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Jonathan Crickx, diretor de comunicação da UNICEF na Palestina

"Os meses de desnutrição vão ter impacto no cérebro e no crescimento das crianças". Entrevista ao diretor de comunicação da UNICEF em Gaza

Primeira grande tempestade expôs fragilidades do cessar-fogo. UNICEF dá prioridade à preparação para o inverno, água limpa e educação. Entrevista a Jonathan Crickx, diretor de comunicação na Palestina

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“Eu conheci uma menina pequena, de três anos, Bisan. Ela é muito querida, mas tem frio — só tem um par de calças de fato de treino e os pais encontraram um casaco que é demasiado grande. Está suja, não tem onde tomar banho, não tem aquecimento. Provavelmente não tem comida suficiente para comer todos os dias”. O relato sintetiza a realidade de uma criança palestiniana em dezembro de 2025 e é feito ao Observador por Jonathan Crickx, diretor de comunicação da UNICEF na Palestina, a partir da Faixa de Gaza, onde se encontra a cumprir mais uma missão no terreno. A última vez que Crickx tinha estado no enclave palestiniano foi em junho e, desde aí, com a entrada em vigor do cessar-fogo, “houve uma melhoria” das condições, reconhece. Ainda assim, a situação “está longe de ser perfeita”.

Nas últimas semanas, as condições em que vivem os palestinianos em Gaza foram testadas pela primeira grande tempestade da temporada, a tempestade Byron. As chuvas intensas, associadas a uma descida das temperaturas e ao vento forte, causaram inundações nas tendas montadas nos campos de refugiados e criaram charcos de água contaminada que levaram ao emergir de doenças. As crianças, como Bisan, são mais suscetíveis de serem afetadas pelas duras condições e pela chegada do inverno. Só no dia 12 de dezembro, a defesa civil de Gaza (órgão administrativo liderado pelo Hamas) deu conta da morte de três crianças por hipotermia: dois bebés com menos de um ano e uma criança de nove anos.

Estas condições de vida na Faixa de Gaza, ao fim de dois anos de ofensiva militar, orientam as prioridades da UNICEF — e de outras organizações humanitárias — no terreno, com foco para a preparação para o inverno, através da distribuição de tendas, lonas, roupas quentes e mantas, o tratamento de águas e a distribuição de água limpa. “A maior parte das mães, quando as encontro aqui em Gaza, é claro que pedem tendas e roupas quentes. Mas, fora isso, pedem é educação. Querem que os seus filhos regressem à escola”, acrescenta Jonathan Crickx, que reconhece que a informação pode ser surpreendente, mas salientando a importância da educação para fazer frente à realidade palestiniana.

"Foram feitos compromissos, sob os auspícios do Presidente Trump, e esses compromissos devem ser respeitados por todas as partes de forma a garantir que podemos avançar para a segunda fase onde possamos efetivamente começar a reconstruir a Faixa de Gaza."

Enquanto trabalhador humanitário, o porta-voz da UNICEF recusar comentar decisões políticas, notando que a missão da agência — “entregar ajuda humanitária às crianças de precisam” — é sempre a mesma, independentemente dos atores políticos. No entanto, reconhece que as prioridades definidas dependem da vontade política de várias partes envolvidas. “Foram feitos compromissos, sob os auspícios do Presidente Trump, e esses compromissos devem ser respeitados por todas as partes de forma a garantir que podemos avançar para a segunda fase onde possamos efetivamente começar a reconstruir a Faixa de Gaza”, realça.

Contudo, essa mesma ação política parece enfrentar um novo impasse. Apesar de tanto o Hamas como Telavive expressarem interesse em avançar para a segunda fase do cessar-fogo, ambas as partes acusam a outra de ser responsável pelo atual bloqueio. A troca de acusações voltou a acontecer nos últimos dias, depois de o Exército israelita ter matado um comandante do grupo palestiniano: o Hamas acusa Israel de violar o cessar-fogo com os ataques, enquanto Telavive acusa o grupo de estar a acumular mais armas em vez de preparar-se para se desarmar e ainda de não ter entregue o corpo do último refém israelita que morreu em Gaza.

