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TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

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Passados 15 anos, “quem disse que isto não batia?”: nos bastidores do regresso dos Macacos do Chinês

Um single, uma mixtape, dois álbuns e depois: silêncio. Agora, há novas canções e planos para o futuro. Estivemos com a banda antes e durante o concerto no Lux para descobrir como tudo aconteceu.

Quase 15 anos depois, os Macacos do Chinês estão de volta. Não é um dos regressos mais mediáticos entre os que têm marcado a música portuguesa nos últimos anos — em que se assistiu à reunião de bandas como os Da Weasel, os Ornatos Violeta ou a dos Buraka Som Sistema, que está a caminho — mas o coletivo da Amadora também é um fenómeno de culto à sua escala.

Após um primeiro concerto de retorno no NOS Alive, no ano passado, os Macacos do Chinês passaram ainda pelo Maré de Agosto, festival na ilha açoriana de Santa Maria, antes de organizarem um espetáculo em nome próprio. Voltaram esta quinta-feira, 6 de novembro, a uma casa que já os havia acolhido numa primeira vida — o Lux Frágil, em Lisboa — numa das primeiras performances que fizeram, e que antecipou o lançamento do álbum de estreia Ruídos Reais, em 2009.

“Lembro-me de ter andado a cortar canas e de as ter trazido para o palco do Lux, para compor um cenário”, diz Apache, produtor e multi-instrumentista do grupo, em declarações ao Observador. “Na minha cabeça a ideia era espetacular, mas depois a malta aqui não gostou e tivemos de cancelar.”

[o novo single, “’96”:]

Foi numa noite com curadoria da Enchufada, editora dos Buraka Som Sistema com que trabalhavam na altura. “Como jovens consumidores de bass music, estávamos mega excitados para tocar neste soundsystem, como estamos hoje”, diz o rapper Pité, que durante muito tempo assinou como Skillaz.

O ensaio de som do único concerto que planearam para a reunião

Muita coisa aconteceu ao longo de mais de uma década e meia, mas os Macacos do Chinês estão de novo no Lux Frágil. Encontramo-los perto das 18 horas, em pleno ensaio de som, enquanto músicos, técnicos e profissionais da casa tratam dos preparativos para a noite. Há um escadote instalado na pista de dança, estão mais luzes acesas do que o normal, os balcões dos bares servem de prateleiras para os mantimentos necessários para mais um serão no clube de Santa Apolónia. Seguranças, bartenders e outros funcionários começam a chegar aos seus postos de trabalho.

Pité, Apache, o rapper Drupez e o baixista e guitarrista Alx testam as canções em cima do palco. Desta vez, não trouxeram as canas para fazer a festa, mas compuseram o cenário com uma série de plantas em fila, na retaguarda dos músicos. Os convidados do concerto também estão presentes: o cantor Filipe Gonçalves, o rapper YoClichê e o músico Miguel Santos na guitarra portuguesa, ele que veio substituir Tiago Morna após o instrumentista ter deixado recentemente a banda.

“Tínhamos a oportunidade de ir tocar a Londres… Tínhamos de fazer mais músicas”, explica Pité. “Entrou o Alx, também o Tiago Morna para a guitarra portuguesa. Entretanto, o YoClichê fazia back vocals, por isso é que dizemos que é um membro honorário da banda. E, depois, na reta final, o Drupez começou a ter mais disponibilidade e voltou a estar connosco em palco. Agora, finalmente, a formação está sólida.”

“Põe um bocadinho mais de reverb na guitarra, como se estivesse na Boca do Inferno”, pedem ao técnico de som que vai ajustando os volumes e efeitos de cada instrumento e microfone. Os Macacos do Chinês interpretam as canções já em modo performance, com o brio de quem atua perante uma plateia. Mas o profissionalismo não invalida o ambiente de boa-disposição e descontração, ou não fosse esta uma banda de amigos de infância que estão finalmente reunidos.

A banda nunca anunciou o fim nem sequer tomou conscientemente essa decisão. As vidas de cada um dos músicos acabaram por ditar um hiato após o segundo álbum, Vida Louca, editado em 2011. O fator mais premente foi a partida de Alx para Singapura, onde viveu durante quase uma década, trabalhando como músico e professor de engenharia de som.

