinhas de plástico?
As pessoas têm alguma tipo de escolha… A questão das palhinhas e dos copos é que eles são uma imagem direta que representa o problema maior. Vão as palhinhas mudar a crise de plástico no oceano? Não. A maior parte do plástico no oceano são restos de cigarros — e em Lisboa percorremos as ruas e vemos pessoas a metê-los nas sarjetas. Esse é um dos grandes problemas nos oceanos neste momento. Mas porque é que toda a gente faz grandes afirmações sobre as palhinhas? Porque é algo imediato, algo que está na sua esfera de controlo. Pode parecer sem sentido, mas a verdade é que esse tipo de ações cria pequenas janelas — e muitas pequenas janelas tornam o caminho mais fácil. Essas pequenas decisões são importantes, podem ter um efeito de mudança em cadeia tendo em conta as pessoas à nossa volta. E isso também faz com que as pessoas se sintam bem. Temos de ser relembrados da nossa responsabilidade.

Muito do seu trabalho passa também por associar o design à sustentabilidade. Pode dar exemplos práticos de como o design pode ser um amigo ou inimigo da sustentabilidade?
Tudo no mundo é design. Todas as coisas com que interagimos em todos os minutos da nossa vida são design. O edifício onde vivemos, o sítio onde nascemos, as roupas que usamos… Tudo, até as políticas que governam a nossa sociedade. Da mesma forma que podemos desenhar uma cadeira muito bonita, que nos faz sentir maravilhosos quando nos sentamos, podemos desenhar uma que nos dá dor de costas. E podemos dizer isso sobre o design de tecnologia, que pode ajudar a promover boas mudanças culturais ou que pode manipular as pessoas. O design de produtos que são rapidamente descartáveis apenas beneficiam os produtores e trazem vantagens competitivas — nós, as pessoas, saímos a perder porque gastamos dinheiro em coisas que intencionalmente se vão estragar. O design é uma das maior influências culturais e sociais que a maior parte das pessoas desconhece.

"Porque é que toda a gente faz grandes afirmações sobre as palhinhas? Porque é algo imediato, algo que está na sua esfera de controlo. (...) Essas pequenas decisões são importantes, podem ter um efeito de mudança em cadeia tendo em conta as pessoas à nossa volta. E isso também faz com que as pessoas se sintam bem. Temos de ser relembrados da nossa responsabilidade."

Isso talvez aconteça porque a palavra design está muito associada a criatividade…
No contexto da cultura popular o design é divertido e criativo. Ao mesmo tempo, é perverso e manipulativo, mas também consegue se libertador. O que vemos agora é que não existe muita responsabilidade nas coisas que são desenhadas. Criámos um sistema mau para a realidade dos nossos problemas modernos e é nisso que o design é uma grande oportunidade para promover a mudança.

Há forma de nos descartamos de uma economia descartável?
Sim. O objetivo final é desenhar sistemas que dão mais do que tiram, tal como a natureza. É capaz de demorar algum tempo, mas acredito que vamos chegar lá.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.