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A tradição manteve-se. Tal como no primeiro mandato, a primeira visita de estado oficial do Presidente norte-americano, Donald Trump, foi à Arábia Saudita, onde se encontrou esta semana com o príncipe herdeiro, Mohammad bin Salman. No roteiro, seguiram-se mais dois países no Médio Oriente: o Qatar e os Emirados Árabes Unidos. Mas ao contrário do que aconteceu há oito anos, depois de Riade o chefe de Estado não se deslocou a Israel, o país considerado um dos maiores aliados dos Estados Unidos da América (EUA) na região — e esse gesto está a ser interpretado como um sinal de afastamento do governo israelita liderado por Benjamin Netanyahu.
Nesta visita oficial do Presidente norte-americano, Donald Trump encontrou-se em Riade com o líder interino sírio, Ahmed al-Sharaa. Na primeira reunião entre o chefe de Estado dos EUA e o principal rosto do novo regime após a queda de Bashar al-Assad em meados de dezembro do ano passado, Trump levantou todas as sanções aplicadas à Síria. Foi até dado o tiro de partida para a normalização das relações entre Washington e Damasco, sob os auspícios sauditas, o que parece ser a entronização do novo poder sírio.
Além da diplomacia, esta viagem foi uma oportunidade para fazer negócios. Em Riade e nos restantes países do Golfo, Donald Trump aproveitou os encontros para assinar contratos milionários. Na Arábia Saudita, o Presidente norte-americano fechou investimentos na ordem dos 600 mil milhões de dólares (cerca de 536 mil milhões de euros) e espera-se que também faça o mesmo no Qatar e nos Emirados Árabes Unidos, onde as empresas que fundou — agora geridas principalmente pelos filhos — estão a prosperar.
▲ Presidente dos EUA fez negócios com o príncipe herdeiro saudita
ALI HAIDER/EPA
Neste contexto, levantaram-se várias dúvidas sobre um possível conflito de interesses, que foi já desmentido pela Casa Branca. Porém, além dos negócios, há também um polémica a manchar a ida de Donald Trump ao Médio Oriente. O chefe de Estado admitiu aceitar uma aeronave Boeing-747 oferecida pelo Qatar, o que motivou várias críticas dos opositores, uma vez que esta pode ser encarada como uma tentativa de influência política de Doha sobre os Estados Unidos.
Defesa e inteligência artificial. Os negócios de Trump nos países do Golfo
A comitiva que acompanhou Donald Trump aos três países do Golfo contou com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, o secretário do Comércio, Howard Lutnick, o secretário da Defesa, Pete Hegseth e o secretário de Estado, Marco Rubio — que não vai poder ir aos Emirados Árabes Unidos, dado que vai estar presente na reunião extraordinária da NATO na Turquia. A acompanhar esta delegação norte-americana estiveram também os principais rostos das grandes multinacionais norte-americanas, que almoçaram esta terça-feira em Riade com membros da coroa saudita e empresários.
Segundo a Casa Branca, estiveram presentes no almoço o dono do X e da Tesla (Elon Musk) e os diretores da OpenAI (Sam Altman), da Boeing (Kelly Ortberg), da Google (Ruth Porat), da Coca-Cola (James Quincey), da IBM (Arvind Krishna), da Uber (Dara Khosrowshahi) e da Nvidia (Jensen Huang), entre muitos outros. Foi, por isso, um almoço de negócios, para discutir possíveis sinergias entre os dois países, em particular na questão da inteligência artificial.
▲ Milionários, como Elon Musk, estiveram na Arábia Saudita
AFP via Getty Images
A Casa Branca divulgou depois o resumo dos acordos assinados, que incidem “nas áreas da segurança, da liderança tecnológica, do acesso à infraestrutura global e de minerais críticos”, assim como na “indústria da Defesa”. Neste último ramo, a Arábia Saudita vai adquirir equipamento de guerra na ordem dos 142 mil milhões de dólares (cerca de 127 mil milhões de euros) “a mais de uma dezena de empresas norte-americanas”. O investimento é massivo e Washington frisa que está a “atrair negócios e a fazer acordos justos de comércio para acelerar o emprego norte-americano e a prosperidade”.
As empresas norte-americanas, cujos representantes estiveram no almoço em Riade, também fizeram negócios avaliados em mil milhões de dólares. Por exemplo, as multinacionais dos Estados Unidos comprometeram-se a colaborar com um fundo estatal saudita para desenvolver tecnologias inovadoras de inteligência artificial. Riade também vai adquirir chips fabricados nos EUA.
Todos estes negócios ajudam a explicar o motivo pelo qual Donald Trump foi primeiro à Arábia Saudita e a outros dois países do Golfo. Esta quarta-feira, o Qatar anunciou ainda a intenção de comprar 160 aeronaves da Boeing, num negócio avaliado em 200 mil milhões de euros (cerca de 178 mil milhões de euros). “No manual de Trump, os estados do Golfo cumprem todos os requisitos. Eles estão dispostos a investir biliões na economia norte-americana e a gastar quantidades colossais nos sistemas de armamento norte-americano”, explica à CNN internacional Hasan Alhasan, membro do think tank International Institute for Strategic Studies.