“Com as chuvas e especialmente a tempestade é que vemos que as crianças estão completamente vulneráveis”

Já passa das 18h locais quando Jonathan Crickx conversa com o Observador por videochamada. Fora da tenda no sul da Faixa de Gaza, marcada com o logótipo da UNICEF, chove copiosamente, de forma quase ininterrupta, há 48 horas. O cenário é descrito com preocupação, enquanto fala sobre o aumento na quantidade de ajuda humanitária que entrou no enclave nos últimos dois meses, ao abrigo da trégua.

— Podemos trabalhar mais, podemos trabalhar melhor desde o início do cessar-fogo. Agora, há items que ainda são proibidos de entrar? Sim.

— Que tipo de items?
— Por exemplo, geradores de alta potência, que podem fazer funcionar as grandes bombas para bombear a água de um sistema de esgotos, de um charco de água suja. Outra coisa que não entra é algum do equipamento pesado, como grandes retroescavadoras que podem ajudar a remover [os detritos]. Enquanto falamos, consigo ver a chuva a cair e sei que, nas próximas horas, todas as tendas à nossa volta vão estar inundadas, porque não há sistemas de drenagem, gestão de águas residuais nos campos.

Jonathan Crickx, diretor de comunicação da UNICEF na Palestina

▲ Jonathan Crickx encontra-se a cumprir a primeira missão no enclave depois do cessar-fogo

Com a chegada da tempestade de Byron, os detritos dos edifícios danificados tornaram-se um risco de segurança: as chuvas fortes causaram a derrocada de vários edifícios, que mataram 13 pessoas por todo o enclave, relataram as autoridades civis palestinianas. O Hamas denuncia ainda que os limites à entrada de maquinaria pesada dificultam as buscas pelos corpos enterrados nos escombros, incluindo o do último refém israelita. Mas a tempestade Byron trouxe outras preocupações.

“Não me interprete mal, vimos o quão vulneráveis as famílias de Gaza estavam antes, mas com as chuvas e especialmente a tempestade é que vemos a extensão da situação e o facto de as crianças estarem completamente vulneráveis a ficarem doentes“, elabora. Bisan, a menina de três anos com roupa insuficiente apresentada no início, é um exemplo dessa vulnerabilidade das crianças às mudanças no clima. Crickx conheceu-a numa viagem recente à Cidade de Gaza, no norte do enclave, onde famílias inteiras vivem sem casas de banho, eletricidade, aquecimento ou roupas quentes em tendas montadas “mesmo ao lado” de charcos de água contaminada, descreve.

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▲ A tempestade Byron causou inundações nas tendas dos refugiados palestinianos

AFP via Getty Images

“Todas as crianças que foram afetadas por desnutrição aguda terão consequências para o resto da vida”

Da última missão que fez na Faixa de Gaza, em junho, Jonathan Crickx recorda os bombardeamentos e os ataques aéreos, que eram “extremamente intensos”. “Quando se está a viver numa tenda ou num abrigo, nunca se sabe…”, afirma. Mas do verão de 2025 o diretor de comunicação relembra ainda outro aspeto: “Toda a gente tinha fome, uma fome terrível“. Com a assinatura do cessar-fogo, o cenário melhorou um pouco, os produtos começaram a entrar no enclave e nos mercados e os preços dos produtos tornaram-se mais acessíveis.

Este novo cenário também parece ter contribuído para uma queda nos roubos de bens a bordo dos camiões de ajuda humanitária, segundo dados de várias organizações internacionais, sintetizados pelo The Guardian. No entanto, Jonathan Crickx salienta que não é possível indicar se a situação de fome, declarada na Cidade de Gaza durante o verão pelo IPC (Integrated Food Security Phase Classification, organismo internacional que monitoriza a segurança alimentar em zonas de crise), foi revertida.

“Estamos à espera do próximo relatório do IPC. Não temos a imagem completa e é o IPC que pode assegurar, enquanto órgão independente, o acesso a várias fontes e a sua análise para uma atualização. Provavelmente temos de esperar pela próxima semana ou a semana a seguir a essa para ter a imagem completa”, explica. A previsão concretizou-se: o relatório do IPC mencionado por Crickx foi publicado na passada sexta-feira e confirma que a situação de fome foi revertida, mas que a realidade continua a ser “muito frágil”, com milhares de palestinianos ainda em risco.

