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Os vencedores, os vencidos e o acrobata da convenção do BE

José Manuel Pureza falou para todos, Catarina Martins falou para Ventura, Mariana Mortágua falou para si própria, Fernando Rosas falou para o passado e Francisco Louçã assobiou para o ar

Vencedores

José Manuel Pureza

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O novo líder do Bloco de Esquerda tentou ser tudo para toda a gente. “Em nome do Bloco”, pediu desculpa “ao nosso povo”, mas não se percebeu bem porquê, tendo em conta que José Manuel Pureza perdeu a primeira parte do seu discurso a explicar que Mariana Mortágua tinha feito bingo com a “estratégia flotilha”. Ecuménico, fez questão de repescar o slogan de Mortágua quando foi eleita pela primeira vez (a “vida boa”) e fez questão de repetir o novo slogan de Francisco Louçã (“salário, casa hospital”), ao mesmo tempo que elogiava Catarina Martins. No seu discurso, a candidata presidencial do BE já tinha dito: “Sorte a nossa de termos alguém que sabe falar de marxismo com o Papa Francisco”. É isso mesmo: Pureza quer ser popular com Marx e com Roma. Do discurso do novo líder ficou outra certeza: o Bloco quer atrelar-se à greve geral de dia 11 e vê esse dia como o início de “um outro caminho”. Aliás, o convidado mais aplaudido pela convenção foi o líder da CGTP. No fundo, quando for grande o BE quer ser o PCP.

Catarina Martins

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Foi aplaudida de pé pela convenção toda. Mais: Catarina Martins foi aplaudida com tanto entusiasmo e ruído que até foi difícil ouvir as frases finais da sua intervenção. Os militantes do Bloco deliraram há dias com o debate entre a candidata deles e André Ventura e deliraram este domingo com as referências aos “rufias indecentes”. Pode, portanto, concluir-se que está tudo esquecido. O Bloco já se esqueceu de que nas últimas eleições legislativas na liderança de Catarina Martins, em 2022, o partido passou de 19 deputados para cinco e perdeu, num dia, 250 mil votos. E o Bloco também já se esqueceu de que, nas últimas eleições europeias, com Catarina Martins como cabeça de lista, em 2024, passou de dois eurodeputados para um e perdeu mais de 150 mil votos. Apesar desse indesejável currículo, Catarina Martins foi recebida na convenção como um símbolo de esperança, de futuro e de vitória. Afirmou: “O modelo [de sociedade] não nos falhou, falhou o caminho para lá chegar”. Ninguém se lembrou de lhe perguntar porque é que “o caminho” falhou. E também ninguém se lembrou de lhe perguntar porque é que, ao longo dos seus nove anos de liderança, traçou “o caminho” que trouxe o BE até este falhanço. Catarina Martins saiu da convenção em ombros, sem ter de dar respostas difíceis.

Vencidos

Mariana Mortágua

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Mariana Mortágua parecia um dos convidados daquele programa famoso de entrevistas intimistas. Só lhe faltou dizer: “Estou como sou na Convenção do Bloco de Esquerda”. De facto, esteve como é. Subiu ao púlpito com o seu lenço palestiniano e começou o discurso a agradecer “o apoio à flotilha”. Depois, descreveu a forma como viu o mundo naqueles dias de navegação em direção a Gaza: aparentemente, todo o planeta se levantou em coro e em júbilo para aplaudir a “flotilha” e foi a ação homericamente corajosa da líder do BE que forçou vários países europeus, onde se inclui Portugal, a reconhecer a Palestina. Com olhos rútilos, sublinhou: “Não me arrependo de nenhum desses dias”. É precisamente esse o ponto. Mariana Mortágua não se arrependeu de nada e, por isso, como se dizia de alguém, não aprendeu nada e não esqueceu nada. À entrada da convenção, garimpou desculpas em todos os cantos: “O problema não é do BE, é da esquerda. O problema é em França, nos Estados Unidos e em todo o mundo. E não tem a ver com erros que possam ter sido cometidos no passado”. Mariana Mortágua quer continuar a ser como sempre foi — o Bloco de Esquerda é que, pelos vistos, não.

