O ser humano tem presença permanente na órbita terrestre há mais de 25 anos e, neste quarto de século, nunca houve qualquer emergência que justificasse a retirada dos astronautas da Estação Espacial Internacional. Isto é, até esta quinta-feira, quando a NASA anunciou que um dos quatro elementos da Crew-11 sofreu uma “condição médica séria” — sem adiantar detalhes — e, por esse motivo, a missão teria de ser interrompida um mês antes do planeado e os astronautas iriam regressar à Terra “nos próximos dias”.
Zena Cardman, Mike Fincke, Kimiya Yui e Oleg Platonov chegaram à Estação Espacial Internacional (International Space Station, ISS, na sua sigla em inglês) no início de agosto do ano passado, há cerca de cinco meses. O plano inicial era uma estadia de seis meses, como é habitual neste tipo de missões. Já houve alterações das missões a priori, mas nunca foi necessário antecipar uma extração daquele laboratório espacial. O astronauta que se terá “sentido mal” não foi identificado pelo administrador da NASA, Jared Isaacman, na conferência de imprensa de quinta-feira, nem foram explicados os sintomas que levaram à tomada de decisão inédita na história da ISS.
“Um dos membros da tripulação passou por uma situação médica no passado dia 7 de janeiro, mas já está estável”, confirmou o recém-empossado responsável pela agência espacial norte-americana, referindo que a nave espacial Dragon, da SpaceX, responsável pelo transporte dos astronautas até à Estação Espacial Internacional, deve chegar lá “algures nos próximos dias”. Jared Isaacman acrescentou que a Crew-11 completou “quase todos” os seus objetivos, mas que estão a avaliar “oportunidades de lançamento antecipadas” para a equipa que lhes irá suceder a bordo da ISS. “A Crew-12 estava prevista chegar a meio de fevereiro”, referiu.
A situação é inédita em mais de duas décadas de ocupação daquele espaço a cerca de 400 km de altitude, mas “não é uma emergência”, reforça o responsável pela saúde dos astronautas da NASA. “A melhor forma de avaliar a condição e de diagnosticar é na Terra”, explicou James Polk na mesma conferência de imprensa, frisando que apesar de não se tratar de uma situação que justifique acionar o protocolo de emergência — para o qual “todos os astronautas estão preparados” —, não deixa de ser um “risco”. “Estamos a agir com cautela”, continuou.
Ainda sem revelar detalhes, James Polk garantiu que o incidente “não teve nada a ver com o ambiente operacional” e que, quando aconteceu, “todos os astronautas foram auxiliar o colega”. O Chief Health e Medical Officer da NASA frisou que a alteração ao estado de saúde do astronauta “não estava relacionada com qualquer operação a bordo” da Estação Espacial Internacional. “Os membros da tripulação são testados em todos os ambientes operacionais” antes de irem para o Espaço, acrescentou, sublinhando, novamente, que todos aqueles quatro astronautas — dois norte-americanos, um russo e um japonês — estavam “preparados para um caso de emergência”.
Apesar de “todos estarem a agir tal e qual seria esperado”, Jared Isaacman admitiu que vão “certamente aprender com esta situação”, seja para implementação imediata nos protocolos que dizem respeito às operações na Estação Espacial Internacional ou na “base lunar” que a NASA tem o objetivo de estabelecer nos próximos anos. O administrador da agência norte-americana ainda não revelou estimativas para o regresso destes quatro especialistas, mas assegurou que a saída de órbita vai decorrer de forma “normal”, não sendo esperadas quaisquer alterações ao procedimento — além da antecipação da viagem.
A bordo ficarão apenas três astronautas que partiram de Baikonur, no Cazaquistão, no final de novembro, à boleia do foguetão russo Soyuz. Durante este próximo mês — ou menos, dependendo da possibilidade de antecipar a chegada da Crew-12 —, Sergey Kud-Sverchkov, Sergey Mikayev e Christopher Williams serão os únicos a habitar a Estação Espacial Internacional.
