Os vencedores
Nuno Melo
Mesmo com o epíteto de salvador do partido, Nuno Melo chegou ao Congresso do CDS a ter de lidar com A irreverente, e por vezes insolente, Juventude Popular. Desde o Congresso de Lamego – quando o imberbe “Chicão” chegou a recomendar a cor das calças ao seu exército de “jotinhas” e os fez, um a um, irem a palco dizer que devia ser deputado – que não se via uma JP tão arisca. Mais do que uma crítica simbólica, a reivindicar presença dos jovens, a estrutura juvenil queria redefinir a estratégia do partido e vincular o Congresso a uma ida a sós às urnas em legislativas. Nuno Melo foi dizendo que não fazia sentido, que não liderava com as ideias dos outros, lembrou os aventureirismos que quase fizeram desaparecer o partido e ao fim da noite, a Juventude Popular acabaria por retirar a proposta. A voz grossa deu em saída de fininho. Melo levou a melhor e a sua moção foi aprovada com uma percentagem norte-coreana/albanesa (riscar o que não interessa) de 97,5% dos votos. A direção também foi eleita com 90% dos votos. Sai de Alcobaça como líder reforçado e, ainda mais importante para o senhor ministro da Defesa, com a relação com a AD intacta.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Paulo Núncio
Paulo Núncio foi o mais teimoso e abnegado na travessia do deserto que o CDS enfrentou quando esteve fora do Parlamento. Foram dois anos duros para o partido, mas Núncio não desistiu. Desde então foi sempre o líder parlamentar do partido e, logo a seguir a Melo, a figura com mais presença mediática. O seu peso no partido voltou a ser confirmado neste Congresso, tal como já tinha acontecido em Viseu. Teve até direito a duas intervenções do púlpito: uma primeira, muito aplaudida, e uma segunda utilizando uma figura regimental em que anunciou uma medida para as famílias. Um protagonismo que Melo lhe permite. Ao acumular a vice-presidência com a liderança parlamentar e por ter toda a visibilidade que procura (e que o líder fomenta), Núncio impõem-se, mesmo que a título informal, como uma espécie de número dois do partido.
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José Manuel Rodrigues
Sentado na Mesa horas a fio a ver desfilar jotinhas pelo púlpito a defender a moção da polémica, o presidente do Congresso acabou por intervir para evitar uma eventual votação de moções globais com o mínimo de desconforto para o líder. A dada altura da tarde de sábado usou a palavra para concluir: “Neste congresso não está em causa a liderança.” Que é como quem diz que não vale a pena levar a votos várias estratégias sem candidatos à liderança, já que os dois que existem têm as suas próprias. Deu a experiência na Madeira como exemplo de que é possível o CDS não se deixar extinguir em parcerias com a AD para sossegar os jotas e dar lhes razão que sim, senhor é preciso que o partido cultive a sua autonomia. A JP ainda continuou mais umas horas, mas já só a fazer render o palco do Congresso, porque acabou por não levar a moção a votos. Já se sabe que nisto dos Congressos nem tudo o que parece é e a intervenção vencedora de Rodrigues pode não ser mais do que um passe de dança na típica coreografia da unidade. Seja como for, acabou numa pirueta final com bom efeito.
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Manuel Monteiro
Nenhum dos ex-líderes do partido pareceu muito interessado no palco do Congresso. Não era propriamente o evento mais interessante para se estar neste momento: o partido está no Governo mas com influência reduzida, não há cargos no horizonte para distribuir, postos eleitorais para completar, o debate interno não passa do pouco entusiasmante onde-é-melhor-estar-daqui-a-três anos. Dá ideia que todos os ex perderam o interesse na vida político-partidária. Menos um. O regressado Manuel Monteiro (que voltou ao partido precisamente na era de Nuno Melo) voltou a fazer o gosto ao pé ao aparecer de surpresa e ao subir ao palco para discursar. Fez uma longa intervenção e, como sempre, muito doutrinária. Continua com contas para ajustar com quem levou o país para caminhos mais liberais, confundindo o eleitorado e sem deixar de provocar que a sigla tenha secundarizado a ideia do “Partido Popular” – o partido assumidamente de direita e eurocético, desconfiado com aprofundamento do projeto europeu, para onde quis levar o CDS na sua liderança. Pelo meio ainda acertou o passo aos “pesos pesados” do partido que não apareceram, dizendo-lhes que, nesse caso, apareceu ele, o “peso leve”. Uma tirada irónica que o coloca numa divisão exclusiva. É o único que está lá, mesmo quando os tempos estão mais difíceis – e os congressistas reconheceram isso, sendo um dos poucos discursos que levantou a sala num aplauso – mas foi sobretudo o único a deixar as cabeças centristas a pensar se para Monteiro o CDS é apenas uma memória de carreira ou se ainda se mantém uma causa de futuro.
