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Resíduos

© Hugo Amaral/Observador

Resíduos

© Hugo Amaral/Observador

Nenhum resíduo se perde. Todos se transformam

Onde vão parar os resíduos da família Lopes? Depois de recolhidos durante a noite, a grande maioria do lixo recolhido em Lisboa vai para incineração. Mas existem outros destinos mais ecológicos.

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PARTE III

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Um cheiro adocicado, como açúcar a derreter no fundo de uma panela. Por breves instantes, é agradável. Mas o excesso não tarda a chegar às narinas. A fermentação do resto das bebidas alcoólicas que fica no fundo das garrafas que são recolhidas nos ecopontos verdes cria um perfume exterior ao Centro de Triagem e Ecocentro do Lumiar. O cheiro é doce, tão doce que causa vómitos. Quando um camião vai despejar o material recolhido, ouve-se o característico ruído do estilhaçar do vidro.

Neste centro da empresa Valorsul, uma das principais empresas responsáveis pelo tratamento de resíduos em Lisboa, o papel dos ecopontos azuis e o vidro dos ecopontos verdes são recebidos, mas não são tratados nem triados. O Lumiar é só uma paragem momentânea para eles. Depois são encaminhados para centros especializados de triagem. O processo de reciclagem propriamente dito só ocorre nas empresas que produzem novos produtos. O papel de jornal, por exemplo, depois de triado e compactado, só é transformado em papel higiénico pela própria empresa que o produz, e não por uma empresa intermediária.

Só os resíduos provenientes do ecoponto amarelo é que são triados aqui, resumidamente.

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No ano passado, cerca de 13 mil toneladas de embalagens do ecoponto amarelo foram recebidas neste centro. São muitos camiões do lixo, mais do que é possível contabilizar. No exterior do armazém estão espalhados alguns plásticos e papéis que voaram dos veículos que os transportaram para aquele local.

Entramos.

O cheiro, no interior, é diferente. Mais nauseabundo, algo em putrefação. A primeira imagem que encontramos: dezenas de fardos quadrados de plásticos compactados, com dois metros de diâmetro, estão arrumados logo à entrada. A máquina que lhes dá a forma parece ser uma versão primordial das que aparecem no filme infantil da Disney Wall-E. Mais atrás, está uma imensidão de plásticos por triar, que chega a ter altura de três homens adultos. Uma duna de plástico colorido.

João Paulino, responsável pela comunicação da Valorsul, guiou o Observador pelas instalações. Questionado se durante a semana do natal nota-se um aumento substancial de resíduos, o funcionário da Valorsul explica que não. Ecologicamente falando, não é um bom sinal pois estamos a falar de milhares de embrulhos de presentes que vão diretamente para os resíduos indiferenciados, quando estes podiam ser reaproveitados. “Sentimos um ligeiro aumento, mas nada que mereça destaque”, explicou.

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Subindo umas escadas que dão acesso a um passadiço que contorna o armazém, a perspetiva do espaço altera-se. Torna-se mais imponente. É engraçado pensar que no meio daqueles plásticos, metais, papéis estão também os resíduos que a família Lopes criou ao confecionar o jantar a que assistimos.

Uma passadeira transporta blocos retangulares de metal ferroso compactado. A olho nu, ainda dá para distinguir as diferentes marcas de bebidas que utilizam aquele tipo recipiente. A passadeira não pára, porque todas as peças estão interligadas num movimento perpétuo. Não se veem muitas pessoas, salvo as que fazem triagem de embalagens ou as operam as máquinas. Ao todo, trabalham 45 pessoas no Centro de Triagem e Ecocentro do Lumiar, sendo que este número já inclui membros da administração.

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Uma cabine, no topo de uma máquina que interliga várias passadeiras, parece um laboratório. Dentro, oito pessoas trabalham na triagem manual dos diferentes tipos de plástico. Tem fones nos ouvidos e máscara de proteção a tapar boca e nariz. O ar tem mais espessura que o normal, as narinas sentem o pó. Ao entrarmos na cabine, sorriem para as visitas. Mas logo têm que voltar ao trabalho. A luz fluorescente no teto faz as pupilas encolher rapidamente, provocando uma cegueira momentânea. Como autómatos, fazem movimentos repetidos com as mãos durante horas a fio, escolhendo o tipo de plástico que querem separar.