Os astronautas que integram a Crew-11, Zena Cardman, Michael Fincke, Kimiya Yui e Oleg Platonov
Como é que a Estação Espacial Internacional está preparada para casos de emergência médica?
“Todas as naves espaciais estão equipadas para qualquer condição que possa surgir naquele ambiente de microgravidade”, garantiu o administrador da NASA, Jared Isaacman. “Mas a Estação Espacial Internacional está ainda mais preparada” para estes casos hipotéticos, continuou. Edson Oliveira, um dos fundadores do Centro de Estudos de Medicina Aeroespacial da Universidade de Lisboa e membro do Medical Board da Agência Espacial Europeia (ESA), explica ao Observador que a bordo existe um kit médico, com medicação variada, bem como outros equipamentos que podem ser utilizados em caso de emergência médica.
“Todos os astronautas têm treino de paramédico, portanto sabem cateterizar uma veia, sabem fazer uma reanimação, manipular um ecógrafo”, afirma o especialista. Quando os conteúdos do kit não são suficientes para resolver a situação médica que têm em mãos, têm à sua disposição um estetoscópio, um desfibrilhador automático e ainda um pequeno ventilador. “Com este ventilador, existe a possibilidade de fazer uma intubação e de estabilizar a pessoa durante algumas horas. Mas durante todos estes processos os astronautas mantêm contacto com o flight surgeon, que está cá em baixo”, acrescenta.
Cada astronauta tem um flight surgeon alocado, um profissional de saúde que acompanha o seu estado de saúde tanto no período de treino, antes da missão, como à distância quando vai para o Espaço. Contudo, “a capacidade de diagnóstico não vive na ISS”, acrescentou o responsável pela agência norte-americana naquela conferência de imprensa. “É claro que se trata de uma condição médica séria, e é por isso que estamos a seguir esta opção [de terminar a missão mais cedo]. O astronauta encontra-se estável, mas não temos forma de o diagnosticar e tratar adequadamente a bordo da Estação Espacial Internacional”, afirmou Jared Isaacman.
“Se um dos membros da tripulação fosse um médico, nada seria diferente”, referiu Isaacman, reiterando que todos os astronautas escolhidos para integrarem uma missão na Estação Espacial Internacional são “frequentemente treinados para cenários de emergência”.
Este caso será resolvido “nos próximos dias” com a retirada da tripulação um mês antes do planeado, mas os responsáveis da NASA garantem que não se trata de um cenário de emergência. “Existe um protocolo específico para situações mais urgentes”, mencionou o administrador norte-americano. “Têm sempre de vir pelo menos dois astronautas de uma vez”, explica o também neurocirurgião Edson Oliveira. Salvo raras exceções, costuma existir sempre uma nave espacial ligada à ISS — seja uma Dragon da SpaceX ou uma Soyuz da Roscosmos — e, em caso de emergência médica a bordo, a partida não pode esperar dias. “Tem de acontecer imediatamente”.
É a opção mais rápida, pelos que os astronautas chegariam à Terra “em algumas horas”. Não é, no entanto, a opção que garante a maior estabilidade de um membro da tripulação em caso de verdadeira emergência médica. “Numa situação grave, em que um astronauta esteja ventilado, não há grandes condições para o transportar num Soyuz. É muito pequenino, é mesmo muito claustrofóbico e apertado. Na Dragon não é impossível, mas é “muito difícil”, confessa o especialista em medicina aeroespacial.
Foi com estas dificuldades em mente que se chegou a propor uma “ambulância espacial”. O plano passava pela conversão de um shuttle da empresa SierraSpace numa autêntica ambulância que, em caso de emergência, partiria imediatamente da Terra — sempre dependente das condições meteorológicas — com destino à ISS para receber o astronauta com problemas de saúde e, assim, conseguiam acomodar condições mais graves como, por exemplo, a de alguém que esteja ventilado, ao contrário do que é possível fazer atualmente. A ideia, no entanto, nunca avançou.
