Pedro Ortigão Correia: “Exportar é difícil e é caro”

25 Fevereiro 2015387

Administrador da AICEP revela que exportar é caro e difícil, mas que o país está cada vez mais preparado. Em ano recorde para as exportações,Pedro Ortigão Correia não duvida: a qualidade é o caminho.

Recém-chegado da feira de calçado em Milão, Pedro Ortigão Correia, administrador da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal), conversou com o Observador sobre o ano de recorde das exportações, a renovação dos setores tradicionais e os erros mais comuns dos empresários portugueses. Levar um produto português para o exterior é difícil e é caro, disse. E, por isso, é preciso manter o foco. Portugal “nunca vai consegui competir por volume”, acrescentou. Terá, portanto, de competir por qualidade, a mesma qualidade que já é fator de reconhecimento em feiras internacionais, explicou.

Como o país da qualidade, do gourmet e da tradição, no setor agroalimentar. O que distingue os portugueses? A resiliência, por exemplo. Porque exportar é caro e é difícil, avançou o administrador da AICEP, à margem de uma conferência do Agrupamento de Alumni da AESE – Escola de Direção e  Negócios.

Sobre os mercados externos, reforçou o apelo do Governo para a importância da América Latina e destacou o México como um exemplo claro de sucesso. Quando acontecem situações como o embargo da Rússia às exportações agrícolas oriundas da União Europeia, o importante é manter as alternativas em aberto. Se 2014 foi o melhor ano de sempre das exportações portuguesas, então isso só aconteceu porque houve crescimento em 14 dos 17 setores. Setores premium? Existem vários, mas a moda está a tornar-se num setor muito relevante para o país, afirma Pedro Ortigão Soares.

"Antigamente, as pessoas vinham a Portugal comprar, sobretudo no têxtil lar, que é das áreas em que somos mais conhecidos dentro do mercado dos têxteis. Mas hoje as empresas têm que ir lá fora vender"
Pedro Ortigão Correia, administrador da AICEP

Paulo Portas disse, em Milão, que 2014 foi um ano recorde para as exportações portuguesas, que cresceram perto de 3%. O que é que mais contribuiu para este crescimento?

O extraordinário deste ano recorde nas exportações é o facto de não haver um único setor, em particular, que seja responsável por todo este crescimento. O que nós tivemos foi um crescimento ao nível de todos os setores, que são 17. Destes, 14 subiram face ao ano anterior. O que temos é um resultado do esforço individual das empresas em cada um dos setores. Não há um pormenor que possamos dizer que seja o responsável pelo ano recorde que tivemos. Antes pelo contrário. Os combustíveis, que representam uma grande fatia das nossas exportações, tiveram uma quebra considerável, no ano passado, por causa da refinaria de Sines, que ficou fechada durante alguns meses e não operou. E, mesmo assim, apesar de termos tido essa quebra da produção – e a exportação de produtos refinados é das nossas principais exportações – tivemos um ano recorde.

Todos os setores cresceram, mas a industria têxtil, por exemplo, teve o melhor desempenho dos últimos 11 anos e cresceu 8% face a 2013. O que é que isto quer dizer? Os setores tradicionais estão a ganhar força?

Eles mudaram muito. Penso que o ano recorde dos têxteis deve ter sido em 2001, ano em que exportaram qualquer coisa como cinco mil milhões de euros e de 2001 para cá, nestes 14 anos, assistimos a uma revolução extraordinária, porque foram 14 anos de enorme concorrência, com os chineses, os indianos e os novos países produtores. Durante esse período, as empresas portuguesas tiveram todas que se adaptar a esta nova concorrência. Chegámos ao fim destes 14 anos e vamos exportar quase a mesma coisa: 4,6 mil milhões de euros. Vai ser um valor absolutamente extraordinário.