“Foi agora que os astros se alinharam para regressarmos, mas a vontade não é de agora, é de sempre”, afirma Apache. “Como temos uma equipa que é familiar aos nossos vários projetos, avançámos. Eu e o Apache com os MGDRV, o Pedro e o Alx também têm projetos a solo. E a reunião acabou por se dever, em grande parte, ao regresso do Alexandre, vindo de Singapura, que foi em dezembro”, complementa Pité. “Estávamos todos com esta vontade.”

[“Rolling na Reboleira”:]

Antes de aparecer o convite do NOS Alive, os Macacos do Chinês já planeavam um regresso em nome próprio com um concerto no Lux Frágil. “Não podíamos recusar o Alive e foi um concerto muito fixe”, diz Pité. “Foi muito feliz, vi lá muita gente a cantar os nossos temas e eu já não os cantava há 15 anos. Foi um momento muito bom. Mas devo admitir que hoje estou mais nervoso e com uma energia mais… Acho que vamos deixar ali tudo em cima do palco.”

A formação também se alterou de alguma forma. Além da saída de Tiago Morna, só nesta reunião é que Drupez é apresentado como um membro oficial da banda, embora já fizesse parte da história dos Macacos do Chinês. “Eu, o Apache e o Drupez somos os fundadores dos Macacos. Fizemos os primeiros temas no início do MySpace”, explica Pité. “Só que eu fui estudar para Cabo Verde”, acrescenta Drupez. “Depois voltei para Portugal, mas fui estudar para Braga. Então, era bastante difícil conciliar, não dava para vir todos os fins de semana e isso impedia que estivesse no dia a dia da banda.”

Com os três temas lançados em conjunto com o single Plutão cá fora, editados em 2007 pela vibrante Enchufada — alavancada pelo próprio sucesso dos Buraka Som Sistema, onde milita Riot, irmão de Pité e primo de Apache —, a fusão de uma série de géneros musicais em torno dos graves e do rap levou-os a receberem convites para atuarem no Reino Unido e, mais tarde, noutros países.

▲ "O objetivo é mesmo esse: fazer música, voltar a apresentar um EP e esperem por nós no próximo verão"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“Tínhamos a oportunidade de ir tocar a Londres… Tínhamos de fazer mais músicas”, explica Pité. “Entrou o Alx, também o Tiago Morna para a guitarra portuguesa. Entretanto, o YoClichê fazia back vocals, por isso é que dizemos que é um membro honorário da banda. E, depois, na reta final, o Drupez começou a ter mais disponibilidade e voltou a estar connosco em palco. Agora, finalmente, a formação está sólida.”

Os desafios de voltar ao ativo e os planos para editar um EP e regressar aos palcos

Ressuscitar uma banda em 2025 tem os seus desafios. Na sua primeira vida, os Macacos do Chinês não tiveram contacto com a massificação das redes sociais e as novas formas de comunicação. As dinâmicas humanas dentro de uma banda também são outra variável a ter em conta, mesmo para “um grupo de amigos”.

“Já nos conhecemos há imenso tempo e partimos dessa base, temos essa amizade, cumplicidade e compromisso”, diz Pité. “A junção desses ingredientes é que nos permite estarmos aqui hoje. Somos mesmo amigos de infância. Sentámo-nos a ver o ver o [documentário] Some Kind of Monster, dos Metallica, para perceber como é a dica”, diz, entre sorrisos. “E todos os dias fazemos uma sessão de terapia, se for possível, de conversa — nem estou a brincar. Porque mudámos todos como pessoas, as expetativas são outras, e o melhor foi tentar encontrar o equilíbrio entre o compromisso e a diversão. Todos os problemas ou quezílias que houve são sempre resolvidos com conversa e amizade.”

Por outro lado, em termos musicais, para este regresso ao ativo tiveram de operar um trabalho de “arqueologia” em busca de “projetos em computadores antigos, em formatos que já não existem, em plugins que ainda são dos anos 90”. “Foi um desafio técnico”, admite Apache.

