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Tocha e José Serra nos bastidores do podcast que apresentam e gravam em estúdio próprio, o Bitalk
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▲Tocha e José Serra nos bastidores do podcast que apresentam e gravam em estúdio próprio, o Bitalk

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Tocha e José Serra nos bastidores do podcast que apresentam e gravam em estúdio próprio, o Bitalk

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Pai e filho, a frente unida que lançou o primeiro fundo comunitário regulado pela CMVM — em que até um ourives investiu

José e Tocha Serra, pai e filho, fazem do empreendedorismo vida e lançaram o primeiro fundo comunitário regulado pela CMVM. O Angels Way convenceu até um ourives e um bombeiro sapador a investir.

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Histórico dirigente do Partido Comunista Português, antifascista que foi preso várias vezes a mando do Estado Novo, participante na histórica fuga da Fortaleza de Peniche em 1960, que também contou com a participação de Álvaro Cunhal, e combatente de Abril. Jaime Serra “não era político”. Jaime Serra “resultou em político”. José, um dos quatro filhos, lembra o pai, que morreu em 2022 aos 101 anos, como um “lutador pela liberdade”. “Não era político, à partida. Trabalhava no [Arsenal do] Alfeite. Começou a ser perseguido e teve de enveredar pela luta clandestina.”

Apesar de o pai ter tido “muita influência” sobre si, José Serra diz que nunca pensou em seguir uma vida política. Até porque “já não havia essa necessidade de lutar pela liberdade”, num Portugal pós-25 de Abril. Estudou na Interdom, escola para filhos de comunistas que viviam na clandestinidade, formou-se em jornalismo e chegou a exercer. Quando apresentou um projeto que ficou sem resposta — “nem positiva, nem negativa” — despediu-se e mudou de vida. “Nunca mais me empreguei”, conta. Passou a trabalhar por conta própria, sendo que a primeira empresa que teve foi uma editora de revistas.

Foi o primeiro da família a enveredar pela área do empreendedorismo. Mas não está sozinho. Os três filhos estão “envolvidos nos negócios”. Tocha, um deles, considera “natural” trabalharem todos juntos com “vantagens e desvantagens”. “A vantagem é que ao fim de semana resolvemos problemas de negócios. A desvantagem é que ao fim de semana resolvemos problemas de negócios. Mas os projetos que fazemos são a nossa vida. Fazemos porque queremos. No fundo, nem olhamos para eles como trabalho.”

▲ Tocha brinca ao dizer que começou a trabalhar com o pai em 1988, ano em que nasceu

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

José e Tocha Serra estão lado a lado, enquanto managing partner e executive partner, respetivamente, na capital de risco Olisipo Way, responsável pelo primeiro fundo de investimento comunitário regulado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). O fundo, criado para apoiar startups nacionais em fase inicial e denominado Angels Way, tem 436 investidores, que após avaliarem cerca de 40 empresas já conseguiram chegar a um consenso quanto à primeira investida. A escolhida foi a Granter AI, que usa a inteligência artificial para ajudar negócios a aceder a fundos europeus. O que a distinguiu das outras? “Foi aprovada”, brinca José.

Um ourives, um bombeiro sapador e um ex-GNR investiram no Angels Way

O Bitalk, podcast dedicado ao ecossistema empreendedor português que é apresentado por José e Tocha Serra e que ao longo de cinco anos de emissões recebeu convidados diversos, desde o almirante Gouveia e Melo ao músico Sam the Kid, foi o berço do Angels Way. É preciso recuar ao início de 2023 para chegar ao anúncio da criação do fundo, que foi feito num evento chamado Bitalk Summit, onde pai e filho gravaram episódios do programa ao vivo. Na primeira semana e meia após a abertura das inscrições, 400 pessoas mostraram interesse em investir no projeto. No final, o número já tinha subido e aproximava-se das mil.

“Houve uma grande adesão. Nunca fizemos publicidade, nem nada. Falámos, obviamente, no Bitalk e a conversa espalhou-se nas redes sociais. Depois, houve um processo longo, burocrático, para nós conseguirmos implementar o fundo. Desde criar uma sociedade de capital de risco a obter as aprovações da CMVM, a desenvolver tecnologia”, explica Tocha Serra, que recebe o Observador juntamente com o pai no escritório da Olisipo Way, capital de risco focada em investir na área tecnológica, que fica no mesmo edifício do estúdio que utilizam para gravar o podcast.

