PARTE II
Os talheres dos Lopes estão pousados. A refeição está praticamente no fim, falta apenas a sobremesa. Acabado o jantar, uma certa sonolência apodera-se dos presentes, embalados pelo calor de um aquecedor a óleo colocado no centro da sala. São dez e um quarto. Sobremesa: mousse de lima.
Dez e um quarto. Florêncio Araújo já só tem mais 45 minutos de descanso antes de começar a trabalhar. Pela segunda vez. Das oito às cinco, é funcionário de um posto de correios. Das onze às quatro ou cinco da manhã, é cantoneiro. “Não é agradável, mas quem tem dois filhos…”, desabafa, quando a reportagem do Observador o encontra, já depois da meia-noite e meia, a despejar caixote atrás de caixote no bairro da Picheleira, em Lisboa.
Todas as noites, o ritual de Florêncio e 22 colegas cantoneiros é o mesmo. Chegam ao posto de limpeza dos Olivais por volta das onze horas, assinam o livro de ponto, vestem as fardas, sentam-se brevemente na sala de convívio e põem a conversa em dia. A diferença de temperatura da sala de jantar dos Lopes para esta é evidente, mas nem por isso deixa de haver alguns confortos. Uma lareira – onde está atualmente o presépio -, várias mesas, sofás e poltronas, uma mesa de ping-pong e uma mesa de bilhar dão aspeto de alguma familiaridade a um espaço naturalmente frio.
Ao primeiro contacto, os cantoneiros são tão frios como o sítio que os rodeia. Homens e mulheres habituados à dureza da profissão, só com algum esforço é que os seus semblantes se relaxam e se vão tornando mais sorridentes. Poucos minutos depois das onze, reunidos numa sala decorada com pinos e sinais de trânsito, recebem os serviços para a noite que se avizinha. Florêncio, que só há seis meses recolhe o lixo das ruas, vai fazer a volta com Celestino Soares, que já leva 20 anos desta vida.
É a Celestino que se ouve um discurso menos hesitante e mais animado do que a maioria dos colegas têm. Ser cantoneiro “requer algum estofo e preparação”, comenta, quando, hora e meia depois de sair do posto de limpeza, já ajudou a despejar mais de meia centena de caixotes de lixo. “Aquilo que eu aprendi, tento incutir aos mais novos: cuidar da própria segurança. Levas com um caixote destes, vais parar ao hospital”, afirma peremptório. Ao seu lado, mais calmo, menos exuberante, Florêncio sorri vagamente. Para ele, a segurança é um conceito que já o acompanha há largo tempo. Quando o desemprego o apanhou “há um ano e tal”, era segurança de uma empresa privada.
“PODE IR LÁ METER UM DEDO”
O caminho do lixo até ao seu destino final faz-se com a indispensável intervenção dos cantoneiros, mas estes não vão a lado nenhum sem que alguém os conduza pelas ruas de Lisboa, muitas vezes estreitas, sem saída, com carros mal estacionados, a exigirem uma perícia e suavidade de condução que parecem pouco condizentes com a dimensão destes monstros verdes, os camiões do lixo, que todas as noites saem do Centro de Recolha de Resíduos dos Olivais.
Dez e um quarto. O posto de limpeza dos Olivais ainda é um local adormecido, mas no Centro de Recolha de Resíduos, no mesmo bairro e não muito longe, já há movimento. Daqui à casa dos Lopes há talvez dois quilómetros de distância. Lá, na sala de jantar, os convivas preparam-se para a mousse de lima. Aqui, o café é o melhor aliado destes homens, que despacham a assinatura do livro de ponto para poderem aproveitar o pouco tempo que têm para dois dedos de conversa com os colegas. É a única oportunidade que têm para tal, porque dentro de minutos cada um vai para as respetivas viaturas e só regressarão aqui quando já faltar pouco para o nascer do sol.
É quando a cidade começa a adormecer que este centro ganha vida. Por volta das dez horas, o parque de estacionamento, até aí silencioso, acorda com estrondo, com os rugidos dos camiões que são barulho inconfundível numa cidade cheia de ruído. A partir daí, a espertina, com ou sem café, é fundamental. Por mais obstáculos que pareça haver numa rua, nenhum caixote fica por recolher. “Pode lá ir meter um dedo”, ri-se José Castiço, motorista de um camião de lixo há 26 anos, garantindo que o seu veículo pode rasar os outros automóveis mas não bate de certeza.
Não se julgue José Castiço por uma só frase, nem sequer pelo típico “são muitos anos disto”, que atira depois, com um risinho pequeno meio encoberto pelo bigode. Conseguir enfiar o camião em ruas onde parecia impossível e fazer manobras em marcha-atrás como quem conduz um carro telecomandado é o seu dia-a-dia, mas uma ponta de orgulho não consegue evitar. Marília, uma das cantoneiras que hoje o acompanha, corta-lhe as manias. Diz Castiço: “o camião tem muita manha”. Diz Marília: “Mais manhoso que o camião é ele”. E solta a primeira risada da noite.
“A VIDA NÃO ESTÁ PARA GRANDES VOLTAS”
A princípio, Marília é como os colegas: poucas falas, cara desconfiada, concentrada apenas em despejar saco atrás de saco, caixote atrás de caixote. É assim a sua vida há mais de cinco mil noites. Chegou à recolha de lixo em 1999, ganhou o gosto por trabalhar à noite e nunca mais se foi embora. “Já tive hipótese de mudar e não o fiz. Neste momento, não mudava [de emprego]. Não vejo mais nada que pudesse fazer”, diz, tranquila, a mulher de 49 anos que se despediu de uma firma de limpezas para vir apanhar o lixo dos outros.
Há anos, quando aterrou no posto de limpeza dos Olivais, mulheres eram raras. O balneário feminino tinha sido acabado de construir – uma sorte, porque muitos postos ainda só tinham valência masculina. “No período noturno havia poucas mulheres, no diurno é que havia mais”, relembra. Hoje, à noite, contam-se quatro trabalhadoras entre o grupo de 23 cantoneiros dos Olivais.
Andreia Reisinho Costa
A acompanhar Marília na volta está Paulo, cantoneiro barbudo de gorro que também não parece ter grande disposição para conversas até que o motorista se torna o tema. Depois, também um sorriso se lhe rasga na cara. E há muitos motivos para sorrir nesta profissão? Paulo afiança que sim. “Tenho um filho com 10 meses e uma enteada com sete anos”, começa a contar. Quando não está a dormir ou a trabalhar, é com eles que gosta de estar. “O meu tempo é passado com a minha família. O tempo que não estou em casa, estou a trabalhar. E a vida não está para grandes voltas. Tenho um filho com 10 meses, quero acompanhar a sua infância”, diz.
Enquanto rabuscam o bairro da Encarnação, onde a cada dez metros o camião é obrigado a parar para recolher sacos de embalagens de plástico, Paulo e Marília vão passando em revista as dificuldades e desafios impostos pelo trabalho. Para Marília, o pior é a chuva. “No Inverno custa muito, com a chuva custa mesmo. Nessa altura é que há vontade de ir para casa, mas não pode ser”. A Paulo, o que mais o aflige é o desgaste físico e psicológico. Trabalhar à noite “afeta o raciocínio”, comenta, enquanto se tenta lembrar do seu número de telemóvel. Mas não é só a memória que sofre. “Todos os meses tenho de tomar uma caixa de vitaminas” para fazer frente à perda de peso e aos germes com que contacta todos os dias.
VANTAGENS E DESVANTAGENS DE SER INVISÍVEL
A época natalícia pode ser significado de embrulhos, de grandes almoços, enfim, de lixo. Mas isso não se reflete necessariamente na recolha. Os dados da Câmara Municipal de Lisboa revelam que há um aumento no volume de lixo produzido, mas não é significativo, até porque muitas famílias saem da cidade. E, no caso específico de 2013, o volume de resíduos recolhido foi metade do que é norma, devido à greve que os cantoneiros fizeram em protesto contra a reorganização administrativa promovida pela autarquia e que implicou a passagem de muitos trabalhadores para as juntas de freguesia.
