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Libertação de todos os reféns israelitas e libertação de centenas de prisioneiros palestinianos. Esta é a principal decisão que sai da primeira fase do acordo assinado entre Israel e o Hamas na madrugada desta quinta-feira, num processo mediado pelo Presidente Donald Trump que pode vir a pôr fim a dois anos de guerra e cativeiro.

Mas o processo não será fácil. Não é claro quantos dos reféns israelitas estão vivos — provavelmente 20, de acordo com as “provas de vida” recebidas pela família e pelo Estado de Israel ao longo dos últimos anos —, nem onde estão exatamente os restos mortais dos restantes. A maioria dos que ainda permanecem em Gaza são sobretudo homens e jovens, já que os mais velhos, as crianças e as mulheres foram sendo libertados nos processos anteriores de cessar-fogo. Mas as condições em que estão a ser mantidos, e que são possíveis de aferir em alguns dos vídeos de propaganda divulgados pelo Hamas, indiciam que o seu estado de saúde será grave.

Do outro lado da negociação, a discussão sobre que prisioneiros palestinianos podem ser libertados tem-se arrastado. Ao longo do dia, meios árabes e israelitas foram-se contradizendo sobre que nomes constam na lista de prisioneiros palestinianos que serão libertados. Ao todo deverão ser 250 palestinianos, mas apenas quatro nomes geram maior debate.

Os reféns vivos

Matan Angrest (22 anos)

Nimrod Cohen (20 anos)

Matan Angrest e Nimrod Cohen são dois dos soldados que foram atacados e raptados durante o massacre do 7 de Outubro, perto da fronteira com a Faixa de Gaza, e que ainda estarão com vida.

Em junho deste ano, o Canal 12 deu conta de que a família recebeu dados sobre o estado de saúde de Matan, que ainda estará vivo, e um relatório médico. Segundo a análise dos dados clínicos, o jovem soldado terá sido torturado com choques elétricos. Neste momento sofre provavelmente de ataques de asma crónicos e a mobilidade das suas mãos estará seriamente comprometida devido a queimaduras e infeções não tratadas.

Já a família de Nimrod diz ter recebido várias “provas de vida” do refém, ao que tudo indica graças a informações dos serviços secretos militares israelitas, de acordo com declarações do pai. “Sabemos que o Nimrod está vivo”, garantiu Yehuda Cohen em agosto.

Alon Ohel (24 anos)

O jovem pianista era um dos participantes no festival Nova que foi levado para Gaza.

Em setembro deste ano, a família autorizou que fosse publicado um frame de um vídeo feito pelo Hamas onde Alon aparece com vida. De acordo com a família, o vídeo deixa claro que o jovem perdeu a visão num dos olhos. “Olhámos para cada frame para extrair toda a informação que conseguíamos. Quanto mais víamos, mais nos preocupávamos”, declararam os familiares.

Gali Berman (28 anos)

Ziv Berman (28 anos)

Os dois irmãos gémeos Berman foram levados do kibutz Kfar Aza a 7 de Outubro de 2023.

A família diz ter recebido informações por parte de alguns dos reféns libertados durante o cessar-fogo de fevereiro deste ano de que ambos estão vivos. Não se conhecem mais detalhes.

Em setembro, o seu irmão assinalou o recente aniversário dos gémeos. “Somos a tábua de salvação deles, o bocado extra de pão deles, o oxigénio deles”, disse Liran Berman durante uma manifestação pelo regresso dos reféns em Telavive.

Eitan Horn (38 anos)

Eitan estava de visita a casa do irmão Iair, em Nir Oz, quando o Hamas levou a cabo o ataque de 7 de Outubro. Ambos foram raptados e levados para Gaza.

Inicialmente foram separados, mas acabaram por ser colocados juntos no mesmo espaço, com outros três reféns, ao fim de 50 dias. A certa altura, membros do Hamas disseram ao grupo que dois deles seriam libertados. “Durante quatro dias olhámos uns para os outros a questionarmos se poderíamos decidir ou ter influência na decisão”, confessou o irmão Iair.

Ele foi um dos dois que acabaram por ser libertados. O Hamas filmou a despedida dos dois irmãos e publicou-o nas redes sociais. Eitan permanece em Gaza.

Evyatar David (24 anos)

Guy Golboa-Dalal (24 anos)

Os melhores amigos Evyatar e Guy eram dois dos participantes que estavam no festival Nova quando este foi atacado.