Mas o que é mais relevante é que neste período de tempo, as exportações foram feitas com metade das empresas que existiam em 2001. Houve, portanto, uma enorme reformulação do setor. Houve consolidação, mas houve, sobretudo, um reinventar do próprio produto e da abertura de novos mercados, que fez com que o setor voltasse a ter um dinamismo gigante. Antigamente, as pessoas vinham a Portugal comprar, sobretudo, no têxtil lar, que é das áreas em que somos mais conhecidos dentro do mercado dos têxteis. Vinha-se a Portugal comprar. Mas hoje as empresas têm que ir lá fora vender. É muito diferente e este é um dos setores em que se reformulou mais.

"Nunca vamos conseguir competir por volume. Competimos por qualidade. E essa qualidade é reconhecida."
Pedro Ortigão Correia, administrador da AICEP

Acha que a marca “Made in Portugal” tem mais impacto hoje do que há 10 anos, por exemplo?

Tem, em muitos sítios. Eu vejo, por exemplo, no setor agroalimentar, que tem tido uma pujança enorme. Aquilo que temos feito nesse setor é, sobretudo, ajudar as empresas a posicionarem-se com produtos de qualidade. E Portugal está a ser reconhecido com o país da qualidade, o país do gourmet, o país da tradição. Nós nunca vamos conseguir competir com Espanha, por exemplo, porque Espanha é uma potência gigantesca no setor agrícola. Nunca vamos conseguir competir por volume. Competimos por qualidade. E essa qualidade é reconhecida. Há uma série de iniciativas previstas e, provavelmente, algumas vão ser anunciadas em breve. Mas [é verdade que] Portugal é muito reconhecido nestas feiras como um produtor de qualidade. A CIAL, que é uma das maiores feiras do mundo do setor agroalimentar em França, claramente reconheceu-nos como um país com produtos de qualidade. Tivemos, inclusive, marcas portuguesas a ganharem prémios de inovação. Portanto, Portugal é muito reconhecido.

Mas temos outros setores, onde a marca Portugal é muito bem vista. Nos tradicionais, como os têxteis. Não só fabricamos em Portugal produtos de luxo como também começamos a fabricar marcas próprias dentro do setor da moda. O setor do calçado é extraordinário. Vim ontem de Milão [17 de fevereiro] onde temos cerca de 88 empresas, na maior feira de calçado do mundo. E é impressionante vermos a qualidade dos nossos produtos, do calçado masculino ao feminino, e depois ao calçado mais do estilo urbano, como eles dizem. Competimos em quase todas as categorias.

Mas depois temos outras áreas, como a tecnologia. Não gosto muito de falar do setor dos moldes isoladamente, que é extraordinário, e no qual somos reconhecidos como um dos melhores players a nível mundial e este é um historial que vem desde a altura da marinha grande. Começámos a fazer moldes para os vidros e depois, toda a técnica que veio dos moldes dos vidros foi transformada. Hoje em dia fazem-se moldes sofisticadíssimos. Muitas vezes, no desenvolvimento de um novo carro, quem faz a parte toda do desenvolvimento das peças são as empresas de moldes, que já incorporam uma série de tecnologia. Mas no setor automóvel, temos empresas que são muitíssimo bem reconhecidas. Há um cluster à volta do setor automóvel em Portugal que exporta mais de sete mil milhões de euros.

E o que é que ainda falta fazer para crescermos mais?

Aqui, o Estado não se pode substituir às empresas. O que o Estado tem de fazer é facilitar este caminho e permitir que as empresas consigam ter uma vida lá fora, com o menos possível de burocracia. E que, de preferência, as empresas consigam ter as portas abertas lá fora. É isso que nós, enquanto agência, fazemos. Estamos localizados em mais de 52 países, vamos abrir novas delegações e funcionamos um bocadinho como os departamentos internacionais dessas empresas. Somos o primeiro ponto de partida das empresas quando vão para fora. O papel do Estado é facilitar. E depois, internamente, permitir que as empresas sejam capazes de investir, sejam capazes de abrir novos negócios com menos burocracia possível.