Porém, os críticos da presidência notam um possível conflito de interesses. A Trump Organization, o conglomerado de negócios do magnata gerido pelos filhos, tem feito vários investimentos nos países do Golfo. Na Arábia Saudita, em Riade, ficou acordada a construção de uma Trump Tower de 80 andares, enquanto em Jeddah ficou recentemente fechado um projeto imobiliário que vale milhões de dólares. No Qatar, a empresa de Trump ficou responsável pela construção de um resort de luxo de golfe, enquanto no Dubai também haverá uma Trump Tower — que terá, segundo o Guardian, a “piscina exterior mais alta do mundo” e vista para o Burj Khalifa (o edifício mais alto do mundo).
Alguns destes negócios foram finalizados pouco depois de Donald Trump ter regressado à presidência. E isso levantou várias questões sobre a possibilidade de o Presidente norte-americano estar a beneficiar a família quando assina acordos com os países do Golfo. Em reação, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, recusou este cenário: “O Presidente apenas age consoante os interesses do público norte-americano, colocando o país em primeiro lugar e fazendo o melhor para o nosso país.”
“É francamente ridículo que qualquer pessoa sugira que o Presidente Trump faça alguma coisa para benefício próprio”, prosseguiu Karoline Leavitt, que argumentou que o chefe de Estado “deixou uma vida de luxo para [ir para] o serviço público”. Nem todos concordam, ainda assim. Em declarações à Associated Press, Timothy P. Carney, membro do think tank conservador American Enterprise Institute, notou que, mesmo que o chefe de Estado “não esteja a gerir os negócios”, ainda “lucra se correrem bem”. “Quando ele deixar a Casa Branca, a empresa vale mais e a sua fortuna pessoal aumenta.”
▲ Pode haver possíveis conflitos de interesses entre os negócios de Donald Trump e os países do Golfo
ALBA VIGARAY/EPA
Donald Trump está também debaixo de fogo por reconhecer que pode aceitar uma aeronave como presente da família real do Qatar no valor de 400 milhões de dólares (cerca de 358 milhões de euros). O caso pode criar problemas ao Presidente norte-americano, por causa da cláusula de emolumentos da Constituição que proíbe que funcionários públicos recebam qualquer “presente, verba, cargo ou título de qualquer rei, príncipe ou estado estrangeiro”.
Como a Arábia Saudita usou a sua posição para aliviar as sanções à Síria
Independentemente das polémicas, os países do Golfo são, no entender de Donald Trump, um aliado estratégico importante. À ABC News, Jon Alterman, membro do think tank Center for Strategic and International Studies, nega a ideia de que sejam apenas “países pequenos e ricos que dependem dos Estados Unidos para segurança e proteção”. “Os países do Golfo veem-se de forma diferente e o Presidente está a sugerir que também os vê de forma diferente” — como um “centro de poder global” que pode contrabalançar a influência da China.
A primeira viagem oficial mostra precisamente isso. E os países do Golfo vão fazer tudo para avançar as suas agendas junto à administração norte-americana. À cabeça, está a desconfiança que têm do Irão e os riscos de uma escalada no Médio oriente. Face ao primeiro mandato de Trump, a estratégia destes países alterou-se: se entre 2016 e 2020 havia um esforço para isolar Teerão, agora há a tentativa de manter relações cordiais com o regime teocrático.
▲ Trump com o emir do Qatar, Tamim bin Hamad al-Thani
AFP via Getty Images
Com mediação chinesa, a Arábia Saudita e o Irão reataram relações em 2023. Os Emirados e o Qatar têm-se aproximado do regime iraniano; se Abu Dhabi intensificou a cooperação económica, a guerra em Gaza aproximou Doha de Teerão. Assim sendo, os países do Golfo vão tentar influenciar Donald Trump a avançar em negociações com o Irão no que toca ao programa nuclear iraniano, de forma a diminuir as tensões.
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“Quer a Arábia Saudita, quer os Emirados, decidiram que a sua prioridade é o investimento económico e dependerem menos [do setor] energético. Uma guerra contra o Irão é um grande perigo para tudo isso. Portanto, mudaram completamente [a sua abordagem] ao Irão”, justifica Ilan Goldenberg, especialista no Médio Oriente, à ABC News.
Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita nunca escondeu que quis estender os seus tentáculos económicos à Síria. Alvo de concorrência direta com a Turquia, que desejava influenciar o novo regime pós-Assad, Riade parece ter tomado a dianteira face a Ancara, apesar da distância geográfica. A coroa saudita organizou um encontro entre Donald Trump e Ahmed al-Sharaa, o atual líder sírio. O resultado consistiu no levantamento de todas as sanções aplicadas ao país, anunciado esta quarta-feira por Donald Trump.