Os dois foram filmados para vários vídeos de propaganda do Hamas, incluindo um em que eram obrigados a assistir a outros reféns a serem libertados.

Recentemente, em agosto, foi divulgado outro vídeo onde Evyatar aparece evidentemente com dificuldades em falar, enquanto é obrigado a escavar aquilo que pensa ser a sua própria sepultura. “Enquanto o meu irmão mais novo, um esqueleto vivo, era obrigado a falar e a cavar a sua sepultura, uma mão gorducha e bem alimentada de um terrorista do Hamas aparece no enquadramento”, acusou o irmão Ilay.

Rom Braslavski (21 anos)

Rom estava a trabalhar como segurança no festival Nova quando o Hamas atacou o local e ajudou várias pessoas a fugirem.

Em julho, o grupo Jihad Islâmica divulgou um vídeo com o jovem, onde este diz não ter comida nem água: “Estou deitado num colchão 24 horas por dia. Estou às portas da morte e tenho a certeza que todos os outros reféns estão na mesma situação em termos físicos e mentais”, grita Rom.

Yosef-Haim Ohana (25 anos)

Elkana Bohbot (36 anos)

Yosef e Elkana estavam os dois a trabalhar no festival Nova e ajudaram a resgatar vários dos feridos. Acabaram por ser raptados e levados para Gaza.

Em maio, o Hamas publicou um vídeo em que os dois jovens aparecem. Yosef está sentado ao pé de um colchão onde Elkana está deitado debaixo de um lençol. “Eu sou o prisioneiro número 21, este é o prisioneiro número 22”, diz Ohana, antes de declarar que o estado de saúde do companheiro é grave. “Tem piorado desde que percebemos que a guerra se está a arrastar. Desde aí, ele tem tentado mutilar-se uma e outra vez.”

Omri Miran (48 anos)

Omri foi levado à força do seu carro, à frente da mulher e das filhas, no kibutz de Nahal Oz.

Os sinais de que estará vivo surgem, uma vez mais, em vídeos publicados pelos terroristas do Hamas. O primeiro foi ainda em 2024, mas este ano Omir Miran voltou a ser filmado. O mais recente vídeo é de abril, onde é possível vê-lo a andar dentro de um túnel. O israelita diz para a câmara que não está “feliz há um ano e meio”: “Sinto falta da minha casa, da minha mulher e de toda a minha família”.

Eitan Abraham Mor (25 anos)

Bar Kupershtein (23 anos)

Maxim Herkin (37 anos)

Eitan e Bar são outros dois israelitas que estavam a assumir funções como seguranças no festival Nova e que trataram de acudir feridos e ajudar pessoas a fugir. Maxim, imigrante ucraniano em Israel, era um dos participantes — os dois amigos que foram consigo ao evento foram mortos.

Em fevereiro deste ano, a família de Eitan Mor assegurou ter recebido “um sinal de vida” do refém, mas não deu mais pormenores. Bar e Maxim, por seu turno, parecem estar juntos, já que apareceram em vários vídeos de propaganda do Hamas juntos: um em abril, outro em maio e, por fim, um em julho onde só aparece Maxim.

“Estamos a morrer sem pulsação, não nos sentimentos humanos”, desabafaram os dois rapazes numa das filmagens, onde dizem estar “30 metros abaixo de terra”.

Ariel Cunio (28 anos)

David Cunio (35 anos)

Segev Kalfon (27 anos)

Os irmãos Cunio foram levados, juntamente com as suas famílias, do kibutz de Nir Oz, a 7 de Outubro. A mulher e duas filhas do irmão mais velho, David, foram libertadas no cessar-fogo de 2023; a companheira de Ariel no de fevereiro de 2025. Nesse mês, a família disse ter tido provas de que os irmãos estariam vivos.

Os Cunio têm origens argentinas, mas também sefarditas — são dois dos três reféns que se pensa estarem vivos que têm nacionalidade portuguesa. O terceiro é Segev Kalfon, cuja família recebeu informações sobre a sua situação em fevereiro.

Uma das pistas veio de Ohad Ben Ami, um dos reféns que foi libertado. A mãe, Galit, contou o que soube: “O Segev via o Ohad como uma figura paternal. Precisava dele durante os ataques de pânico que tinha à noite. O Ohad disse-nos que o Segev tinha episódios em que se dissociava, que tinha ataques de raiva, coisas que ele nem conseguia descrever.”