Quando se reuniram para conversar “como amigos”, a discutir o que quereriam fazer e a perceber que direção cada um desejava tomar, fizeram o exercício de voltar a ouvir a sua discografia. “Obviamente que há temas datados, mas na grande maioria estava tudo fresco”, diz Alx. “Ficámos encantados por isso. E nesta busca de retirar os temas dos computadores, de arqueologia e informática, remisturámos tudo para tocar agora ao vivo. E uma das coisas que nos vieram dizer após o concerto do Alive é que está tudo a soar muito bem.”

“Muita gente diz-nos, por exemplo, que se calhar hoje uma música em crioulo já passa na rádio. E nós sempre tivemos essas bandeiras… Somos da Amadora, é um meio onde esta língua falada por muita gente, sempre achámos isso importante. E hoje sinto-me muito mais à vontade para propor certas coisas, seja ao público ou às rádios, porque vai haver um entendimento diferente. E isso também é uma das coisas que nos dão mais pica neste novo início.”

Pité diz que o feedback do público tem sido um “combustível” para esta jornada. “É claro que para nós foi muito importante. Mas, ao longo destes anos, por este Portugal fora, houve sempre gente a vir ter comigo e a falar-me de Macacos. Acho que não tivemos bem a noção do impacto que tivemos na altura.” Além disso, todos partilham a visão de que existe hoje um panorama musical e um público mais habituados a lidar com músicas de fusão que cruzam uma série de linguagens, num mundo cada vez mais pós-géneros.

“Muita gente diz-nos, por exemplo, que se calhar hoje uma música em crioulo já passa na rádio. E nós sempre tivemos essas bandeiras… Somos da Amadora, é um meio onde esta língua falada por muita gente, sempre achámos isso importante. E hoje sinto-me muito mais à vontade para propor certas coisas, seja ao público ou às rádios, porque vai haver um entendimento diferente. E isso também é uma das coisas que nos dão mais pica neste novo início.”

Além do mais, existe uma nova geração — com 20, 25 ou mesmo 30 anos — que nunca tinha tido a oportunidade de ver os Macacos do Chinês ao vivo, ou que nunca tinha sido apresentada à sua música. “Toda a gente, incluindo essa geração, está a reagir bem e é algo que nos deixa surpreendidos e satisfeitos”, conta Alx.

[“Plutão”:]

No Maré de Agosto, a atuar num ambiente com muitas famílias e crianças, convocaram o público ao palco para a apoteose de Babilónia, o tema que homenageia o centro comercial que é um dos ícones da Amadora. “Estiveram bué crianças em palco connosco, Macacos is for the children. E nós estivemos lá a curtir com elas, foi um concerto bem fixe e isso são bênçãos para nós. O concerto no Lux era o que tínhamos planeado desde a reunião. Mas estes que surgiram foram mind blowing, deram-nos ainda mais ambição para voltar a atacar”, conta Pité. “A vontade está lá, mas o mundo ainda nos tem dado catalisadores, mais do que aqueles de que estávamos à espera”, acrescenta Apache. “A nossa ideia era só estarmos juntos e a curtir e de repente há não sei quantas coisas a acontecer.”

Este não é só um regresso aos palcos. Precisamente para antecipar o espetáculo no Lux, os Macacos do Chinês lançaram no final do mês de outubro um novo single, ‘96, com Drupez e Pité a rimar nostalgicamente sobre os tempos de infância e a cumplicidade que mantêm até hoje, refletindo em simultâneo sobre as transformações que aconteceram e que foram observando ao longo do tempo.

▲ “Já nos conhecemos há imenso tempo e partimos dessa base, temos essa amizade, cumplicidade e compromisso”

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“Estávamos encalhados a fazer novos sons, ainda a descobrir a frequência em que estamos todos agora, e este som surgiu assim num dia de repente e depois escrevemos a letra”, conta Pité. “Mas foi muito importante porque confirmou que ainda temos a cena de Macacos dentro de nós”, acrescenta Drupez.

O principal objetivo para os próximos tempos é fazerem um “retiro criativo” para que se possam dedicar à exploração e criação de novas canções. “Não queremos ser uma banda de covers de Macacos do Chinês”, atira Alx, apontando ao futuro. “E este concerto não é apenas de regresso ou de celebração de um passado, é confirmar um legado e uma página que queremos virar, mas dar assim um último treat ao público que não nos ouviu nos últimos 15 anos ou que se calhar nunca nos conseguiu ouvir ao vivo”, diz Pité. “Queríamos ter essa oportunidade e também é uma prenda para nós estarmos aqui esta noite. A seguir ao retiro, já temos algumas coisas pensadas e queremos estar nos palcos. O objetivo é mesmo esse: fazer música, voltar a apresentar um EP e esperem por nós no próximo verão.”

Os bastidores do Lux, o jantar no Maçã Verde e o tão esperado concerto

A entrevista acontece nas traseiras do Lux Frágil, numa área técnica ao ar livre onde fica a porta para os artistas e se armazenam uma série de materiais, desde cadeiras a plantas. As grades brancas, por vezes enferrujadas pela proximidade com as águas do Tejo, sobem altas até um rolo de arame farpado. O cenário rude contrasta com o interior elegante do histórico clube lisboeta. “Parece uma prisão mexicana”, brinca-se enquanto se fuma um cigarro antes do jantar.

As memórias em torno do primeiro concerto dos Macacos do Chinês no Lux Frágil emergem naturalmente à medida que conversa puxa conversa. Foi naquela noite que YoClichê conheceu a futura mulher e mãe dos seus filhos, foi nessa mesma noite que Filipe Gonçalves combinou com Pité fazerem uma canção em conjunto.

O relógio aproxima-se das 19 horas e é tempo de ir jantar. A comitiva, que também inclui a manager Ana Borges (a agente de sempre da banda), os técnicos de som e de luzes e a equipa audiovisual, passa o parque de estacionamento em frente da discoteca, onde se vislumbra um enorme cruzeiro atracado, e atravessa a estação de comboios de Santa Apolónia para sair do outro lado. O destino? O mítico restaurante português que tantas vezes acolhe os artistas que tocam no Lux, o Maçã Verde.

Coberta por uma toalha de papel, está uma mesa reservada ao fundo da sala que percorre toda a lateral do espaço. O churrasco misto é o que sai mais rápido, mas há quem prefira lagartos ou iscas à portuguesa. Cada um tem a sua bebida de eleição — há quem não dispense uma imperial ou um copo de vinho, quem prefira a hidratação da água ou a cafeína de uma Coca-Cola. Ainda há nomes a serem enviados para estarem na guest list do Lux, para que ninguém fique à porta, mas acima de tudo o jantar é um momento de confraternização e boa disposição, de descompressão antes da subida ao palco. Trocam-se histórias de viagens e do universo da música, mandam-se bocas amistosas como em qualquer grupo de velhos amigos que se preze.

O espírito do hip hop, para quem tudo é matéria-prima e tudo se reinventa, o próprio rap, mas também a guitarra portuguesa, os ritmos minhotos, a influência africana e indiana, os universos mais britânicos do grime, da bass music e demais subgéneros eletrónicos. Em palco, conjugam todas estas valências, com uns arranjos que não defraudam a natureza digital dos instrumentais nem desperdiçam os valiosos graves de que também é feita a sua música.

O tempo passa a voar e chega a hora de voltar rapidamente ao outro lado da estação de comboios. Alguns familiares — incluindo Riot — já se encontram no parque de estacionamento para poderem entrar com calma. Há abraços e cumprimentos de carinho e derradeiras conversas de nervos miúdos antes do concerto. Na lateral do palco, com acesso através de umas escadas, fica o minúsculo camarim do Lux Frágil, idealizado para DJs. Os músicos só usam o espaço por uns breves instantes antes da performance, para trocarem de roupa e não estarem na sala quando as portas se abrirem ao público.

Nem cinco minutos passam e já o piso térreo do Lux se começa a compor. Há mais cumprimentos e interações, amigos e conhecidos de longa data — incluindo um vasto núcleo vindo da Amadora — que aproveita o momento para pôr conversas em dia e rever caras conhecidas. O ambiente é familiar. Também se encontram vários músicos próximos da banda que não quiseram faltar ao momento, como Quim Albergaria e Ivo Costa dos Bateu Matou — formação que Pité integra ao vivo — ou João Gomes, que tocou as teclas da mais infame canção dos Macacos do Chinês, Rolling na Reboleira.