▲ Ahmed al-Shaara encontrou-se com Donald Trump em Riade
AFP via Getty Images
“As sanções foram brutais e paralisantes, mas foram úteis na altura. Agora é o tempo de brilhar. Eu digo agora ‘boa sorte, Síria’. Mostra-nos algo muito especial”, declarou Donald Trump. Nas ruas de Damasco, várias pessoas saíram às ruas para celebrar o que pode ser efetivamente um recomeço para um país que ainda está a recuperar de uma longa e sangrenta guerra civil.
Nas ruas de Damasco, viam-se, além da nova bandeira síria, vários símbolos sauditas — o que mostra que a Arábia Saudita cumpriu o seu propósito e deverá ser a potência regional que vai suportar o novo regime. Em todo o caso, a coroa saudita e a administração norte-americana desejam também ganhar importantes contratos para reconstruir um país destruído. No entanto, Donald Trump frisou que o novo regime “ainda tem muito trabalho para fazer” para uma completa normalização das relações entre Damasco e Washington.
Sounds of #jubilation echoed through the streets of #Damascus on Tuesday evening as #US President Donald #Trump announced the lifting of sanctions on #Syria.@camille_knight1 has the story ⤵️ pic.twitter.com/uoL0qSaLId
— FRANCE 24 English (@France24_en) May 14, 2025
Israel fora do périplo. Fim da “lua de mel” entre Trump e Netanyahu?
Algum desse “trabalho a fazer” pelo novo regime sírio consiste em estabelecer relações diplomáticas com Israel, tal como Donald Trump tem tentado promover entre Telavive e Riade. O Presidente norte-americano voltou a sublinhar que gostaria de ver a Arábia Saudita a reconhecer Israel como Estado, na sequência dos acordo de Abraão, em 2020, onde os Emirados Árabes Unidos e o Bahrain chegaram a acordo para o reconhecimento do Estado judaico.
Porém, o governo israelita não parece tão entusiasmado. Apesar de Donald Trump ter garantido que avisou de antemão a Israel sobre o levantamento das sanções ao regime sírio, Telavive opôs-se a essa medida. Como escreve a Reuters, Telavive ainda olha como muita desconfiança para o líder interino da Síria e tem lançado ataques aéreos na regiões na fronteira.
Isto é um sintoma da relação mais tremida entre dois aliados. Embora a administração Trump reconheça que Israel é um dos seus maiores apoios no Médio Oriente, o Presidente norte-americano tem mantido uma relação mais fria com Benjamin Netanyahu. Tanto assim é que Donald Trump decidiu não incluir uma visita ao país no seu périplo no Médio Oriente.
▲ Relação entre Presidente norte-americano, Donald Trump, e primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, esfriou recentemente
SHAWN THEW/EPA
A relação entre EUA e Israel esfriou especialmente quando os norte-americanos anunciaram um acordo com os Houthis do Iémen para parar os ataques aéreos contra aquele grupo, incluído no “eixo de resistência” do Irão. O governo israelita não concordou com a decisão e assegurou que vai continuar a combater o grupo islâmico. Donald Trump também não poupou Israel das tarifas anunciadas no Dia da Libertação. E os acordos com os países do Golfo levantam dúvidas sobre se o chefe de Estado norte-americano está a desconsiderar Telavive.
O editorial do Times of Israel publicado esta quarta-feira condensa precisamente esse sentimento: “Ao elogiar a Síria, ao armar os sauditas, ao lidar com o Irão e com os Houthis, Trump relega para segundo plano as preocupações israelitas”. “O Presidente dos EUA está a fazer acordos, a tomar decisões e a formar alianças […] para um futuro geoestratégico com uma Israel marginalizada.”
Questionado sobre se estaria a fazê-lo, Donald Trump recusou essa hipótese. Os acordos com os países do Golfo são “bons” para Telavive, disse. “Ter uma relação como eu tenho com esses países… Penso que é muito bom para Israel”, esclareceu o Presidente. Ao Wall Street Journal, um dirigente israelita desvalorizou também a alegada tensão: “A relação está bem. Não está totalmente sincronizada, mas às vezes os parceiros no tango pisam os pés um do outro.”
Ao mesmo jornal, Yohanan Plesner, presidente do think tank Israel Democracy Institute, apresenta outra versão — a de algum desencantamento, apesar da aliança se manter. “O que os israelitas pensavam sobre uma presidência Trump era [que seria igual] à primeira presidência. Não digo que isto seja o fim da lua de mel, mas há o entendimento muito claro de que o Presidente Trump não é o primeiro-ministro de Israel, mas o Presidente dos EUA”.
Esta primeira visita oficial mostra que a proximidade aos países do Golfo vai manter-se nesta segunda administração Trump. Habitualmente discretas, estas nações vão continuar a influenciar a presidência norte-americana, estando ligadas por uma forte parceria económica. Israel continuará a ser um aliado; contudo, parece muito provável que o Presidente dos EUA não vá ouvir apenas Telavive caso tenha de tomar uma decisão sobre o Médio Oriente.