Matan Zangauker (25 anos)

O jovem israelita foi um das centenas de raptados para Gaza juntamente com a sua parceira, Ilana Grotsievsky, entretanto libertada.

Em maio, a família revelou que um dos reféns libertados, Edan Alexander, lhes confirmou que Matan está vivo, mas em condições de saúde precárias. Perdeu muito peso e estará em “sofrimento mental grave”, recusando-se por vezes a falar e a comer.

Há dois meses, as IDF tiveram acesso a um vídeo do Hamas onde Matan fala diretamente para a câmara, dizendo os nomes das pessoas que lhe são mais próximas e de quem tem saudades. “Todos os meus amigos e conhecidos, saiam e façam barulho como só vocês sabem”, pede.

Avinatan Or (32 anos)

A captura de Avinatan e da sua namorada Noa Argamani foi uma das mais mediatizadas na sequência do 7 de Outubro de 2023, graças a um vídeo onde se vê a jovem a ser levada à força da mota onde seguia com o companheiro.

Não há notícias públicas sobre o estado de saúde de Or, mas a sua família diz que em março deste ano recebeu uma prova de que está vivo, preferindo não a partilhar.

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Os prisioneiros em dúvida

Marwan Barghouti (Fatah)

Líder histórico da Fatah (partido de Yasser Arafat, que controla a Autoridade Palestiniana), Barghouti foi uma das figuras destacadas da Segunda Intifada. Foi detido em 2002 por Israel, que o acusa de ser o responsável por um atentado que matou cinco pessoas durante esse período — Barghouti diz estar inocente. Foi condenado em 2002 e, desde o início da guerra em Gaza, tem estado em solitária.

Barghouti é uma figura particularmente relevante para a causa palestiniana que defende a solução dos dois Estados e que é frequentemente apontado como uma alternativa a Mahmoud Abbas, atual líder da Autoridade Palestiniana (AP). As sondagens mostram que Barghouti é sempre o candidato mais popular para a presidência da AP — 55% de apoio de acordo com o estudos mais recentes, que incluem dados da Cisjordânia e de Gaza.

Tendo em conta a sua influência política, a inclusão de Barghouti entre os prisioneiros a serem libertados pode ter extrema relevância no futuro da AP e da liderança na Cisjordânia e em Gaza. Os relatos que chegam das negociações no Egito sobre se Barghouti será ou não um dos prisioneiros libertados têm sido contraditórios.

Ahmed Sa’adat (Frente Popular pela Libertação da Palestina)

Sa’adat foi o líder da Frente Popular pela Libertação da Palestina, um grupo palestiniano armado de influência marxista, que não reconhece a liderança nem da Autoridade Palestiniana, nem do Hamas, e que é contra a existência do Estado de Israel.

Em 2001, Sa’adat e outros membros do grupo assassinaram o ministro israelita do Turismo, o ultranacionalista Rehavam Zeevi. Foram detidos pela polícia palestiniana e condenados inicialmente num julgamento promovido por Yasser Arafat, tendo Sa’adat ficado a cumprir pena numa prisão em Jericó, na Cisjordância.

Em 2002, Israel montou uma operação militar para invadir a prisão e levar o líder da Frente Popular e outros prisioneiros. Sa’adat acabou por ser condenado a 30 anos de prisão.

Hassan Salameh (Hamas)

Em meados da década de 1990, Israel e a Organização pela Libertação da Palestina de Arafat estavam em conversações para a paz quando ocorreu uma série de atentados, como explosões em autocarros de passageiros.

Salameh foi um dos responsáveis por planear esses ataques, que o Hamas justificou como vingança pelo assassinato de Yahya Ayyash, um dos principais fabricantes de bombas do grupo, que foi morto pelo Shin Bet (serviços secretos internos israelitas) em 1996.

O palestiniano foi condenado a 46 penas de prisão perpétuas no ano seguinte.

Abbas al-Sayyed (Hamas)

Comandante sénior do Hamas na Cisjordânia durante a Segunda Intifada, Sayyed foi responsável por alguns dos atentados contra israelitas mais letais desse período: o ataque de 2001 ao centro comercial Sharon, onde morreram 35 pessoas; e o ataque ao Hotel Park onde morreram outras 30.

Abbas al-Sayyed foi condenado em 2006 a 35 penas de prisão perpétua.