As luzes apagam-se subitamente e as atenções viram-se todas para o palco. Ainda não há sinal dos Macacos do Chinês, mas escuta-se outra voz familiar a partir das colunas do Lux Frágil. É a interpretação do ator Nuno Lopes de Chato, a personagem de Os Contemporâneos que fez uma participação especial no videoclipe de Rolling na Reboleira e que também ficou associada a este imaginário artístico. Segundo a personagem, parece que estes músicos continuam a não querer trabalhar mas estão de volta aos palcos, numa altura em que já nem sequer se deveria dizer “Macacos do Chinês” por potencialmente ser ofensivo. O Chato recomenda a alternativa “Símios do Senhor Asiático”.

Está a introdução feita para que a plateia bem composta (e disposta) acolha finalmente os Macacos do Chinês — primeiro só com Pité, Alx e Apache a dar vida a Sinestésico, com Drupez a juntar-se segundos antes da segunda faixa, Espadas e Copas. Apesar dos cumprimentos entre público e palco e de uma ou outra cerveja oferecida, a sala começa morna e serena, mas vai aquecendo progressivamente. Selva, Pessoa e Farix (com a poderosa voz de Filipe Gonçalves) são momentos de ânimo e há braços no ar e letras reanimadas na ponta da língua.

Esquece-me, uma canção próxima da kizomba, funciona quase como um interlúdio antes da explosão de Lázaro!, um longo e efusivo storytelling que se centra numa personagem “desordeira e companheira de rambóia” que só se liberta ao fim de semana ou durante a noite. Saudade e Volta Completa do Traço são outros dos destaques do alinhamento, onde também não falta a nova ‘96 e faixas como Queijo, que convoca YoClichê ao palco para cantar o seu verso.

▲ “Querias uma cena assim, esquece, antes não havia”, ouve-se em "Plutão". “E ainda não há”, acrescentam agora, de novo em palco

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Os Macacos do Chinês sempre foram, acima de tudo, uma banda de fusão. O espírito do hip hop, para quem tudo é matéria-prima e tudo se reinventa, o próprio rap, mas também a guitarra portuguesa, os ritmos minhotos, a influência africana e indiana, os universos mais britânicos do grime, da bass music e demais subgéneros eletrónicos. Em palco, conjugam todas estas valências, com uns arranjos que não defraudam a natureza digital dos instrumentais nem desperdiçam os valiosos graves de que também é feita a sua música.

Numa era em que uma das grandes tendências é cruzar as tradições nacionais e locais com elementos modernos e contemporâneos, sejam ambiências hip hop ou texturas eletrónicas, os Macacos do Chinês mostram que estavam de alguma forma à frente do seu tempo e voltam em altura certa.

No campo das letras, sempre se distinguiram por não se levarem demasiado a sério, por cruzarem humor com referências pop, por fazerem alguma crítica social sem nunca se tornarem panfletários. São letras que, mais do que tudo, soam bem como numa canção de toada pop. Nunca se propuseram a fazer um rap tecnicista, sempre procuraram desconstruir o universo de onde partiam.

“Eu não ando de Cadillac/Eu ando de 4L/E quando digo que tenho papel/É mesmo isso que eu tenho, papel/Nada mal, já dá para escrever/Ou para fazer aviões/Pôr neles os meus argumentos (…) Estamos em Portugal/O bling bling é ilusório/Não compro na Louis Vuitton/Compro ali no senhor Osório”, ouve-se em Rolling na Reboleira, o seu maior hit, cantado em uníssono por todo o Lux Frágil, até pela mestria de Pité ao comando da multidão.

“Vocês ainda estão muito presos. Não tenham vergonha, andei na escola com metade de vocês e sei como é que realmente são!”, brincou, atiçando o público para o clímax final de Babilónia. Braços no ar, pés fora do chão, os corpos a balançar e Pité na pista no meio da multidão. Passados 15 anos, “quem disse que isto não batia?”, como rimam em Plutão, o primeiro single de sempre. “Querias uma cena assim, esquece, antes não havia”, ouve-se no tema. “E ainda não há”, acrescentam agora.

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