As dores de dentes constantes, uma hérnia e o “astronauta espelho”. Como são acompanhados os astronautas antes (e durante) uma missão?
Os equipamentos a bordo da Estação Espacial Internacional não têm a capacidade de confirmar o diagnóstico de um quadro clínico mais complexo. “Falta uma TAC, um Raio-X… Temos uma ecografia, que é limitadora como é óbvio, por isso só conseguimos apontar várias hipóteses. É sempre preciso fazer exames complementares para confirmar o diagnóstico”, afirma Edson Oliveira em declarações ao Observador. Apesar de o flight surgeon — ou um outro médico que esteja de plantão — estar contactável a qualquer momento, nem sempre é possível resolver todos os enigmas médicos.
É o que acontece neste caso específico. Não é conhecida publicamente a condição de saúde que levou ao fim abrupto da missão da Crew 11, nem o astronauta afetado, mas sabe-se que foi a incerteza relativamente ao diagnóstico que levou a coordenação da missão e os responsáveis da NASA a ordenar o regresso dos quatro astronautas “nos próximos dias”. Edson Oliveira, enquanto membro do Medical Board da Agência Espacial Europeia (ESA), diz que se trata de um caso de incerteza e de prevenção, não necessariamente de alarme.
“Em muitas situações, não podemos inferir hipóteses de diagnósticos para as quais não temos condições para confirmar”, afirma. “Não é por ser mais grave ou menos grave, simplesmente não é possível confirmar e é preferível não correr riscos”, acrescenta o especialista em medicina aeroespacial.
É por este motivo que o processo de seleção e de acompanhamento dos astronautas antes de cada missão é extremamente rigoroso. A seleção é feita ao longo de dois anos, onde os candidatos são sujeitos aos mais extensos testes físicos, exames médicos e psicológicos, para garantir que se despistam quaisquer condições que possam não ter resposta a 400km de altitude na Estação Espacial Internacional (ISS). “O processo de seleção é muito prolongado, porque tentamos que os astronautas sejam o mais saudáveis possíveis para mitigar riscos”, explica Edson Oliveira.
“Quanto mais saudáveis forem os astronautas selecionados, menor o risco de saúde”, resume o especialista, que esteve envolvido no mais recente processo de seleção de novos astronautas da ESA. Os critérios concretos a nível de quadros clínicos são confidenciais, mas o neurocirurgião português revela que “não é aceite a mínima doença” neste processo. “Os astronautas são as pessoas mais saudáveis possíveis, tanto mental como fisicamente naqueles dois anos”, continua.
“Claro que depois envelhecem e acabam por ter doenças, como toda a gente, mas esta análise garante que no momento em que passam para o corpo de astronautas, temos o mínimo número possível de patologias.” Mas os exames não se limitam ao processo de seleção. Como explica Edson Oliveira, o treino para uma missão dura normalmente dois a três anos e, ao longo de todo este processo, o astronauta é acompanhado pelo tal flight surgeon, que monitoriza não só o seu estado físico, como o prepara do ponto de vista nutricional e também mental.
“Também é preciso preparar psicologicamente tanto o astronauta como a família”, revela o especialista, indicando que quando se trata de um “rookie“, de um astronauta que vai para o Espaço pela primeira vez, é preciso prepará-lo para o “risco” da missão, bem como a sua família, na eventualidade de uma “fatalidade” no decorrer da estadia em órbita. “Todas as possibilidades são acauteladas”, acrescenta. E caso seja detetado um problema de saúde durante a preparação para a missão — seja no início ou no dia anterior à descolagem — há sempre um “astronauta espelho” que efetuou exatamente o mesmo treino e que está pronto a substituir aquele que se encontra impossibilitado para realizar a missão. Se forem quatro astronautas destacados para uma missão, estão oito no total a treinar para aquelas mesmas tarefas.