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Os vencidos
Nuno Correia da Silva
Nuno Correia da Silva assentou a sua campanha na ideia de que o CDS devia ter mais voz. Lembrou que o partido não tinha força e que devia ser mais ouvido na coligação de Governo de que faz parte. Problema: ele próprio é que não conseguiu ter voz para forçar essas ideias: a moção de estratégia global teve apenas oito votos, num Congresso com cerca de 800 delegados inscritos. Tornou-se uma espécie de senhor 1%. Foi secretário-geral na liderança de Manuel Monteiro, mas o ex-líder nem uma palavra lhe deu. Em janeiro os jornais desportivos chegaram a escrever que ponderava candidatar-se contra Frederico Varandas à liderança do Sporting. Em abril, aparece como candidato à liderança do CDS. É uma espécie de Pedro Santana Lopes sem votos.
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Catarina Marinho
Desde o enfant terrible Francisco Rodrigues dos Santos que não havia uma liderança da Juventude Popular que desse tantas dores de cabeça à direção. É absolutamente legítimo que a JP apresente uma moção estratégica, como tantas vezes fez. O que se torna mais incompreensível — como registaram alguns dos pesos-médios presentes — foi o momento escolhido para fazer este contra-fogo ao líder Nuno Melo. A JP queria que o partido se comprometesse a ir a votos sozinho daqui a três anos e meio quando o mandato do Congresso acaba dentro de dois anos. Além disso, Catarina Marinho pareceu não perceber o estado de recobro em que o partido ainda está. Um desfile de jotinhas a ir ao palco dizer que a estratégia da atual direção está errada dificilmente teria outro efeito que não fosse fragilizar a liderança e, por arrasto, o próprio CDS. Saiu pela porta dos pequenos, como as da loja Imaginarium, ao retirar a moção já a noite ia longa após uma conversa com o líder. Marinho ainda teria um brinde com um requinte de malvadez de Melo: no dia seguinte, o presidente do CDS disse que – ao contrário do que sugeriu a líder dos jovens centristas – não negociou nada com a JP.
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Francisco Rodrigues dos Santos
Já passaram três Congressos desde que se foi embora e o partido não deixa de lembrar o ex-líder como uma espécie de pior presidente da História do CDS. Nuno Melo disse, em entrevista ao Observador, que o ex-líder gritava alto “CDS” e que agora “caminha para o socialismo”. E ainda acrescentou que não via televisão, por isso não acompanhava muito esse comentariado socialista. Paulo Núncio ainda foi mais criativo e disse que Francisco Rodrigues dos Santos está, de alguma forma, a ”começar a abraçar o preâmbulo da Constituição e o caminho para um socialismo que nós não percebemos ainda qual é”. Também do púlpito vários congressistas, incluindo Melo, lembraram esse “aventureirismo” de Chicão que quase matou o partido.
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O chefe
Luís Montenegro
A AD não tem o fulgor de outros tempos e a perda de peso do CDS faz com que a negociação política seja dispensável e tantas vezes esquecida numa relação acentuadamente assimétrica. É uma ferida aberta nesta fase da Aliança e o CDS mostrou, neste congresso, que essa dor não só vive à flor da pele, como se pode tornar num ressentimento político acumulado. Ir sozinho a votos é, ao mesmo tempo, uma tentação e um salto no escuro, sem saber se ainda é decisivo ou um mero figurante de luxo. Mas se o CDS não tem certezas do seu valor, também o PSD não sabe se o velho parceiro não é decisivo para manter a coligação na frente, sobretudo com sondagens tão apertadas. Luís Montenegro ainda pode ter assistido a este congresso relaxado, na cadeira de São Bento, mas não pode fingir que não ouviu o recado: o futuro da coligação não está resolvido. Não há nenhuma boa chefia de equipa que possa descurar, por muito tempo, a frustração de cada um dos seus elementos.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR