Pode comer amêijoas do Algarve? 6 respostas sobre as microalgas vermelhas /premium

18 Junho 2019300

Comer marisco contaminado pela maré vermelha é como tomar um comprimido de toxinas. Quanto ao peixe, é melhor prevenir do que remediar. O que deve saber sobre a microalga vermelha do Algarve.

Desde domingo que as águas algarvias foram manchadas por uma microalga que pinta o oceano de vermelho durante o dia e o torna brilhante durante a noite. As análises às amostras recolhidas entre Faro e Vilamoura já provaram que estamos perante uma espécie conhecida dos biólogos, que em teoria pode matar um humano, mas que na prática nunca deu problemas. Pelo sim e pelo não, as praias continuam interditas a banhos. E ninguém pode apanhar, muito menos consumir, bivalves dessa zona. E ninguém sabe quando é que isso vai mudar.

O que está a provocar a “maré vermelha” no Algarve?

Uma microalga que dá oxigénio. E uma toxina potencialmente mortal

A “maré vermelha” que está a manchar a água de algumas praias algarvias — nomeadamente aquelas entre a Ilha do Farol e Vilamoura — e a interditar banhos no mar é provocada pela presença em altas concentrações de um grupo específico de microalgas chamadas dinoflagelados. Os dinoflagelados são organismos unicelulares que só se veem ao microscópio e que fazem parte de um grupo muito importante de organismos vivos: o fitplâncton.

É isso que explica ao Observador Rita Domingues, investigadora da Universidade do Algarve e especialista neste tipo de fenómenos. “Em terra, quem produz o oxigénio são as árvores. O fitoplâncton é responsável por essa produção de oxigénio nos oceanos e nos mares. E, no mundo inteiro, esse fitplâncton é responsável por metade da produção de oxigénio. É uma percentagem ainda maior da produzida pelas árvores e pelas plantas em terra”, conta.

A espécie que está a provocar a “maré vermelha” nas praias do Algarve chama-se Lingulodinium polyedra e, durante a noite, brilha por causa de umas estruturas fosforescentes que tem nas células. Essa espécie também faz a fotossíntese, isto é, também produz oxigénio, mas o metabolismo dela também é responsável pela produção de uma toxina chamada yessotoxina. Foi por causa dela que a Agência Portuguesa do Ambiente, após ter detetado a presença desta microalga nas praias do sul do país, mandou hastear as bandeiras vermelhas e ordenou à Polícia Marítima que proibisse os banhos no mar. Mas já lá vamos.

Ora, estas microalgas e a toxina produzida por elas existem naturalmente nas águas portuguesas e normalmente não constituem problema. Desta vez, no entanto, concentraram-se de tal modo que formaram uma mancha de coloração vermelha. Isso aconteceu por causa de um fenómeno oceanográfico chamado “relaxamento do afloramento costeiro”. É um fenómeno completamente natural e que, neste caso particular, nada tem a ver com a poluição dos mares nem com as alterações climáticas.

Conforme explica Rita Domingues, ao longo da semana passada foi verificado um afloramento costeiro, um fenómeno comum no Algarve. “Há alturas em que, dependendo das condições do vento, a água que está junto à costa é empurrada para fora e é substituída por massas de água mais profundas. Como vêm de zonas mais profundas, são mais frias e têm mais nutrientes. Como estes organismos são fotossintéticos, precisam de luz e de nutrientes inorgânicos, de azoto e de fósforo. E estas águas são muitas ricas nesses nutrientes”, começa por contar a investigadora.

Quando esse afloramento acontece já estão reunidas quase todas as condições necessárias para que os dinoflagelados se reproduzam mais do que o normal. Quase todas porque falta uma: calmaria no mar. “Quando há afloramento, há muita turbulência e as microalgas não gostam disso. No relaxamento, a água começa a estratificar mais, deixa de se misturar tanto. E aí, sim, surgem as condições ideais para os dinoflagelados se desenvolverem, porque têm muitos nutrientes e, como estão à superfície, também têm mais acesso à luz”, conclui Rita Domingues.

Esses organismos são perigosos?

Os estudos dizem que sim. A prática diz que não

Sim, diz-nos a teoria. Mas, na prática, a yessotoxina nunca se provou nociva para a vida humana. Margarida Reis, também ela investigadora da Universidade do Algarve, explicou ao Observador que “análises laboratoriais permitiram-nos perceber que estes organismos são potencialmente tóxicos”. Há estudos em que se injetou esta toxina na cavidade abdominal de ratos e isso provocou a morte dos animais, conta-nos Rita Domingues. No entanto, prossegue Margarida Reis, “a verdade é que nunca houve ninguém a ficar intoxicado por culpa deles”, já que manchas como a que foi identificada no Algarve não têm uma concentração suficientemente alta para afetar a saúde de um ser humano, acredita a investigadora.

Rita Domingues também concorda que “há toxinas provocadas por microalgas bem piores do que esta”: “A União Europeia definiu os valores de concentração das toxinas em bivalves permitidos para consumo humano. Esses valores de yessotoxinas são muito maiores do que os valores máximos de outras toxinas”, compara a investigadora. Aliás, segundo ela, “isto é um problema muito comum na Ria Formosa, onde há muitas interdições na apanha de bivalves precisamente por estarem contaminados com toxinas”.

O fator espantoso na “maré vermelha” algarvia não é a existência desta microalga na água, mas sim as altas concentrações dela. Isso pode ser importante no caso de consumo de bivalves que vivem nas zonas afetadas pela mancha. Mas a toxina não provoca problemas dermatológicos, garante Rita Domingues, e mesmo o consumo desta água é inofensivo para a saúde. Ainda assim, as praias estão interditas a banhos a mando da Agência Portuguesa do Ambiente. O motivo é “pura precaução”, garante a investigadora: “Vai ser assim enquanto não se souber mais sobre esta microalga”.

É isso mesmo o que está sugerido no comunicado do IPMA enviado às redações: “Caso se verifique existirem valores próximos do limite permitido para a concentração de microalgas tóxicas na água em zonas de produção de moluscos bivalves, será avaliada a interdição cautelar de outras zonas limítrofes e que possam ser afetadas”. Em declarações ao Observador, Margarida Reis explica de onde vem tal cautela: “Precaucionisticamente, num excesso de zelo muito pessoal, não colocaria crianças pequenas na água. A tolerância delas é menor que a de um adulto”.

Pode pescar-se nas zonas afetadas?

A apanha de bivalves foi proibida na zona afetada pela mancha

A apanha e a comercialização de moluscos bivalves vivos foram proibidas esta terça-feira pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o organismo responsável por analisar as amostras de água e de animais recolhidas nas praias algarvias. Segundo um comunicado enviado às redações, já estava interditada a apanha e venda de conquilhas entre Lagos e Albufeira e entre Faro e Olhão. Agora, a interdição alargou-se às restantes espécies de moluscos bivalves.

Isso mesmo é o que está indicado no mapa disponibilizado pelo IPMA na página oficial, em que indica o estado das zonas de produção de moluscos bivalves ao longo de toda a costa portuguesa. Segundo a legenda desse mapa, há três situações possíveis: a verde, que é a regular, não proíbe a apanha e captura de bivalves na zona costeira; a amarela, que indica uma interdição parcial; e a vermelha, que simboliza uma interdição total. Nas zonas afetadas pela “maré vermelha”, o IPMA assinalou uma “interdição total”.

Ainda assim, e conforme apurou o Observador junto da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve, a captura de peixe prossegue no Algarve. Em declarações ao Observador, a investigadora Rita Domingues explica porquê: a mancha vermelha está principalmente concentrada na região costeira do sul português. Não foram registados níveis tão elevados desta microalga em alto-mar, onde o peixe normalmente é pescado.

É ou não seguro comer peixe e marisco do Algarve?

Comer marisco é impensável. Quanto ao peixe, “é melhor prevenir do que remediar”

Não é seguro comer moluscos bivalves. Neste momento, e de acordo com um mapa publicado esta terça-feira pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera na página oficial, há sete tipos de moluscos bivalves que não devem ser apanhados, comercializados ou consumidos: amêijoa, conquilha, pé-de-burrinho, lingueirão, ostras, berbigão e mexilhão. No caso das conquilhas, o mapa desenhado de acordo com os dados apurados pelo Sistema Nacional de Monitorização de Moluscos Bivalves é ainda mais específico: elas estão contaminadas com toxinas que podem provocar “intoxicação diarreica”.

Segundo Rita Domingues, especialista em fenómenos como o que está a ser observado na costa algarvia, “se estes dinoflagelados provocarem problemas não é porque os ingerimos diretamente”: “É por ingestão de moluscos bivalves contaminados”, esclarece a investigadora. É assim porque os bivalves filtram a água e, por isso, as toxinas acumulam-se dentro delas. Em declarações ao Observador, Margarida Reis – professora de microbiologia na Universidade do Algarve – diz que comer uma conquilha contaminada com a toxina produzida por esta microalga “é como tomar um comprimido feito dessas toxinas”.