Mesmo com toda esta cautela no processo em Terra, existem condições médicas que só aparecem quando chegam ao Espaço. “Já houve hérnias discais agudas, já houve uma trombose que foi identificada por um astronauta a bordo, através de uma ecografia”, conta ao Observador. Neste último cenário, chegou a ser equacionada a hipótese de evacuar a equipa à semelhança do caso da Crew-11. Contudo, decidiram fazer a medicação “lá em cima” e acabou por “correr tudo bem”. Este caso do coágulo acabou mesmo por ser publicado numa revisa científica, por ter sido algo “inédito”.
Tanto no caso da trombose, como da hérnia e agora do astronauta da Crew-11, a comunicação das condições de saúde anómalas é feita ao flight surgeon, que está no centro de comando a acompanhar a missão “do ponto de vista médico”, mas “há toda uma equipa e falam entre eles”. Existe, também, um “comité médico internacional” disponível para discutir diferentes hipóteses, se se tratar de um caso “mais complexo”, explica o português. Mas, ao longo destes mais de 25 anos de ISS, o mais comum é haver casos de dor de dentes ou de ouvidos, e menos estas condições mais extremas, para as quais estão bem preparados.
▲ Lançamento do Falcon 9 da Space X, onde seguiu a bordo a Crew-11 com destino à Estação Espacial Internacional
SpaceX
A colaboração entre astronautas e cosmonautas e o futuro das operações na Estação Espacial Internacional
Mike Fincke, um dos dois cidadãos norte-americanos da Crew-11, já passou mais de 530 dias no Espaço. É um dos astronautas que tem mais experiência no ambiente espacial. O japonês Kimiya Yui está na sua segunda missão na Estação Espacial Internacional (International Space Station, ISS, na sua sigla em inglês), enquanto o russo Oleg Platonov e a comandante desta tripulação, Zena Cardman, fazem a sua estreia neste laboratório.
Se a NASA não deu muitos detalhes sobre a condição específica do astronauta afetado, a Roscosmos não se pronunciou e a JAXA limitou-se a dizer que o “seu” astronauta “não tinha qualquer problema de saúde”, de acordo com a emissora nacional japonesa NHK. Os cosmonautas russos e os responsáveis pela agência de Moscovo já manifestaram a sua disponibilidade para operar os sistemas norte-americanos a bordo da ISS, após a retirada da missão norte-americana.
Jared Isaacman, na conferência de imprensa desta quinta-feira, sublinhou a importância desta comunicação e da relação entre as várias agências espaciais que operam em simultâneo na Estação Espacial Internacional. “É por isso que nós levamos cosmonautas da Roscosmos nos nossos voos e é por isso que também segue um americano nos voos da Soyuz”, contou o responsável da NASA, para transmitir esta ideia de partilha de conhecimento internacional, que se revela crucial em circunstâncias como as de agora.
A decisão de abortar a missão um mês antes do previsto partiu da NASA, mas foi feita sempre em articulação tanto com a agência japonesa como com os russos, garantiu Isaacman. Agora, as “poucas” operações que ficam pendentes — nomeadamente as duas caminhadas espaciais (uma que foi adiada esta semana no dia em que o astronauta se terá sentido mal) —, serão levadas a cabo pela Crew 12.
“Vai haver uma breve pausa na execução destas tarefas — cerca de um mês — e os prazos de missão e o próprio programa tiveram de ser ajustados ligeiramente, mas não é um problema grave”, garante o cosmonauta Alexander Zheleznyakov à agência estatal russa TASS. Já Edson Oliveira diz que esta mudança dos planos “altera brutalmente a dinâmica” na ISS, pelo que a “pausa” de um mês terá um grande impacto nas experiências que estão a ser desenvolvidas.
É só a meio do mês de fevereiro que se esperava a chegada da nova tripulação da ISS. Contudo, dada esta situação, estão a ser avaliadas todas as possibilidades de modo a ter Jessiica Meir (NASA), Jack Hathaway (NASA), Sophie Adenot (ESA) e Andrey Fedyayev (Roscosmos) a bordo da Estação Espacial Internacional o mais cedo possível, para minimizar a quebra das operações.