Enquanto esperavam luz verde para o fundo — aguardavam uma regulação europeia que “faltava transpor” para Portugal para que o mínimo de investimento deixasse de ser 50 mil euros e passasse a ser um euro — entre “10% e 15%” das pessoas que se tinham inscrito acabaram por desistir. Uma outra exigência levou à “esmagadora maioria do corte”: era necessário que os interessados tivessem Chave Móvel Digital. “É uma das tecnologias únicas no mundo, mas infelizmente ainda não há muitas pessoas que a tenham. Para nós era essencial porque através da Chave Móvel Digital conseguimos desenvolver uma plataforma a que cada um acedia, fazia login, nós verificávamos a identidade, moradas, números de contribuinte… e conseguimos fazer o report à CMVM automaticamente, muito mais facilmente”, explica Tocha, que diz que foi assim que “acabaram 436” investidores no Angels Way.

▲ O Bitalk já recebeu convidados como a ex-ministra Ana Abrunhosa e o eurodeputado João Cotrim de Figueiredo

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Se há fundadores de startups e empreendedores entre os mais de 400 investidores, também há quem entre neste mundo pela primeira vez. É o caso de Luís SimSim, bombeiro sapador de profissão e artesão nas horas vagas, que após tornar-se seguidor assíduo do Bitalk começou a interessar-se “muito” por “finanças pessoais, investimentos, ações e empresas”. “Achei excelente a oportunidade de entrar num fundo, num mundo que não é o meu, para aprender mais. E realmente está a superar a expectativa”, afirma, em declarações ao Observador, adiantando que investiu 2.400 euros no Angels Way (o dobro do ticket mínimo para entrar; o máximo eram 12 mil euros).

Também Augusto Dias, proprietário de uma ourivesaria na zona de Braga, acompanha atentamente o Bitalk. Com formação em informática, diz que sempre se interessou por “assuntos de negócios” e que ao longo dos anos fez alguns investimentos, nomeadamente em ações e em imobiliário. Decidiu investir no Angels Way por ser a “primeira vez” que teve a oportunidade de apostar num mercado que, por norma, “não está acessível” e por considerar que “o conceito é interessante”. “Há uma comunidade por trás, que pode partilhar ideias e eventualmente evoluir”, afirma, acrescentando que investiu entre 3.400 e 3.600 euros no fundo e que acredita que “o melhor ainda está para vir”.

Filipe Reina Fernandes foi GNR durante cerca de 15 anos. Quando conheceu o Angels Way estava em fase de transição, de deixar essa força de segurança e estabelecer uma empresa, a Windcredible, que aposta na produção e comercialização de turbinas eólicas. Decidiu investir neste fundo por “ser algo completamente novo em Portugal”, mas também por poder estar “envolvido no processo de decisão, na validação dos projetos”. “A minha opinião conta e faz a diferença. O princípio através do qual o fundo foi montado é muito diferente do que existe no mercado”, defende, revelando que investiu o valor mínimo (1.200 euros).

▲ Tocha Serra estudou no ISCTE e chegou a viver na China, quando trabalhava na True-Kare. "Foi desterrado", brinca o pai

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Para uma startup poder candidatar-se a receber um investimento do Angels Way, como aconteceu em março com a GranterAI, precisa de encontrar um angel que se torne numa espécie de padrinho e que a proponha à comunidade. Os investidores ouvidos pelo Observador, que dizem despender cerca de uma a duas horas por semana ao projeto, ainda não colocaram em cima da mesa nenhuma empresa, mas admitem fazê-lo no futuro. “Estou atento. Se surgir alguma oportunidade, algum colega, alguma pessoa que queira realmente aceder a este mundo, eventualmente farei essa proposta. A ideia é contribuir com negócios e ajudar a comunidade”, explica Augusto Dias, numa postura que está em linha com a de Luís e Filipe.

O trio de investidores não esconde que espera retorno financeiro quando o fundo chegar ao fim (tem um ciclo de vida de dez anos e 1,2 milhões de euros para apoiar 20 empresas), mas não se foca apenas nisso. “Um dos objetivos é rentabilizar o dinheiro investido. Não há que estar aqui a fingir. Mas, sem dúvida, que o know-how e o network, trocar umas ideias e contactos, é interessante”, defende Luís SimSim. “Quando se investe, o retorno financeiro é um dos principais motores. Mas depois há camadas adicionais que trazem valor e são interessantes do ponto de vista de quem investe”, afirma Filipe Reina Fernandes. Também Augusto Dias diz esperar retorno, mas isso “não é, nem de perto, nem de longe, o mais interessante”.