© Hugo Amaral/Observador

Já nas traseiras do armazém, voltamos a encontrar outra duna. Desta vez, é de papel e cartão. João Paulino explica que por vezes existe demasiado plástico no meio destes molhos e é preciso alguém andar “lá no meio a apanhar o plástico em excesso”. Uma espécie de montanhismo com fins ambientais. Uma pequena escavadora anda para trás e para frente a arrastar papel para uma passadeira, que está a despejar para dentro do contentor de um camião.

Este papel vai ser triado por outra empresa. E só depois é que pode ser reciclado. Mas já ai vamos.

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O sonho megalómano de uma criança. Dois homens sentados em poltronas, dentro de uma cabine envidraçada a mais de 20 metros de altura, cada um com um joystick que controla uma garra gigante, como nas máquinas de brindes que é possível encontrar em alguns cafés ou em festas populares. Cada vez que uma das garras se fecha, quatro toneladas de lixo são capturadas. O fosso com 19 metros de largura, 80 de comprimento e 12 de profundidade, parece uma banheira gigante a transbordar.

O trabalho destes homens é simples: alimentar os fornos da incineradora da Central de Tratamento de Resíduos Sólidos Urbanos da Valorsul, situada em São João da Talha, nos arredores de Lisboa. Em Portugal, só existem três incineradoras. No ar vagueia um cheiro pestilento, que passados poucos minutos entranha-se na roupa.

Em 2013, 918 mil toneladas de resíduos passaram por estes fornos. Por hora, são consumidas 28 toneladas. Por cada tonelada de resíduos queimada, são produzidos 200 quilos de escórias/cinzas, que depois também são aproveitadas em outros processos. Cerca de 70% dos resíduos recebidos pela Valorsul vão para incineração.

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© Hugo Amaral/Observador

Como no cockpit de uma nave espacial, a sala de controlo da incineradora tem dois funcionários a olhar para mais de 10 monitores. É possível controlar a temperatura dos fornos, a emissão de gases e a energia que está a ser produzida. A sala tem vista para a turbina gigante, maior que um camião tir, que produz a energia.

Os resíduos da família Lopes já estão muito distantes da sua origem, é certo. Mas são tudo menos inúteis: 2% da energia consumida nas casas das famílias portuguesas, em 2013, foi produzida nesta incineradora. Quando a família Lopes acende a luz do hall de entrada, ao entrar em casa, é justo dizer que os resíduos que produziram estão de alguma forma ligados àquela eletricidade. Tudo está interligado.

© Hugo Amaral/Observador

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© Fábio Pinto

Uma fábrica de triagem de papel e cartão pode mostrar o lado efémero de certas coisas. No meio de uma pilha de jornais, revistas e livros, é fácil distinguir a face do ex-primeiro-ministro José Sócrates ou a do nonagenário Mário Soares, que fizeram manchete nos últimos tempos. Mas nem Barack Obama escapa à triagem. Traz à memória uma frase do jornalista e poeta Manuel António Pina: “No caso do jornalismo, sabemos que aquilo que escrevemos no dia seguinte está a embrulhar o peixe.”

O “papel” é atirado por quatro homens, todos de cabelo branco, para uma espécie de trituradora que os corta em pedaços mais pequenos. A máquina funciona com tanta potência que bocados de papel são expelidos para fora mal acabam entrar. Os papéis já cortados caem numa passadeira que depois transporta-os para a prensa. Lentamente, surgem fatias de papel compactado.

António Reis, gerente da empresa Gonçalves & Marques, em Arruda dos Vinhos, explica que a “apara branca”, as folhas em que não foi impresso muito conteúdo a cores, são as que valem mais, pois são as que necessitam de menos tratamento para serem reaproveitadas. “A fábrica é que transforma, a gente seleciona”, explica António Reis. “São as marcas que fazem mesmo a reciclagem”, acrescenta.

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A “apara tipográfica” – jornais, livros, revistas – é a que vale menos. “Pode ser utilizada para fazer papel higiénico, guardanapos ou toalhas de mesa dos restaurantes”, diz. Já o cartão pode ser utilizado para fazer os “cadernos de capa dura”.

Por mês, a empresa familiar de António Reis “enfarda” 130 a 140 toneladas por mês. No final do ano, são quase 1700 toneladas. O principais fornecedores de papel para triagem da empresa de António Reis são gráficas. “Todos temos clientes diferentes”, diz, quando questionado porque não vai a outras centrais de reaproveitamento. É um modelo de negócio.

O papel dos jornais vai ser transformado em guardanapos. Talvez vá voltar de forma disfarçada, digamos, à casa da família Lopes. Nada se perdeu, transformou-se. O ciclo dos resíduos contínua.

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