Fernando Rosas

O militante do Bloco de Esquerda, Fernando Rosas, durante a XIV Convenção Nacional do BE, no Pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa, 29 de novembro de 2025. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

JOSE SENA GOULAO/LUSA

O que mais sobressaiu da intervenção de Fernando Rosas foi uma certa sensação de impotência e uma grande dose de pessimismo. O fundador lamentou abertamente o facto de o Bloco nunca ter querido ser mais do que um “efémero e volátil partido de agitação”, incapaz de “criar raízes” nos movimentos sociais e sindicais, “um partido que toca e foge”. Rosas viu o futuro do Bloco e o futuro do Bloco não é bonito. “Não se iludam, camaradas: nada vai ser fácil ou rápido.” O próprio terá a sua generosa dose de responsabilidade no declínio do partido — ainda há uns meses, andava a fazer dancinhas no TikTok, caucionando uma estratégia eleitoral absurda. Apesar de tudo, quis, desta vez, ser a voz da consciência do partido, autor e protagonista de um último apelo. Acabou aplaudido de pé pelos bloquistas, é certo. Mas a sensação que fica é que a linha que defendia para o partido foi vencida há muito tempo.

Jorge Costa

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Era o grande ideólogo de Mariana Mortágua e é, também por isso, um dos grandes derrotados desta convenção. Aliás, tinha sido escolhido para ser o grande responsável por reconstruir o partido, algo que manifestamente não aconteceu. Ainda assim, e apesar de todas as evidências e de todos os camaradas que subiram ao palco a dizer que o ‘rei vai nu’, Jorge Costa apareceu no Pavilhão do Casal Vistoso a dizer algo que pode ser resumido em duas ideias: não foi o Bloco que falhou; foi o povo que escolheu mal; não foi o Bloco que perdeu; foi a maioria absoluta do PS que afastou as pessoas do partido. Num congresso onde houve uma rara, saudável e generalizada dose de autocrítica, Jorge Costa fez o papel de avestruz.

Rui Tavares

MARIA JOÃO GALA/OBSERVADOR

Justa ou injustamente, o líder do Livre tornou-se, por oposição a Catarina Martins e a Mariana Mortágua, o rosto de uma esquerda dialogante, positiva, de esperança e não de ressentimento. Os eleitores de esquerda premiaram-no e penalizaram o Bloco. E o que fazem agora os bloquistas? Escolhem alguém com um perfil em tudo idêntico ao de Rui Tavares. Nesse aspecto, José Manuel Pureza será um concorrente bem mais exigente do que Mariana Mortágua foi. Se o bloquista for bem sucedido, o Livre terá um problema pela frente.

António José Seguro

O candidato à Presidência da República António José Seguro participa no 3.º Fórum Profissional Liberal a decorrer no Porto, 26 de Setembro de 2025. JOSÉ COELHO/LUSA

JOSÉ COELHO/LUSA

Foi praticamente ignorado ao longo de todo a convenção — até a sua adversária direta, Catarina Martins, quando discursou, preferiu falar sobre e para André Ventura e Henrique Gouveia e Melo. José Manuel Pureza, o novo líder do Bloco, lá se lembrou dele para dizer que, ao contrário de Catarina Martins, Seguro acha que a “esquerda é uma ‘gaveta’ que não lhe assenta bem”. Pureza ainda citou a socialista Isabel Moreira para atingir Seguro. O antigo líder do PS precisa do voto útil da esquerda para acreditar numa passagem à segunda volta. Mas a esquerda — a acreditar pela reação deste congresso a Catarina Martins, à fidelização do PCP em torno de António Filipe e às fichas que o Livre apostou na energia em Jorge Pinto — parece unida pelo menos num ponto: Seguro não serve.

O acrobata

Francisco Louçã

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Quem diria? Francisco Louçã discursou durante quatro minutos e quarenta segundos na convenção do Bloco de Esquerda e não falou uma única vez sobre o “fascista na Casa Branca”, nem sobre o “processo de fascização que está a ocorrer”, nem sobre a “farra pornográfica” de Elon Musk. É interessante porque, há escassos meses, foram essas as razões invocadas por Francisco Louçã para se candidatar nas legislativas como cabeça de lista por Braga. Agora, talvez inspirado por estar a falar no complexo desportivo do Casal Vistoso, o omnipresente guru do Bloco de Esquerda fez um flic-flac à retaguarda. Afinal, Trump não interessa para nada, os Estados Unidos não interessam para nada e Elon Musk não interessa para nada. O importante é “casa, salário e hospital”, a nova trilogia do Bloco que Louçã repetiu por duas vezes no palco. Para o partido, é uma viragem de 180 graus no discurso. Mas, ouvindo Francisco Louçã, parece que a viragem foi de 360 graus e que o BE, feita a reviravolta, está onde sempre esteve. É assim: o acrobata tenta sempre cair de pé.

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