"Quem já trilhou, sabe que é muito importante o foco. O foco é provavelmente das características mais importantes para quem quer exportar lá para fora"
Pedro Ortigão Correia, administrador AICEP

Fala-me em burocracia e lembra-me outra questão. Quais têm sido as grandes dificuldades dos empresários portugueses quando querem entrar com um novo produto lá fora? 

Acho que a maior parte dos empresários, hoje em dia, tem uma preparação muito diferente daquela que tinha há uns anos. E nós, como agência, também temos esse papel interno, de acompanhar as empresas. Acompanhamos mais de 14 mil empresas. E fazemos à partida todo esse trabalho com os empresários, como ajudá-los a perceber exatamente para que mercado querem ir. Porque o erro mais comum do empresário pouco preparado é querer ir para todo o lado, vender todo o tipo de produtos. E isso é um erro muito frequente de quem ainda não trilhou este caminho. Quem já trilhou, sabe que é muito importante o foco. O foco é provavelmente das características mais importantes para quem quer exportar lá para fora. Tem de ser muito focado não só no seu produto, mas também no seu mercado – fazer um mercado de cada vez.

Exportar é muito difícil. E é caro. É preciso escolher muito bem os mercados para onde se vai e com que produtos se vai. Depois, é importantíssimo ter uma grande preparação e um grande profissionalismo. E isso os empresários portugueses começam a ter cada vez mais. Essa é, de facto, a diferença. Quando olhamos para os empresários, aqueles que têm sucesso são os que têm esta capacidade de ter tudo muito bem organizado cá, com um foco muito claro nos seus próprios mercados.

Depois, há uma característica que também os distingue, que é a capacidade de resiliência, porque há mercados que são muito difíceis. Por exemplo, quem quiser estar a vender para o mercado do Japão vai passar muito tempo a tentar batalhar aquele mercado, a visitar, a falar com as empresas. Mas, a partir do momento em que se consegue qualificar para vender no mercado japonês, dá um salto enorme. Porque já teve de fazer muitas alterações no processo, no seu produto, e a questão da qualidade no Japão é muito importante. Tudo isto são processos de aprendizagem que não têm uma solução rápida. Não há um botão onde se carregue e se diga: ‘olhe, é isto que você tem de fazer para ir para ali’.

"[Em Angola] Não temos qualquer sinal de empresa que esteja numa situação de apuros. Não temos qualquer sinal de alarme de nenhuma empresa"
Pedro Ortigão Correia, administrador da AICEP

Houve algumas situações recentes que podem ter afetado as empresas portuguesas, como o embargo da Rússia às exportações de alimentos da União Europeia. Ou a quota à importação de produtos básicos que o governo angolano quer implementar. Como é que a AICEP vê este tipo de situações?

Sempre que estas situações ocorrem, a primeira coisa que fazemos é uma comunicação direta. No caso da Rússia, mal isto ocorreu, enviámos uma carta a todos os produtores, todos os empresários abrangidos por aqueles produtos e demos uma série de alternativas de outros mercados próximos, que eles poderiam procurar como substituição do que estava a ocorrer na Rússia. Não só demos essa informação como colocámos todas as equipas que temos nesses mercados preparadas para ajudar os empresários a encontrarem alternativas nos mercados laterais. Isso funcionou bastante bem. O caso de Angola é um bocadinho diferente. Neste momento, Angola está a passar por um processo de ajuste económico, que tem precisamente a ver com a questão do preço do petróleo. E portanto, a nossa atitude em Angola é uma atitude de total abertura com estas empresas. Temos mais de dez mil empresas portuguesas a exportar para Angola.

Acha que isto vem colocar essas empresas em apuros?

Não, até agora não. Não temos qualquer sinal de empresa que esteja numa situação de apuros. Não temos qualquer sinal de alarme de nenhuma empresa. Há preocupação, obviamente, porque é um mercado que está a desacelerar. Mas apesar dessa preocupação não há sinal nenhum de alarme em relação a qualquer tipo de situação. Continuamos a ajudar as empresas lá, localmente, e estamos a passar por uma fase de tentativa de substituição das exportações por produção doméstica. Há um grande enfoque e um grande empenho por parte do Governo de Angola em criar emprego localmente. Nós, como agência, e junto da embaixada, temos ajudado muito as empresas a localizarem-se em Angola, a passarem as suas produções para lá.