Em linha com a análise dos especialistas, Crixkx aponta os motivos que geram preocupação nas organizações humanitárias: produtos como “frango ou fruta ainda são muito caros” e, por isso, há pouca variedade na alimentação. “[As crianças podem ter acesso a] arroz e pão ou massa e arroz, mas não mais de dois grupos alimentares em oito”, elabora.

▲ A situação de fome do verão de 2025 melhorou com o cessar-fogo

Majdi Fathi/NurPhoto via Getty Images

— Ainda estamos a tratar milhares de crianças para desnutrição.

—  Estamos a falar de casos irreversíveis de desnutrição?
— Estamos a falar de desnutrição aguda. Não quero entrar [sobre se é] irreversível ou não irreversível [mas] todas as crianças que foram afetadas num momento ou noutro da vida por desnutrição aguda terão consequências para o resto da vida. Em primeiro lugar, desenvolvimento cognitivo, os meses de desnutrição vão ter impacto no cérebro. [Em segundo lugar], no crescimento. Provavelmente, nos próximos dez anos, vamos ver muitas pessoas mais baixas ou mais fracas. É uma das consequências mais claras, é uma reação do corpo. A terceira coisa é o sistema imunitário. Quando se está severamente desnutrido, durante esse período e num período a seguir, o sistema imunitário está fragilizado.

— Daí as preocupações com os charcos nos campos [de refugiados]?
— Exatamente, por causa da transmissão de doenças evitáveis transmitidas através da água [como diarreia aguda aquosa].

“A educação é o que lhes vai dar capacidade de construir o futuro, é o que lhes dá esperança”

Na última missão na Faixa de Gaza, em junho, de visita a um hospital do enclave, Jonathan Crickx conheceu Hasana. Meia hora antes de falar com o porta-voz da UNICEF, a menina de dez anos tinha sido informada que toda a sua família tinha sido morta num ataque aéreo israelita. Hasana sobreviveu, mas ficou com queimaduras em todo o corpo. A menina é uma de 200 mil crianças a quem a UNICEF providenciou apoio psicológico em Gaza, mas a organização estima que todas as crianças entre os 0 e os 18 anos na Faixa de Gaza, que contabilizam um milhão, precisem deste tipo de apoio. “É tão simples como isso”, remata Crickx.

Neste sentido, as escolas revelam-se essenciais para assegurar apoio psicossocial às crianças, explica, notando que este trabalho já era feito muito antes da “escalada das hostilidades em Gaza”. O porta-voz recorda esse trabalho numa missão de junho de 2023, meses antes da ofensiva israelita que começou depois do 7 de outubro. À data, Crickx conheceu Doa, uma criança de oito anos que desistira da escola em 2021, por não saber ler ou escrever, o que a tornava motivo de chacota entre as restantes crianças, mas que foi integrada num programa de educação da UNICEF. Jonathan lembra Doa como uma história de sucesso.

“Com a educação de recuperação e o apoio psicossocial, quando a conheci [em 2023] ela estava a escrever num quadro preto numa sala de aula. E ela era, realmente, a criança mais feliz do mundo. Ela foi capaz de lidar com os obstáculos que tinha enfrentado e, com o apoio certo, regressar à escola. E é isto que temos de fazer, mas agora com 650 mil crianças“, elabora.

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▲ A UNICEF ajuda mais de 100 espaços de ensino temporários na Faixa de Gaza

AFP via Getty Images

Na verdade, o trabalho da UNICEF neste campo nunca parou, nem mesmo durante a ofensiva militar. As aulas eram realizadas em “espaços de aprendizagem temporários” (TLS, na sigla em inglês), que muitas vezes eram visados por ordens de evacuação emitidas pelo Exército israelita. Ainda assim, a UNICEF conseguiu assegurar aulas a entre 50 e 80 mil crianças durante a guerra. Assinado o cessar-fogo, o número subiu para 115 mil crianças, em mais de 100 TLS.