Quando, na manhã de Natal e na manhã de Ano Novo, as pessoas saem de casa e encontram os caixotes de lixo (quase) vazios e as ruas varridas, é a estes homens e mulheres que se deve. Fantasmas na vida da cidade, o trabalho dos cantoneiros começa quando a diversão dos outros acaba, quando Lisboa já dorme.
Andreia Reisinho Costa
São fantasmas de carne e osso, sujeitos portanto às vicissitudes da condição humana. E sujeitos igualmente aos maus-tratos daqueles que desvalorizam este trabalho ou que, simplesmente, encontram prazer em não os deixar trabalhar. “Muitas vezes é complicado, lidamos com pessoas que começam a mandar vir, querem improvisar, temos de saber dar a volta à situação”, afirma Celestino numa rua do bairro da Picheleira, onde já houve problemas com algumas pessoas. Paulo, por exemplo, em cinco anos de serviço tem alguns episódios na memória que preferia não lembrar. “Vamos aos bairros sociais, atingem-nos com objetos que têm á em casa, ameaçam-nos fisicamente. Vamos aos bairros históricos, [há gente a] chamar nomes, mandar garrafas do que estão a beber…”.
A indisciplina das pessoas resolve-se através de várias estratégias. Não muito longe da zona onde Florêncio e Celestino fazem a ronda, algumas ruas passaram a ser percorridas no período diurno propositadamente, para evitar encontros indesejados. Apanhando os moradores a dormir, é logo às seis da manhã que os cantoneiros se deslocam a algumas áreas.
Andreia Reisinho Costa
Outro problema de indisciplina cidadã parece de resolução mais difícil. Em Lisboa, não são raras as paisagens de contentores completamente rodeados de lixo. Uma situação que a câmara municipal quer tratar com a criação de coimas, a partir de janeiro, que podem ascender aos 727 euros. Os cartazes de alerta já estão espalhados pelos contentores e ecopontos de toda a cidade, falta haver fiscalização eficaz. Segundo os cantoneiros que o Observador acompanhou, a própria autarquia já fiscaliza as situações de abuso e até apanha “muita gente”. Às vezes, através da montagem do puzzle de cartas rasgadas onde se lê o nome do prevaricador.
UM DIA
Meia-noite e vinte. Os Lopes dormem. Florêncio vai na sua décima hora de trabalho, somados os dois empregos. Mas nem por isso parece abatido. “Estou a trabalhar, mas não posso andar triste”, diz a sorrir. Nem há tempo para tristezas ou grandes reflexões. Este cantoneiro, pai de um filho com 3 anos e de outro com 15, que são quem o move, tem à espera mais de vinte caixotes numa só rua e muitas dezenas de outros até ao fim do turno, às quatro ou cinco da manhã, conforme o trânsito e a quantidade de lixo. Depois, é dormir três ou quatro horas e apresentar-se nos Correios às oito.
▲ Para levar menos de 1.300 euros de ordenado para casa, Florêncio Araújo só dorme três a quatro horas
© André Correia
“Passo mais tempo com eles [os filhos] do que com a minha mulher”, que só vê por breves momentos, ao fim da tarde, quando ela chega do trabalho, conta Florêncio. Apesar disso, as relações familiares têm-se mantido estáveis. “Quando chega a casa, a gente quer é descanso. Não me chateio com a minha mulher e com os filhos. Um dia, se isso acontecer, está mal.”
Um dia. Um dia, diz, o que queria era ter um emprego que lhe desse o dinheiro que faz nos dois que tem atualmente, e que não chega a 1300 euros. Até lá, continuará a arranjar energia para as três horas de sono, as dezasseis horas de trabalho, os jogos de futebol com os amigos ao fim de semana e os muitos caixotes que tem de virar. Ao fim do dia, “só agradecemos estar de boa saúde”, comenta Celestino. E Florêncio, sempre com a calma que o caracteriza, acena com a cabeça.