Um dia antes, quando conversou com o Observador, Tocha Serra já tinha adiantado que “a probabilidade do retorno financeiro não ser zero é a probabilidade de um fundo de venture capital“. Ou seja, “é muito baixa”. Por isso, tanto para o filho como para o pai, é “essencial” que, se não existir retorno quando o fundo acabar, os investidores sintam “valor só por estarem a fazer parte daquela comunidade”. “E se no final sentirem valor e ainda ganharem dinheiro… é como ir tirar um curso e no final a universidade pagar”, acrescenta.

▲ José Serra diz, entre risos, que é o filho que "manda em tudo"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A dinâmica de um fundo comunitário

“São 436 pessoas de áreas geográficas completamente diferentes, com profissões completamente diferentes, com experiências de vida completamente diferentes, que trazem valor às discussões com os seus vários pontos de vista”. A dinâmica do Angels Way, que criou uma plataforma assente em blockchain para que todas as decisões e operações sigam regras claras e fiquem registadas, é descrita por Tocha Serra. No final, após “várias fases de análise, de votação e de discussão” das startups propostas pelos investidores, existe uma votação.

Para que a empresa seja aprovada pela comunidade tem de reunir mais de 60% dos votos. O montante investido pelos angels pesa no número de votos que podem ter. “Metes mais, arriscas mais, tens mais palavra”, resume Tocha, adiantando que, no máximo, cada investidor só pode ter 10 votos. Terem conseguido chegar a um consenso para apostar na Granter AI leva o pai, José, a afirmar que já foi possível “provar que a comunidade consegue tomar a decisão de investir”. “Nós podíamos ter o fundo e durante três ou quatro anos não conseguir tomar uma decisão”, admite o filho, que revela que “os pontos de interrogação” do projeto eram precisamente a possibilidade de nunca chegarem a um acordo ou, pelo contrário, de esgotarem os investimentos muito cedo, nas primeiras semanas.

Passaram três meses e investimos numa [startup]. A nossa cadência é, mais ou menos, a de cinco por ano. Portanto, parece estar boa”, defende.

Para avançarem com o Angels Way, José e Tocha Serra tiveram de criar, através da Olisipo Way, uma sociedade de capital de risco — a OW Ventures — para o gerir, uma vez que as existentes “não conseguiam responder ao desafio” apresentado por um fundo que engloba uma comunidade com mais de 400 pessoas e tickets com valores baixos. Foi aqui que entrou em cena Luís Gutman, com quem trabalham há cerca de um ano, que chegou a ser “um potencial investidor” da Angels Way e que agora é managing partner da OW Ventures.

A criação da sociedade de capital de risco abriu, segundo Gutman, “portas para gerir fundos muito pequenos” além do Angels Way. “O nosso objetivo é posicionarmo-nos como uma gestora diferente das outras. Mais flexível, mais dinâmica, com uma visão de inovação no ADN”, afirma, adiantando que além do Angels Way a OW Ventures já gere outros fundos e tem outros alinhados “para começar também”.

▲ Tanto o pai como o filho consideram que "é cedo" para lançar um Angels Way 2.0

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Apesar de este entrave ter sido ultrapassado e de o Angels Way já ter arrancado, há ainda desafios por resolver. Tocha lança um: “As pessoas todas têm as suas vidas. Existe um entusiasmo inicial em qualquer relação. Daqui a seis meses, as pessoas continuam interessadas? E daqui a 12 meses?”, interroga. “Estamos na fase da paixão. Vamos ver se temos a fase do amor”, completa José, que deixa o filho tomar as rédeas da conversa com o Observador. Afinal, quando questionado sobre a dinâmica entre os dois em ambiente de trabalho, não deixou de dizer, entre risos, que “ele manda em tudo”.

O Angels Way terá uma década de vida, mas os investimentos deverão ser todos fechados nos primeiros três/quatro anos. A comunidade tem o objetivo de apostar em cerca de “cinco ou seis startups por ano”. O que acontecerá depois? “Angels Way número dois. Acho que [ainda] antes dos dez anos”, diz Tocha, provocando risos ao pai. Para os novos fundos que poderão vir a surgir, os angels originais “têm prioridade”, serão os primeiros a entrar, se assim pretenderem. Seguem-se os que ficaram na fila de espera, que mostraram interesse já após a “parte de captação” ou depois de ter sido anunciado o primeiro investimento. “Havemos de abrir a loja outra vez, mais à frente”, asseguram.

Questionados sobre se, face à fila de espera, ponderam lançar um próximo fundo em breve, José é o primeiro a responder e não hesita em dizer que “é cedo”. Tocha reitera e justifica: “Nós não estamos a fazer isto para ter fundos. A nossa métrica não são fundos. É a comunidade. O que nós queremos aprender é a fazer comunidade. Quando nós aprendermos a fazer bem a comunidade Angels Way, podemos replicar isso para outras.”

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