"É preciso olhar para fora, mas também não nos podemos esquecer destes mercados [europeus], que são os nossos principais clientes"
Pedro Ortigão Correia, administrador da AICEP

O Presidente da República e o primeiro-ministro afirmam que a América Latina é uma prioridade da política externa portuguesa, porque as exportações aumentaram 20% em cinco anos. É para lá que as empresas se devem virar?

Depende de setor para setor. Depende muito dos setores.

Mas o que é que tem a América Latina?

Tem uma taxa de crescimento muito grande. Na maioria das vezes, achamos que a América Latina é o Brasil, mas o Brasil está a passar também pela sua própria crise e tem uma taxa de crescimento totalmente diferente dos outros países. Temos o Chile, Perú, México, etc. O México é uma economia com uma pujança enorme. São economias que estão a crescer mais de 5% ao ano e que portanto são economias muito relevantes para nós, porque os nossos mercados tradicionais, que é o caso do europeu – que absorve mais de 60% das nossas exportações – está a uma taxa de crescimento pequenina, muito próxima de 1%.

É preciso olhar para fora da Europa.

É preciso olhar para fora, mas também não nos podemos esquecer destes mercados, que são os nossos principais clientes. Os nossos empresários, quando olham para estes mercados, estão precisamente a olhar para mercados que ainda têm muito por desbravar, mas que estão perante uma fase de crescimento económico absolutamente extraordinária. Aí, nós tentamos apoiar as empresas. Fizemos várias missões no ano passado, com várias empresas, e com muito sucesso. Destacaria o caso do México, que é claramente uma das economias que mais cresce na América Latina, pela proximidade com os Estados Unidos, por toda a reforma económica que implementaram. Tudo isso tornou o México numa economia extremamente dinâmica.

Pedro Ortigão Correia explica que o setor da moda é muito relevante e que tem um volume de exportação muito considerável.

Disse há pouco que os portugueses se estão a diferenciar pela qualidade. Quem são, então, os grandes concorrentes de Portugal?

Bom, hoje em dia, enquanto país, é muito difícil dizer o que é um concorrente. Podia dizer que se calhar Itália é um concorrente de Portugal, porque fazemos mais ou menos as mesmas coisas nalgumas áreas, mas estamos a falar de dimensões completamente diferentes. Turquia também podia ser um concorrente, porque nalgumas áreas também faz os mesmos produtos que Portugal. Mas temos que olhar setor a setor, país a país. Hoje, a questão nacional já não tem a importância que tinha há uns tempos atrás. As empresas comparam-se muito mais entre elas nos seus próprios setores do que propriamente a nível de país. Por isso, temos que olhar de país em em país, de setor em setor, e sobretudo para aqueles que são os melhores. Perceber o que é que temos de fazer para ganhar quota de mercado. Este exemplo que eu dei há pouco, no caso do calçado, é um exemplo extraordinário.

É o nosso setor premium?

É um dos setores. O setor da moda, hoje em dia, é um setor muito relevante para Portugal, com um volume de exportação muito considerável. O têxtil lar também. A área das tecnologias de informação, que é uma área que eu não mencionei, também é uma área onde temos empresas que estão a dar cartas a nível mundial e que estão a competir com grandes empresas em todo o mundo. E não é só no fabrico de computadores, como é o caso do Magalhães, um um caso único que está espalhado no mundo inteiro. São também empresas de serviços e de software. E aí temos de nos comparar com os melhores.

Houve alguma surpresa em 2014?

Houve surpresas positivas nalguns setores. E o México foi um caso claro de sucesso. O caso da Argélia também. É o segundo mercado de exportação de Portugal, em África. E é extraordinário a abertura que temos naquele mercado.

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