Quanto ao consumo de peixe, como sardinha ou robalo, o problema não é tão significativo como quando falamos de bivalves. Rita Domingues acautela que “tudo depende do percurso que esse peixe fez e se foi ou não capturado junto da mancha vermelha”. Mesmo assim, a concentração das toxinas produzidas por esta microalga no organismo do peixe não vai ser tão elevada como no organismo de um molusco. Além disso, explica-nos a investigadora, a captura de peixe normalmente acontece em alto-mar, onde não há registo de uma concentração demasiado alta de toxina. Na verdade, a “maré vermelha” só foi observada mais junto à costa algarvia e alargou-se ao longo dela por causa das correntes — não mar dentro.

Em última análise, o que deve fazer se for a uma restaurante ou supermercado que venda peixe ou marisco? O primeiro passo é verificar a origem desse peixe ou marisco. No caso do marisco, se a espécie em causa vier de uma zona interdita pelo Sistema Nacional de Monitorização de Moluscos Bivalves — algo que pode consultar no mapa “Apanha e comercialização de moluscos bivalves, equinodermes, tunicados e gastrópodes marinhos vivos” — então a interdição não foi cumprida, o marisco contaminado foi comercializado e não o deve consumir.

No caso do peixe, “em princípio não terá problemas”, indica Rita Domingues. No entanto, “é melhor prevenir do que remediar”: “Se fosse uma toxina causadora de problemas graves, isso já era conhecido.Não há nenhum caso de contaminação em humanos pelo consumo de peixe, muito menos em Portugal, mas ninguém quer ser o primeiro”, alerta a investigadora da Universidade do Algarve.

Este fenómeno já foi observado antes?

Sim. E pode voltar a acontecer por causa do aquecimento global

Sim. Nuno Cortes Lopes, capitão da Capitania de Faro, a autoridade que operacionalizou as indicações do Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e do Delegado de Saúde local, confirmou que este fenómeno é “bastante comum” e que “tem-se verificado nos últimos dois anos” em que está em funções, embora nunca com tanta intensidade nem com uma abrangência de área tão grande. Rita Domingues concorda que este é um “fenómeno completamente natural”: “Este tipo de dinoflagelados é conhecido na nossa costa e a toxina é comum na água. O que é raro é haver concentrações tão altas que provoquem estas manchas”, conclui.

Segundo a investigadora da Universidade do Algarve, as alterações climáticas podem conduzir ao aumento de “marés vermelhas” como esta. “Por causa do aquecimento global, tem-se observado uma tendência para o aumento da temperatura do ar e da água. Já reparámos que as espécies de dinoflagelados de zonas mais tropicais, ou seja, de latitude mais baixas, têm vindo para as nossas águas que são tipicamente mais frias, em latitudes maiores”.

Se essas novas espécies encontrarem por cá as condições ideais para se reproduzirem, então podem voltar a surgir manchas como esta, mesmo que sejam desta cor. No entanto, Rita Domingues garante que esta “maré vermelha” não foi provocada por fenómenos ambientais: “Este dinoflagelado é conhecido cá. Isto é um fenómeno completamente natural. Não é provocado pela poluição nem pelas alterações climáticas”.

Quando é que a interdição a banhos no Algarve vai ser levantada?

Ninguém sabe quando é que a bandeira vermelha será retirada

Contactados pelo Observador, nem o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, nem a Capitania de Faro, a Polícia Marítima Nacional ou a Agência Portuguesa do Ambiente adiantam uma data para o levantamento da interdição a banhos nas praias afetadas pela maré vermelha no Algarve.

Nuno Cortes Lopes, o capitão da Capitania de Faro, sublinha que a ordem de interdição vai manter-se até receber ordens para a levantar. E o Instituto Português do Mar e da Atmosfera dá a mesma resposta: “Para efeito da avaliação desta situação, o IPMA está em contacto permanente com a Administração de Recursos Hídricos”. A Agência Portuguesa do Ambiente chegou a afirmar que a interdição seria reavaliada esta tarde perante os resultados das análises efetuadas em laboratório. Mas até ao momento não há indicações de que se poderá voltar a mergulhar naquelas praias.

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