“Não podíamos esperar para reconstruir as escolas”, garante Crickx. “Eu estive num destes TLS na Cidade de Gaza [no início de dezembro] e, numa turma de rapazes de 15 anos, todos tinham a mão no ar. Todo queriam intervir, responder às questões colocadas pelo professor. Há um grande apetite [por aprender]. Porque a educação, a escola, é o que lhes vai dar a capacidade de construir um futuro e, em último caso, é o que lhes dá esperança”, remata.

“O nível de destruição, a densidade da população e o facto de o território ser tão pequeno tornam as coisas mais difíceis”

O cessar-fogo na Faixa de Gaza está em vigor há mais de dois meses. Contudo, as mortes não pararam completamente. Para além das vítimas de acidentes, da fome e do frio, o Ministério da Saúde de Gaza dá conta de pelo menos 405 pessoas mortas em ataques israelitas desde então, o que totaliza mais de 70 mil palestinianos mortos no enclave desde outubro de 2023. Destas quatro centenas de mortes, mais de 70 são crianças, sublinha logo à partida Jonathan Crickx.

O Hamas olha para estas mortes como violações da trégua. Israel defende-se, dizendo que as pessoas mortas pelo Exército representam “ameaças” para as tropas: são consideradas como tal todas as pessoas que passam a “Linha Amarela“, que divide a Faixa de Gaza entre os territórios palestinianos e os territórios ocupados pelas forças israelitas. O acordo assinado em outubro previa que Israel ocupasse 53% do enclave, mas a forma como a fronteira foi desenhada com blocos de cimento amarelos faz com que as tropas ocupem na prática 58% do território.

Jonathan Crickx recusa comentar as trocas de acusações — “não quero entrar num ‘um disse isto’, ‘o outro disse aquilo'” —, mas aponta dificuldades nas operação da UNICEF: a contratação de profissionais, a “severa falta de financiamento”, dependente da comunidade internacional, e o tratamento de crianças que testemunharam horrores. “Os mesmos horrores que as crianças sudanesas ou as crianças israelitas no 7 de Outubro. Ninguém tem o monopólio do sofrimento“, nota. Contudo, admite que a missão na Faixa de Gaza enfrenta “desafios adicionais”: “O nível de destruição, a densidade da população e o facto de o território ser tão pequeno torna as coisas mais difíceis (…) Diria que são desafios adicionais, mas nada é intransponível”, conclui, ainda assim.

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▲ Blocos de cimento amarelo marcam os limites da zona ocupada pelas tropas israelitas

Anadolu via Getty Images

A segunda fase do acordo de cessar-fogo prevê o desarmamento do Hamas e a retirada total das tropas israelitas da Faixa de Gaza, assim como o fim definitivo das hostilidades. A retirada das tropas israelitas permitiria não só às organizações alargar o seu espaço de operações, mas aos palestinianos retomar atividades agrícolas, que antes do conflito representavam 10% da economia de Gaza. Isto não é possível neste momento, uma vez que 60% das terras agrícolas ainda se encontram sob ocupação israelita.

Jonathan Crickx aponta ainda a possibilidade de a segunda fase poder ser uma oportunidade para fazer entrar em Gaza “casas e salas de aula permanentes ou semi-permanentes que realmente ajudariam as pessoas a recuperar o equilíbrio”. Porém, assegura que, em qualquer situação, as prioridades atuais — enfrentar o inverno, água limpa e educação — se mantêm inalteradas. “A UNICEF começou a trabalhar na Cisjordânia e na Faixa de Gaza em 1981. Vimos muitos atores políticos e ficámos sempre, trabalhámos sempre”, assegura.

Isso não quer dizer que a missão não seja “desafiadora”. E quando a vida de crianças depende do sucesso da missão — missão essa que, por sua vez, depende de vontades políticas —, os desafios são ainda maiores. “Demonstra as necessidades críticas que enfrentamos. Quando estive no norte de Gaza, fui a um hospital e tinha uma menina de um ano — nem perguntei o nome, mas ela tinha insuficiência renal. Essa menina provavelmente vai morrer se não houver uma evacuação médica ou não conseguirmos restabelecer um sistema de saúde a sério na Faixa de Gaza”, elabora. “Mas pegar na mãozinha dela e [saber] que ela vai morrer se não tiver o tratamento que precisa de ter…”. Aí, a missão também é “de partir o coração”.

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